2 de mar de 2009

eugênia claret

em eugénie claret a martin grandet parece não ter hesitado em arrancar uns pedaços à respeitabilíssima tradução de moacyr werneck de castro.

a associação brasileira de imprensa (abi) deu seu apoio à campanha contra os plágios e divulgou em seu site. por outro lado, moacyr werneck de castro foi escolhido, ao lado de lygia fagundes telles, para compor a comissão de honra para a comemoração do centésimo aniversário da abi. espero que a combativa associação dê uma nota em protesto contra esse desrespeito e saque à pessoa e obra de moacyr werneck.


o padrão aqui adotado é por remendo e acoplagem de duas traduções diferentes, uma portuguesa e outra brasileira, além de substituição de termos aqui e acolá, ao longo do livro.

é uma salada russa, inclusive no tratamento. por exemplo, temos na mesma frase: "assuntos que te trazem aqui ... se o senhor quiser ir... desculpe-me que não te acompanhe... talvez veja por ti". ou: "sinta-se em sua casa ... se precisar, chama nanon ... o cão te comeria... durma bem". ou: "meteste na cabeça ... tome cuidado". ou "vais ver.. quer saquear... és a patroa... faça uma torta e assa no forno".

vou me concentrar no que aparenta ser uma cópia adulterada a partir da tradução de moacyr werneck.

balzac, eugênia grandet
a. moacyr werneck de castro (abril)
b. alex marins (martin claret)

a. a maria*
seja o teu nome aqui - pois que o teu retrato é o mais belo adorno desta obra - como um ramo bento de murta, apanhado numa árvore qualquer, mas certamente santificado pela religião e renovado, sempre verde, por mãos piedosas, para proteger a casa.

* trata-se de maria du fresnay, que foi, por algum tempo, a amante de balzac, e que, segundo se julga, lhe deu uma filha, marie caroline du fresnay, nascida em sartrouville em 1834 e falecida em nice em 1930, com mais de noventa anos de idade.

b. a maria*
seja o teu nome aqui - pois que o teu retrato é o mais belo ornamento desta obra - como um ramo bento de murta, colhido numa árvore qualquer; mas certamente santificado pela religião e revigorado, sempre verde, por mãos piedosas, para proteger a casa.

* trata-se de maria du fresnay, que foi, por algum tempo, a amante de balzac, e que, segundo se acredita, lhe deu uma filha, marie caroline du fresnay, nascida em sartrouville em 1834 e falecida em nice em 1930, com noventa anos. [sic]

a. este desfecho necessariamente ilude a curiosidade. talvez seja assim com todos os desfechos verdadeiros. as tragédias, os dramas, para falar a linguagem de nosso tempo, são raridades na natureza. lembrai-vos do preâmbulo. esta história é a tradução imperfeita de algumas páginas esquecidas pelos copistas no grande livro do mundo. aqui, nenhuma invenção. a obra é uma humilde miniatura, que exigiria mais paciência do que arte. cada departamento tem o seu grandet. apenas, o grandet de mayenne ou de lille é menos rico que o antigo prefeito de saumur. é possível que o autor tenha forçado um traço, esboçado mal os seus anjos terrestres, posto cor de mais ou de menos em seu papel. talvez tenha sobrecarregado de ouro o contorno da cabeça de sua maria; talvez não tenha distribuído as luzes segundo as regras da arte; enfim, talvez tenha sombreado demais as tintas já escuras do seu velho, imagem toda material. mas não recuseis vossa indulgência ao monge paciente, vivendo no fundo de sua cela, humilde admirador da rosa mundi, de maria, bela imagem de todo o sexo, a mulher do monge, a segunda eva dos cristãos.

se ele continua a atribuir, apesar dos críticos, tantas perfeições à mulher, é que pensa ainda ele, um jovem, que a mulher é a mais perfeita entre as criaturas. saída em último lugar das mãos que moldavam o mundo, ela deve expressar mais puramente que qualquer outro ser o pensamento divino. por isso, ao contrário do homem, não foi tirada do granito primevo, não foi argila mole sob os dedos de deus; não: extraída dos flancos do homem, matéria flexível e dútil, ela é uma criação transitória entre o homem e o anjo. por isso a vedes forte como é forte o homem, e delicadamente inteligente pelo sentimento, como o é o anjo. não seria preciso unir nela duas naturezas, para incumbi-la de trazer sempre a espécie em seu seio? uma criança, para ela, não é toda a humanidade?

b. necessariamente este desfecho ilude a curiosidade. talvez deste modo seja com todos os desfechos verdadeiros. as tragédias, os dramas, para falar a linguagem de nosso tempo, são raridades na natureza. lembrai-vos do preâmbulo.* esta história é a tradução imperfeita de algumas páginas esquecidas pelos copistas no grande livro do mundo. nisto, nenhuma invenção. a obra é uma humilde miniatura, que exigiria mais paciência do que arte. cada departamento tem o seu grandet. apenas, o grandet de mayenne ou de lille é menos rico que o antigo prefeito de saumur. é provável que o autor tenha forçado um traço, delineado mal os seus anjos terrestres, posto cor mais ou menos em seu papel. talvez tenha sobrecarregado de ouro o contorno da cabeça de sua maria; talvez não tenha distribuído as luzes segundo as regras da arte; enfim, talvez tenha sombreado demasiadamente as tintas já escuras do seu velho, imagem toda material. mas não recuseis vossa compaixão ao monge resignado, vivendo no fundo de sua cela, humilde admirador da rosa mundi de maria, bela imagem de todo o sexo, a mulher do monge, a segunda eva dos cristãos.

se ele persiste em atribuir, a despeito dos críticos, tantas perfeições à mulher, é que pensa ainda, ele, um jovem, que a mulher é a mais perfeita entre as criaturas. saída em último lugar das mãos que moldavam o mundo, ela deve expressar mais puramente que qualquer outro ser o pensamento divino. por isso, ao contrário do homem, não foi extraída do granito primevo, não foi argila mole sob os dedos de deus; não: retirada dos flancos do homem, matéria flexível e dútil, ela é uma criação transitória entre o homem e o anjo. por isso a vedes forte como é forte o homem, e delicadamente inteligente pelo sentimento, como o é o anjo. não seria preciso unir nela duas naturezas, para incumbi-la de trazer sempre a espécie em seu seio? uma criança, para ela, não é toda a humanidade?

* detalhe: só que o preâmbulo do autor foi suprimido na edição da claret.

não custa lembrar: como dispõe o art. 104, capítulo II, título VII da lei 9.610/98, as livrarias são solidariamente responsáveis: fnac, livrarias curitiba, livraria saraiva, livraria cultura, livraria da travessa, americanas.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: memphis-industries.com

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