20 de abr de 2009

aiaiai, e agora

sempre achei a partenogênese uma idéia muito interessante. é a analogia que me ocorre quando vejo se multiplicarem traduções a partir da mesma tradução.



pois parece muita coincidência que uma frase simples como:
les grecs appelaient cet autel de noms divers [...]; ce dernier finit par prévaloir dans l'usage et fut le mot dont on désigna ensuite la déesse vesta
apareça como:
1. os gregos tinham vários nomes para designar este altar [...]; a última destas expressões prevaleceu no uso e foi a palavra pela qual mais tarde se designou a deusa vesta
2. os gregos tinham vários nomes para designar este altar [...]; a última destas expressões prevaleceu no uso e foi a palavra pela qual mais tarde se designou a deusa vesta
3. os gregos tinham vários nomes para designar este altar [...]; a última destas expressões prevaleceu no uso e foi a palavra pela qual mais tarde se designou a deusa vesta

ou
il y avait un jour de l'année, qui était chez les romains le 1er mars, où chaque famille devait éteindre son feu sacré et en rallumer un autre aussitôt
apareça como:
1. havia determinado dia no ano, entre os romanos o primeiro de março, no qual cada família devia apagar o seu fogo sagrado e reacender logo outro em seu lugar
2. havia determinado dia no ano, entre os romanos era o primeiro de março, no qual cada família devia apagar seu fogo sagrado e reacender logo outro em seu lugar
3. havia certo dia no ano, que entre os romanos era o primeiro de março, em que cada família devia extinguir o seu fogo sagrado para acender logo outro em seu lugar

ou
le repas était l'acte religieux par excéllence
surja como:
1. considerava-se a refeição como o ato religioso por excelência
2. considerava-se o repasto como o ato religioso por excelência
3. o banquete era considerado o ato religioso por excelência

ou
le dieu y présidait. c'était lui qui avait cuit le pain et préparé les aliments; aussi lui devait-on une prière au commencement et à la fin du repas
como:
1. o deus presidia. era o deus quem tinha cozido o pão e preparado os alimentos; por isso se lhe devia uma oração no começo e outra no fim da refeição
2. o deus presidia. era o deus quem tinha cozido o pão e preparado os alimentos; por isso se lhe devia uma oração no início e outra no fim da refeição
3. o deus presidia. era ele quem tinha cozido o pão e preparado os alimentos; por isso era-lhe devida uma oração no começo e outra no fim da refeição

ou
on peut donc penser que le foyer domestique n'a été à l'origine que le symbole du culte des morts
como:
1. é lícito julgar-se portanto ter sido o lar doméstico, na sua origem, considerado como expressão do culto dos mortos
2. é lícito julgar-se, portanto, ter sido o fogo doméstico, em sua origem, considerado como expressão do culto dos mortos
3. é lícito, pois, pensar ter sido o fogo doméstico, em sua origem, considerado como expressão do culto dos mortos

fustel de coulanges, a cidade antiga, nas seguintes traduções:*
1. fernando de aguiar, clássica editora, 1945
2. jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca, hemus, 1975 (ediouro, 1985 em diante)
3. jean melville, martin claret, 2001 (com revisão de pietro nassetti, sic)

* como contraponto, ver a tradução de frederico ozanam pessoa de barros, editora das américas, 1961:
- Os gregos chamavam a esse altar de nomes diversos: bõmos, eschára, hestía; esse último acabou por prevalecer no uso, e foi a palavra pela qual passaram a designar a deusa Vesta.
- Havia um dia do ano, que entre os romanos era o 1.° de março, em que cada família devia extinguir o fogo sagrado, e acender imediatamente outro
- O banquete era o ato religioso por excelência, presidido pelo deus, que havia cozido o pão e preparado os alimentos; dirigiam-lhe também uma prece no princípio e no fim da refeição.
- Pode-se, pois, pensar que o fogo doméstico, na origem, nada mais foi que o símbolo do culto dos mortos
esses são só alguns exemplos ilustrativos, e depois apresentarei cotejos detalhados. aqui o que chama a atenção é a sequência: clássica -> hemus -> ediouro -> martin claret.

inicialmente, a pesquisa foi feita com as edições da claret e da clássica, e surgiram algumas coincidências improváveis. parecia ser uma malandragem tomando por base a tradução de fernando de aguiar. na sequência das pesquisas, porém, consultas à edição da hemus mostraram que ela parecia estar mais próxima da clássica do que a própria claret, e que a tradução de jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca funcionava como ponte entre a de fernando de aguiar e a de jean melville. trocando em miúdos: havia elementos suficientes para sugerir a possibilidade de um plágio do plágio. acho que isso fica bem evidente nos exemplinhos dados acima.

então entrei em contato com a ediouro, para perguntar se por acaso andavam plagiando o fernando de aguiar, aliás reeditado várias vezes pela martins fontes pelo menos desde 1987, ou se tinham caído em algum conto do vigário. a posição da ediouro foi muito clara: não, não plagiaram, a empresa não é afeita a tais procedimentos. compraram em 1985 os direitos sobre a tradução da hemus, tomando-a por boa, e tinham o contrato em mãos. bom, a explicação me pareceu satisfatória - o que a ediouro vai fazer ou deixar de fazer com seu contrato, é problema dela. para nós leitores, o importante é o livro honesto - e aí vai ser um abacaxi: três edições da mesma obra com problema? ruim, hein?

imagens: www.biologie.uni-hamburg.de; http://lgollo.blog.terra.com.br
agradeço a joana canêdo por assinalar as soluções de frederico ozanam de barros

6 comentários:

  1. Anônimo30.4.09

    E você esperava o que, que a Ediouro dissesse "plagiamos, sim"?

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  2. prezado anônimo:
    se tivesse plagiado, sim, claro, por quê não? talvez não nestes termos, mas claro que imagino que admitiria sim, como outras fizeram, até publicamente.

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  3. Anônimo7.5.09

    Denise, vc me faz ri!!!!!

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  4. que bom, prezado anônimo. fico feliz de alegrar sua vida :)

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  5. Anônimo2.4.10

    Acabo de descobrir seu blog e todo um novo universo que demonstra a "criatividade" dos ëmpreendedores" brasileiros.
    Uma dúvida: Que ações legais podem ou estão sendo tomadas? Por parte de quem?

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  6. prezado anônimo: alguma hora vou criar a linha de assunto "providências" ou algo assim.
    por ora, vc pode consultar o que está arquivado em "ministério público", na coluna à direita: http://naogostodeplagio.blogspot.com/search/label/minist%C3%A9rio%20p%C3%BAblico

    e os balanços de 2008 e 2009:
    http://naogostodeplagio.blogspot.com/2008/12/o-bom-combate.html
    http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/12/balanco-de-2009.html

    outras ações empreendidas por editoras lesadas, como lpm, cia. editora nacional, ediouro, hedra, globo, e leitores insatisfeitos também foram noticiadas neste blog.

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