16 de dez de 2010

lendo walden, IX

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O segundo aspecto mais visível na estruturação de Walden é o ordenamento temporal dessa distribuição temática, que comentei no post anterior. O texto cobre o ciclo de um ano, com suas quatro estações. Começa nos meados do verão, avança para o outono, detém-se bastante no inverno e termina nos meados da primavera. Longe de abarcar os 26 meses de permanência de Thoreau em Walden, Walden mal chega a onze meses: vai do começo de julho ao começo de maio do ano seguinte.

Como diz Thoreau no final do último capítulo, "Primavera", esticando um pouco as datas e apontando a superfluidade em se prolongar: "Assim se completou o primeiro ano de minha vida na mata; e o segundo ano foi muito semelhante a ele". (p. 301)

Este arco temporal que se estende de "Onde e para que vivi" até a "Primavera", deixando como abas laterais o capítulo de abertura, "Economia", e a conclusão, é um milagre de flexibilidade estilística. A meu ver, é o aspecto mais importante da estruturação da obra, tanto por encapsular quase invisivelmente os aspectos mais simbólicos e metafísicos, quanto por conseguir criar uma aparência de naturalidade empírica, palpável, realmente impressionante do começo ao fim.

Deve ter sido bastante complicado, em termos literários, conseguir compatibilizar o ordenamento temático dos capítulos com as linhas de força temporais, sem que em momento algum estas viessem a travar a apresentação dos mais variados assuntos, criteriosamente distribuídos entre os capítulos. Considero um feito magistral, um trabalho de gênio. Não o uso do ciclo anual em si como forma de condensação da experiência - que até pode ser interessante, mas é um tanto trivial. O que me parece de gênio é a tremenda plasticidade que Thoreau conseguiu imprimir nessa interação temática/ temporalidade - ainda mais se considerarmos como é fácil cair na diluição dramática ou expressiva quando se usa esse tipo de enquadramento temporal como mero recurso de síntese.

O que provavelmente contribui para essa proeza deve ser a implícita noção de circularidade do ciclo das estações. Talvez tenha sido com essa cumplicidade do senso comum que Thoreau contou, ao escolher o ciclo do ano para ser o molde de Walden. Mas essa noção de circularidade, também ela pertencente ao common mint que Thoreau mencionava a propósito da linguagem - aqui transposto para aquele armazém de conceitos do senso comum de seus semelhantes -, seria, para as finalidades dele, sem dúvida necessária, mas apenas implícita, apenas, repito, como um piscar de olhos de cumplicidade: "sei do que você está falando, faz parte de minha experiência".

Pois, no fundo, no fundo, as coisas não batem, o ciclo não fecha, há uma abertura, que não consigo localizar bem onde, mas é por onde essa circularidade é necessariamente superada. Não é a noção de uma circularidade em espiral (embora esse conceito também apareça no texto), nem de uma porosidade, e muito menos de um fraturamento, este não, em momento algum. Embora seja apenas uma intuição, creio que seria este o elemento que, para Thoreau, daria sentido a Walden, para além da piscadela do common mint. Sei que esse elemento guarda algum tipo de relação com o substrato temporal em sentido amplo, conta com os préstimos do significado simbólico dos ciclos naturais, não tem nada de místico ou religioso como eternidade ou imortalidade, e que provavelmente é o que dá sustentação - ou elevação, podendo talvez operar, digamos assim, como fator antigravitacional - ao edifício de Walden.

Se conseguir localizá-lo, virei correndo avisar.

imagem: four seasons
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