5 de dez de 2010

coleção folha, o capital de gabriel deville I

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a coleção folha "livros que mudaram o mundo" lançou um volume com o título o capital, que seria da autoria de karl marx, em tradução de murilo coelho da tradução condensada francesa de gabriel deville. vamos a ele.


em 1883, o socialista francês gabriel deville publicou um resumo de das kapital de karl marx, livro I (único publicado em vida), acrescido de um curto ensaio de sua autoria sobre o socialismo científico. trata-se de:

Gabriel Deville, Le capital de Karl Marx, resumé et accompagné d'un aperçu sur le socialisme scientifique, Paris, Ernest Flammarion Éditeur, 1883.


essa introdução às ideias de marx se encontra disponível para download em diversos sites, por exemplo aqui, na biblioteca da universidade de toronto.

sob todos os pontos de vista, o autor dessa pequena obra de divulgação do pensamento marxista é gabriel deville. é tão descabido atribuir le capital de karl marx a marx como seria atribuir diretamente a hegel ou a tomás de aquino qualquer introdução, em qualquer língua que seja, aos conceitos da fenomenologia do espírito ou da suma teológica.

curiosamente, porém, le capital de karl marx veio a ser publicado desde 1912 em portugal e nos anos 30 no brasil dando a entender que fosse o próprio das kapital de marx, que teria sido traduzido e condensado por gabriel deville. aliás, não me admiraria muito se até mesmo o devilleano aperçu sur le socialisme scientifique, que precede seu resumo do livro I d'o capital, tivesse passado no brasil e em portugal por peça da lavra de marx.*

* quem se interessar pela divulgação inicial das ideias de marx nos países de língua portuguesa, há alguns levantamentos disponíveis na rede, que dão uma breve noção da coisa:
lincoln secco, leitura e difusão de o capital de marx
idem, notas para a história editorial de o capital
carlos bastien, os primeiros leitores portugueses de marx economista
denilson azevedo, a história da publicação das obras de marx e engels

referências mais completas para o brasil se encontram em dois livros de leandro konder:
a derrota da dialética: a recepção das idéias de marx e engels no brasil até o começo dos anos trinta (campus, 1988) e as idéias socialistas no brasil (moderna, 1995)

a coisa se torna ainda mais bizarra, pois o então jovem militante socialista gabriel deville em momento algum sugeriu que sua súmula se baseasse no original de marx. muito pelo contrário, ele esclareceu com todas as letras, no prefácio de seu opúsculo, que utilizara a tradução francesa: Quant au résumé, [...] il a été fait d'après l'édition française, dernière édition revue par l'auteur.


a tradução de das kapital tinha sido feita por joseph roy a partir da 1a. edição alemã, e foi publicada em fascículos entre 1872 e 1875, pelo editor maurice lachâtre. marx, ao ler a tradução e acompanhar os fascículos, procedeu a várias modificações que foram incorporadas à obra em francês. a primeira edição desses fascículos em formato livro saiu em 1875, entièrement revisée par l'auteur. em c. 1878, lachâtre lança uma segunda edição pelo selo da librairie du progrès. muito provavelmente é a esta edição de c. 1878 que se refere deville, quando cita a dernière édition revue par l'auteur.

a propósito das modificações feitas por marx, ver seu posfácio à edição francesa de 1875:
O Sr. J. Roy empenhou-se em apresentar uma tradução tão exacta, até literal, quanto possível; cumpriu escrupulosamente a sua missão. Mas estes mesmos escrúpulos obrigaram-me a modificar a redacção, a fim de a tornar mais acessível ao leitor. Estas alterações, feitas sem continuidade, pois que o livro se publicava em fascículos, foram objecto de atenção desigual, o que havia de produzir incoerências de estilo.

Uma vez empreendido esse trabalho de revisão, fui levado a aplicá-lo também no conteúdo do texto original (a segunda edição alemã), simplificando alguns tópicos, completando outros, incluindo material histórico ou estatístico adicional, acrescentando observações críticas, etc. Sejam quais forem as imperfeições literárias desta edição francesa, ela possui um valor científico independente do original e deve ser consultada mesmo pelos leitores que dominam a língua alemã.
(tradução de teixeira martins e vital moreira, karl marx, o capital, capítulo I.)

retomando o tema central: gabriel deville, então membro do parti ouvrier francês, queria apresentar um painel sintético e simplificado dos principais conceitos de marx para a divulgação do marxismo entre o operariado. assim, fez um apanhado das ideias centrais presentes n'o capital, conforme a tradução de roy, revista por marx, antepondo a essa introdução aos conceitos marxistas um artigo seu sobre o socialismo científico, em que expõe também pontos programáticos da linha socialista a que então se filiava. marx (que, diga-se de passagem, era sogro de paul lafargue, um dos fundadores do partido operário francês a que pertencia deville) tinha conhecimento da iniciativa e, segundo algumas fontes, dava seu apoio a ela. mas jamais chegou a vê-la impressa, morrendo meses antes de seu lançamento.

tal é a obra que se chama o capital de karl marx. não é de marx, e não é uma tradução, nem mesmo condensada, de das kapital.

em outro post, comentarei um pouco a fortuna lusobrasileira dessa introdução de gabriel deville às ideias de marx.

imagens: google images.

5 comentários:

  1. o capital 100% é só aquele da record .. que são vários volumes?

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  2. Acho que perdi a vontade de comprar agora.

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  3. olá, thiago: é só ter consciência do que está comprando. essa obra é o chamado "resumo do Deville", assim como tem o "resumo do Cafiero" ou o "resumo do Borchardt". são todos eles introduções ao pensamento de marx: cada um diferente do outro, lógico, pois cada um tem um determinado tipo de recorte, mas são de grande utilidade.
    o que não dá é vender deville como se fosse marx.

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  4. Paulo José Souto Maior6.12.10

    Por essas e outras é que se deve louvar o esforço da editora Boitempo, que tem nos brindado com traduções corretas, edições bem cuidadas. Pena que até hoje não tenham anunciado a tradução do Capital, pois nenhuma das disponíveis é minimamente razoável.

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  5. Denise:

    O histórico da tradução do Livro I de O Capital consta da nota dos editores da edição francesa das Éditions Sociales, de 1950 (a que tenho é a de 1962). Essa edição (que contém o posfácio de Marx) observa também que todas as citações tiveram de ser revistas para a tradução inglesa pela terceira filha de Marx, Eleanor Marx, e pelo Instituto Marx-Engels, de Moscou. Um abraço. Everardo

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