31 de jan de 2012

alopramentos



Já comentei aqui algumas gafes fragorosas que cometi e das quais só me dei conta depois de publicado o livro. Em Lendo Walden também comento algumas divertidas e que deixam a gente meio envergonhada.

Agora vou comentar algumas gafes fragorosas que a revisão cometeu, tendo me atropelado no processo. Uma das mais espantosas está em O palácio de inverno, de John Boyne. O livro começa descrevendo uma isbá miserável, perdida nas estepes russas. A família de camponeses semifeudais é pobre, pobre feito Jó. Como o narrador vai comentar à frente, a isbá tinha um aposento só, onde a mãe e as irmãs preparavam a comida num fogãozinho a lenha, e todos comiam e dormiam no mesmo local, nuns amontoados de palha no chão.

Logo no começo, o narrador fala do pai: "ele se engasgava, tossia e cuspia o catarro no fogo que ardia em nosso fogãozinho" (he choked and coughed and spat his phlegm into the fire burning in our small stove). Ok. A própria editora encarregada do livro fez suas marcações, me passou, beleza, tudo certo. Pego o exemplar impresso, está lá: "ele se engasgava, tossia e cuspia o catarro na pequena fornalha que ardia em nossa sala de estar". Aaaaahnnnn? Não acreditei quando vi isso. E fiquei ainda mais perplexa ao pensar que a pretensa revisão teria lido todo o livro, poucas páginas adiante estaria descrito o miserê do ambiente e o mínimo a fazer, depois dessa intervenção tão maluca, seria voltar atrás e cancelar aquela sala de estar com fornalha e tudo, naquela isbá pequeno-burguesa criada por uma fértil imaginação.

Avisei a editora, a qual também ficou perplexa, disse que só haviam feito as alterações autorizadas por mim, que não fazia ideia de onde tinha saído aquilo e que a editora assumiria toda a responsabilidade. Mas é por essas e outras que tenho lá minhas dúvidas quanto a esse tipo de revisão.

imagem: aqui

3 comentários:

  1. Renato Motta31.1.12

    É duro mesmo, Denise.

    Eu também já encontrei gerundismos e pleonasmos inaceitáveis na "minha" tradução DEPOIS de o livro ter sido publicado.

    O importante é reclamar sempre, porque quem cala, consente. O problema é que não dá para reler cada livro depois de lançado, o que é preocupante.

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  2. verdade, renato, não dá para ficar relendo tudo depois de impresso. a questão é poder confiar no editor, na "cadeia de comando", como dizem. uns revisores muito malucos, uma das editoras com que trabalho acabou excluindo mesmo - outros meio abusadinhos, uma delas não deixa passar nem perto de meus textos. mas é realmente impressionante como alguns são saidinhos. fui revisora por um bom tempo; acho uma atividade muito gostosa e muito importante para a finalização redondinha da coisa, mas jamais tive essa tentação boba de querer fazer prevalecer o que pessoalmente prefiro; mesmo quando era copidesque, eu praticamente não alterava nada, sempre tentando entender o estilo do tradutor. então não entendo esse personalismo de alguns revisores. mais vale ir serem tradutores e aí podem fazer como consideram mais adequado, né não?

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  3. Carlos Alberto Bárbaro2.2.12

    Cara Denise, fiquei encafifado aqui, além de morrendo de vergonha, com aquela “sala de estar” que surgiu do nada (literalmente) em minha sugestão de preparação à sua tradução do livro do Boyne. Só do que lembrava era do que motivou minha sugestão de alteração da sua tradução no trecho, no caso a minha estranheza por alguém, mesmo “pobre, pobre feito Jó”, chegar a cuspir no seu próprio fogãozinho. Lembrei na hora daquelas pequenas fornalhinhas que vemos em algumas fotos antigas, uma espécie de recipiente com uma portinhola gradeada por onde se põe o carvão e do qual sobe um cano que leva a fumaça para fora da casa.
    Quando o narrador cita o mesmo “stove” à frente, solicitei, por coerência, a mesma mudança para fornalha, e não cheguei sequer a considerar que a comida seria preparada nesse mesmo aparato que, na minha interpretação, servia para o aquecimento da casa e não necessariamente para preparar a comida. Como você mesmo menciona, eles moram numa isbá miserável perdida nas estepes russas, e as estepes russas são frias pra dedéu, daí a necessidade de um sistema de aquecimento qualquer, por mais precário que seja. Não há, em nenhum trecho do livro, qualquer expressão que complemente o “stove” do original, daí não dar para saber se ele era a lenha ou a carvão e nem se servia também para fazer a comida da casa (no trecho que você menciona, fala-se do “stove” no mesmo período em que se diz que uma das irmãs estava preparando a comida, mas não dá nem para dizer que era no mesmo “stove” em redor do qual as crianças se aqueciam e nem que não era (eu acho que não era, pois defendo que “the stove in the corner o our small hut” era apenas o aquecedor da casa, aquele com portinhola da minha imaginação, e não o fogareiro onde possivelmente se preparava a comida da casa.
    Agora, quanto à sala de estar inexistente, acho que o delírio saiu da consulta ao verbete “stove” do OED, conforme meu comentário de preparador que reproduzo abaixo:
    “Achei estranha a imagem de alguém cuspindo catarro em um fogãozinho, daí encontrei a seguinte definição no Oxford English Dictionary:

    “†2. A sitting-room or bedroom heated with a furnace. Chiefly with reference to Germany, the Low Countries, Scandinavia, or Russia. (Cf. stew n. 2)”

    Coloquei fornalha por achar que “forno de calefação” fica longo demais, fato é que o aparato deve ser daqueles objetos de metal com uma portinhola e um cano que sobe até o teto e leva a fumaça das brasas para fora da casa.”

    Entendeu? Continua imperdoável o acréscimo, mas, creia, há método na loucura, pois ao mudar o seu “fogãozinho”, para mim algo em que não se cospe, enfiei de cambulhada no texto do Boyne a “sitting-room” que só existia no OXFORD. Faltou apenas revisar a revisão.
    Ah!, e a revisão nunca se cansa não, simplesmente mexe pouco em trabalhos que já chegam quase que totalmente enxutos e perfeitos como o seu. No caso do Boyne, fiz 10 comentários à margem do seu texto, dois deles elogiando sua correção de cochilos do próprio autor (pois, claro, não são só preparadores e revisores que revisam).

    Abraço,

    Bárbaro

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