10 de dez de 2010

lendo walden II

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Outra característica marcante e deliberada de Walden é o uso do pronome eu.

Devido à questão da declinação verbal, o inglês sempre (ou quase sempre) usa o pronome pessoal acompanhando o verbo. Isso é fácil de entender, pois num presente, p.ex., há apenas duas flexões (com exceção do verbo to be): a que segue a forma do infinitivo e a que recebe o s no final, para a terceira pessoa do singular. Então, sem o pronome, não dá para saber quem está falando: eu, tu, nós, vós ou ele(a)s, pois é tudo igual. Nos outros tempos nem se fala, pois aí todas as formas são iguais, mesmo na terceira do singular.

Como em português declinamos os verbos de acordo com a pessoa, não precisamos pôr "eu" ou "nós" na frente de, p. ex., "quero" ou "queremos". Pela terminação do verbo já sabemos qual é a pessoa (isso em termos gerais). Isso significa que, na tradução, é possível e até desejável eliminar alguns dos pronomes pessoais tão indispensáveis no inglês, mas para nós muitas vezes redundantes. Ninguém aguentaria um texto com cinco "eus" seguidos numa mesma frase...

No inglês, ocorre também uma alta incidência da ordem passiva: em vez de, sei lá, "Entregaram o pacote a ele", usa-se mais o passivo "O pacote foi entregue a ele". Isso, por sua vez, também é um pepino na tradução, pois o decalque dessa estrutura do inglês para o português resulta numa construção meio pesada, e muitas vezes a gente, na hora de traduzir, prefere reconstruir a frase em ordem direta, na voz ativa.

Pois muito que bem. Nosso individualista radical Thoreau, como sempre muito firme e decidido, resolveu que em Walden, até por uma questão de coerência com as próprias ideias, ia narrar suas experiências e apresentar suas reflexões diretamente na primeira pessoa. Isso significa -- o leitor já pode adivinhar o quê: uma enxurrada de Is e respectiva parentela.

É o que Thoreau anuncia já de saída, no segundo parágrafo do livro (p. 17):

A maioria dos livros omite o eu ou a primeira pessoa; aqui ele será mantido; em relação ao egocentrismo, esta é a principal diferença. Geralmente não lembramos que, afinal, é sempre a primeira pessoa que está falando. Eu não falaria tanto sobre mim mesmo se existisse alguma outra pessoa que eu conhecesse tão bem.

Resultado: os pronomes da primeira pessoa aparecem quase três mil (3.000!!!) vezes em Walden. Um estudioso (Neufeldt) contou: I, 1.816 vezes; my, 723 vezes; me, 306 vezes; myself, 65 vezes. Detalhe simpático: Thoreau usou tanto o I que às vezes faltavam tipos para o gráfico montar a chapa de impressão.
Na tradução, carreguei um pouco mais no uso do "eu" e correlatos do que faria normalmente. Mas devo dizer que não usei os 1.816 eus do original.

[Compare-se: Na tradução, eu carreguei um pouco mais no uso do "eu" e correlatos do que eu faria normalmente. Mas eu devo dizer que eu não usei os 1.816 eus do original.]

Seria um pouco longo justificar a opção, mas, resumindo, foi porque a questão de fundo do I no inglês é a que expus acima: eles precisam do pronome para indicar quem está falando; nós nem tanto. Assim, entendi que a fiel reprodução do número de "eus" não seria necessariamente o principal elemento definidor da construção em português. Neste sentido, creio e espero, a grande diferença que Thoreau quis marcar em relação à prosa mais usual no inglês foi preservada: o discurso direto na primeira pessoa. 

Mas, por outro lado, a ordem direta na voz ativa é o tipo de construção que chega a ser uma característica estrutural em nossa língua. Mesmo assim, e para ser sincera, não vi razão ou maneira de subvertê-la, para tentar reproduzir às avessas um efeito de diferenciação. Neste aspecto, talvez, o texto de Thoreau em português não vai nos parecer tão frontalmente, tão desafiadoramente personalista como pretendeu e conseguiu ser em inglês.

[veja também lendo walden I, sobre seu "cesto de tessitura delicada" e a week on the concord and marrimack rivers, além de fontes de consulta, links e referência bibliográfica.]

imagem: i-me-mine
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