24 de abr de 2009

mais um da galeria claretiana


apresento abaixo a clareto-nassettada em cima do conto markheim, de stevenson. ao que tudo indica, a fonte de aspiração ou, melhor, de sucção foi o trabalho feito por e. jacy monteiro, publicado em 1968 pelas edições paulinas (coleção "fio de erva", volume 5).

1. jacy monteiro:
tinha o tempo grande quantidade de vozes no negócio, algumas majestosas e lentas conforme lhes convinha à venerável idade; outras gárrulas e pressurosas. todas marcavam os segundos em coro complicado de tique-taques. de repente os passos de um menino que corria pesadamente sobre a calçada cobriram aqueles pequenos sons e trouxeram markheim de sobressalto à consciência do lugar em que se achava. olhou em roda espantado. a candeia estava colocada sobre o banco e a chama oscilava solenemente à corrente de ar; e com aquele insignificante movimento a sala inteira enchia-se de muda agitação fazendo-a ondear como o mar. as sombras longas anuíam; as largas manchas de escuridão dilatavam-se e restringiam-se como a respiração, os rostos dos retratos e os ídolos de porcelana mudavam e ondeavam como imagens sobre a água. a porta interior estava meio aberta e mostrava-se apenas naquele exército de sombras por longa estria de luz como dedo acusador. (p. 186)

2. pietro nassetti:
tinha o tempo grande quantidade de vozes na loja, algumas majestosas e lentas conforme lhes convinha à venerável idade; outras, tagarelas e impacientes. todas marcavam os segundos em coro complicado de tique-taques. repentinamente, os passos de um menino que corria pesadamente sobre a calçada cobriram aqueles pequenos sons e trouxeram markheim de sobressalto à consciência do lugar em que se achava. espantado, olhou em redor. a candeia estava colocada sobre o banco e a chama oscilava solenemente à corrente de ar; e com aquele insignificante movimento a sala inteira enchia-se de muda agitação, fazendo-a ondear como o mar. as sombras longas anuíam; as largas manchas de escuridão dilatavam-se e restringiam-se como a respiração, os rostos dos retratos e as estátuas de porcelana mudavam e ondeavam como imagens sobre a água. a porta interior estava meio aberta e mostrava-se apenas naquele exército de sombras por longa aresta de luz tal qual dedo acusador. (p. 92)

1. jacy monteiro:
mas já estava tão agitado por outros receios que, enquanto uma parte da mente ainda estava vigilante e aguda, a outra tremia no limiar da loucura. apoderava-se dele certa alucinação de maneira particular. o vizinho que, de rosto branco, escutava perto da janela, o passante que parava na calçada preso de dúvida terrível... podiam pelo menos suspeitar, mas não saber; através das paredes de tijolo e das janelas fechadas, somente os sons podiam penetrar. (p. 189)

2. pietro nassetti:
entretanto já estava tão agitado por outros receios que, enquanto uma parte da mente ainda estava vigilante e aguda, a outra tremia no limiar da loucura. certa alucinação tomara conta dele de maneira particular. o vizinho que, de rosto branco, escutava perto da janela, o passante que parava na calçada preso de dúvida terrível... podiam pelo menos suspeitar, mas não saber; através das paredes de tijolo e das janelas fechadas, somente os sons podiam penetrar. (p. 94)

1. jacy monteiro:
a luz débil e nublada do dia caía indistintamente sobre o soalho nu e sobre a escada, sobre a armadura brilhante ereta com a alabarda na mão sobre o primeiro patamar, e sobre os entalhes profundos e sobre os quadros emoldurados, pendentes dos painéis amarelos da tapeçaria. o barulho da chuva por toda a casa era tão forte que começou, aos ouvidos de markheim, a subdividir-se em muitos sons diversos. rumor de pés e suspiros, passo cadenciado de regimentos que marchavam ao longe, tilintar de moedas sobre o balcão, e o chiar de portas fechadas furtivamente parecia misturarem-se com o bater das gotas sobre a cúpula e o escorrer da água nos canos. (pp. 193-94)

2. pietro nassetti:
a luz fraca e nublada do dia caía indistintamente sobre o soalho nu e sobre a escada, sobre a armadura brilhante ereta com a alabarda na mão sobre o primeiro patamar, e sobre os entalhes profundos e sobre os quadros emoldurados, pendentes dos painéis amarelos da tapeçaria. o barulho da chuva por toda a casa era tão forte que começou, aos ouvidos de markheim, a subdividir-se em muitos sons diversos. som de pés e suspiros, passo cadenciado de regimentos que marchavam ao longe, tilintar de moedas sobre o balcão, e o chiar de portas fechadas furtivamente parecia misturarem-se com o bater das gotas sobre a cúpula e o escorrer da água nos canos. (p. 96)

in: stevenson, o doutor jekyll e o monstro (paulinas, 1968; pp. 179-207); stevenson, o médico e o monstro (martin claret, 2004; pp. 89-104).


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



2 comentários:

  1. Eu adoro como além de tudo eles tomam seus próprios leitores por incapazes e obtusos e se vêm na obrigação de simplificar o texto. A palavra gárrulas da tradução original é tão mais interessante e colorida que tagarelas. por que trocar ruídos por sons, apoderar por tomar conta, estria por aresta?
    joana

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  2. e não é? imagino que tomam a si como padrão. é cômico também o caso do livro da jângal, onde foram muito respeitosos da tradução de monteiro lobato, na qual não se atreveram a mexer, exceto no nome do tradutor (que passou a se chamar "alex marins"). então fizeram um glossário ao final, para explicar as "dificuldades". por exemplo, chibata, corpanzil, diadema, guarida, horda, pária, tapera :)))

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