27/05/2010

terra à vista


fiquei contente em saber que a estação liberdade está lançando um conto de duas cidades, de charles dickens, em tradução de débora landsberg.

em 1946, a josé olympio publicou a obra em tradução de berenice xavier, em sua coleção "fogos cruzados", com o título de uma história em duas cidades.

em 1963, saiu a tradução de enéias marzano pela vecchi, em sua coleção "as obras eternas", com o título de morrer por ela.

em 2002, a nova cultural lançou um conto de duas cidades, com tradução em nome de sandra luzia couto, na coleção "obras-primas", em parceria com a suzano celulose.

quando eu estava pesquisando essa coleção "obras-primas" da nova cultural, cheguei a examinar rapidamente sua edição de a tale of two cities. devo dizer que não desenvolvi a análise nem formei qualquer juízo definitivo a respeito. mas na época (isso foi em 2008) achei um pouco bizarro encontrar soluções na antiga tradução de berenice xavier (1) e na tradução em nome de sandra luzia couto (2) que eram muito próximas entre si, e ao mesmo tempo muito distantes do original de dickens. darei alguns exemplos só para ilustrar minha surpresa de então.

Chapter XXIV. Drawn to the Loadstone Rock
In such risings of fire and risings of sea—the firm earth shaken by the rushes of an angry ocean which had now no ebb, but was always on the flow, higher and higher, to the terror and wonder of the beholders on the shore—three years of tempest were consumed. Three more birthdays of little Lucie had been woven by the golden thread into the peaceful tissue of the life of her home.

(1) Capítulo XXIV. Atraído pelo abismo

Decorreram três anos de tempestade, três anos em meio das chamas devoradoras, das ondas furiosas e de estremecimentos da terra, convulsionada pela maré de um oceano que subia, subia para o terror dos que o contemplavam da praia. (aqui a tradutora abriu parágrafo.) Três aniversários da pequena Lucie acrescentaram-se aos fios de ouro com que Lucie Darnay tecia a vida tranquila do seu lar.

(2) Capítulo XXIV. Atraído pelo abismo

Foram três anos de tempestade. Três anos em que se ergueram chamas devoradoras e ondas furiosas de um mar bravio, em que a terra estremeceu, convulsionada pela maré de um oceano que subia e subia, para o terror de todos os que o contemplavam da praia. (aqui a tradutora abriu parágrafo.) Três aniversários da pequena Lucie somaram-se ao fio dourado com que Lucie Darnay tecia a vida serena do seu lar.

achei interessante notar em ambos os casos o acréscimo de "chamas devoradoras", "convulsionada pela maré de um oceano"; a repetição de "três anos"; a eliminação de "wonder", a eliminação do belo jogo "risings of fire and risings of sea"; da própria metáfora de que o fogo da revolução francesa consumed três anos (estamos agora em 1792); a inversão da ordem da frase; a criação de novo parágrafo; o sumiço da referência a "ebb". aqui, por exemplo, enéias marzano foi mais feliz: "... um oceano em fúria, que agora não tinha vazante, estando sempre de maré alta, mais e mais alta".

Many a night and many a day had its inmates listened to the echoes in the corner, with hearts that failed them when they heard the thronging feet. For, the footsteps had become to their minds as the footsteps of a people, tumultuous under a red flag and with their country declared in danger, changed into wild beasts, by terrible enchantment long persisted in.

(1) Muitas noites haviam passado os habitantes do recanto pacíficos dos ecos [?], escutando os rumores que os aterravam, pois não ignoravam que os passos que ouviam eram os de um povo em tumulto, sob uma bandeira vermelha, que declarava a pátria em perigo e que um encanto terrível havia transformado em feras.

(2) Os moradores do lugar de acústica prodigiosa [sic] haviam passado muitas noites escutando ecos assustadores, pois não ignoravam que os passos que lhes chegavam aos ouvidos eram os de um povo em tumulto, que, agindo sob uma bandeira vermelha, declarava a pátria em perigo e que, por obra de um terrível encantamento, se havia transformado em um bando de feras.

fiquei surpreendida com o inexplicável erro de entendimento do original, idêntico nas duas traduções, forçando a uma mesma mudança da própria estrutura sintática do trecho.

Monseigneur, as a class, had dissociated himself from the phenomenon of his not being appreciated: of his being so little wanted in France, as to incur considerable danger of receiving his dismissal from it, and this life together. Like the fabled rustic who raised the Devil with infinite pains, and was so terrified at the sight of him that he could ask the Enemy no question, but immediately fled; so, Monseigneur, after boldly reading the Lord's Prayer backwards for a great number of years, and performing many other potent spells for compelling the Evil One, no sooner beheld him in his terrors than he took to his noble heels.

