13 de dez de 2010

lendo walden, IV

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Um aspecto fundamental, no pano de fundo de Walden, é a doutrina vegetariana do grupo transcendentalista com que se relacionava Thoreau. Embora não fosse um transcendentalista estrito, nem um vegetariano “linha dura”, Thoreau evitava alimentos de origem animal e preferia uma dieta simples.

Há inúmeras passagens em Walden sobre o tema, em especial no capítulo "Leis superiores". Uma das frases que bem sintetizam sua posição, a meu ver, é a seguinte:
Acredito que todo homem que algum dia se empenhou seriamente em preservar ao máximo suas faculdades poéticas ou mais elevadas teve uma especial propensão em se abster de alimentos de origem animal. (p. 207)
A questão era programática, para a elevação do espírito. Mas não só; não se tratava de alguma espécie de mortificação da carne. Era antes uma forma de se colocar em harmonia com o universo, obedecendo ao que a própria natureza ensinava (aqui também se fazem visíveis as influências do romantismo inglês e ressonâncias goetheanas):

Por que o homem se enraíza com tanta firmeza na terra, a não ser para poder se elevar em igual proporção aos céus? – pois as plantas mais nobres são valorizadas pelo fruto que trazem ao ar e à luz, longe do solo, e não são tratadas como os alimentos mais rústicos que, mesmo que tenham um ciclo completo de dois anos, só são cultivados até a raiz adquirir sua plena forma, e muitas vezes são podados na parte de cima para a raiz se desenvolver melhor, de modo que muita gente nem conhece sua florada. (p. 28)
A título de curiosidade: esse alimento rústico com ciclo de dois anos, cultivado apenas até que a raiz se desenvolva, é a cenoura. De fato, quantas pessoas conhecem a flor da cenoura?



Thoreau mantinha um regime de disciplina física quase espartano: caminhava diariamente dezenas de quilômetros, subindo montes, escalando escarpas, percorrendo florestas com pernas notoriamente atléticas; evitava gorduras, carne, leite, manteiga, pratos elaborados, estimulantes como chá e café, era abstêmio e não fumava. Essa disciplina na busca da realização individual encontra curiosas semelhanças em Nietzsche, outro infatigável e atlético caminhante, vegetariano frugal e avesso ao álcool.

Nietzsche foi grande, dizem alguns até fervoroso e entusiástico, leitor de Emerson, e há quem aponte as raízes do übermensch nietzscheano no plus man emersoniano. Para além da abordagem doutrinária, conceitual ou filosófica dos dois pensadores, talvez pudesse ser interessante comparar alguns aspectos dos programas físico-dietéticos adotados por Thoreau e Nietzsche.

Uma triste ironia desse ideário de espiritualização por meio da disciplina física, no caso de Thoreau - além da morte precoce antes de completar 45 anos de idade -, foi que, desde os 32 anos, não lhe restava um único dente na boca.

imagem: flor de cenoura
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