12 de mar. de 2010

revisão da lda, consulta pública

Jotabê Medeiros

Em abril, o governo vai dispor para consulta pública o novo texto da Lei dos Direitos Autorais

ESGOTADOS: Também será permitida a cópia de livro ou disco com edições esgotadas (fora de catálogo e do mercado por no mínimo 5 anos)

''Direito do autor é precário no Brasil''
Jotabê Medeiros

Ministro Juca Ferreira: A legislação brasileira é muito ruim sob esse aspecto. Não reconhece a cópia privada, muitos escritores no Brasil têm sua obra esgotada e a editora não tem interesse em reeditar e a obra do autor cai no esquecimento.

imagem: dlivros

leopardo/hemus

a editora hemus, depois de mais de quatro décadas de existência (inicialmente com o nome de "livraria exposição do livro"), foi recentemente incorporada como selo editorial à editora leopardo.

o selo hemus conta com nove coleções, entre elas ficção & literatura e filosofia. os 26 títulos que compõem a coleção de ficção e literatura já eram publicados desde os anos 1970 pela antiga hemus. o mesmo se aplica aos 21 títulos constantes na coleção de filosofia apresentada no site.

fico um pouco ressabiada pois a antiga hemus andou praticando coisas que não são bonitas e até andou licenciando suas pseudotraduções para outras editoras, entre elas a ediouro e o círculo do livro.

aqui no nãogosto apresentei quatro edições complicadas da hemus, a saber: charles darwin, a origem das espécies; fustel de coulanges, a cidade antiga; émile zola, germinal, e émile zola, a besta humana. havia outras esquisitices em seu catálogo dos anos 70 e 80, mas, como a hemus tinha praticamente desaparecido de circulação, considerei que havia outras fraudes mais recentes e mais urgentes a combater.

no entanto, agora constato que pelo menos as obras de darwin e fustel permanecem no atual catálogo da leopardo, aliás com destaque na seção "hemus recomenda" do catálogo de 2010, disponível em pdf  (pp. 31-32). aí a coisa complica e obriga os leitores a redobrarem a atenção em relação às demais obras atualmente publicadas pelo selo hemus.


imagem: logo leopardo

10 de mar. de 2010

não me confundam


um pouco de leveza e voltando ao que realmente importa!

recomendo vivamente a leitura de singelo mundo, eu também não. há ali questões inteligentes e bem postas, com (quase sempre) elegância e humor.

ando um pouco cansada, mas retornarei com calma aos temas ali colocados. enquanto isso, peço que leiam a tag fnda e minha proposta para resgatar obras esquecidas no limbo editorial e no fundo do baú mofado das editoras em:
quanto ao velhíssimo e falso argumento do pretenso preço baixo das edições de obras plagiadas, basta ver quanto custam as edições apontadas da landmark, da madras, da ediouro, da jardim dos livros, da hemus e mesmo das edições pseudobaratas da rideel. quanto à fantasia de que as edições plagiadas da martin claret seriam baratas, ver:
recomendo também a carta de são paulo pelo acesso a bens culturais e o manifesto pelo domínio público.


imagem: calder, mobile, google images
 
visite também as matérias na mídia imprensa e digital
e as manifestações na blogosfera: arquivo

o darwin da ediouro

a extensa matéria do correio braziliense, num excepcional trabalho de levantamento e entrevistas feito por nahima maciel de souza, traz uma declaração da ediouro que não entendi muito bem.
A Ediouro também está citada [no blog nãogostodeplágio] com uma tradução suspeita de A origem das espécies, de Charles Darwin. Paulo Roberto Pires, editor da empresa, explica que a obra foi licenciada pela Hemus, outra editora citada frequentemente nos cotejos de Denise. "Agimos como todas as editoras: contratamos profissionais para traduzir cada um dos lançamentos. São profissionais de tradução, não editores. Comprar traduções já prontas pode ser um recurso, ao qual se lança mão em se tratando de textos clássicos em domínio público — é disso, principalmente, que trata a Denise. Quando contratamos traduções já prontas, obviamente pagamos aos tradutores", diz Pires.
desde dezembro de 2008 avisei várias vezes a ediouro sobre os vícios dessa pretensa tradução d'a origem das espécies. explicaram-me que o título fazia parte de um contrato de licenciamento celebrado com a editora hemus em 1985, e tem sido publicado pela ediouro em inúmeras reedições até o presente. está disponível no googlebooks, para visualização parcial, onde, aliás, consta copyright (e não licenciamento) da tradução desde 1987 em nome de ediouro publicações s/a.

o que não entendi muito bem é por que a ediouro, sabendo já há algum tempo que se trata de uma tradução fraudada, prefere mantê-la em catálogo.

itens relacionados:
diga-se de passagem que, em setembro de 2009, dei entrada a um pedido de representação no ministério público do rio de janeiro sobre a edição d'a origem das espécies pela ediouro, conforme noticiei no balanço de 2009. ele foi protocolado para distribuição em outubro. o promotor deferiu minha petição e em novembro foi enviada uma notificação à editora, a qual pediu um prazo de 120 dias para se manifestar, contado a partir de dezembro. a segunda promotoria do estado do rio de janeiro informa que o prazo finda agora em março, quando o caso retornará às vistas do promotor dele encarregado.

