16 de jun de 2009

contos do grotesco e arabesco, poe XI

se as histórias extraordinárias no brasil são tantas, em catorze edições diferentes, variando de seis a dezoito contos, os mais variados possíveis, como se dá que algumas delas se apresentem como tradução de um original chamado tales of the grotesque and arabesque?

não faço ideia de como surgiu essa atribuição, e a fonte mais antiga que encontrei para ela foi a frase, já citada: "Em 1848, Contos do Grotesco e do Arabesco foi publicado na França como Histórias Extraordinárias, por Baudelaire".

a primeira incorreção desta frase, como vimos, é a data: histoires extraordinaires foi publicada na frança não em 1848, e sim em 1856.

a segunda, e crassa, é a fantástica identificação entre tales of the grotesque and arabesque e histoires extraordinaires.
não só nada a autoriza, como também é uma impossibilidade ontológica.

já vimos quais são os treze contos de poe que compõem a antologia baudelaireana das histoires, e respectivas datas de redação. mas não custa repetir: histoires extraordinaires de 1856 consiste numa coletânea traduzida de treze contos que poe escreveu originalmente entre 1832 e 1845.

tales of the grotesque and arabesque, por sua vez, é uma coletânea de 25 contos que poe selecionou e lançou em novembro/dezembro de 1839, com data de 1840, em dois volumes. ela reúne contos escritos entre 1831 e 1839, que podem ser consultados na wikisource e na edgar allan poe baltimore society.

volume I:

Morella (1835); Lionizing (1835); William Wilson (1839); The Man That Was Used Up — A Tale of the Late Bugaboo and Kickapoo Campaign (1839); The Fall of the House of Usher (1839); The Duc de L'Omelette (1831); MS. Found in a Bottle (1833); Bon-Bon [The Bargain Lost] (1831); Shadow — A Parable (1835); The Devil in the Belfry (1839); Ligeia (1838); King Pest — A Tale Containing an Allegory (1835); The Signora Zenobia (1838); The Scythe of Time (1838).

volume II:

Epimanes (1833); Siope [Silence – A Fable] (1832); The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaal (1835); A Tale of Jerusalem (1832); Von Jung [Mystification] (1837); Loss of Breath [A Decided Loss] (1831); Metzengerstein (1831); Berenice (1834); Why the Little Frenchman Wears His Hand in a Sling (1837); The Visionary [The Assignation] (1832); The Conversation of Eiros and Charmion (1839), e um apêndice ao conto "hans pfaal".

não sei dizer quem era o editor da civilização brasileira ou da abril cultural à época em que se instaurou toda essa confusão, mas uma coisa é certa: as histórias extraordinárias não têm nada a ver com tales of the grotesque and arabesque, digam o que disserem as referências das diversas edições, com licença da civilização, pela abril cultural, círculo do livro após 1978 e nova cultural (e sem licença pela martin claret) - e, surpreendentemente, também as edições da ediouro!

naturalmente todos os 25 contos de poe reunidos na coletânea de 1840 existem em português, porém espalhados aqui e ali. no caso da edição da aguilar, que é a mais completa, eles estão distribuídos sob várias rubricas: “contos de terror, de mistério e de morte”, “contos filosóficos”, "contos humorísticos", "viagens fantásticas" e "aventuras fabulosas". e só para lembrar o conto por onde começamos, poe escreveu the black cat em 1843, razão simples e irrefutável pela qual ele não poderia estar na companhia dos contos do grotesco e arabesco de 1840.

conclui-se que, nesse mar de sargaços, a coletânea tales of the grotesque and arabesque, tal como foi concebida, selecionada e publicada por poe, jamais – por incrível que pareça – teve uma única edição no brasil.
imagens: tales of the grotesque and arabesque, vol. I e vol. II.

Um comentário:

  1. Eduardo Marques4.1.10

    Eu fico chocado quando leio essas coisas no seu blog. É engraçado: por um lado, reclamam que ninguém lê no Brasil, por outro, não há a mínima qualidade editorial (e moral) necessária para que esses livros sejam decentemente impressos aqui. Eu acho que deve haver alguma teoria da conspiração digna de Poe para explicar as duas coisas. Parabéns pelo trabalho para desmascarar esses pilantras.

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