20 de dez de 2010

lendo walden, XVII

.
A certa altura (p. 137), ao falar de saúde, Thoreau diz:

Qual é a pílula que nos manterá bem, serenos, contentes? Não a do meu ou do teu bisavô, mas a botânica medicinal universal de nossa bisavó Natureza, com a qual ela mesma se conserva sempre jovem, sobrevivendo a tantos velhos Parrs e alimentando sua saúde com a obesidade decadente deles.
Old Parr conhecemos mais como aquele uísque escocês meio forte (que existe desde 1871). O nome não é à toa: trata-se, no uísque e na passagem de Thoreau, do inglês Thomas "Old" Parr, famoso como o homem mais longevo do mundo, nascido em 1483, falecido em 1635, com quase 153 anos de idade. Não que Thoreau demonstre grande simpatia por ele...


Na continuação do parágrafo, Thoreau declara que não é adepto dos recursos da medicina ("Não sou adorador de Higeia, filha daquele velho curandeiro Esculápio"). E, numa imagem que parece curiosa, completa: "e sim de Hebe, a escansã de Júpiter, filha de Juno e da alface-silvestre" (p. 138).

Tive um problema de gênero para traduzir wild lettuce, que, a despeito de aparecer aqui como pai de Hebe, ficou no feminino... A versão mais corrente é que Hebe seria filha de Hera e Zeus (Walden traz o correspondente romano Júpiter), mas Thoreau adota a versão menos habitual de que Hera teria concebido Hebe ao tocar numa folha de alface-silvestre.

Seja como for, a alface-silvestre, alface-brava ou alface do ópio é a lactuta virosa, erva com propriedades analgésicas, sedativas e brandamente psicotrópicas, relaxando os estados de ansiedade, com efeitos narcóticos e aumentando a vividez dos sonhos. É conhecida desde a antiguidade grega e entrou na mitologia na figura de sua filha Hebe, a atendente que servia nos cálices dos deuses o elixir da imortalidade.


Thoreau não usava álcool, chá, café, tabaco, e não era um adepto de "ampliar a percepção" com recursos externos. Pelo contrário, e numa provável menção indireta a De Quincey (cuja obra de helenista bem conhecia), ele dizia: "prefiro o céu da natureza ao paraíso de um comedor de ópio" (p. 209). E acrescentava: "Entre todas as espécies de embriaguez, quem não prefere se inebriar com o ar que respira?"

Assim, o cântaro de Hebe - em oposição à taça de Esculápio, "onde às vezes se abebera a serpente" (e é impossível deixar de sentir aí uma anacrônica ressonância do símbolo cristão do mal) - aparece como um dos recursos da "botânica medicinal universal" a que ele se referia antes. Belamente termina o parágrafo: "e, por onde ela ia, era primavera".

imagens: old parr e hebe (wiki)
.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.