13 de dez de 2010

lendo walden, VI

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Uma das frases mais bonitas em Walden:

I long ago lost a hound, a bay horse, and a turtle dove, and am still on their trail.
[Muito tempo atrás perdi um cão de caça, um cavalo baio e uma rola, e ainda continuo a procurá-los. p. 29.]

Essa é difícil, e não sei explicar. Meu consolo é que não sou só eu. 

Dizem do cão de caça: seria o gentle boy Edmund Sewall, a autoria de um livro, a emanação de uma essência, o instinto ou sensibilidade para descobrir o rastro das coisas, uma decepção emocional expressa em termos míticos, uma referência aos antigos poetas persas, o símbolo da natureza, a Verdade, a constelação Cão Maior, uma perda material cifrada segundo os Quatro Livros Chineses, imagem tomada a alguma antiga balada (como "The Twa Corbies"), imagem tomada ao velho folclore irlandês ("The Story of Conn-eda"), referência ao poema de Ermerson "Forerunners", encarnação do sentimento de perda em si, referência a Zadig de Voltaire, mentirinha como pretexto para entrar em propriedades alheias...

Dizem do cavalo baio: seria seu irmão John Thoreau, ter uma propriedade rural, emanação de outra essência, a sagacidade e a força para empreender a busca das coisas, outra decepção emocional expressa em termos miticos, outra referência aos antigos poetas persas, o símbolo do estímulo intelectual, a Bondade, a constelação de Pégaso, outra perda material cifrada segundo os Quatro Livros Chineses, outra imagem tomada a alguma antiga balada (como "The Twa Corbies"), outra imagem tomada ao velho folclore irlandês ("The Story of Conn-eda"), mais uma referência ao poema de Ermerson "Forerunners", encarnação do sentimento de perda em si, outra referência a Zadig de Voltaire, mais uma mentirinha como pretexto para entrar em propriedades alheias...

Dizem da rola: seria sua amada Ellen Sewall, ter a esposa de seus sonhos, emanação de outra essência, a inocência que assegura a proteção divina, outra decepção emocional expressa em termos miticos, outra referência aos antigos poetas persas, o símbolo da purificação espiritual, a Beleza, a constelação das Plêiades, outra perda material cifrada segundo os Quatro Livros Chineses, outra imagem tomada a alguma antiga balada (como "The Twa Corbies"), outra imagem tomada ao velho folclore irlandês ("The Story of Conn-eda"), mais uma referência ao poema de Ermerson "Forerunners", encarnação do sentimento de perda em si, mais uma referência a Zadig de Voltaire, outra mentirinha como pretexto para entrar em propriedades alheias...

Perguntaram várias vezes a Thoreau o que aquela frase queria dizer. Numa das vezes, ele respondeu que nossas experiências são únicas e exclusivas, mas que usamos uma linguagem para expressá-las que é comum a todos. E continuou: assim como os outros tinham perdas pessoais, ele também tinha as suas - e que o cão de caça e o cavalo "deles" talvez até pudessem ser símbolos de algumas das perdas dele, Thoreau.

Aqui talvez seja bom lembrarmos, nós dos centros urbanos do século XXI, que cento e setenta anos atrás, em pequenos povoados rurais (Concord tinha cinco mil habitantes), não era raro que as pessoas perdessem seus cães e cavalos, que volta e meia se extraviavam ou fugiam. Assim, dizer que tinha perdido um cavalo não era nada do outro mundo: fazia parte da vida, e podia ser usado como imagem a partir do common mint da linguagem, para expressar experiências diversas.

Prossegue Thoreau: mas tinha perdido ou estava em vias de perder um bem muito mais etéreo e precioso que nenhuma perda "deles" seria capaz de simbolizar.

Claro, ninguém criava rolas, que viviam soltas na natureza; não eram "bens", ninguém perdia uma rola como se podia perder um cavalo ou um cão de caça - daí também a estranheza da frase para seus conterrâneos: perder um cavalo, ok, deve ser símbolo de alguma coisa que a gente até consiga entender; mas perder uma rola?!

Assim Thoreau explica que escolhera a imagem da rola como símbolo de um tesouro muito mais etéreo, porque essa perda que ele queria expressar não encontraria uma imagem correspondente na experiência e na consciência de seus conterrâneos. Não era um cavalo nem um cão, que, estes sim, eram imagens que (talvez) podiam encontrar correspondentes na experiência e consciência deles.*

Eis aqui o trecho de sua carta a Wiley, em 1857, a mais longa resposta quando lhe perguntavam sobre o significado da passagem:
How shall we account for our pursuits, if they are original? We get the language with which to describe our various lives out of a common mint. If others have their losses which they are busy repairing, so I have mine, and their hound and horse may perhaps be the symbols of some of them. But also I have lost, or am in danger of losing, a far finer and more ethereal treasure which commonly no loss, of which they are conscious, will simbolize.
Seja como for, acho interessante essa clivagem entre o cão e o cavalo, de um lado, e a rola de outro lado - e não só pelo sentido mais evidente de que os dois são animais domésticos que andam na terra e a avezinha selvagem voa livre nos céus. É uma pista que, porém, colocaria algumas ressalvas às interpretações que situam essas imagens no mesmo patamar de abstração simbólica, p.ex., respectivamente: Verdade, Bondade e Beleza; ou sensibilidade, força e inocência; ou livro, terras e esposa; ou natureza, intelecto e espírito...

Há outra resposta de Thoreau: cáustica, curta e que, em sua rudeza, não deixa de ser simpática. A outro curioso, declarou: "Bem, meu senhor, suponho que todos nós temos nossas perdas". (Claro que o interlocutor não gostou e retrucou: "Que bela maneira de responder aos outros".)

Disse Harding, o comentador de Walden que mais cito: a variedade de interpretações é tão grande, e a falta de unanimidade é tão completa que cada leitor fique à vontade para entender essa passagem como desejar.

* Diga-se de passagem: esse conceito de Thoreau sobre si mesmo como uma espécie de detentor ou profeta da verdade, e todo ou quase todo o resto da humanidade tomado de um filistinismo irrecuperável, é o próprio estofo de Walden - como ele deixa claro desde a epígrafe da obra, ao se apresentar como o pomposo chantecler matutino em sua missão de despertar o próximo.


acompanhe lendo walden aqui.

imagem: google images
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