26 de mar de 2009

o preço do mito

ainda sobre o mito do preço baixo das edições da claret.

joana canêdo deixou um comentário sob a listinha dos plagiados. destaco um trecho: "essas 'traduções' da Claret ... trazem erros crassos que deturpam o sentido original do texto ... esses livros, por mais baratos que sejam, não valem o que custam, já que trazem textos inexatos, mal escritos, e com erros conceituais".

estou me delongando sobre o tema para chegar ao que, para mim, é o fundamental. temos que, independente do nome do tradutor:
1. está demonstrado que as edições da claret não são as mais baratas.
2. foi bem lembrado que não são edições de conteúdo fidedigno.

o terceiro ponto, não sei bem como colocar. é meio difuso. uma vez falei em "bagagem cultural", mas a metáfora de "bagagem" me faz pensar numa mala que você abre e vai pondo coisas dentro, e que depois carrega consigo. não é isso que quero dizer. para mim, é mais uma espécie de lar no mundo, onde posso ter referências e me sentir mais ou menos à vontade. vou dar um exemplo, pegando justamente o mito do preço III.

acho sensacional que o brasil disponha de uma tradução das regras do método sociológico feita por maria isaura pereira de queiroz. tudo bem, não se precisa saber quem é, em termos intelectuais, maria isaura ou sequer quem foi e continua a ser durkheim para o mundo do pensamento. tem lá o livro, o professor manda ler, a gente vai e lê. que chatice. não se entende nada, ou é árido demais, em todo caso é uma tarefa escolar, bate-se o cartão e pronto.

outro dia, alessandro martins, do livro e afins, pegou muito bem esse ponto. ele não é novinho, mas também não é velhinho. e dizia: tive de estudar a escola de frankfurt na faculdade, sabia que era importante, mas detestava aquilo, só que uma passagem do benjamin me pegou, e vejam só o que achei nesses dias, aquele trecho do benjamin sobre o anjo da história, que coisa linda.

então é meio isso. você é jovem, tem que ler umas coisas, lê por obrigação. dez, quinze anos depois, você topa com aquilo de novo, e tem um clique, faz um sentido que não fazia antes, é legal. você reconhece, e você se reconhece, e você se reconhece no mundo. você reconhece porque conheceu antes, você se reconhece porque você lembra aquilo e se lembra naquilo ou com aquilo, e você se reconhece no mundo porque aquilo continua a existir e de alguma maneira agora faz parte de você também, e você se sente um pouco mais "aconchegado", um pouco mais referenciado, e ao mesmo tempo um pouco mais ligado ao que está fora de você, tudo isso meio junto ao mesmo tempo, e de maneira muito difusa e discreta.

você lê as regras do método. nem vê quem traduziu ou deixou de traduzir. mas no resumo ou na prova ou de alguma outra maneira aquele nome "maria isaura" fica vagamente, indistintamente na tua cabeça. dois semestres depois, você tem uma cadeira tediosíssima sobre, sei lá, relações de tipo patriarcal no brasil, e tem lá uma referência a um livro, mandonismo local, maria isaura. você cumpre os créditos, tira A, B ou C, passa, tudo bem. nesse meio tempo você vai fazendo outras cadeiras, e pode até ser que você acabe gostando por acaso de alguma coisa. você vai, faz alguma dissertação de final de curso ou vai para o mestrado, resolve estudar a disciplinarização social ou coisas que tais. aí você topa com uma socióloga brasileira que apontava a importância do discurso científico para a repressão social, e acha interessante. vai ver, é maria isaura pereira de queiroz.

e você, mesmo que não conheça a obra dela, não se sente totalmente perdido ou meio idiota por nunca ter ouvido falar nela, sente uma espécie de longínqua familiaridade que te ajuda a raciocinar melhor, a ficar mais à vontade no mundo do pensamento, coisas assim. e no final do dia você se sente feliz porque o dia rendeu, amanhã você vai ver aquele outro ponto, ou vai reler o que anotou hoje etc. você se sente grato ao mundo por ele não ser demasiado inóspito. claro que nem vai perceber muito como se sente e menos ainda atribuir teu estado de espírito a ter reconhecido o nome de maria isaura ou o que seja. você apenas vai passar bem o dia, e se sentir satisfeito ao final dele. e talvez trinta anos depois você fique impressionado com o alto nível das pessoas que traduziam as obras que você lia na adolescência, e se dê conta retrospectivamente que afinal foi um bom acaso você ter escolhido aquele volume, e não um outro de um tal pietro nassetti, que te daria, para tua vida, para tua biografia íntima, para teus pensamentos, apenas decepção ou, na melhor das hipóteses, nada.

pois tudo soma. o durkheim da maria isaura que você leu aos 18 anos no primeiro semestre de curso, o mowgli do monteiro lobato, o baudelaire do jamil almansur, a eneida do odorico mendes que vc achou do outro mundo de tão difícil, mas tão encantadoramente exótico, o rimbaud do ivo barroso, o adorno/horkheimer do guido almeida, ou até a hannah arendt da denise bottmann :)) - você não percebe, você só lê. mas o mundo vai revelando uma certa consistência, e você não se sente perdido demais, você tem referências, são soltas, avulsas, milhares, milhões de fiapinhos, e elas se somam, se juntam às músicas que você conhece, às conversas que você tem, às coisas que você faz, vão sendo você, e você se sente bem. é uma espécie de identidade íntima. acho isso legal.

para mim, o preço do mito claretiano é perder ou não permitir criar referências. parece-me um preço altíssimo, e que destrói qualquer amor-próprio.

imagem: chiho aoshima, creatures, http://www.blumandpoe.com/

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