27 de dez de 2010

coleção poeira

.
Acho que a Coleção Folha "Livros que Mudaram o Mundo" devia mudar de nome e passar a se chamar Coleção Poeira.

Vendo o Cândido, ou o otimista, de Voltaire, que sai nesses dias, fiquei mais uma vez decepcionada.


A tradução de Voltaire feita por Jorge Silva foi publicada de início pela editora Atena em 1938, lá se vão mais de setenta anos.


Quem visita o nãogostodeplágio sabe que sou enérgica defensora da preservação de nosso patrimônio tradutório, o qual entre 1995 e 2009 andou sofrendo saques desenfreados. Mas daí até achar que o tempo parou e que desde os anos 1930-1940 não surgiram novas traduções quiçá mais meritórias vai uma grande distância.

Recapitulemos. Nos volumes lançados pela Coleção Poeira, temos:
  • um descarado plágio de uma antiquésima tradução lusitana de 1908: Darwin, A origem das espécies, ainda por cima feita por interposição do francês e crivada de erros grotescos;
  • um lançamento francamente enganoso: o livro de Gabriel Deville, O capital de Karl Marx, resumido e acompanhado de um estudo sobre o socialismo científico, apresentado como se fosse o próprio O capital de Marx em edição condensada, e como se o Estudo sobre o socialismo científico fosse de sua autoria, também em vetusta tradução; 
  • uma edição de Descartes que dá vontade de chorar de tão ruinzinha que é; 
e nada menos que cinco títulos - a rigor seis, pois o volume de Maquiavel agrupa duas obras - com encanecidas traduções da antiga Atena (que fechou nos anos 1960), desde então exaustivamente republicadas por várias editoras - Ediouro, Abril Cultural, Nova Cultural, Agir, Nova Fronteira, Escala, Cultura Brasileira, Livraria Exposição do Livro, Hemus, Edipro - e que até acho que talvez já estejam em domínio público:

  • Maquiavel, O príncipe, tradução de Lívio Xavier, 1933
  • Maquiavel, Escritos políticos, tradução de Lívio Xavier, 1940 
  • Platão, A república, tradução de Albertino Pinheiro, s/d (em 1950 já era a 4a. ed.)
  • Thomas Morus, Utopia, tradução de Luís de Andrade, 1937
  • Aristóteles, A política, tradução de Nestor Silveira Chaves, 1944
  • Voltaire, Cândido ou o otimista, tradução de Jorge Silva, 1938

A Coleção Poeira tinha anunciado que a obra de Pascal, Pensamentos, sairia na tradução de Paulo M. Oliveira, também do baú de nossas avós. Mas aparentemente mudou de ideia, pois substituiu em seu site o nome de Paulo Oliveira pelo de outro tradutor. Apenas notei a troca de nomes, mas não cheguei a comprar o exemplar nessa outra tradução.


De mais a mais, A república de Platão e A política de Aristóteles são traduções do francês um tanto, digamos, superadas, e que em minha opinião têm valor basicamente histórico.


Não entendi muito bem a razão para reeditar esses títulos, em tradução seja espúria, medíocre ou ultrapassada, em tiragens tão grandes e com tanto aparato de marketing.
  • sobre darwin, a origem das espécies, veja aqui
  • sobre gabriel deville, o capital de karl marx, veja aqui
  • sobre descartes, discurso sobre o método e princípios de filosofia, veja aqui
Retificação em 02/01/11: a tradução de Platão feita por Albertino Pinheiro relançada nesta coleção é O banquete, 1943, também pela Atena.


aqui na edição de 1950, em volume duplo
.

7 comentários:

  1. É realmente uma pena que coisas deste tipo aconteçam! Acaba desestimulando muito a leitura. Minha primeira leitura da "Ilíada" foi pela Martin Claret (tradução muito antiga) e achei o livro péssimo. Só recentemente, qd li a tradução de Frederico Lourenço, pude realmente apreciar o livro (que achei que nunca iria gostar). Imagine o efeito dessas traduções em pessoas que raramente tentam ler alguma coisa...
    What a shame!

    ResponderExcluir
  2. Apesar de não trabalhar com tradução, adorei o blog! É muito importante estar de olho nas falcatruas, faço voz ao coro dos que não gostam de plágio.
    parabéns! abs!

    ResponderExcluir
  3. obg, val! volte sempre.
    abraço

    ResponderExcluir
  4. Anônimo19.1.11

    Deus que me livre, mulher, quanta diatribe!

    Já de cara não gostei do seu blog! Está parecendo mais querer se aparecer do que fazer algum tipo de trabalho sério.

    Comprei vários livros dessa coleção da Folha e os achei ótimos. Boa encadernação, boa tipologia, capas originas, e não vi problema algum com as traduções. Talvez, claro, por desconhecer outras versões dos mesmos clássicos. Mas, ainda assim, sem nem entrar no mérito das traduções em si, clássicos como esses, em uma edição boa, a 15,90, popularizando ao máximo a obtenção de itens obrigatórios em qualquer biblioteca que se preze, e você com essa diatribe toda?

    Sinceramente me parece mais a velha tentativa de encontrar, sempre, algo para criticar, ainda que seja de modo aleatório e pueril.

    ResponderExcluir
  5. Anônimo7.2.11

    mais uma trapalhada da Falha de São Paulo. Isto não é um jornal!

    ResponderExcluir
  6. coitada da folha, prezado anônimo! ela tb caiu feita patinha... e sou suspeita para falar da folha, porque ela dá cobertura aos problemas editoriais desde 2004, quando praticamente ninguém falava no problema. e foi a partir das denúncias da folha que me interessei pelo problema dos plágios de tradução...
    seja como for, é uma pena essa coleção.

    ResponderExcluir
  7. eis aqui minha posição sobre o gato por lebre que venderam à folha:
    http://naogostodeplagio.blogspot.com/2010/09/colecao-folha-oropa-e-brasil.html

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.