2 de dez de 2010

colóquio de tradução na unimep: marca pessoal e invisibilidade

concluindo o relato de minha apresentação no colóquio em piracicaba:

Mas, quando falamos em coisas tão grandiosas como pretensa neutralidade, originalidade, responsabilidade, na verdade falamos de coisas muito simples.

Pois, na esteira da negação da “marca pessoal” na tradução aparece, como consequência quase natural e automática, a ideia de que o desejável é que o tradutor seja invisível. Isso é um pouco complicado, porque aqui se misturam dois planos que, a meu ver, são muito distintos: o tradutor como sujeito empírico e a obra de tradução em sua materialidade, mas não trataremos disso agora. O que há é que, quando se fala em “invisibilidade” do tradutor ou da tradução, seja em sentido positivo ou negativo, costumamos entender que o termo se refere a um tipo de texto traduzido que não mostra, deixa oculto, esconde, mantém invisível – ou como se queira dizer – o trabalho executado durante a tradução. E que tal resultado é obtido com maior frequência pelo tradutor que tenta deliberadamente não deixar sua marca pessoal na tradução.


Então, a pergunta que se coloca é: mas, afinal, o que seria a marca pessoal que deixo numa tradução? Aquilo em que ela se afasta do original? Mas como, no que ela se afasta do original? Peguemos um exemplo muito simples e conhecido: diante de I swam across the river, o que faríamos? Traduziríamos “eu nadei através do rio”? Pois afinal é assim que está no original:

I = eu
Swam = nadei
Across = através d’
The = o
River = rio

Portanto: eu + nadei + através d’ + o + rio.

Não interfiro, atenho-me estritamente ao original, as palavras passam através de mim como instrumento de transmissão: não deixo minha marca pessoal.

Não faz mal que em português ninguém nade “através” de um rio, pois aqui, hipoteticamente, o que importa é que não posso ou não devo colocar minha marca pessoal – no caso, meu domínio ou minha relação com a língua materna. Em minha língua materna, ouço, falo, leio, escrevo: “atravessei o rio nadando”, “cruzei o rio a nado”, “atravessei o rio a nado” ou similares.

Por outro lado, perante a mesma frase em inglês, eu não reagiria em português dizendo “nadei pelo rio” ou “fui nadando pelo rio”, pois eu acharia que o “pelo” não esclarece se nadei de uma margem à outra ou pelo rio abaixo, se fui no sentido da largura ou do comprimento. No entanto, ainda para a mesma frase, não desdenharia nem torceria o nariz se um colega se saísse com um “nadei até a outra margem do rio”.

Assim, o que se coloca é a naturalidade da língua, a fluência, o uso. E não apenas a fluência no português, mas em primeiro lugar a fluência na língua de partida. É fluente dizer “I swam across the river” em inglês? Sim, tremendamente. É usual. É fluente dizer “Eu nadei através do rio” em português? Não, nem um pouco. É estranho.

Então, onde a tradução se faz mais visível? Em “Eu nadei através do rio” ou em “Atravessei o rio a nado”? Claro que no primeiro caso. Fica visível a estrutura do original, fica evidente o decalque.

Mas não foi justamente aqui que o tradutor tentou não deixar sua marca, tentou ficar invisível? Sim, com quase toda certeza sim. E não foi justamente aqui que seu trabalho de tradução ficou mais visível? Sim, com toda certeza. Inversamente, na solução“atravessei o rio a nado” ou mesmo na mais puxada “nadei até a outra margem do rio”, ambas resultantes de uma intervenção mais marcada do tradutor, seu trabalho se faz menos visível ou mesmo praticamente invisível: como dizem, “nem parece uma tradução”.

Portanto, num paradoxo que me parece interessante, teríamos que o trabalho consciente do tradutor, ao elaborar atentamente seu modo de atuação e imprimir decididamente sua marca no texto, tem muito maior probabilidade de alcançar em sua tradução uma fluência similar à fluência do texto de origem. Dito em outros termos: quanto mais claro e consciente for o trabalho de imprimir no texto de tradução sua marca pessoal, mais invisível será o processo da operação tradutória no resultado final.

Naturalmente, o pressuposto aqui, e que não tivemos muita ocasião de explorar durante minha apresentação, é que, pelo menos num nível simples e básico, estou considerando a chamada “invisibilidade” da operação tradutória como um valor positivo, capaz de ser alcançado com maior segurança pelo exercício sistemático de imprimir um perfil pessoal na tradução, tendo como um dos principais critérios para guiar as escolhas a preservação do tipo de fluência presente no texto de partida.




veja também:


imagem: drowning
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Um comentário:

  1. Gostei muito do texto. Apesar de ter sido aluna do curso de tradução da Unimep, perdi a oportunidade do colóquio. Obrigada pelos bons textos.

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