18 de dez de 2010

lendo walden, XV

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Uma das ideias a meu ver um tanto equivocadas que cercam o mito de Walden é que Thoreau estaria procurando uma vida isolada.

De maneira nenhuma. Quando morava em Walden, recebia muitas visitas, acolhia hóspedes, promovia reuniões na casa; aceitava excursionistas e visitas guiadas de turmas de escolas; ia diariamente, ou quase diariamente, à cidade; visitava os vizinhos nas áreas próximas; era convidado para dar palestras em Concord; costumava jantar na casa de Emerson ou da própria família (consta que, antes de servir a refeição, a esposa de Emerson tocava um sino que Thoreau ouvia em Walden, avisando-o que a comida estava quase pronta). Apenas durante uma ou duas semanas não teve visitas em Walden, devido à intensidade das neves no auge do inverno (p. 252); mas mesmo nesse período ele não deixou de ir à cidade (p. 254). Thoreau podia ser meio brusco e abespinhado no trato com as pessoas, crítico feroz do convívio social superficial, eivado de formalismos e convencionalismos, mas nunca abriu mão da companhia dos amigos e conhecidos, nem mesmo de qualquer potencial público ouvinte.

Eremita ou anacoreta seria uma das mais impróprias descrições de Thoreau. Embora em "Vizinhos Irracionais" ele descreva uma visita de Channing a Walden, para irem à pesca, criando um diálogo entre o Ermitão e o Poeta (pp. 215-217), o parágrafo inicial de "Visitas" parece dar um retrato mais fiel de sua personalidade:
Penso que gosto de convívio social tanto quanto a maioria das pessoas, e rapidamente grudo como sanguessuga em qualquer homem de sangue bom que me apareça pela frente. Não sou ermitão por natureza, e poderia muito bem me converter no mais convicto frequentador de bares, se meus assuntos me chamassem a isso. (p. 139)
A questão - ou o ponto a ser provado - era a autossuficiência, não o isolamento. Se o parágrafo que abre o livro diz "eu vivia sozinho na mata", o ponto que ele destaca é que morava "numa casa que eu mesmo tinha construído" e "ganhava minha vida apenas com o trabalho de minhas mãos" (p. 17). A autonomia do homem, sua independência passava por ser capaz de prover sozinho a suas necessidades. E tanto mais fácil ser autossuficiente quanto mais simples as necessidades.

Por isso Thoreau procede ao arrolamento das "coisas necessárias à vida": alimento, abrigo, roupa e combustível para o aquecimento, sobre as quais discorre entre as páginas 25 e 29. Segue-se uma digressão sobre suas atividades antes de decidir ir para Walden (pp. 29-33), quando, "para chegar logo à parte prática da questão", passa a expor como proveu àqueles quatro "recursos ... indispensáveis".

Começa pela roupa nos aspectos gerais (pp. 33-38), segue para o abrigo também nos aspectos gerais (pp. 38-50), descreve a construção do abrigo em termos específicos, isto é, em Walden (pp. 50-62), então expõe o que fazia para garantir seu pão (pp. 62-71), comentando até surpreendido o pouquíssimo trabalho para obter o alimento necessário para a subsistência (p. 68). Ele registra meticulosamente suas receitas e despesas para demonstrar como era possível viver com pouco e preservar a independência. Há alguns detalhes práticos e até engraçados, que Thoreau menciona apenas de passagem: quem lavava e consertava suas roupas eram a mãe e a irmã, que naturalmente não lhe cobravam nada pelo serviço, e por isso ele não pôde lançar as despesas em sua contabilidade: "tirando lavar e consertar a roupa, que em geral foram serviços feitos fora e as contas ainda não tinham chegado" (p. 67).

Quanto às maneiras concretas de obter roupa e combustível, desconversa:

Assim, quanto à comida, eu já podia dispensar qualquer troca e comércio, e, já tendo um abrigo, faltava apenas conseguir roupa e combustível. As calças que estou usando agora foram tecidas num lar de agricultores (...) e num país novo combustível não é problema. (p. 71)
Em sua crítica à divisão industrial do trabalho e em seu elogio à autossuficiência, a questão é como preservar o máximo de tempo livre. Bens materiais são armadilhas que tolhem a liberdade do homem, roubando-lhe o tempo de uma vida autêntica.

O longo capítulo inicial é o esforço de demonstrar "na ponta do lápis" como é possível escapar a tais armadilhas: descobri que, trabalhando cerca de seis semanas por ano, podia fazer frente a todas as despesas da vida (p. 75); descobri que a profissão de diarista rural era a mais independente de todas, principalmente porque bastavam apenas trinta ou quarenta dias por ano para sustentar uma pessoa (p. 76). Antes disso já comentara: os rebanhos são os pastores dos homens, pois são muito mais livres (p. 64); os homens se enganam em trabalhar e acumular bens, pois "é uma vida de tolo" (p. 19); os dedos não conseguem colher os frutos delicados da vida, pois ficam deformados pelo excesso de trabalho (p. 20); os luxos e confortos da vida são, na maioria, francos obstáculos à elevação da humanidade (p. 27); os avanços modernos não passam de meios aperfeiçoados para um fim não aperfeiçoado (p. 61); um espírito simples e independente não trabalha sob as ordens de ninguém (p. 65)...

Autonomia sim, isolamento não.
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Um comentário:

  1. Quando li o livro ele me bateu como um sutil tratado contra o consumismo. Desde que vc consuma apenas o que realmente necessita, vc não precisa ser escravo do trabalho. Quer dizer o escravo do trabalho de Toureau já é o escravo do consumo desnecessário.

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