(1) Sua excelência (tomado em sentido figurado, como classe) estava assombrada por ver que o seu país o queria tão pouco a ponto de não somente arrojá-lo do solo pátrio como também afastá-lo deste mundo. Como aquele camponês da fábula que depois de ter evocado o demônio com tanto trabalho ficou tão espantado que fugiu em vez de lhe fazer perguntas, sua excelência depois de ter lido durante tantos anos o livro de orações às avessas, e de valer-se de todos os encantamentos para obrigar o demônio a aparecer-lhe, mal o avistou ficou tão aterrorizado que deitou a correr.

(2) Monseigneur, tomado em sentido figurado, como classe, estava assombrado por ver que seu país o prezava tão pouco que não somente o arrojara do solo pátrio como também gostaria de expulsá-lo deste mundo. A exemplo daquele camponês da fábula que, depois de tanto trabalho para invocar o demônio, ficou tão espantado que fugiu em vez de lhe fazer perguntas, sua excelência, depois de ter lido durante tantos anos o livro de orações de trás para a frente, e de valer-se de todos os meios mágicos para obrigar o demônio a aparecer-lhe, mal o avistou ficou tão aterrorizado que deitou a correr.

algumas coincidências evidentes: acréscimo de "tomado em sentido figurado"; "assombrado" para "dissociated"; a perda da ironia em "noble heels"; um idêntico "deitou a correr"; problema de entendimento da primeira frase etc. note-se que a solução (2) oscila entre monseigneur e "sua excelência".

naquela época, assinalei várias passagens em minhas anotações de pesquisa, e transcrevo aqui um último exemplo:

Moreover, it was the spot to which such French intelligence as was most to be relied upon, came quickest. Again: Tellson's was a munificent house, and extended great liberality to old customers who had fallen from their high estate. Again: those nobles who had seen the coming storm in time, and anticipating plunder or confiscation, had made provident remittances to Tellson's, were always to be heard of there by their needy brethren.

(1) Além disso, era o lugar onde se tinha em mais consideração esses franceses, e o Tellson era um estabelecimento magnífico que mostrava grande liberalidade para com os antigos fregueses que haviam descido da sua elevada posição; ainda mais, alguns nobres prevendo o saque ou a confiscação dos seus bens, tinham colocado em Londres os seus fundos, desde os primeiros dias da tempestade.

(2) Aquele era o lugar que dispensava maior consideração a esses franceses, e, além disso, o Tellson era um estabelecimento magnífico, demonstrando grande liberalidade para com os antigos fregueses que haviam caído de sua elevada posição; mais ainda, alguns nobres, prevendo o saque ou a [sic] confisco de seus bens, tinham transferido seus fundos para Londres desde os primeiros dias da tempestade.

ambas tropeçam no sentido de "intelligence" e criam uma mesma solução manca para "it was the spot to which such French intelligence as was most to be relied upon, came quickest", que significa, bastante ao pé da letra, que o Banco Tellson era o lugar aonde as informações mais confiáveis sobre a França chegavam mais depressa. "magnífica" para munificent também é triste, e as duas traduções concordam em eliminar a referência a "were always to be heard of there by their needy brethren", levando a mais uma mudança forçada da sintaxe original. 

não há dúvida de que o lançamento da nova tradução a cargo de débora landsberg vem preencher uma lacuna importante.

8 comentários:

  1. Denise,

    quem sabe traduzido eu leia as duas cidades... Este livro comecei vezes e parei. Tenho um pouco de implicância com Hardy e Dickens!

    PS: estou esperando sair também pelos clássicos Abril "Grandes esperanças".

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  2. Jander27.5.10

    Uma dúvida (apesar de saber que você não indica traduções diretamente, mas veja que o caso é diferente): O próximo livro da Abril Coleções é Moby Dick e também foi traduzido por Berenice Xavier. Esses problemas, do Dickens, poderiam aparecer nessa tradução da Abril de Moby Dick ou temos apenas um caso isolado?
    Fiquei preocupado!

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  3. jander, vou fazer um post com algumas páginas comparativas, berenice e péricles (não tenho a trad. mais recente, da irene hirsch), junto com o original, sem maiores comentários, e aí a pessoa pode dar uma olhada.

    uma coisa a levar em conta é que a coleção da abril, por maiores méritos que tenha, é essencialmente comercial. se por um lado faço essa enorme e prolongada defesa de nosso patrimônio tradutório do século XX, por outro lado defendo vivamente um maior acesso social às obras culturais, no caso essas traduções mais antigas e esgotadas - em meu entender, melhor do que reeditá-las depois de mais de 60 anos após sua edição inicial, seria disponibilizá-las gratuitamente na internet e no site do mec.

    pois afinal a história não para: existem traduções dos anos 40, dos anos 70, do século 21. não podemos esquecer e enterrar a memória dos anos 40, mas não podemos achar que desde então não houve melhorias e aprimoramentos na história da tradução literária brasileira.

