15 de dez de 2010

lendo walden, VIII

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Walden seria um registro autobiográfico? Um diário, um relato dos 26 meses que Thoreau passou junto ao lago? Em suma, Walden seria a vida em Walden? Walden foi escrito em Walden?

A resposta a todas essas perguntas é uma só:
não propriamente, nem essencialmente.

Walden é antes a apresentação de um programa existencial aplicado e ilustrado na prática. Foi redigido depois que Thoreau saiu de Walden, embora utilizando muitas anotações feitas no local. Além das notas redigidas em Walden e reflexões anteriores e posteriores àquele período, Thoreau incorporou a Walden o conteúdo de várias palestras que proferiu em Concord. Esse recurso de incluir as palestras explica a mudança de tom em várias passagens, em que o leitor percebe claramente que ele está se dirigindo a uma plateia, sobretudo a jovens ouvintes. Muda o registro, muda o tratamento, muda o humor, mudam as imagens.

Walden tem dezessete capítulos e uma conclusão. Diga-se de passagem que a edição da L&PM presenteou seus leitores com a inclusão, à guisa de apêndice, do necrológio de Emerson a Thoreau (pp. 315-335). Voltando a Walden, sua estruturação é um pouco complicada e, a meu ver, apresenta três aspectos mais evidentes.


O primeiro deles é a organização dos capítulos segundo critérios basicamente temáticos: leitura, sons, visitas, os lagos, vizinhos irracionais, o lago no inverno etc. Nessa divisão por assuntos, o tema central se desdobra em diversos subtemas correlatos. Assim, por exemplo nas dez páginas do breve capítulo "Leitura" (pp. 103-112), temos a crítica à degeneração dos tempos heroicos, a distinção entre oratória e leitura, entre linguagem oral e linguagem escrita, a crítica ao ensino "comum" (isto é, a escola fundamental) e a defesa do ensino "incomum", a ridicularização do puerilismo cultural e das versões simplificadas da Bíblia, menções às seitas dos crentes renascidos na fé, a Zoroastro, a Platão, a projetos universitários para a Nova Inglaterra, intercalados com trechos comicíssimos - por exemplo aqui, falando dos leitores onívoros, com referências também às aventuras do Barão de Münchhausen:
Existem aqueles que, como cormorões e avestruzes, conseguem digerir todo esse tipo de coisa, mesmo depois da mais lauta refeição com carnes e legumes, pois não admitem desperdiçar coisa alguma. Se outras são as máquinas que fornecem tais acepipes, estes são as máquinas de leitura. Leem a nona-milésima história de Zebulão e Sefrônia, e o quanto os dois se amaram como nunca ninguém tinha amado antes, e como jamais um verdadeiro amor correu tão bem – ou, pelo menos, correu, tropeçou, levantou e continuou!; e como um pobre desgraçado que nunca tinha subido nem num campanário subiu na agulha de uma torre, e então, tendo desnecessariamente posto o sujeito ali, o romancista todo feliz bate o sino para chamar todo mundo, que se reúne e diz: Oh, que coisa! Como ele conseguiu descer dali! Quanto a mim, penso que melhor fariam se metamorfoseassem todos esses aspirantes a heróis do romance universal em cataventos humanos, tal como antigamente colocavam os heróis entre as constelações, e lá os deixassem girando até se enferrujar, sem descer para virem incomodar as pessoas de bem com suas travessuras. (p. 108)
E tudo permeado com deliciosos trocadilhos, como, pouco adiante, ao ridicularizar os jornais de Boston e um periódico metodista da época: sucking the pap of "neutral family" papers, or browsing "Olive Branches", que infelizmente tive de desdobrar como "tomando a papinha insípida dos jornais 'de família', manducando os brotos dos Ramos de Oliveira e folheando as páginas dos Olive Branches"...

imagem: graphics, google images
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