25 de abr de 2009

graças e desgraças

já acho uma graça que thrawn janet apareça inicialmente no brasil como janet do pescoço torcido.
mas uma segunda vez - aí já é uma desgraça!

robert louis stevenson, janet do pescoço torcido:
1. e. jacy monteiro em 1968, para as edições paulinas
2. pietro nassetti em 2004, para a martin claret

e. jacy monteiro:
bem, quando se soube na aldeia que janet m'clour estava empregada como criada na casa paroquial, ficaram todos furiosos, seja contra ela, seja contra o pastor. algumas mulheres nada acharam de melhor que ir-lhe diante da porta e acusá-la de tudo quanto se sabia a respeito dela, desde o filho que tivera do soldado até as duas vacas de john tamson. ela não era muito conversadora; geralmente deixavam-na seguir o próprio caminho, enquanto ela os deixava ir pelo deles, sem dizer nem bom-dia nem boa-tarde; mas quando lhe dava na telha, tinha língua de fazer ensurdecer um moleiro. pulou para fora, e não houve velho mexerico em balweary que não viesse à luz do dia, naquela ocasião, irritando a todos; ninguém podia dizer uma palavra que ela não rebatesse duas, até que, ao fim, as comadres a agarraram, tiraram-lhe as roupas do corpo e a arrastaram pela aldeia, até às águas do dule, para verem se era verdadeiramente bruxa e se flutuava ou ia ao fundo. a velha berrou tanto que se podia ouvi-la até no maciço cadente,* mas lutava por dez; muitas comadres trouxeram, no dia seguinte, os sinais das unhas dela, e conservaram-nos vários dias. felizmente, mesmo no ponto mais alto da luta eis que chegou, para sua sorte, o novo pastor. (pp. 215-16)

* candente: por gralha tipográfica comeu-se um "n". a gralha é fielmente transcrita por nassetti.
pietro nassetti: 
bem, quando se soube na aldeia que janet m'clour estava empregada como criada na casa paroquial, ficaram todos furiosos, tanto contra ela, tanto contra o pastor. algumas mulheres nada acharam de melhor que ir-lhe diante da porta e acusá-la de tudo quanto se sabia a respeito dela, desde o filho que tivera do soldado até as duas vacas de john tamson. ela era de poucas palavras; geralmente deixavam-na seguir [] caminho, enquanto ela os deixava ir pelo deles, sem dizer nem bom-dia nem boa-tarde; mas quando lhe dava na telha, tinha língua de fazer ensurdecer um moleiro. pois naquele dia pulou para fora, e não houve velho mexerico em balweary que não viesse à luz do dia, naquela ocasião, irritando a todos; ninguém podia dizer uma palavra que ela não devolvesse duas, até que, no fim, as mulheres a agarraram, tiraram-lhe as roupas do corpo e a arrastaram pela aldeia, até às águas do dule, para confirmarem se era verdadeiramente bruxa: se flutuava ou ia ao fundo. a velha gritou tanto que se podia ouvi-la até no maciço cadente, mas lutava por dez; muitas mulheres mostraram, no dia seguinte, os sinais das unhas dela, e conservaram-nos por vários dias. felizmente, no ponto mais alto da luta, eis que chegou, para sua sorte, o novo pastor. (pp. 107-8).

e. jacy monteiro:
dirigiu-se então à janela, e lá ficou a contemplar as águas do dule. as árvores estavam muito densas e as águas corriam profundas e escuras sob a casa paroquial; era aí que janet lavava as roupas com o vestido arregaçado. estava de costas para o pastor, que apenas percebia o que estava contemplando. após certo tempo ela se voltou e mostrou o rosto; o senhor soulis sentiu o mesmo arrepio frio que sentira duas vezes naquele dia, vindo-lhe à mente o que o povo dizia; janet estava morta há muito tempo e aquele era um espírito envolvido nas carnes frias dela. encolheu-se um pouco e observou-a atentamente. estava batendo as roupas e cantarolava de si para si, mas (valha-me deus!) tinha um rosto espantoso. às vezes cantava fortemente; não havia, contudo, quem conseguisse distinguir as palavras da cantiga. outras vezes olhava para baixo obliquamente, embora nada houvesse para ver. um horror atravessou-lhe as carnes até os ossos; era aviso do céu. (pp. 221-22)

pietro nassetti: 
foi, então à janela, e lá ficou a contemplar as águas do dule. as árvores estavam muito densas e as águas corriam profundas e escuras sob a casa paroquial; era aí que janet lavava as roupas com o vestido arregaçado. estava de costas para o pastor, que apenas percebia o que estava contemplando. após certo tempo, ela se voltou e mostrou o rosto; o rev. soulis sentiu o mesmo arrepio frio que sentira duas vezes naquele dia, vindo-lhe à mente o que o povo comentava: janet estava morta há muito tempo e aquele era um espírito envolvido nas carnes frias dela. encolheu-se um pouco e observou-a atentamente. estava batendo as roupas e cantarolava de si para si, mas - santo deus! - tinha um rosto espantoso. às vezes cantava fortemente; não havia, contudo, quem conseguisse distinguir as palavras da cantiga. outras vezes olhava para baixo obliquamente, embora nada houvesse para ver. um horror atravessou-lhe as carnes até os ossos; era aviso do céu. (p. 111)

o volume das paulinas traz cinco contos: além de markheim e janet do pescoço torcido, contém a história que dá nome à coletânea, o doutor jekyll e o monstro, e ainda will do moinho e olallá. há uma introdução bem boazinha de eliseu sgarbossa, do qual não tenho outras referências. além de apresentar um painel da vida e obra de stevenson, a introdução comenta cada um dos cinco contos, aliás estendendo-se razoavelmente sobre olallá.



o volume da martin claret, por sua vez, traz o médico e o monstro, markheim e janet do pescoço torcido. então é muito engraçado ver a introdução de eliseu sgarbossa, devidamente creditada (mas duvido que autorizada), à guisa de posfácio na edição claretiana, conservando as referências a o doutor jekyll e o monstro, embora a edição claretiana use o título mais conhecido o médico e o monstro, e mantendo os comentários sobre will do moinho e olallá. fica realmente bizarro!



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


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