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  4. Lá se vão muitos anos, mas cabe aqui uma defesa veemente da idoneidade da tradutora, minha esposa. Eu ajudei na revisão e li bem umas oito vezes essa obra. Nunca houve consultas a traduções anteriores e as eventuais coincidências que, na minha opinião, não são tão evidentes como pretende o crítico, não passam realmente disso, ou seja, coincidências. A tradução, embora possa conter um ou outro erro, como qualquer obra literária, foi feita com bastante cuidado e consulta ao especialista inglês responsável pelas notas explicativas. Esse trabalho recebeu elogios de outros tradutores, inclusive pessoas bastante conceituadas como, por exemplo, Ivo Korytowski, que todo tradutor conhece, pela contribuição permanente com o Babylon. Essa tradução foi feita com prazo muito curto (80 dias) e deu imenso trabalho, não sendo justo que a profissional receba censura por algo que realmente não ocorreu.
    Dr. Fausto Couto Sobrinho, escritor e juiz do Trabalho

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  5. prezado alexandre magno e prezado dr. fausto couto sobrinho: deve estar havendo algum equívoco, quando os srs. declaram "não sendo justo que a profissional receba censura por algo que realmente não ocorreu". em momento algum fiz qualquer censura e tampouco aventei qualquer hipótese sobre o que teria ocorrido. o que me chama a atenção e me causa surpresa são as várias semelhanças e coincidências acima apontadas. tampouco formulei em momento algum qualquer juízo sobre a origem das coincidências e muito menos sobre a idoneidade da tradutora. as coincidências e semelhanças existem, e são inegáveis, apenas isso.
    espero que a esposa do dr. fausto couto sobrinho não se sinta ofendida, pois não há nenhuma razão para isso.

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  6. Ajudei na revisão dessa tradução, que foi feita no prazo de apenas 80 dias! Li a obra pelo menos umas oito vezes. Exigiu um trabalho imenso e tirei férias da magistratura para ajudar minha esposa com a revisão. Trabalhamos lado a lado cerca de 16 horas por dia. Houve consultas apenas ao especialista inglês autor das notas explicativas. O trabalho, a despeito do prazo, foi feito com bastante seriedade, diante da clara percepção de que se tratava de um clássico. Faço veemente defesa da idoneidade da tradutora e afirmo que eventuais coincidências não passam disso, ou seja, coincidências, uma vez que presenciei cada etapa do trabalho e posso afirmar que não houve cotejo com qualquer outra tradução, mas apenas com o texto original. Digo isso baseado no texto encaminhado à editora, que infelizmente foi objeto de várias alterações por alguma “revisora” da época, que introduziu erros absurdos, como mudar a palavra “fanada” (emurchecido, com aspecto envelhecido) para “danada”, o que nos deixou muito “danados” e desapontados. Parágrafos inteiros foram reformulados (exemplo: aquele que descreve a Carmagnole, a dança dos revolucionários). Ficamos tão irritados que sequer examinamos o restante do livro. Erros de tradução e revisão podem eventualmente ter subsistido, diante da exiguidade do tempo, mas a tradução foi bem recebida na época pela comunidade de especialistas e mesmo tradutores experientes e conceituados como, por exemplo, Ivo Korytowski (que todo tradutor conhece por sua permanente contribuição para o Babylon), fizeram elogios ao trabalho. Embora respeite o direito de crítica, não acho justo que se atribua à tradutora algo que não fez. Trabalhou como u’a moura para ganhar a ninharia que pagam aos tradutores e é escritora e tradutora respeitada. Mereceu essa consideração por toda uma vida de dedicação ao trabalho.

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  7. Acabei postando por duas vezes o comentário porque não o visualizei da primeira vez. Desculpe-me. Não sei porque o Google me apresenta como "Alexandre Magno". Talvez algum erro de consulta aos seus arquivos. Quando à sua resposta, Denise, acredito que você esteja atuando com integridade, mas não pude furtar-me ao esclarecimento, uma vez que a imagem de minha esposa estava em jogo. Quanto às coincidências, vejo algumas extraordinárias em meu dia-a-dia de magistrado e mesmo há notícia de escritores de renome que foram acusados de plágio sem que qualquer culpa.
    Fausto Couto Sobrinho

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  8. prezado sr., como eu disse acima, não questionei a idoneidade da tradutora. apontei semelhanças e coincidências que existem entre as duas traduções, apenas isso.
    o esclarecimento que o sr. faz sobre alterações e reformulações de parágrafos inteiros na editora ajudaria a explicar algumas passagens que de fato parecem "enxertadas". lamento muito que tenha sido um trabalho exaustivo, mal remunerado e, ainda por cima, alterado na fase da revisão, e me solidarizo com sua esposa.

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