30 de out de 2009

miséria pouca é bobagem

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num primeiro levantamento que fiz, a origem das espécies de darwin aparece no brasil nas seguintes edições:

I.
- Hemus, em pretensa tradução de Eduardo Fonseca, desde 1979 até hoje, em inúmeras reedições;
- Ediouro, em pretensa tradução de Eduardo Fonseca, desde 1987 até hoje, em inúmeras reedições;
- Hemus/Novo Século, em pretensa tradução de Eduardo Fonseca, 2000 e 2002;
- Madras, em pretensa nova tradução, várias reedições desde 2004;*
* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação. 04/10/2011: ver atualização abaixo, neste mesmo post.
- Leopardo/Hemus, em pretensa tradução de Eduardo Fonseca, 2009.

As pretensas traduções acima citadas foram cotejadas com a tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul, publicada pela editora Lello & Irmão, Porto, desde 1913 até hoje, em inúmeras reedições. Em ambos os casos, é incontestável o recurso ao plágio, com a agravante de adulterações na tentativa de disfarçar a cópia.

II.
- Martin Claret, em suposta tradução de John Green, desde 2001 até hoje, em várias reedições, e com chapa fria na FBN/ISBN, onde consta o nome de "Jean Melville" em lugar de "John Green".

John Green assina o plágio de um Sherlock Holmes (vide aqui), e devido à quantidade de plágios presentes no catálogo da editora sinto uma certa cautela em relação a essa edição. Retornarei a ela em breve.

atualizado em julho de 2010: com efeito trata-se de uma colcha de retalhes copiando trechos da tradução de Joaquim dá Mesquita e grande parte da tradução de Eugênio Amado. Veja aqui. (04/10/2011: com isso entendo que essa tradução se enquadra no bloco I, entre as outras espúrias.)

III.
- Itatiaia/Villa Rica, em tradução de Eugênio Amado, desde 1985 até hoje, em várias reedições;
- Larousse/Escala, em tradução de André Campos Mesquita, desde 2004 até hoje, em várias reedições (ver comentário do tradutor na caixa de comentários).

Não conheço essas duas edições, mas, como sempre parto do princípio da boa fé e não sei de nada que possa desaboná-las, tomo-as por legítimas e honestas. (Ver ainda atualização de 04/10/2011, no final deste post.)

Atualizado em julho de 2010: tive ocasião de consultar a edição da Itatiaia/Villa Rica. a tradução de eugênio amado me pareceu bastante fidedigna.

Obs.: Há ainda um pequeno volume, A origem das espécies - esboço de 1842, pela Newton Compton, em tradução de Mario Fondelli, publicado algumas vezes entre 1992 e 1997.
Existe também uma versão condensada da obra, em tradução de Fábio de Melo Sene, em edição conjunta Melhoramentos/ UnB, 1982. Atualizado em 07/03/2011: Agradeço a Lucas Petry Bender e faço duas retificações: a tradução é de Aulyde Soares, e a primeira edição é de 1979.

Voltando ao início, nem sei bem como colocar a quantidade de problemas revelados por esse levantamento.

Vou começar pelo básico: concorde-se com Darwin ou não, A origem das espécies é uma obra absolutamente fundamental, tida por muitos como a obra mais influente de toda a história da humanidade, desde a Bíblia, não só por seu radical impacto científico e cultural, mas por ter determinado uma profunda transformação nos rumos do pensamento e da prática humana.

Então acho uma miséria  que o Brasil disponha, até onde sei, apenas de duas - DUAS - traduções integrais legítimas d'A origem das espécies após 150 anos de sua primeira edição.

Acho uma vergonha que o Brasil disponha, até onde sei, de cinco - CINCO - falsificações numa incessante sequência de reedições infindáveis, além de uma edição ainda em análise. (Atualização: foi feita a análise dessa edição da Martin Claret: veja aqui. São, portanto, SEIS falsificações.)

Acho uma lástima que o Brasil disponha de cinco [atualização: seis] falsificações de uma provecta tradução portuguesa que não é direta do inglês, e sim por interposição do francês.

Acho um tremendo azar que o Brasil disponha de cinco [atualização: seis] falsificações de uma tradução que, além de interposta, parece demonstrar talvez não suficiente conhecimento da língua de interposição.

Além de achar uma miséria, uma vergonha, uma lástima e um tremendo azar, acho o fim da picada que estudantes, pesquisadores e leitores em geral passem décadas lendo um texto com não pequenos deslizes e ademais plagiado, justamente nas edições de maior circulação no país.

Os tostões que os ishpertos ganham com isso não lhes queimam as mãos?


da esquerda para a direita: hemus; ediouro; hemus/novo século; madras; hemus/leopardo; martin claret; itatiaia/villa rica; larousse/escala; newton compton.

Atualização: uma tristeza absurda foi que a Coleção Folha, Livros que Mudaram o Mundo, licenciou justamente essa coisa infame da Hemus para o volume Darwin. Veja aqui e aqui.

atualização em 04/10/2011: a ediouro assinou um termo de ajuste de conduta com o ministério público, retirando sua edição espúria de circulação. veja aqui.

a madras, por sua vez, desde 2009 havia retirado espontaneamente sua edição espúria de circulação, e agora em 2011 lançou uma nova edição de a origem das espécies, com tradução de soraya freitas. com isso, e especificando melhor, entendo que ela passa a integrar o terceiro bloco de traduções que arrolei acima e que, até onde sei, são legítimas e honestas.


imagens: google, livraria cultura, estante virtual. não encontrei ilustração da capa da edição condensada de melhoramentos/unb.
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16 comentários:

  1. Anônimo26.11.09

    Prezado, precisei pesquisar no texto de Aristóteles da Política, e tinha em mãos a edição da Edipro, tradução de um certo Nestor silveira Chaves. Ocorre que não achei a passagem procurada, simplesmente porque não existia naquela edição. Descobri, comparando com uma edição italiana bilíngue, que o texto do Nestor está cheio de cortes. Fiquei intrigado com isso, e pesquisei esse tradutor de A Política...essa tradução de Nestor foi usada pelas edições Atena, Escala, Ediouro e Edipro...descobri que esse tradutor também tem livros traduzidos do francês...gostaria de alguma notícia sobre ele, pois é muito suspeito. Obrigado

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  2. prezado anônimo, veja resposta a seu comentário na postagem "que bom gente com memória!"