9 de mar. de 2010

editoras

deu no site da lpm:

Mais de 2 mil assinaturas apoiam tradutora que denuncia plágio
 Por L&PM Editores em 08/03/2010
O manifesto ancorado por Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone C Benedetti, em defesa da tradutora Denise Bottmann bateu a marca de mais de 2 mil assinaturas. O abaixo-assinado teve início quando a tradutora divulgou que estava sendo processada, ao lado de Raquel Sallabery, do Jane Austen em português, por denunciar plágios nas traduções da Editora Landmark, em seu blog Não gosto de plágio.

O plágio nas traduções é um crime de direito autoral e torna a concorrência no mercado editorial desleal. Além disso, a Landmark pede que o blog de Denise seja retirado do ar, invocando o direito de esquecimento, antes mesmo do julgamento da ação.

O blog permanece no ar e atualizado com notícias sobre a repercussão do caso nos meios de comunicação. Vale a pena conferir as diversas questões que estão sendo debatidas, incluindo o código de ética da CLB e questões mais profundas sobre o mercado editorial, além, é claro, de links para todos os blogs e sites que estão apoiando a tradutora.

Confira abaixo o manifesto completo, e aqui, o link para apoiar Denise. [segue-se a íntegra do manifesto]*
* negritos meus, db.

entendo que a posição da lpm, bem como a da crisálida e da cosac naify, demonstra claramente que a luta contra o plágio interessa a todos, e diretamente às editoras íntegras e honestas que se veem acossadas por práticas de concorrência desleal no mercado.

torço vivamente para que outras editoras e as entidades do livro no país assumam a clara defesa da idoneidade do setor, manifestando também seu apoio à luta contra o plágio.

visite apoiodenise.wordpress.com

acompanhe também o arquivo atualizado de notícias e matérias

comunicado da madras

recebi um comunicado pela mala direta da editora madras. aqui transcrevo seu teor, com a autorização do sr. walter veneziani costa, responsável pela editora e membro integrante da atual diretoria da cbl.
Prezados clientes e parceiros, 
A pedido do nosso editor, Wagner Veneziani Costa, encaminho a seguinte nota que será inserida no site da Madras (http://www.madras.com.br/)*, no link de cada uma das obras mencionadas:
Nota do Editor:

A Madras Editora informa a seus clientes que excluiu do seu catálogo cinco títulos de obras, pois estas passarão por novo processo de tradução, revisão e produção editorial.

Aguardem, pois em breve estarão disponíveis para aquisição no mercado editorial.

São elas: A Origem das Espécies, de Charles Darwin; A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe; Seleções de Flavius Josephus, de Flávius Josephus; A Origem da Tragédia, de Friedrich Nietzsche; e Meditações de Marco Aurélio, de Marco Aurélio. [links meus, db]
*veja-se aqui a inclusão da nota supracitada

o nãogostodeplágio saúda a pronta disposição do sr. wagner veneziani em tomar tais providências.

não duvido que, tão logo saiam as edições legítimas dessas obras - seja em novas traduções, sejam as mesmas traduções, desadulteradas e devolvidas à sua forma original, com os devidos créditos a seus autores -, a editora madras se prontificará a substituir os exemplares espúrios que atualmente se encontram nas estantes de lares, escolas e instituições em geral.

por outro lado, espero que o setor livreiro poupe à editora madras o constrangimento de exigir intimação ou mandado judicial para cessar a venda dos títulos supracitados, como tem feito, por exemplo, a livraria cultura.

itens relacionados:

8 de mar. de 2010

comunicado internacional



Comunicato Stampa

La Sezione Traduttori in appoggio a Denise Bottmann

Roma, 8 Marzo 2010

È notizia di questi giorni il caso che riguarda una illustre quanto coraggiosa traduttrice brasiliana, Denise Bottmann, autrice del blog "Não gosto de plágio" (Il plagio non mi piace). La Bottmann si batte da anni contro la pratica del plagio delle traduzioni letterarie, di cui ha raccolto svariati e documentati esempi sul suo blog, tanto da conquistare l'attenzione di alcuni organi di stampa con servizi, reportage ed editoriali sul tema. Ciò che accade in Brasile, analogamente ad altri paesi del mondo in cui il diritto d'autore non sempre viene rispettato, è che alcuni editori si appropriano indebitamente di traduzioni ormai fuori catalogo e, dopo una superficiale operazione di editing-maquillage, le rimettono in commercio come se fossero opera di nuovi traduttori, a volte identificati da nomi di fantasia. Le denunce riguardano autori del calibro di Jane Austen (prima traduzione di Orgoglio e Pregiudizio risalente agli anni '40, ripubblicata in ben due diverse edizioni negli anni '80 e nel 2001) ed Emily Brontë, ma anche Nietszche, Darwin, Pirandello, Scott Fitzgerald e molti altri.

Nello scorso mese di febbraio la Bottmann è stata oggetto di una denuncia penale da parte della casa editrice Landmark, responsabile della pubblicazione di alcune delle opere le cui traduzioni sono state documentate come plagio. La denuncia è accompagnata dalla richiesta di: una somma ingente di danni materiali e morali; la chiusura e cancellazione del blog sul plagio in nome del "diritto all'oblio"; la celebrazione del processo a porte chiuse.

