17 de abr de 2009

pensadores, pascal

o pobre pascal já tinha sido garfado pela martin claret. a notória copiou a tradução de leonel vallandro, publicada pela globo/mec, e tascou-lhe um nassetti básico.

já a nova cultural, na coleção os pensadores a cargo da dona janice florido, preferiu pichelingar sérgio milliet (difel, depois pensadores da abril). e assim foi que o nariz da cleópatra ficou a cargo de uma tal "olívia bauduh".

no começo, o copidesque de plantão até tentou fazer jus a uns trocos:

milliet:
[5] Os que julgam sem regras uma obra estão em relação aos outros como os que não têm relógios, em relação aos demais. Um diz: "Já passaram duas horas", o outro : "Passaram apenas três quartos de hora". Olho o meu relógio, e digo a um: "Você está se aborrecendo", e a outro: "O tempo anda depressa para você, pois passou hora e meia". E zombo dos que dizem que o tempo custa a passar para mim, e que julgo pela imaginação: não sabem que julgo pelo meu relógio.

bauduh:
[5] Aqueles que sem regras julgam uma obra estão, para os demais, como os que não possuem relógios em relação aos outros. Um fala: "Passaram-se duas horas", o outro : "Passaram-se somente três quartos de hora". Consulto meu relógio e digo a um: "Você está se aborrecendo", e a outro: "O tempo anda rapidamente para você, pois passou-se hora e meia". E zombo dos que pensam custar o tempo a passar, para mim, e que julgo pela imaginação: desconhecem que julgo por meu relógio.

depois o fulaninho deve ter cansado da brincadeira e foi tomar um café na esquina.

milliet:[140] Esse homem tão abatido com a morte de sua mulher e de seu único filho e sujeito ao tormento de tão grande dor, por que não está triste neste momento, e o vemos tão isento destes pensamentos penosos e inquietantes? Não há motivo para estranharmos: acabam de entregar-lhe uma bola e cabe-lhe atirá-la a seu companheiro, e ei-lo a pegá-la de modo a marcar um
ponto.

bauduh:
[140] Esse homem tão abatido com a morte de sua mulher e de seu único filho e sujeito ao tormento de tão grande dor, por que não está triste neste instante, e o vemos tão desprovido de tais pensamentos dolorosos e inquietantes? Não há por que estranhar: acabam de entregar-lhe uma bola e cabe-lhe atirá-la a seu companheiro, e ei-lo a pegá-la de modo a marcar um ponto.

milliet:
[141] Ocupam-se os homens com uma bola ou uma lebre; esse é o prazer, inclusive para os reis.

bauduh:
[141] Ocupam-se os homens com uma bola ou uma lebre; é esse o prazer, inclusive para os reis.

milliet:
[162] Quem quiser conhecer por completo a vaidade do homem não tem senão que considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não sei o quê (Corneille) e os efeitos são espantosos.
Esse não sei o quê, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro.
Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado.

bauduh:
[162] Quem quiser conhecer por inteiro a vaidade do homem não tem senão que considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não-sei-quê (Corneille) e os efeitos são assombrosos. Esse não-sei-quê, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro.
Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado.

milliet:
[233] Vejamos. Já que é preciso escolher, vejamos o que menos vos interessa. Tendes duas coisas a perder: a verdade e o bem; e duas coisas a empenhar: vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa beatitude; e vossa natureza tem que fugir de duas coisas: o erro e a miséria. Vossa razão não se sentirá mais atingida por terdes escolhido uma coisa de preferência a outra, já que é preciso necessariamente escolher. Eis um ponto liquidado. Mas, vossa beatitude? Pesemos o ganho e a perda escolhendo a cruz, que é Deus. Consideremos esses dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois, que ele existe, sem hesitar.

bauduh:
[233] Vejamos. Uma vez que é necessário escolher, vejamos o que menos vos interessa. Tendes duas coisas a perder: a verdade e o bem; e duas coisas a empenhar: vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa beatitude; e vossa natureza tem que fugir de duas coisas: o erro e a miséria. Vossa razão não se sentirá mais atingida por terdes escolhido uma coisa de preferência a outra, pois é preciso necessariamente escolher. Eis um ponto liquidado. Mas, e vossa beatitude? Pesemos o ganho e a perda escolhendo a cruz, que é Deus. Consideremos esses dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois, que ele existe, sem hesitação.

milliet:
[245] Há três meios de crer: a razão, o costume, a inspiração. A religião cristã, que é a única que tem razão, não admite como verdadeiros filhos os que crêem sem inspiração: não que exclua a razão e o costume, ao contrário; mas é preciso abrir o espírito às provas, assegurar-se destas pelo costume, oferecer-se pelas humilhações às inspirações, que são as únicas que podem produzir o verdadeiro e salutar efeito: Ne evacuetur crux Christi.

bauduh:
[245] Existem três meios de acreditar: a razão, o costume, a inspiração. A religião cristã, [] a única que tem razão, não admite como verdadeiros filhos os que crêem sem inspiração: não que exclua a razão e o costume, ao contrário; no entanto, é preciso abrir o espírito às provas, delas assegurar-se pelo costume, mas ofertar-se, pelas humilhações, às inspirações, que são as únicas que podem produzir o verdadeiro e salutar efeito: Ne evacuetur crux Christi.

milliet:
[294] Haverá algo mais divertido do que um homem ter direito de me matar porque mora do outro lado das águas, e porque o seu príncipe tem uma questão com o meu, embora eu nada
tenha contra ele?

bauduh:
[294] Haverá algo mais divertido do que um homem ter direito de me matar porque mora do outro lado das águas, e porque o seu príncipe tem uma questão com o meu, embora eu nada tenha contra ele?

milliet:
[331] [Platão e Aristóteles] Se escreveram sobre política, foi como para pôr ordem num hospício; e, se fizeram menção de falar dela como de uma grande coisa, é que sabiam que os loucos a que falavam julgavam-se reis e imperadores; entravam nos seus princípios para moderar a loucura deles na medida do possível.

bauduh:
[331] Se [Platão e Aristóteles] escreveram sobre política, foi como para pôr em ordem um hospício; e, se fizeram menção de falar dela como de uma grande coisa, é que sabiam que os loucos a que falavam julgavam ser reis e imperadores; entravam nos seus princípios para moderar a loucura deles na medida do possível.

milliet:
[543] As provas metafísicas de Deus acham-se tão afastadas do raciocínio dos homens e tão embrulhadas que pesam pouco; e, mesmo que isso servisse para alguns, serviria apenas durante o instante em que vissem essa demonstração; mas, uma hora depois, receariam ter-se enganado.

bauduh:
[543] As provas metafísicas de Deus encontram-se tão apartadas do raciocínio dos homens e tão embrulhadas que pesam pouco; e, mesmo que isso valesse para alguns, somente valeria no instante em que vissem essa demonstração; uma hora depois, entretanto, receariam ter-se enganado.

é mais uma daquelas famosas "traduções feitas por renomados estudiosos e com acabamento primoroso" que a nova (in)cultural impinge desde 1999 até hoje ao incauto leitor. mas, como dizem, who cares?



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: http://candimba.blogspot.com; www.historicprintandmap.com

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