6 de dez de 2010

coleção folha, o capital de gabriel deville III

estabelecido que le capital de karl marx é uma obra de divulgação de gabriel deville, montada em 1883 a partir da tradução francesa de j. roy do das kapital, entendo que a apresentação correta desse resumo em português seria: gabriel deville, o capital de karl marx, como fez, por exemplo, a editora cultura nos anos 1940:

ou:

todavia, vimos que não é o que tem ocorrido: mencionei as edições da melso, da ediouro, da edipro e da coleção folha.

abro a edição da coleção folha: não bastasse ter marx virado o autor do aperçu sobre o socialismo científico e do resumo de deville, vejo lá um "prefácio do tradutor".

qual tradutor?, pergunto-me eu. e vejo ali que se trata do prefácio de gabriel deville, de 1883, onde justamente ele explica que montou seu apanhado seguindo a tradução francesa existente, feita por joseph roy.

como o préface do original se transformou em prefácio da tradução é mais um daqueles mistérios que só acontecem no brasil, e que não consigo desvendar. outra curiosidade é como a data do prefácio original - 10 de agosto de 1883 - se transformou no "prefácio da tradução" em 10 de outubro de 1883. e engraçado também como a remissão original de deville, em seu pós-escrito, às páginas 24-25 e 59-60 de le capital de karl marx, é mantida literalmente na edição da folha (p. 18), sem qualquer correspondência de fato no volume brasileiro.

o prefácio e o pós-escrito de deville não constam na edição melso. a tradução deles nessa edição da folha é sofrível: tenta-se um decalque que acaba se tornando ininteligível. por exemplo, ce que j'ai écrit dans d'autres conditions d'âge et par suite de connaissance é dado como "o que escrevi em outras condições de idade e após aprendizado" [p. 17; seria algo como "o que escrevi em outras condições de idade e, portanto, de conhecimento"].

já a tradução do aperçu e do resumo na edição folha/edipro, em nome de murilo coelho, é praticamente idêntica à tradução revista por gesner de wilton morgado, na edição que saiu pela melso 50 anos atrás. ambas guardam a mesma razoável distância e as mesmas discrepâncias em relação ao original em francês:
I

COLLECTIVISME OU COMMUNISME


Il y a six ans, la classe ouvrière qui n'était pas encore remise de l'épouvantable saignée de 1871, avait abandonné la tradition révolutionnaire et n'attendait plus son affranchissement que des associations coopératives généralisées. Les mots parti ouvrier et collectivisme, aujourd'hui passés dans notre langue politique, étaient, peut-on dire, inconnus ; les idées qu'ils représentent ne comptaient plus en France que de rares partisans, sans lien, sans possibilité d'action commune.

C'est le journal l'Égalité fondé, à la fin de 1877, sur l'initiative de Jules Guesde et dirigé par lui, qui a seul donné l'impulsion au mouvement socialiste révolutionnaire actuel. Tel est le fait que ne réussiront pas à effacer les personnalités envieuses empressées à le masquer, ou tout au moins à l'amoindrir, ayant bien soin, dans leurs prétendues histoires, de cacher les dates qui ne laissent aucun doute à cet égard.

A ce moment, il y avait utilité à distinguer le communisme scientifique sorti de la savante critique de Marx, du vieux communisme utopique et sentimental français. La même dénomination pour deux théories différentes aurait favorisé une confusion d'idées qu'il était essentiel d'éviter ; aussi avons-nous alors exclusivement employé le mot collectivisme.
Maintenant, nous écrivons collectivisme ou communisme indifféremment. Au point de vue de leur dérivation, ces deux termes sont également exacts; au point de vue usuel, ils ont les mêmes inconvénients. S'il y a eu un communisme dont nous devions nous distinguer, il y a des formes de collectivisme, les diverses contrefaçons belges par exemple, que nous répudions. L'important est de connaître non pas l'étiquette que chacun prend, mais ce que chacun met sous son étiquette.
edição melso, tradução revista por gesner de wilton azevedo (1961)

 

edição coleção folha, tradução de murilo coelho (2010)

contribuindo de passagem para a hipótese de que a tradução revista por gesner era lusitana, note-se na edição da melso a grafia de "carlos", "empregámos", "teem", "diferençar", e adiante "póde", "quasi", "jámais", "gráu", "sólo", ou as construções "em frança" e "facilidades que se irão aumentando". mas a questão, aqui neste contexto, é quase secundária. o que quero apontar é que essa tradução publicada pela folha é reedição, apenas com a ortografia atualizada, de uma tradução bastante antiga, que nas edições brasileiras anteriores não trazia créditos indicando sua autoria.

outra não pequena desinformação é a que consta na página de divulgação da coleção folha: essa obra de deville seria o "único resumo autorizado por Karl Marx, com o intuito de popularizar suas ideias na camada operária".

em verdade, marx teria autorizado vários resumos:
Versões resumidas para operários também apareceram em fins do decênio de 1870 em sérvio e inglês (esta publicada nos Estados Unidos). A edição italiana, feita por Carlo Cafiero, foi autorizada por Marx e publicada em 1879. No ano seguinte, Marx autorizou o anarquista Domela Nieuwenhuis a publicar um resumo popular em holandês. A obra saiu em 1881 (Ferdinand Domela Nieuwenhuis. Karl Marx. Kapital en Arbeid, s´Gravenhage, 1881). Na mesma época ele colaborou com Johannes Most numa edição resumida em alemão. No ano da morte de Marx foi editado o resumo francês (Gabriel Deville. Le Capital de Karl Marx, resumé et accompangé d´un aperçu sur le socialisme scientifique, Paris, 1883).
in Lincoln Secco, Leitura e Difusão de O Capital de Karl Marx, p. 12
ainda no mesmo release da coleção folha, consta que a obra de deville foi "publicada em 1883 e revista em 2010". o que significa "revista em 2010"? a antiga tradução revista por gesner, sim, pode ter sido re-revista em 2010 para essa edição da folha, e só.

restam algumas dúvidas: quem é murilo coelho? quando foi feita essa sua tradução? onde e quando foi inicialmente publicada? por que a ediouro, em suas várias edições, não havia lhe dado os créditos de tradução? por que a melso, em sua edição, preferiu apenas apontar que se tratava de uma "tradução revista por gesner de wilton azevedo"? e por que a folha em sua coleção "livros que mudaram o mundo" escolheu uma tradução, seja de quem for, tão fraquinha e com algumas informações aparentemente tão erradinhas?

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


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2 comentários:

  1. Ana Helena Souza7.12.10

    Denise,
    parabéns pelo trabalho incrível que você vem desenvolvendo no nãogostodeplágio. É fundamental que informações como essas sobre a edição da Folha sejam divulgadas. É um presente para nós, leitores e tradutores, que sejam divulgadas com tanta competência.
    Obrigada e grande abraço,
    Ana Helena

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  2. ola´, ana helena, muito obrigada.
    esse caso do marx acho um acinte para além de qualquer medida...

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