Un nutrito gruppo di traduttori letterari brasiliani, insieme a numerosi colleghi sparsi in tutto il mondo, si è mobilitato in favore di Denise Bottmann con un manifesto e una petizione a sostegno dei quali si è schierata anche la Sezione Traduttori del Sindacato Nazionale Scrittori.

Tale petizione risponde alla necessità di dare la più ampia eco possibile alla vicenda del plagio delle traduzioni letterarie, in considerazione del fatto che tale pratica è in palese contrasto con la Legge sul Diritto d'Autore, che considera il traduttore come autore di opera derivata salvaguardandone i diritti morali e patrimoniali. Inoltre, questo tipo di plagio configura il reato di concorrenza sleale in quanto le case editrici in malafede, non accollandosi i costi dei diritti di traduzione o non pagando una ritraduzione, mettono in posizione di svantaggio gli editori che, facendosi carico di questi costi, rispettano la legge e la deontologia. Infine, la pratica del plagio mette in pericolo il patrimonio culturale del paese, promuovendo la distribuzione di copie fraudolente di traduzioni che spesso, in origine, erano firmate da nomi riconosciuti e stimati della letteratura brasiliana.

Anche la Sezione Traduttori del Sindacato Nazionale Scrittori, nell'esprimere a Denise Bottmann la propria solidarietà, si unisce a tutti coloro che desiderano contrastare, con le parole e con i fatti, la pratica criminale del plagio, in difesa della cultura, dei lettori e del diritto al riconoscimento della paternità dell'opera di traduzione, senza mai dimenticare che anche il traduttore - come recita il motto della nostra Sezione - è "un autore a tutti gli effetti".

SEZIONE TRADUTTORI-SNS

o comunicado do sns-st está disponível para download.
clique aqui.

o código de ética da cbl

na longa matéria do correio braziliense sobre os plágios de tradução, há várias declarações interessantes. joana canêdo, em matéria para reflexão, comentou a posição do sr. fábio herz, proprietário da livraria cultura.

outra posição que merece atenção é a da câmara brasileira do livro (cbl), na figura de sua presidente, sra. rosely boschini. declara ela:
Ações isoladas de empresas associadas que ferem o desenvolvimento do mercado devem ser rechaçadas, quando devidamente comprovadas. Porém, não cabe à CBL o papel fiscalizador de referidas empresas. Também não acreditamos que a nossa instituição, com tantos anos de serviços prestados em prol do livro, possa ser atingida por práticas de um número reduzido de agentes do mercado que ferem regras básicas do setor.
há alguns detalhes aí que poderiam ser esmiuçados, mas julguei que não seria o caso, pois afinal de contas, conforme me alertou joana canêdo, a cbl dispõe de um código de ética para seus associados determinando que:
Art. 8º Os Associados da Câmara Brasileira do Livro devem, obrigatoriamente, observar as seguintes condutas:
I – respeitar os direitos autorais, combatendo o plágio e a reprodução não autorizada de textos e imagens [negritos meus, db]
pessoalmente, fiquei satisfeitíssima ao saber que a cbl tem clareza de que é obrigação de seus associados combater o plágio e a contrafação. o citado código se encontra disponível aqui: código de ética da cbl.

li atentamente o texto, e notei que ele não trazia data, especificando em seu último artigo que "Este Código entrará em vigor na data de sua aprovação pela Assembleia Geral".

costumo ser meticulosa em relação a dados, datas e informações, e então escrevi um e-mail ao diretor executivo da cbl, sr. eduardo mendes, congratulando vivamente a entidade por um código de ética tão atento a esse nefasto problema dos plágios e contrafações e pedindo informações sobre a data em que ele fora aprovado.

como não obtive resposta, um ou dois dias depois consegui falar diretamente com a sra. rosely boschini. parabenizei a cbl pelo zelo expresso no artigo 8, e também procurei me informar sobre a vigência do código. a presidente da cbl me esclareceu que ele ainda não entrara em vigor, pois estava-se aguardando a realização da próxima assembleia geral para ser aprovado. ok, dei-me por satisfeita.

no dia seguinte, ligou-me dra. fernanda, do departamento jurídico da cbl, em nome do sr. eduardo mendes, dispondo-se com muita gentileza e eloquência a fornecer as informações que eu solicitasse. repeti a ela o teor do e-mail que tinha enviado ao diretor executivo da cbl e, antes que eu terminasse a frase esclarecendo que a sra. roseli já havia respondido minha dúvida, dra. fernanda informou que o código de ética estava em vigor já fazia muito tempo. fiquei um tanto surpresa, e prontamente dra. fernanda solicitou a uma assistente que fosse buscar a ata da assembleia com a aprovação do referido código. logo a seguir, ela me informou que fora aprovado na assembleia geral realizada em 11 de junho de 2006.

quando finalmente pude comentar que, em conversa com a sra. boschini no dia anterior, ela me informara que o código ainda não fora aprovado pela assembleia e, portanto, ainda não estava em vigência, dra. fernanda explicou que muito provavelmente a presidente da cbl havia se confundido, e deu a conversa por encerrada.

ora, como expliquei tanto à sra. rosely quanto ao sr. eduardo mendes e à dra. fernanda, meu intuito ao entrar em contato com eles era simplesmente pedir uma informação trivial sobre a data de entrada em vigor do código, para redigir um post saudando seus termos. mas, em vista da dúvida - está em vigor? não está em vigor? foi aprovado? ainda não foi aprovado? -, aqui registro apenas os desencontros de informação.

em minha singela opinião, seria desejável que a presidência, a diretoria executiva e o departamento jurídico da câmara brasileira do livro se pusessem de acordo sobre dados tão elementares acerca de algo que, de meu ponto de vista de cidadã preocupada com a idoneidade do setor editorial, é de suma importância.

agradeceria muito se a cbl pudesse informar inequivocamente aqui aos leitores do nãogostodeplágio se, afinal, seu código de ética já entrou em vigor ou não.

