4 de dez de 2010

parturient montes, nascetur mus

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gosto da expressão de horácio, sintetizando a fábula de esopo: "a montanha pariu um rato". é a impressão que tenho e certamente muitos hão de ter diante de elaboradíssimas elucubrações sobre o ato tradutório, a operação do traduzir ou, mais pedestremente, o ofício de tradução.

acredito que algumas reflexões até podem ser interessantes e pertinentes, mas tenho algumas objeções de saída:
- algumas dessas questões são discussões conceituais que exigem um mínimo de formação filosófica e dificilmente guardam alguma relação direta com o ofício (por exemplo, a metafísica do idealismo romântico alemão generalizada e popularizada por antoine berman)
- outras questões não passam de trivialidades disfarçadas em discurso grandiloquente: no frigir dos ovos, o conteúdo é banal (por exemplo, um relativismo bastante radical extrapolado a partir do acacianismo de que toda tradução apresenta marcas histórico-culturais, como se vê em rosemary arroyo)
- outras ainda confundem problemas diferentes, misturando aspectos que pertencem a uma certa ordem de reflexão, como a chamada "invisibilidade" da tradução, com aspectos comerciais sobre o nível de remuneração que mereceria o tradutor (como em laurence venuti, por exemplo)

minha preocupação maior, porém, é que obras mais ou menos áridas, mais ou menos abstratas e, algumas delas, razoavelmente abstrusas têm sido discutidas e até tomadas como valor de verdade em alguns meios acadêmicos e mesmo extra-acadêmicos, sem que muitos de seus leitores cheguem a entender do que se trata.

assim, se falei longamente no colóquio de piracicaba e depois coloquei por escrito os temas tratados, com vários palavrões pomposos e altissonantes, o que eu quis dizer, no fundo, é que, em grande parte da tradução editorial no brasil, nós praticantes do ofício estamos no nível mais simples e básico da atividade. e aqui meu ponto seria: a gente até pode conseguir atravessar o rio e chegar do outro lado, mas com toda certeza não será nadando através dele.

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