11 de dez de 2010

lendo walden III

Da cidade desesperada você vai para o campo desesperado, e tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados.
Primeiro o dever, depois o prazer; antes a obrigação, então a diversão; que satisfação haveria nesses “jogos e entretenimentos da sociedade”? There is no play in them, for this comes after work. Rotina e distração compõem os dois lados da mesma vida do homem moderno: passar a semana na cidade, ir para o campo no final de semana... Nesse contato com a natureza, vislumbres da liberdade que ele já não possui: “tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados”.

É um bonito exemplo da prosa de Thoreau. Não uma metáfora; antes uma sinédoque: ao contrário da maioria dos homens que levam “uma vida de calado desespero”, os seres na natureza não se desesperam, não se resignam. Não renunciam à liberdade.

E por que a marta e o rato almiscarado? Porque esses animaizinhos, quando presos na armadilha do caçador, roem a própria pata para se libertar. Ver essa coragem deles, tal é o consolo que resta ao homem desesperado.



Parece-me cabível reiterar aqui: as imagens em Walden são concretas, as referências são muito materiais, às vezes brutais. Bravery: não se trata do esplendor ou "magnificência dos visons", nem de um vago "ânimo dos minks", como nos dão algumas traduções em espanhol e português. Trata-se da encarniçada, valente, corajosa luta pela liberdade.
 
Thoreau retomará extensamente a imagem da “armadilha”, e não apenas como imagem. Para isso se servirá da polissemia do termo: trap, armadilha; traps, bens, pertences. Os bens de um homem: armadilha que o aprisiona. E em sua vida resignada, ao contrário da raposa, da marta, do rato almiscarado, o homem já não tem a coragem (ou, diz também Thoreau, a elasticidade) para se desprender deles, para se soltar da armadilha e recuperar sua liberdade.

Thoreau, Walden, trad.Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2010, pp. 21-22.
.

7 comentários:

  1. Anônimo12.12.10

    Que belas estas tuas anotações da obra. Walden é um marco pra mim, na tradução de Astrid. Estou ansioso por reler na tua tradução. Parabéns, estes posts de Walden estão belos e informativos.
    Lucas Petry Bender

    ResponderExcluir
  2. que bom, lucas, obrigada. pois é, o texto parece simples, direto, mas nada nele é fortuito ou gratuito.

    ResponderExcluir
  3. Não sabia da valentia desses animalzinhos, ficava me perguntando porque Thoreau citou esses animais, agora sim faz sentido. Obrigado.
    Robson

    ResponderExcluir
  4. fico contente, robson.
    ele cita rapidamente mais uma vez, adiante, ao criticar o apego dos homens aos bens materiais e é um pouco mais explícito:
    "É como se todos esses pertences estivessem presos ao cinto de um homem, e ele não conseguisse andar pelo campo acidentado onde lançamos nossas linhas sem arrastar junto essa sua armadilha. Teve sorte a raposa que deixou o rabo na armadilha. O rato almiscarado roerá a terceira pata para se libertar. Não admira que o homem tenha perdido sua elasticidade. Quantas vezes ele fica entalado! 'Senhor, desculpe-me perguntar, o que o senhor quer dizer com entalado?' Se você é observador, sempre que encontrar um homem você verá tudo o que ele tem, coitado, e muito do que finge não ter, arrastando-se atrás dele, até seus utensílios de cozinha e todos os trastes que ele guarda e não queimará, e vai parecer atrelado àquilo, avançando a duras penas. Digo que o homem fica entalado quando ele passa por uma fresta ou por um portão, e a carga com a mobília não consegue passar."

    ResponderExcluir
  5. Verdade, o que uma leitura mais atenta nos proporciona. A explicação está no próprio texto mais adiante e eu não captei isso no momento da leitura. Por isso vale o conselho de ler um livro mais de uma vez. Bom, agora lerei na sua versão.
    Falando em mobília, quando estive no museu de Concord esse ano me emocionei ao estar perto da pequena mobília usada em sua cabaninha: uma cama bem rudimentar, a cadeira e a pequena mesa que ele utiliza para escrever.
    Abraço, Robson

    ResponderExcluir
  6. que lindo, robson! e vc me deu uma boa ideia -uma hora vou pôr umas fotos da réplica da casa.

    ResponderExcluir
  7. Denise, se quiser ver meu álbum de fotos lá em Concord:
    http://robneander.multiply.com/photos/album/101/101
    Cheguei ao lago vindo de trem de Boston numa manhã fria e nublada. Depois fui almoçar no centro de Concord, fui ao cemitério, ao museu e a tarde o tempo abriu, um céu azul lindo. Não pensei duas vezes voltei ao lago pra terminar bem o passeio.

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.