6 de mar. de 2010

o xis da questão

a questão das livrarias como agentes de distribuição de obras fraudadas é complicada.

vejamos um exemplo. eis duas declarações do sr. martin claret admitindo o recurso ao plágio na edição d'a república de platão publicada por sua editora:

"O editor Martin Claret, dono da Editora Martin Claret, admite que 'sua' edição de A República, de Platão, é plágio da edição da Fundação Calouste Gulbenkian. [...] Martin Claret diz que está providenciando nova tradução. [...] O editor diz que também estuda entrar em contato com a editora portuguesa, para tentar obter a autorização legal da tradução." - jornal opção

"Em conversa por telefone com a Folha nesta semana, Claret assumiu ter indenizado Modesto Carone por causa das traduções de Kafka [...] Reconheceu também a cópia de A República [...] 'Eu estou assumindo a responsabilidade'." - folha de s.paulo

passados quase três anos, a edição continua à venda, por exemplo, na livraria cultura.

a ambígua posição do sr. fábio herz, seu proprietário, preferindo transferir a decisão de suspender a venda de obras ilícitas de sua alçada empresarial para a alçada judicial, tem provocado vivas reações:
  • oséias ferraz, da diretoria da libre, crisálida editora e livraria: "Bom seria se os livreiros agissem em defesa do leitor e retirassem de comércio essas edições espúrias. Infelizmente a maior parte prefere fingir que não sabe ou usar o recurso legalista de "só tiraremos de comércio se formos citados judicialmente".
  • joana canêdo, em nãogostodeplágio: "Eu penso assim: quando um comerciante recebe um produto ruim de seu fornecedor, ele pode (e deve) se recusar a vendê-lo, no mínimo por respeito a seu cliente, talvez pelo bem de seu negócio, mas não apenas porque a justiça ordenou. Um supermercado não vai esperar ser acionado pela justiça por ter vendido iogurte estragado: ele vai tirar o iogurte ruim da prateleira, mesmo antes de vencer a data de validade, caso verifique, empiricamente, que não está mais bom. Não vai precisar de prova forense para isso, não vai esperar que um fiscal da Anvisa venha lhe dizer para retirar".
  • alessandro martins, em livros e afins: "[E]stou certo de que o senhor Fabio Herz tem algo a acrescentar à sua declaração que, eventualmente, descontextualizada, editada – como costumam ser editadas as declarações nos jornais -, pode ter sido ela (a declaração) privada completamente da razão. Por enquanto, não compro mais na Livraria Cultura".
  • letícia braun em flanela paulistana: "Como é que um leitor leigo de tudo deve entrar na Cultura? Confiante na qualidade de qualquer produto que queira adquirir? Ou com um pé atrás, se sentindo um idiota por não ter se armado de antemão contra falcatruas editoriais que possa vir a comprar naquele espaço imenso...? ...Duvide-o-dó dora que o senhor Fábio Herz, ou Pedro Herz, não tenha capacidade de julgar o que entra ou não entra em sua livraria".
visite apoiodenise.wordpress.com

5 de mar. de 2010

o nietzsche de erwin theodor

a editora madras já demonstrou sua boa vontade em retirar de circulação e venda as seguintes obras em traduções que apontei como espúrias: a origem das espécies, de charles darwin, a cabana do pai tomás, de harriet b. stowe, e seleções de flavius josephus, excertos da obra de flávio josefo. eu pediria a mesma atenção e solicitude em relação ao caso abaixo apontado.

erwin theodor rosenthal, eminente intelectual germanista, professor de língua e literatura alemã da usp, ensaísta, autor de várias obras, entre elas um fundamental estudo sobre a língua alemã (1963) e um livro já clássico sobre o ofício e a arte da tradução (1976), traduziu martius, hermann, lessing, benjamin, nietzsche.

dele é a tradução anotada da nietzscheana origem da tragédia, proveniente do espírito da música, publicada pela editora cupolo em 1948 e atualmente disponível para download gratuito em vários sites.


causou-me espécie reencontrá-la acutilada, embora sempre inconfundível (a começar pelo título), atribuída a outrem numa publicação da editora madras em 2005.*

* atualizado em 21/08/2010: ver comunicado


1. erwin theodor:
3. ... Quem, tendo outra religião em coração e espírito, se aproximar destes deuses do Olimpo, a procurar neles elevação moral, mais ainda: santidade, espiritualização incorporal, olhares dum amor misericordioso, este lhes voltará as costas, desencorajado e desenganado. Aqui nada recorda o ascetismo, a espiritualidade e o dever: aqui somente se nos mostra uma existência exuberante e triunfal, em que tudo que exista é divinizado, seja bom ou mau. E então o observador ficará surpreendido ante esta exuberância fantástica de vida e inquirirá qual a bebida miraculosa com que gozaram a existência tais homens insolentes, para que, onde quer que olhassem, lhes sorrisse Helena - o quadro ideal de sua própria existência, "flutuando em doce sensualidade".

