05/09/2009

clássicos têm traduções dúbias, 2

segue-se a segunda parte do artigo de alfredo monte, a quem agradeço novamente a gentil autorização para reproduzi-lo.

CLÁSSICOS TÊM TRADUÇÕES DÚBIAS (cont.)
Alfredo Monte

Depois dessa surpresa desagradável, nova tentativa, dessa vez com a obra-prima de outro autor inglês: Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe. E aí, outro cúmulo de cinismo: na contracapa e na página que abre o volume encontra-se a expressão texto integral. É claro que se pode ter alguma desconfiança inicial diante das magras duzentas páginas (tá certo que a letra é espremidinha) do volume, uma vez que a edição da Companhia Editora Nacional que me apresentou às aventuras do náufrago mais famoso tinha mais de quatrocentas páginas, o mesmo acontecendo com a edição clássica da Jackson com a tradução canônica de Flávio Poppe de Figueiredo & Costa Neves.

O leitor poderá julgar por si mesmo. Na edição Jackson, a auto-apresentação de Robinson (“Nasci no ano de 1832 na cidade de York etc. etc.”) até sua fuga de casa para Londres, numa desastrosa primeira viagem de navio: cinco páginas e dez parágrafos. No texto integral da Martin Claret está tudo na primeira página e em três parágrafos!

Não há nada de errado em se condensar um texto, aliás é uma prática há muito executada para atrair o leitor juvenil, para livros justamente como os de Shelley & Defoe. Agora, apresentar uma condensação como texto integral é algo indefensável pois desfigura a idéia que se terá do texto já de saída.

Quanto a utilizar camufladamente, quase na íntegra, uma tradução anterior, há um nome no Direito para tal ação.

Esperemos que os outros títulos publicados pela Martin Claret tenham procedimentos menos dúbios e mais corretos.

Adendo de 2009 - Na maciota, a Martin Claret trocou sua nefanda condensação pela republicação da tradução de Flávio Poppe de Figueiredo & Costa Neves, o que foi ótimo porque trouxe de volta a mais impecável das versões brasileiras do livro. Agora a letra continua espremidinha, porém são 384 páginas de texto. Um detalhe hilário: na 4ª. capa temos a seguinte afirmação: “esta nova edição sai, agora, completada com as partes que não foram incluídas nas edições anteriores”. Mas a capa da edição picareta era de melhor gosto. A nova é horrenda.

de fato, a tradução completa tinha saído pela jackson com 460 páginas, inaugurando sua coleção "grandes romances universais", em 1947. agora eu pergunto: e os leitores que adquiriram a edição magrinha da claret, na crença de ser o texto integral, como é que ficam?

outro caso de edição condensada que a editora martin claret apresenta como se fosse "texto integral" é a arte da guerra, de maquiavel - vide o quilo de 150 gramas.

imagem: livraria traça

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