2 de dez de 2010

colóquio de tradução na unimep: autoria e responsabilidade

prosseguindo o relato de minha participação no colóquio em piracicaba:


Consideramos então que estava suficientemente demonstrada a impossibilidade de existir uma tradução única, mesmo de um trecho curto e simples – a menos, claro, que decidíssemos que nove alternativas eram ruins e apenas uma era boa, e aí a questão seria apresentar e justificar os critérios para esse juízo. Como não vimos nenhum critério capaz de sustentar essa hipotética decisão, fomos em frente, aceitando a existência de várias alternativas plenamente viáveis e aceitáveis para a tradução daquele trecho.

Essa marca pessoal que cada um dos participantes imprimiu em sua tradução é que, argumentei eu, constitui a base para o reconhecimento jurídico – desde o século XIX – do tradutor como autor de uma obra dotada de identidade própria. Assim, tradução é obra: é derivada de uma obra originária, claro, mas nem por isso deixa de ser, em sua esfera própria e limitada, uma obra pessoal, original, intransferível. Por outro lado, isso não tem nada a ver com "co-autoria", que são outros quinhentos. Uma tradução não é uma coautoria, a despeito do que alguns possam pensar - é simplesmente uma "obra derivada". Anule-se essa identidade, anular-se-á a figura moderna do tradutor. Que seja, isso sempre pode ocorrer, e os conceitos de autor e autoria também são historicamente datados e determinados.

Pois o que importa é que os fundamentos para que o tradutor seja juridicamente definido como pessoa portadora de direitos de autor têm uma anterioridade não só histórica, mas lógica, que independe dessa sua definição jurídica: mantêm-se os mesmos, quer o tradutor seja tido como autor ou não. Eles consistem justamente no fato inescapável de que cada obra de tradução tem uma identidade própria. E essa identidade própria decorre, evidentemente, das marcas pessoais que o tradutor imprime em seu texto, derivado do texto de origem.

E aqui chegamos a um ponto que me parece central: se por um lado as marcas pessoais de uma obra de tradução lhe conferem identidade própria, por outro lado é evidente que o tradutor é responsável pelo menos por uma parte das características presentes em seu texto de tradução. Neste sentido, entendo que negar ou querer abolir as marcas pessoais que imprimimos em nossa tradução é abdicar ou se esquivar à responsabilidade que temos por aquele texto que escrevemos.

Assim é que, em meu entender, o postulado de que uma boa tradução não guarda ou não deveria guardar a marca pessoal do indivíduo tradutor, além de ingênuo e dogmático, vem acompanhado também de uma espécie de apologia da irresponsabilidade. No momento em que o indivíduo tradutor pensa que, ao traduzir, pode se abster de deixar sua marca pessoal no texto de tradução, ele se exime de responder pelo que faz: coloca-se na posição de um mero instrumento transmissor supostamente neutro [e é claro que mesmo esta imagem é enganosa, pois não existe meio, qualquer que seja, que não exerça interferência na transmissão]. Mas, seja qual for a imagem, essa abdicação da responsabilidade por nosso texto de tradução muitas vezes se expressa na batidíssima frase, incrivelmente obscura e abstrusa, que já ouvi invocada várias vezes para justificar uma escolha X ou Y num trabalho de tradução: “está assim no original” ou "é assim que está no original”.

Mas aí eu pergunto: e o que significa “está assim no original”? Pois é exatamente disso que se trata: um texto traduzido NÃO ESTÁ ASSIM no original. O texto traduzido está como o tradutor o redigiu a partir do texto de origem, passando pelos mais variados e diversos níveis de apreensão, interpretação e escolha. E é esta a responsabilidade do tradutor: na medida de suas limitações pessoais e determinações histórico-culturais, tentar perceber como está traduzindo, qual partido está adotando. Até onde consigo entender, a maneira mais coerente de nos responsabilizarmos por nossos textos de tradução é reconhecer que eles são construídos a partir de critérios e escolhas que adotamos perante os textos de origem. E aí é melhor saber do que não saber quais são eles, não é mesmo?

(continua aqui)

imagem: burmadigest.com
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