2. madras:
3. ... Quem, tendo outra religião em coração e espírito, se aproximar destes deuses do Olimpo, a procurar neles elevação moral, ou mais []: santidade, espiritualização incorporal, olhares dum amor misericordioso, este lhes voltará as costas, desencorajado e desesperançoso. Aqui nada recorda o ascetismo, a espiritualidade e o dever: aqui somente se nos é mostrada uma existência luminosa e triunfal, em que tudo que exista é divinizado, seja bom ou mau. E então o observador ficará surpreendido ante esta exuberância fantástica de vida e inquirirá qual a bebida miraculosa com que gozaram a existência tais homens insolentes, para que, onde quer que olhassem, sorrisse-lhes, Helena - o quadro ideal de sua própria existência, "flutuando em doce sensualidade".

1. erwin theodor:
4. ... Prescindindo por um momento de nossa própria "realidade", considerando a nossa existência empírica, como a do mundo em geral, como uma representação do Uno-Primitivo produzida em cada momento, deve valer-nos o sonho como a aparição das aparições, como a aparência das aparências, e assim como uma satisfação ainda mais alta do desejo primitivo à aparição.[14]

2. madras:
4. ... Prescindido [sic] por um momento de nossa própria "realidade", considerando a nossa existência empírica, como a do mundo em geral, como uma representação do Uno-Primitivo produzida em cada momento, deve valer-nos o sonho como a aparição das aparições, como a aparência das aparências, e assim como uma satisfação ainda mais alta do desejo primitivo à aparição.[12]

1. erwin theodor:
[14] A palavra alemã Schein pode significar tanto brilho, como aparência ou aparição. Preferimos adotar a palavra aparição porque, segundo nossa opinião, é a que mais se aproxima do sentido que Nietzsche queria emprestar a esta palavra. [N.T.]

2. madras:
[12] N. do T.: A Palavra alemã schein pode significar tanto brilho, como aparência ou aparição. Preferimos adotar a palavra aparição porque, segundo nossa opinião, é a que mais se aproxima do sentido que Nietsche [sic] queria emprestar a esta palavra.

1. erwin theodor:
12. ... O que, porém, dificulta mais o abandono deleitoso a tais cenas é um elemento que o ouvinte não possui; uma lacuna na tessitura da história dos antecedentes; enquanto o ouvinte é obrigado a refletir sobre o significado desta ou daquela figura, sobre a suposição deste ou daquele conflito de inclinações e de desejos, nem sua concentração e meditação sobre o sofrer e agir das personagens principais, nem o co-sofrer[29] e temer se tornam possíveis.

2. madras:
12. ... O que, porém, dificulta mais o abandono defeitoso [sic] a tais cenas é um elemento que o ouvinte não possui; uma lacuna na tessitura da história dos antecedentes; enquanto o ouvinte é obrigado a refletir sobre o significado desta ou daquela figura, sobre a suposição deste ou daquele conflito de inclinações e de desejos, nem sua concentração e sua meditação sobre o sofrer e agir das personagens principais, nem o co-sofrer[24] e temer se tornam possíveis.

1. erwin theodor:
[29] À palavra alemã mitleiden = "sofrer conjuntamente com" preferimos dar a tradução supra. Cumpre-nos esclarecer que nas traduções deste vem sendo feito um erro grave, no tocante a esta palavra. Por analogia com das Mitleid = "a compaixão", julgaram os tradutores ser compaixão a palavra indicada nesta frase. Tal interpretação não tem cabimento. [N.T.]

2. madras:
[24] À palavra alemã mitleiden = "sofrer conjuntamente com" preferimos dar a tradução supra. Cumpre-nos esclarecer que nas traduções deste vem sendo feito um erro grave, no tocante a esta palavra. Por analogia com das Mitleid [] "a compaixão", julgaram os tradutores ser compaixão a palavra indicada nesta frase. Tal interpretação não tem cabimento. []

1. erwin theodor:
25. ... Daquele fundamento de toda existência, da base dionisíaca do mundo, somente deve passar ao conhecimento do indivíduo humano aquilo que possa ser novamente vencido pela força apolínica da transfiguração, de forma que ambos os impulsos artísticos se vêem obrigados a desenvolver as suas forças em proporção recíproca,[46] segundo a lei da justiça eterna. De onde se elevam tão impetuosamente as forças dionisíacas, como é por nós presenciado, já deve ter descido Apolo, envolto em uma nuvem; e seus mais exuberantes efeitos de beleza serão admirados, provavelmente, por uma das gerações futuras.

2. madras:
25. ... Daquele fundamento de toda existência, da base dionisíaca do mundo, somente deve passar ao conhecimento do indivíduo humano aquilo que possa ser igualmente vencido pela força apolínica da transfiguração, de forma que ambos os impulsos artísticos se vejam obrigados a desenvolver as suas forças em proporção recíproca,[40] segundo a lei da justiça eterna. De onde se elevam tão impetuosamente as forças dionisíacas, como é por nós presenciado, já deve ter descido Apolo, envolto em uma nuvem; e seus mais exuberantes efeitos de beleza serão admirados, possivelmente, por uma das gerações futuras.

