27 de out de 2009

Sobre embasicetas, taças comuns e costelas (Satíricon II)

Como já se discutiu bastante neste blog, há diversas maneiras de se comparar uma tradução e determinar os traços de estilo de cada tradutor, ou ainda possíveis plágios.


Eu acho que as notas do tradutor costumam dar as melhores pistas. Nelas os tradutores tendem a chamar a atenção sobre pontos bastante específicos, dificuldades de tradução, ambigüidades, jogos de palavra. Pois foi exatamente uma dessas que me enlevou. Observem as palavras marcadas em verde.

Embasiceta: vasilha para ungüentos e perfumes
Cláudio Aquati (2008, p. 37)Fonte: direto do latim, versão estabelecida por Ernout (1923)

[24.] Levado até o maior desespero, não contive mais as lágrimas:
– Mas, senhora, perguntei, não é verdade que havia mandado providenciar uma tal de “embasiceta”?5
Ela bateu palmas com a maior delicadeza e disse:
– Ó, mas que homem inteligente e fonte da esperteza nacional! O quê? Você já não tinha entendido que “embasiceta” quer dizer “bicha”?
Então, para que o meu companheiro não se saísse melhor, eu disse:
– Por favor, senhora, me ajude! Só o Ascilto tem folga neste triclínio?
– Está bem – disse Quartila. – Dêem também uma “embasiceta” para o Ascilto.
Mal ouviu isso, a bicha mudou de cavalo: depois de passar para o meu companheiro, esfolou-o com a bunda e com seus beijos.

5 O termo latino embasicoetam remete a uma palavra grega que ao mesmo tempo significa “taça”e “pederasta”.



Miguel Ruas (Escala, s.d., p. 35; Atena, 1949)* – Fonte: não informada

Não pude conter as lágrimas por mais tempo e, no auge do desespero, disse:
– Por favor, oh! Senhora, não havíeis ordenado que se me dessem uma taça comum?8
Ela bateu as mãos, e, com ar ligeiramente irônico, exclamou:
– Oh! Como és inteligente! Como penetras a fineza da nossa linguagem! Não compreendeste que se pode chamar de taça comum também a quem passa de leito em leito?
Mas eu não queria que o meu amigo fosse privado de um tal divertimento, e por isso gritei:
– Afinal, respondei-me: neste triclínio Ascilto é o único que deve permanece tranqüilo?
– Pois bem, acrescentou Quartila, que a taça comum passe para Ascilto.
A estas palavras o bailarino trocou de montaria e, trepando sobre o meu companheiro, derreou-o a golpes de nádegas, cobrindo-o ao mesmo tempo de beijos.


8 Texto obscuro. [sic]

* encontra-se à p. 41 na edição da atena, porém sem data: cf. comentário de Unknown, a quem agradecemos a informação.


Marcos Santarrita (1970, p. 28) – Fonte: Le Satyricon (apesar de não especificada qual tradução francesa, minhas pesquisas me levam à de Charles Héguin de Guerle (1861)

Não pude conter por mais tempo as minhas lágrimas e, com o coração trespassado de tristeza, disse a Quartila:
– Senhora, não me prometeste uma “costela?
– Oh, como és inteligente – respondeu ela, batendo suavemente as mãos. – A questão é espiritual! Não sabes que o papel desse homem é exatamente esse? Por que estás surpreso?
– Mas – repliquei, ciumento ao ver meu camarada em situação melhor que a minha –, permitirás que Ascilto, tranqüilo em sua cama, seja o único a saborear as delícias do repouso?
– Muito bem – disse ela. – Que Ascilto também tenha a sua parte.
Dito e feito: meu cavaleiro mudou de montaria e, sob o peso de suas carícias impuras, estalaram os membros do meu pobre companheiro.



Alex Marins (2001, p. 39) – Fonte: não informada
XXIV
Não pude conter por mais tempo as minhas lágrimas e, com
tristeza trespassando o meu coração, disse a Quartila:
Minha senhora, não me prometeste uma “costela”?
Ah, como és inteligente – retrucou ela, batendo as mãos com suavidade. – A questão é espiritual! Não sabes que o papel desse homem é precisamente esse? Surpreso?
– Mas – repliquei
com ciúmes ao ver meu amigo em situação superior à minha –, permitirás que Ascilto, tranqüilo em seu leito, seja o único a saborear as delícias do descanso?
Está bem – concordou ela. – Que Ascilto também receba a sua parte.
Dito e feito: meu cavaleiro mudou
para outra montaria e, sob o peso da impureza de suas carícias, estalaram os membros do meu pobre camarada.


Charles Héguin de Guerle (1861)

XXIV
Je ne pus retenir plus longtemps mes larmes ; et, le coeur navré de tristesse : — Madame, dis-je à Quartilla, est-ce bien là
l’Embasicète que vous m’aviez promis ? — O l’habile homme ! répondit-elle en frappant doucement des mains ; la question est spirituelle ! Embasicète ne veut-il pas dire incube. Cela vous étonne? — Du moins, répliquai-je, jaloux de voir mon camarade plus heureux que moi, souffrirez-vous qu’Ascylte, bien tranquille sur son lit, savoure seul en paix les douceurs du repos ? — À la bonne heure ! dit-elle, qu’Ascylte y passe à son tour. — Aussitôt fait que dit : mon écuyer change de monture, et le voilà qui, sous le poids de ses impures caresses, broie les membres de mon pauvre compagnon.


