16 de dez de 2010

lendo walden, X

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Finalmente, o terceiro aspecto mais visível na estruturação
de Walden é a flagrante desproporção do primeiro capítulo, "Economia", dentro do corpo da obra.


"Economia" corresponde, sozinho, a quase 1/4 de Walden: cerca de 70 páginas num total de 300. As outras 230 páginas se dividem entre os demais dezessete capítulos + a conclusão.

Essa desproporção do capítulo "Economia", quando comparado ao restante do texto, parece imprimir um certo desequilíbrio ao conjunto do livro. Como esse jogo interno das partes é um dos principais aspectos que qualquer autor enfrenta ao compor sua obra, naturalmente a conclusão a que devemos chegar é que essa desproporção foi um recurso deliberado de Thoreau, e que o desequilíbrio resultante para a dinâmica geral da obra seria apenas aparente.

Sabe-se que "Economia" foi escrito como texto independente, que serviria de introdução a Walden propriamente dito, trazendo inclusive numeração própria das páginas. Por alguma razão, Thoreau decidiu que o texto de introdução passaria a capítulo de abertura, e o livro traria à guisa de introdução apenas a epígrafe, já citada, do alegre chantecler. E assim foi.

Esse fato até explica a desproporção resultante entre "Economia" e os demais capítulos. Mas não explica por que Thoreau teria optado por introduzir esse desequilíbrio entre as partes. Quanto a isso, não me atrevo a aventar nenhuma hipótese, pois, não tendo domínio suficiente da vida e obra de Thoreau, seria como tentar arrombar portas que certamente já estão abertas.

Em todo caso, eu diria duas coisas: é muito interessante ler Walden a partir do segundo capítulo, "Onde e para que vivi", como se fosse ele o começo do livro. Muda a visão, muda o quadro geral da coisa. É uma experiência muito ilustrativa, e serve como contraponto para tentarmos entender por que Thoreau julgou que não bastaria, por que considerou que a obra só se faria completa se se iniciasse justamente pelo extenso texto, muitas vezes tido como árido e fastidioso, da "Economia".

A segunda coisa é a seguinte: pretendo em breve fazer uma modesta desmontagem dos núcleos temáticos que compõem esse primeiro longo capítulo. Mas, até lá, parece-me que um ponto é certo. É em "Economia" que Thoreau ilustra, expõe, alerta e adverte o principal elemento de seu, digamos assim, individualismo existencial: as experiências de cada indivíduo são irredutíveis e intransferíveis, cabendo a cada um seguir o rumo da própria existência:
Não gostaria que ninguém adotasse meu modo de vida em hipótese alguma; pois, além de poder encontrar algum outro antes que ele tivesse aprendido direito este de agora, desejo que possa existir o maior número possível de pessoas diferentes no mundo; mas gostaria que cada uma delas se dedicasse a encontrar e seguir seu próprio caminho, e não o do pai, da mãe ou do vizinho. O jovem pode construir, plantar ou navegar, basta que não seja impedido de fazer o que ele me diz que gostaria de fazer. Se somos sábios é apenas graças a um ponto matemático, como o marinheiro ou o escravo fugido que mantém à vista a estrela polar; mas é um guia suficiente para toda nossa vida. Podemos não chegar a nosso porto num período calculável, mas manteremos o curso certo. (p. 77, itálico no original)
De passagem: "o escravo fugido" - Thoreau, certa feita, acolheu em Walden um escravo fugitivo, e o aconselhou a seguir para o norte tomando como referência a estrela polar (como, aliás, já costumavam fazer); "o marinheiro" - Thoreau irá utilizar várias metáforas náuticas, sobretudo a navegação por cálculo (dead reckoning).

Neste sentido, a vida em Walden era sua experiência pessoal e a mais ninguém se aplicaria. O que ele poderia dizer e transmitir dessa experiência, o que dela poderia ser partilhado, não precisaria ser vivido em Walden. Estava apresentado em Walden.

Num aparte secundário, isso reforça e corrobora por que sua decisão - que comentei em post anterior - de eliminar o subtítulo or, Life in the Woods: a despeito de suas advertências, muitos insistiam em tomá-lo ao pé da letra e seguir seus passos, indo também viver algum tempo nas matas.

imagem: chart pie, wiki
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