18 de dez de 2010

lendo walden, XIV

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Outra faceta muito interessante em Thoreau era sua atividade como tradutor. Graças à sua formação em literatura e línguas clássicas, ele traduziu Ésquilo, Píndaro, Anacreonte, publicados em 1843 e 1844 em The Dial, o periódico transcendentalista,* além de rascunhos que ficaram inéditos. A título de amostra, temos em Walden algumas passagens em que traduz Varrão e Catão, aliás aproveitando a oportunidade para desancar uma tradução de Catão que circulava na época (p. 90).

*Aqui encontram-se todos os números de The Dial entre 1840 e 1844. Para quem se interessar pelo convívio de Thoreau com os clássicos gregos e latinos, existe um artigo bastante informativo de Ethel Seybold, "Thoreau: The Quest and the Classics", in Harold Bloom (org.), Henry David Thoreau. Nova York: Infobase Publishing, 2007, pp. 13-34. 

Com seu enorme interesse pelas filosofias e doutrinas orientais, Thoreau também traduziu vários analectos de Confúcio, por interposição do francês, a partir da tradução de M. J. Pauthier, Confucius et Mencius. Em 1844, The Dial publicou uma tradução da Parábola das Ervas, o quinto capítulo da Sutra do Lótus, um dos textos sagrados centrais do budismo mahayana (a partir da tradução de Eugène Burnouf do sânscrito). Alguns estudiosos dão por certo e outros consideram altamente provável que a tradução para o inglês tenha sido feita por Thoreau, sozinho ou em colaboração com Elizabeth Palmer Peabody.


Detalhe interessante: trata-se da primeira versão em inglês de qualquer passagem das escrituras budistas.

De Anacreonte reproduzo aqui a tradução de Thoreau, que ele incluiu em seu longo artigo sobre a "História Natural de Massachusetts" (The Dial, 1843, I), apresentando o poema como um dos mais memoráveis. Impossível não ver nele a antecipação do pathos que envolverá várias passagens de Walden.
Return of the Spring

Behold, how spring appearing,
The Graces send forth roses;
Behold, how the wave of the sea
Is made smooth by the calm;
Behold, how the duck dives;
Behold, how the crane travels;
And Titan shines constantly bright.
The shadows of the clouds are moving;
The works of man shine;
The earth puts forth fruits;
The fruit of the olive puts forth.
The cup of Bacchus is crowned,
Along the leaves, along the branches,
The fruit, bending them down, flourishes.
No mesmo artigo há outra ode de Anacreonte, "A cigarra", também traduzida e vivamente recomendada por Thoreau. Ficaria um pouco longo reproduzi-la aqui, mas não resisto a transcrever os primeiros quatro versos:
We pronounce thee happy, Cicada,
For on the tops of the trees,
Drinking a little dew,
Like any king thou singest.
Entende-se por que Thoreau, ao arrepio das interpretações usuais na história da literatura, considerava Anacreonte não um um poeta sensualista menor, e sim um poeta da elevação.

imagem: sutra do lótus

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