As marcas em verde nos trechos acima são as diversas traduções da palavra latina embasicoetam, que em francês ficou embasicète. “Embasiceta” merece uma nota de rodapé para Cláudio Aquati, que explica o duplo sentido. Miguel Ruas utiliza a expressão taças comuns, mas aponta, também em nota, que a palavra é de fato obscura. Marcos Santarrita resolve a questão à sua maneira, preferindo usar “costelas”, sem qualquer explicação. Alex Marins, por sua vez, consegue lidar com o problema utilizando, ah, “costelas”! Costelas? A troco de quê?
Para melhor entender por que a tradução de Alex Marins é definitivamente um plágio da de Marcos Santarrita, marquei em vermelho as palavras que foram mudadas segundo aquela técnica do “copidesque por sinonímia”, que mantém a estrutura das frases, trocando apenas algumas palavras por sinônimos, ou variando levemente a ordem delas.

Em
azul, marquei o que deveria ser diferente caso se tratasse de dois tradutores. Cotejando com o original francês, como é possível que a frase: “Embasicète ne veut-il pas dire incube”, se transforme em “Não sabes que o papel desse homem é exatamente [ou precisamente] esse”, em duas traduções distintas?

E o que dizer da questão
espiritual? Baixou o mesmo espírito em dois tradutores diferentes? Ou nenhum dos dois é um pouco espirituoso? (O encarregado do copidesque parece não ser).

E essas “
costelas”? Eu ainda não atinei para o significado delas. Será uma gíria da década de 70 para pederasta? Isso talvez explicasse como dois tradutores se teriam servido de mesma, estranha, entre aspas, expressão? Haveria por aí alguma outra alma iluminada como o Danilo Nogueira (que tão brilhantemente solucionou o problema do canário selvagem de Darwin), que possa nos dar uma luz?

Joana Canêdo
imagens: e-books adelaide, arca da união, mundo dos orixás, webciencia

7 comentários:

  1. Cada sherlockada que dá até medo.

    Realmente, não sei a solução. Posso jurar, entretanto, que "costela" como pederasta/pedófilo/homossexual não era gíria da décaa de 70, pelo menos em SP. Se era, pertencia a um grupo extremamente restrito.

    Obrigado pelo "alma iluminada". O mais divertido é que meu francês é pífio e totalmente insuficiente para qualquer trabalho profissional. Na verdade, matei a charada por pura ignorância, porque ao ler "canário" me lembrei da minha surpresa ao encontrar o logo do "Canard enchaîne" e descobrir que era um pato, quando eu esperava um canário, evidentemente. Quer dizer, essa, eu jamais vou errar em francês. Como também não vou esquecer que a esposa de M. le Dindon se chama Mme, la Dinde.

    Sem dúvida, este é o blogue mais divertido de quantos eu conheço.

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  2. que estranho, joana.
    por que incube, para começar?
    em latim é: [XXIV] Non tenui ego diutius lacrimas, sed ad ultimam perductus tristitiam: "Quaeso, inquam, domina, certe embasicoetan iusseras dari." Complosit illa tenerius manus et: "O, inquit, hominem acutum atque urbanitatis vernaculae fontem! Quid? Tu non intellexeras cinaedum embasicoetan vocari?" Deinde ne contubernali meo melius succederet: "Per fidem, inquam, vestram, Ascyltos in hoc triclinio solus ferias agit? — Ita, inquit Quartilla, et Ascylto embasicoetas detur". Ab hac voce equum cinaedus mutavit, transituque ad comitem meum facto clunibus eum basiisque distrivit. - como CINAEDUM virou íncubo?

    mas o ponto relevante, de fato, é que incontestavelmente essa edição em nome de "alex marins" é uma solene garfada na trad. de marcos santarrita. lamentável. e parabéns pelo trabalho.

    p.s. a "questão espíritual" da costela e que o papel do homem é fornecer a costela - a referência não é o gênesis? não que tenha muito a ver com o original nem com o francês, mas a costura pode ser essa, talvez.

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  3. Danilo,
    que pena, tinha tanta esperança que você soubesse...
    Eu também estou me divertindo. Melhor se divertir, batalhar, ir atrás do que sentar e chorar, né? Como você já comentou em seu blog.

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  4. Denise e ELvis,
    pois é, acho que é por aí. A 6a acepção de costela no Houaiss é "mulher, esposa do homem (por alusão a Eva)". Quem sabe colocando "costela" entre aspas, o tradutor queira dar o sentido de "mulher", entre aspas?

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  5. Nota 10 o blog. O artigo me foi de grande ajuda nas minhas pesquisas sobre o texto. Parabéns.

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  6. Na edição que tenho de Miguel Ruas, consta este trecho na pg 41, também publicada pela Atena Editora. Tenho dúvidas quando ao ano de publicação, já que não o identifiquei em nenhuma página... Excelente página, Denise, parabéns pelo trabalho!

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