1. erwin theodor:
[46] wechselseitig significa recíproco. Houve, porém, quem traduzisse, em edições estrangeiras, "mítico". [N.T.]

2. madras:
[40] N. do T.: A palavra wechselseitig significa recíproco. Houve, porém, quem a traduzisse, em edições estrangeiras, como "mítico".


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


meditações, madras


um leitor deixou em comentário a informação de que as meditações de marco aurélio, publicadas pela editora madras em 2004 com tradução atribuída a carolina ramos furukawa, seriam idênticas às meditações da tradução atribuída a alex marins pela ed. martin claret (2002).

o extenso histórico de títulos espúrios no caso da editora martin claret está sob investigação em inquéritos instaurados por determinação do ministério público de são paulo. já a editora madras, cujo proprietário, sr. wagner veneziani costa, faz parte da atual diretoria da câmara brasileira do livro (CBL), teve por bem vir a público e se manifestar neste blog, declarando ter retirado de catálogo e circulação as obras aqui apontadas como plágios de tradução. carolina ramos furukawa, por meio de sua advogada, também se manifestou aqui no nãogosto, afirmando jamais ter realizado as traduções creditadas em seu nome e publicadas pela referida editora.

segundo meu ponto de vista, o que importa para nós leitores é que a editora madras assegura que as três obras em questão já foram excluídas de seu catálogo (ver, por exemplo, aqui). são elas: seleções de flavius josephus, a origem das espécies e a cabana do pai tomás. resta saber o que será feito com os exemplares já vendidos, que se encontram em lares, escolas e bibliotecas públicas.

quanto ao informe sobre as meditações de marco aurélio, procederei às devidas buscas, análises e cotejos, e aqui publicarei os resultados. mas, em vista dos precedentes apontados em nome de carolina ramos furukawa na madras, eu solicitaria encarecidamente à referida editora, se for o caso e assim julgar por bem, que se antecipe e tome as providências comerciais que eventualmente possam ser cabíveis.

posts relacionados:
visite apoiodenise.wordpress.com

agradecimentos

ainda estou meio atordoada não só com o processo movido pela editora landmark e o sr. fábio cyrino contra raquel sallaberry, do blog jane austen em português, e minha pessoa, aqui do nãogostodeplágio, mas também e principalmente com a grande repercussão do caso.

quero agradecer a quatro grandes nomes da tradução literária no brasil - heloísa jahn, ivone benedetti, jorio dauster e ivo barroso - pelo manifesto que conceberam e redigiram em defesa da luta contra o plágio, e pela criação do blog apoiodenise, com notícias sobre o caso.

agradeço também a todos os que têm divulgado o assunto na mídia impressa e na mídia digital, aos milhares de signatários do manifesto e às inúmeras demonstrações de solidariedade de entidades nacionais e internacionais.

no domingo, ocupando o espaço normalmente dedicado à coluna dos tradutores, publicarei uma lista de links para as matérias e postagens a respeito do caso landmark/cyrino x nãogosto/janeausten, que ficará como arquivo de consulta, atualizado à medida que se fizer necessário.

4 de mar. de 2010

O caso de Denise Bottmann e editora Landmark

https://ambrosia.com.br/literatura/58346/



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O caso de Denise Bottmann e editora Landmark

