14 de dez de 2010

lendo walden, VII

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Eu regava o mirtilo vermelho, a ameixeira brava e o lódão bastardo americano, o pinheiro vermelho e o freixo negro, a uva branca e a violeta amarela, que do contrário mirrariam na época da seca. (p. 31)
Thoreau era um grande botanista: dedicado, atento, sistemático. Coletou mais de novecentos espécimes e classificou cerca de trezentos. Por muitos anos cuidou de várias espécies vegetais raras na região de Concord.

Durante a tradução, passei uns bons dias rastreando a infinidade de plantas citadas em Walden, localizando os nomes latinos e então usando-os como ponte para encontrar os correspondentes em português. Por exemplo, para a frase acima, muito bonita também pela ciranda das cores, eu tinha montado a listinha:

mirtilo vermelho: red huckleberry, Vaccinium parvifolium
ameixeira brava: sand cherry, Prunus prunilla
lódão bastardo americano: nettle tree (hackberry), Celtis occidentalis
pinheiro vermelho: red pine, Pinus resinosa
freixo negro: black ash, Fraxinus nigra
uva branca: white grape, Vitis labrusca
violeta amarela: yellow violet, Viola pubescens

Hoje, com grande alegria, descobri um site fantástico, que não conhecia antes e teria facilitado muito esse trabalho quase insano. Chama-se Botanical Index to the Journal of Henry David Thoreau, um levantamento maravilhoso de Ray Angelo.

Dei uma conferida rápida neste exemplo acima, e apareceu uma discrepância: Ray Angelo dá o red huckleberry (que tomei como o Vaccinium parvifolium) como Gaylussacia baccata, a qual em minhas pesquisas aparece como o black huckleberry. Quando tiver ocasião, vou dar uma boa geral nos nomes que usei, checando com o índice botânico de Angelo, e corrigir eventuais erros que eu possa ter cometido.

Por ora, nessa amostra, sinto até uma pontinha de orgulho que os termos em português estejam bastante exatos. Aliás, um episódio engraçado: um dos revisores, talvez um pouco desatento, queria trocar o frondoso lódão americano (nettle tree, da família dos olmeiros) por uma modesta urtiga (nettle).


A cena até ficaria simpática:
Thoreau regando anualmente um pé de urtiga.

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4 comentários:

  1. Puxa, isso me lembrou uma crônica do Manuel Bandeira sobre Guimarães Rosa, que fala sobre uma tradução que o mineiro tinha pego para fazer para o Reader's Digest. O texto tinha muitos nomes de pássaros e Bandeira contava como Guimarães Rosa tinha enconmendado um livro de pássaros dos Estados Unidos para poder saber exatamente qual era cada um deles e traduzir corretamente o nome de cada um no Brasil.
    Moro a 2 horas e meia de Concord e estou planejando visitar Walden Pond na próxima primavera inspirado por esses posts.

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  2. olá, paulo: que simpático, não sabia! agora, com a grande enciclopédia universal que é a internet, fica mais fácil ;-)
    thoreau era botanista de campo a sério mesmo - um "naturalista", como diziam na época. a leitura mais romantizada vem mais dos anos 60, da contracultura, do elogio a uma natureza poética e harmoniosa etc.

    vá sim, e depois me conte! a coleção botânica de thoreau (ou parte dela) está no herbário da universidade de harvard.

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  3. Jander de Melo15.12.10

    As anotações dos tradutores deveriam ser publicadas. São de grande valia. Aliás, o livro de Modesto Carone ("Lição de Kafka"), que reúne diversos de seus escritos sobre Kafka, é uma prova da profundidade e da utilidade desses comentários e anotações para aqueles que desejam se aprofundar nos autores com os quais possuem afinidades.
    Enfim, um mimo esses comentários de tradução.
    abraços,
    J.d.M.

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  4. que bom, jander, fico muito feliz que vc pense assim. tb acho que essas notas de leitura em obras mais complexas podem ser úteis - pois o que aparece no texto pronto é só aquilo, meio opaco, que a gente torce que seja fluente, legível, mas não tem como a pessoa entender a riqueza toda da coisa.

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