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  3. Olá Denise! Li sobre seus comentátios no site do Danilo e concordo plenamente que é um absurdo o nível das traduções do Origem das Espécies circulantes, e gostaria de oferecer um exemplo que ainda hoje me tira o sono: a tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul para o último parágrafo do Origem, uma das sentenças mais belas da literatura:
    "There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed by the Creator into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being evolved."
    Traduzido para: "Não há uma
    verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes
    diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de
    formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à
    lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de
    belas e admiráveis formas, saídas de um começo tão simples, não têm cessado
    de se desenvolver e desenvolvem-se ainda!"

    Fora que a tradução foi feita a partir da 6ª edição do livro (que acrescenta o criador nas suas páginas, mas isso é outra história) e não da 1ª, considerada a mais atual.

    Abraços.

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  4. Não há quem fiscalize antes de autorizar a liberaração essas publicações safadas?

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  5. não, bosco, claro que não - não existe censura no país.
    resta aos leitores indignados protestar e denunciar...

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  6. consta no lattes do andré campos mesquita (http://lattes.cnpq.br/9905274653124881) a tradução da larousse/escala, mas com data de 2009.

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  7. Anônimo4.10.11

    Ao que me consta a nova tradução da Madras é original e não plágio de nenhuma outra tradução.

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  8. prezado anônimo: sim, creio que sim, pelo que me falou a editora no ano passado, quando estava providenciando essa tradução. coloquei a atualização no post. creio que vou especificar melhor que entendo que essa nova tradução se enquadra no bloco III.

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  9. Prezados a minha tradução foi realizada em 2004 e publicada em três volumes. A tradução de 2009 foi lançada pela Escala em um único volume - sem minha autorização - utilizando a versão sem revisão que eu havia mandado para que eles verificassem o andamento do trabalho. Ela foi recolhida a meu pedido. No momento, preparo uma nova edição mais bem acabada em que pretendo terminar o trabalho de anotação que comecei a realizar em 2004.

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  10. olá, prezado andré, agradeço a retificação.

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  11. Olá, adorei conhecer seu blog!
    Estou há tempos decidido em comprar o livro que é a síntese dessa "obra absolutamente fundamental" que é a teoria de Darwin. Não quero ler no original, pois estou certo de que iria encontrar muitos termos da biologia para os quais não teria ideia do equivalente em português; não poderia contar para ninguém (aqui no Brasil) sobre as espécies incríveis que conheceria!
    Hoje estava prestes a comprar uma dessas traduções espúrias, quando decidi consultar o google sobre qual seria a "melhor edição", e terminei aqui. Muito obrigado por me aproximar mais dessa obra incrível.

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  12. que bom, ravi, fico muito contente. é isso o que dá sentido ao trabalho desenvolvido aqui no nãogostodeplágio.

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  13. Anônimo12.10.14

    Olá Denise, quero agradecer pelo seu esforço em elevar a qualidade do mercado editorial brasileiro ao denunciar as falcatruas e disponibilizar análises de edições obras importantes, como a "Origem das espécies". Conheci o blog há quase dois anos, em circunstâncias semelhantes a do Ravi Albuquerque, buscando resenhas sobre as edições brasileiras da obra de Darwin. Fiquei surpreso com tamanho descaso/má-fé e após perceber a miséria, pesquisei um pouco mais e investi na edição da Itatiaia sem nenhum arrependimento. Desde então, buscar por boas edições (em inglês ou português) virou uma leve obsessão (risos).
    Bem, recentemente a Martin Claret lançou uma edição de luxo da "Origem", com tradução de Anna Duarte e Carlos Duarte, que potencialmente (não a possuo) compõe o grupo de legítimas, pelo menos no sentido de não ser plágio (não posso afirmar quanto à qualidade da tradução). Recentemente, a editora também anunciou o lançamento da nova edição de bolso, dos mesmos tradutores citados, para a coleção "A obra-prima de cada autor", que substituirá a edição espúria da "capa azul".
    Finalmente, também há uma edição da Hemus de 2013, com a mesma imagem de capa da edição que consta aqui no post, mas com adição da tarja "edição revista". Será que mudaram alguma coisa?
    Lucas Oliveira

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    1. Anônimo26.3.15

      Será que essa última edição de luxo da Martin Claret é boa?? Ela está tão bonita...
      Cris

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  14. olá, lucas, obrigada pela apreciação e pelas novas informações. até onde sei, as traduções de anna duarte e carlos duarte, mesmo não conhecendo a qualidade delas, são legítimas, sim. quanto à edição "revista" da hemus (que não vi), normalmente, no jargão editorial, usa-se "revista" no sentido de atualizar a grafia, arredondar alguma frase mais canhestra ou corrigir gralhas de uma edição anterior. acrescentarei esses dados que vc me passou ao post. obrigada de novo!
    abraço,
    denise

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  15. Denise, parabéns pelo empenho neste levantamento! Também estou procurando uma edição com tradução fidedigna. Recebi hoje um e-mail da editora Itatiaia confirmando que sua 7ª edição (2012) de Eugênio Amado foi feita a partir do original de 1859.

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