Na semana passada, tradutores, blogueiros e pessoas ligadas à literatura se indignaram com um caso que veio à tona. Em 2007, Denise Bottmann, tradutora e autora do blog Não Gosto de Plágio, publicou alguns posts que evidenciariam um caso de uso indevido de tradução por parte da editora Landmark. O plágio seria da versão publicada pela editora Europa-América do livro Persuasão, de Jane Austin, e também O Morro dos Ventos Uivantes, publicada originalmente pela Bruguesa. Além de Denise, a Landmark processou Raquel Sallaberry, do blog Jane Austen, quem primeiro falou sobre o caso.
Casos de cópia de traduções, reeditadas e publicadas por editoras diferentes, são comuns aqui no Brasil Raquel Sallaberry, ao notar semelhanças entre as duas edições de Persuasão durante uma sessão de leitura da obra, entrou em contato com a Landmark pedindo explicações, mas não obteve resposta. Então alertou Denise, que divulgou as suspeitas no Não Gosto de Plágio.  Ela comparou as diferentes edições dos livros, mostrando que haviam passagens iguais neles, até com os mesmos erros. E a Landmark não gostou nada disso.
Na semana passada, então, Denise disse em seu blog que foi processada pela Landmark. A editora pedia a retirada do blog Não Gosto de Plágio do ar, com tutela antecipada, ou seja, que fosse excluído antes mesmo do julgamento. Além disso, exigiu no processo uma indenização por danos morais e materiais no valor de 400 salários mínimos. E, para cavar sua própria cova, solicitou publicidade restrita alegando “direito de esquecimento”. E o que aconteceu? O juiz não só não aceitou o pedido de tutela antecipada como também não ordenou que o caso ficasse em sigilo.
Resultado: a ação contra Denise foi logo divulgada por ela e espalhada por toda a internet. Blogueiros, jornalistas, e principalmente outros tradutores apoiaram Denise, e a imagem da Landmark ficou pior do que já era. Ao tentar esconder as acusações que havia sofrido, só fez aumentar a publicidade acima do ato exagerado que tomou. É, porque exigir a retirada de um blog da internet além de uma soma em dinheiro absurda de Denise foi um grande exagero.
Claro que se a editora se sentiu lesada pela blogueira ela tem todo o direito de exigir justiça. Porém, uma conversa antecipada com Denise poderia ter resolvido a questão. Ou então que pedisse apenas a retirada dos textos incriminatórios do blog. Mas não: preferiram dar chilique.
Poucos dias depois, os tradutores Eloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivone Benedetti e Ivo Barroso, fizeram um manifesto a favor de Denise. A tradutora, dizem no texto, trabalhou para denunciar diversas editoras que fraudavam traduções, prática que fere os direitos autorais, causa concorrência desleal e risco de patrimônio nacional. O texto atesta para o andamento das acusações de plágio contra a Landmark. Os tradutores ainda estão recolhendo assinaturas daqueles que apóiam Denise e defenduwem o seu trabalho.
O caso segue na justiça. Denise já foi processada antes pela editora Martin Claret, nome bastante lembrado quando o assunto é plágio, e venceu. As investigações agora devem provar se a Landmark realmente fraudou as traduções de Persuasão e O Morro dos Ventos Uivantes.  Caso o fez, é mais uma editora desmascarada por Denise. Se não, basta esperar que a editora tenha bom senso e retire pelo menos parte das exigências do processo. A comunicação na internet através dos blogs já atingiu um patamar importante, e querer tirar uma página do ar por que seu conteúdo não agrada é tão exagerado quanto querer fechar uma emissora de TV. Só porque um blog pode ser criado por qualquer pessoa, não significa que ele também possa ser deletado por qualquer um.
O trabalho de Denise no Não Gosto de Plágio não é feito por dinheiro, apenas por reconhecimento e respeito. E a Landmark mostrou com suas exigências que, mesmo se for inocente, não tem respeito algum a esse trabalho, nem ao de outros tradutores. Ela só serve como um exemplo de como afundar a própria imagem.  Que esse caso acabe bem… para Denise.

sobre a responsabilidade das livrarias


sobre as reflexões de joana canêdo sobre a responsabilidade das livrarias, livros e afins comenta a posição da livraria cultura:


e no jornal a gazeta do povo, há uma chamada para a "Matéria para reflexão: responsabilidade das livrarias", de Joana Canêdo.

a matéria do jornal correio braziliense, onde consta a declaração do sr. fábio herz, pode ser lida em palavras replicadas.

acrescento às 20,00h: no flanela paulistana, livraria de grife. é possível?
"Duvide-o-dó dora que o senhor Fábio Herz, ou Pedro Herz, não tenha capacidade de julgar o que entra ou não entra em sua livraria."

às 20,50h: em livros e afins, nas livrarias, o que podemos esperar sobre ética 2 - sobre a posição de um livreiro muito diferente da do sr. fábio herz.

aqui a matéria do editor e livreiro oséias silas ferraz, comentada por alessandro martins, acima.

reproduzindo imagem usada por joana canêdo, de hscweb3.hsc.usf.edu

fundamento e ministério público

em meados de janeiro, dei entrada a um pedido de representação no ministério público do estado do paraná, na promotoria de justiça de defesa do consumidor, em relação à editora fundamento educacional. veja o histórico aqui.

nesses dias recebi um ofício do mp informando a instauração de procedimento para apurar as responsabilidades da referida editora.


3 de mar. de 2010

a bem da verdade

a sra. gislene cavalheiro, da editora cedic, foi muito gentil em ceder um bom tempo de sua agenda para conversarmos sobre os problemas apontados na coleção "projeto ler - literatura universal", e se prontificou a corrigi-los imediatamente.

de minha parte, continuarei com os cotejos de outros títulos problemáticos dessa coleção da cedic, apenas com a finalidade de documentar os fatos para a informação do leitor.

o importante é que a editora retirou a coleção de catálogo e de circulação. agora, em seu site consta o aviso: "Estamos reformulando os títulos da coleção Literatura Universal", conforme se pode ver aqui e aqui.

a sra. gislene cavalheiro também assumiu o compromisso de substituir as edições copiadas por traduções legítimas ou proceder ao licenciamento das obras de tradução junto a seus autores, dando os devidos créditos a quem pertencem de direito.

quanto às instituições e leitores lesados com as edições espúrias que eventualmente tenham adquirido, minha sugestão é que entrem em contato diretamente com a editora e a sra. gislene - pela disposição franca e muito positiva da editora, tenho a impressão de que serão prontamente atendidos.

sobre outros cotejos da cedic e a história complicada envolvendo as editoras matos peixoto, paumape, germape e cedic, ver aqui.

