2 de dez de 2010

colóquio de tradução na unimep: marcas

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O colóquio de tradução em Piracicaba, na Unimep, foi muito legal. O tema central foi algo mais ou menos como a presença de um tradutor em seu texto, voluntária ou não, consciente ou não.

Como minhas exposições costumam ser de tipo “agonístico”, isto é, adotando como ponto de partida um argumento contrário, tomei como pano de fundo uma posição tradutória que ainda hoje no Brasil afirma que uma boa tradução não traz ou não deveria trazer a “marca pessoal” do tradutor.

Considero esse tipo de concepção, além de ingênuo, simplesmente insustentável, uma impossibilidade lógica, ontológica, empírica, o que for. Pois é evidente que toda tradução* carrega a marca de quem a escreveu: seja em termos históricos e culturais, seja em termos estilísticos e estruturais, seja no simples plano mais imediato da escolha vocabular. E isso me parece tão evidente que dispensa maiores argumentações.

* Na ocasião, tratamos do campo específico de tradução literária e de humanidades, mas alguns aspectos provavelmente se aplicariam também a traduções técnicas e científicas.

Em todo caso, num exemplo simples, basta pensar nas inúmeras traduções de Shakespeare em língua portuguesa. Se se supusesse possível uma tradução sem a “marca pessoal do tradutor” e, ademais, que essa hipotética ausência de marca fosse um valor positivo, teríamos que apenas uma delas seria “boa”. Aí, secundariamente, teríamos até uma outra questão, a meu ver bastante engraçada e talvez crucial: quem determinaria, entre essas diversas traduções, qual é a “impessoal” e, por extensão, “boa”? (É claro que aqui estamos falando de traduções com um mínimo de proficiência linguística.)

O público presente no colóquio era composto por estudantes da graduação e do pós em língua inglesa e tradução. Para preparar a demonstração prática de meu argumento contra a ideia da “neutralidade” ou impessoalidade de qualquer texto de tradução literária e de humanidades, pedi a dez dos presentes que traduzissem ali na hora o parágrafo inicial de Walden – a escolha do trecho foi meio arbitrária: minha tradução dessa obra acabava de ser publicada pela L&PM e, embora eu ainda não tivesse visto o livro impresso, estava com ela na cabeça. São poucas linhas bastante simples:
When I wrote the following pages, or rather the bulk of them, I lived alone, in the woods, a mile from any neighbor, in a house which I had built myself, on the shore of Walden Pond, in Concord, Massachusetts, and earned my living by the labor of my hands only. I lived there two years and two months. At present, I am a sojourner in civilized life again.
Como era de se prever, entre as dez traduções não havia duas iguais e, sob um microscópio, nem remotamente parecidas. Tirando um mínimo deslize em um ou dois casos, todas davam conta do recado. Some-se a isso que há três traduções brasileiras de Walden, também bastante diferentes entre si. Qual, então, seria a “boa”? Qual não traria a “marca pessoal” do tradutor? Um problema.


O que quero dizer é que as linhas tradutórias que invocam uma suposta objetividade ou impessoalidade da obra de tradução são, por trás de sua ingenuidade de superfície, tremendamente normativistas e balizadas por critérios nada transparentes. Pois, para escolher uma entre treze alternativas com graus equivalentes de proficiência, há de se empregar algum critério. E se, para escolher uma delas (“esta aqui é a boa”), invoco como critério uma pretensa impessoalidade (“e é a boa porque não tem a marca pessoal de quem a fez”), estou, em primeiro lugar, ocultando o fato de que HÁ, sim senhor, uma marca pessoal - tanto é que ela não se confunde com as outras doze, que também são inconfundíveis entre si. Mas, em segundo lugar e principalmente, não estou deixando claro qual é o critério que me faz escolher esta e não outra. Se o critério não é claro, ele não pode ser entendido, avaliado, julgado, aceito ou refutado: em suma, é dogmático. Esse ocultamento dos critérios para a escolha de uma alternativa – ao pretexto meramente postulado, mas indemonstrado, de que uma boa tradução não poderia ou não deveria trazer marcas pessoais do indivíduo tradutor – constitui, a meu ver, um dos principais problemas que uma tradução minimamente proficiente enfrenta na atualidade editorial brasileira. Mas este já é outro problema.

continua aqui.

mutatis mutandis, descobriu-se que a impressão digital ajuda a detetar texturas delicadas e pequenos objetos por meio do tato. neste sentido metafórico da "digital" que o tradutor imprime em seu texto, quem sabe a prévia atenção voluntária e deliberada às marcas pessoais que inevitavelmente deixaremos em nossas traduções não poderia contribuir para uma detecção mais apurada de elementos presentes na obra originária? veja aqui.

imagem: tato apurado
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