é brincadeira!

sobre os plágios da cedic, em contos e histórias de edgar allan poe, chegou minha encomenda da antiga edição portuguesa pela editorial verbo.

para a apresentação das cópias, abaixo estão os scans da edição da verbo e da cedic (que na germape consta como autoria de "henry dualib"):





já apresentei anteriormente a capa da cedic.
à esquerda, o texto pela cedic, à direita o texto pela verbo

comunicado

nossa querida colega e colaboradora joana canêdo está na chapa da abrates, concorrendo às eleições para o próximo mandato da entidade.

o nãogostodeplágio nunca fez e jamais fará política de entidade: reitero, denise bottmann e nãogostodeplágio se pronunciam apenas do ponto de vista mais amplo da cidadania. em vista disso, e a despeito de qualquer opinião pessoal que eu possa ter sobre a questão institucional dos tradutores, o compromisso do nãogosto é manter a isenção e a objetividade em defesa do leitor e da qualidade editorial.

para preservar a neutralidade do nãogostodeplágio e a plena liberdade política da abrates, a partir desta data joana canêdo abdica de suas colaborações neste blog.

muito obrigada, joana!

2 de mar. de 2010

Matéria para reflexão: a responsabilidade das livrarias

A loucura que está sendo o processo movido pela editora Landmark contra a Denise e a Raquel, juntamente com toda a repercussão da história, tem gerado em mim muita matéria para reflexão, principalmente em torno da ideia de responsabilidade social, em seu sentido mais amplo.
Vou começar com uma anedota:

Outro dia estava parada no sinal vermelho. O sinal verde abriu e eu me pus em movimento. Qual não foi a minha surpresa quando um táxi, estacionado em seu ponto na rua que atravessava aquela onde eu estava, também acelerou e, passando o sinal vermelho (para ele), cortou bem na minha frente. O acidente só não aconteceu por pouco. Por coincidência o tal táxi parou 50 metros à frente, exatamente onde eu ia parar também. Isso me deu a oportunidade de confrontá-lo. Perguntei (tenho que admitir que estava um tanto histérica no momento) como um profissional no trânsito tinha a coragem de fazer uma coisa dessas. Ao que ele me respondeu: “Você é da CET? Então não lhe devo satisfação alguma.” Mas... E as leis do trânsito, e a segurança das pessoas nas ruas, e...? Enfim. O fato é que, para ele, só precisamos respeitar a segurança, a lei e a ética se tem alguma agência fiscalizadora observando. Se não, para quê? Cada um por si, certo?

Pois é. Foi isso o que me fez pensar a reação do diretor da Livraria Cultura, Fabio Herz, no depoimento que deu ao Correio Braziliense na matéria sobre plágio deste fim-de-semana (Palavras replicadas). Ele diz:
“A partir de um momento em que o juiz determina alguma coisa e foi dado como algo plagiado, a gente recolhe (os livros). Só que não tenho a competência para julgar isso. Denúncia não significa que algo está errado, alguém vai apurar. Se o Ministério Público chegar à conclusão que é plágio, retiro da livraria. Mas antes de uma decisão da Justiça não posso tomar decisão precipitada porque não me cabe o julgamento. É uma situação delicada, mas não gosto de tomar uma decisão antes que a Justiça determine uma posição”.

Eu penso assim: quando um comerciante recebe um produto ruim de seu fornecedor, ele pode (e deve) se recusar a vendê-lo, no mínimo por respeito a seu cliente, talvez pelo bem de seu negócio, mas não apenas porque a justiça ordenou. Um supermercado não vai esperar ser acionado pela justiça por ter vendido iogurte estragado: ele vai tirar o iogurte ruim da prateleira, mesmo antes de vencer a data de validade, caso verifique, empiricamente, que não está mais bom. Não vai precisar de prova forense para isso, não vai esperar que um fiscal da Anvisa venha lhe dizer para retirar.

Um profissional do trânsito deveria saber que as leis do trânsito não estão aí simplesmente para tirar pontos da carteira. Mas porque quando se vive em sociedade é importante que se respeitem algumas normas básicas para que o trânsito não fique caótico, para não criar situação de riscos, para não provocar acidentes... É sua responsabilidade social contribuir para um bom trânsito nas ruas.

Um profissional do livro, da leitura, da cultura afinal, deveria estar ciente de seu papel de disseminador da cultura, e de sua parte de responsabilidade para o enriquecimento cultural de toda a sociedade. Pois acredito que disseminar o plágio é péssimo para a cultura e para o negócio livreiro também. Um comerciante PODE escolher o que vender ou não (posição perfeitamente legítima no mundo dos negócios!). Quem conhece seu ramo de negócios tem discernimento suficiente para identificar produtos bons e produtos fraudulentos. Por respeito a seu cliente, é possível se recusar a disponibilizar produtos espúrios e não ser coadjuvante de fraudes. Faz parte de sua responsabilidade social, no sentindo mais amplo, a responsabilidade, enquanto profissional da área, de favorecer um mundo editorial mais ético, uma cultura mais rica, e a defesa do leitor, seu principal cliente.
Cabe, aliás, lembrar que alguns representantes dos livreiros compartilham essa opinião. É o caso da livraria Crisálida, por exemplo: “Bom seria se os livreiros agissem em defesa do leitor e retirassem de comércio essas edições espúrias. Infelizmente a maior parte prefere fingir que não sabe ou usar o recurso legalista de ‘só tiraremos de comércio se formos citados judicialmente’ ”, conforme afirmou em seu blogue na semana passada.

Joana Canêdo

Imagem: hscweb3.hsc.usf.edu