28 de jul. de 2011

poe XXXVI, os torvelinhos da desmemória

como é difícil reconstituir coisas nem tão distantes em nossa história lítero-tradutória! e quantas surpresas desagradáveis!

explico-me: depois de ter feito um levantamento das primeiras edições de contos de poe no brasil, das várias traduções d' o gato preto e das diversas coletâneas enfeixadas sob o mesmo título de histórias extraordinárias - veja aqui -, retomei minha pesquisa, na intenção de cobrir todas as traduções brasileiras de poe no século XX e XXI.

e eis que me deparo com isso aqui:




como se vê, é um voluminho da edibolso, com traduções licenciadas pela cedibra, 1975.* a nos fiar pelos dados do livro, temos os seguintes responsáveis por elas:
  • sandro pivatto para "o poço e o pêndulo" e "a caixa quadrangular";
  • berenice xavier para "william wilson";
  • luisa lobo para "o enterro prematuro", "o barril de amontillado", "a queda da casa de usher", "o coração revelador", "o gato preto", "a máscara da peste vermelha", "o homem na multidão"
  • para brenno silveira, o único nominalmente anunciado na página de rosto, mas não citado na página de dados catalográficos, restaria "berenice"
se um paciente leitor ou um cuidadoso pesquisador tiver a curiosidade ou se der ao trabalho de comparar esses textos a outras traduções, provavelmente ficará em dúvida se o que norteou essa edição da edibolso (com licenciamento da cedibra) foi a ignorância, o desleixo, o acochambro ou a má fé - pois a transparência certamente não foi.

apresentarei os motivos de minha perplexidade e irritação nos próximos posts. reitero aqui minha indignação: enquanto este país e nossos editores se obstinarem em confundir, omitir, mascarar ou falsear os dados das obras tradutórias, continuaremos patinhando nessa patética rasura e ignorância em nossa formação cultural.

* esse volume me foi fornecido por joana canêdo, a quem agradeço novamente a gentileza.
.

26 de jul. de 2011

rastreando kafka no brasil

Retomo o precioso artigo de Ribeiro, Brito e Santos, "A recepção da obra de Franz Kafka no Brasil", publicado na revista Pandaemonium Germanicum 9/2005, pp. 227-53, que venho comentando em alguns posts - ver aqui.

Sempre no intuito de contribuir para a reconstituição da trajetória de Kafka no Brasil, consolido aqui alguns dados e breves retificações, concentrando-me nas décadas 50 a 70. Os pesquisadores apresentam o seguinte levantamento das traduções e retraduções para este período, que complemento nas "Observações":

I. Anos 50
1. Metamorfose, Brenno Silveira, Civilização Brasileira, 1956
2. "O artista do trapézio", tradução anônima, Cultrix, 1958 (in Maravilhas do conto alemão, tradução dada como provavelmente a partir do inglês)

Observações:
1. Em 1956, temos também a publicação de Parábolas e fragmentos, em seleção e tradução de Geir Campos, pela Philobiblion, Civilização Brasileira, em edição especial para sua coleção Maldoror, com tiragem de 300 exemplares e quatro águas-fortes de Poty. A coleção Maldoror era feita na prensa manual "A Verônica", de Manuel Segalá. Assim, caberia colocá-la como pioneira, ao lado de Metamorfose.


 

2. Uma retificação rápida: o ano correto da primeira edição é 1957. Quanto à fonte dessa tradução, não creio que seja o inglês, de forma alguma, e merecerá um post à parte.

II. Anos 60
1. O castelo, Torrieri Guimarães, Tecnoprint, 1964 (supostamente do francês)
2. O processo, Torrieri Guimarães, Tema, 1964 (idem)
3. América, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem)
4. Metamorfose em 3a. ed. (não cita a segunda), Brenno Silveira, BUP, teria ganhado prefácio de Ênio Silveira, 1965
5. A colônia penal, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem, 39 títulos)*
6. Os melhores contos de Kafka, trad. A. Serra Leal, editora “paulista” Arcádia, 1966.
7. Parábolas e fragmentos, sel. e trad. Geir Campos, Ediouro, 1967
8. A muralha da China, Torrieri Guimarães, Clube do Livro, 1968 (30 contos)
9. A metamorfose; Na colônia penal; O artista da fome, trad. Brenno Silveira, Leandro Konder e Eunice Duarte (os 2 últimos pelo francês), Civilização Brasileira, 1969

Observações:
1. Em 1964, caberia ainda lembrar a publicação de Diário íntimo pela Livraria Exposição do Livro, em tradução de Torrieri Guimarães.


A Nova Época Editorial, concorrente direta da Exposição do Livro naquela mesma época, também publica Diário íntimo, em tradução de Osvaldo da Purificação, mas não consegui descobrir o ano exato de seu lançamento.

1a. A propósito de Torrieri Guimarães: as várias menções no ensaio apresentando o francês como suposta base para suas traduções a meu ver não procedem. Já demonstrei este ponto em relação a Metamorfose e Um artista da fome, aqui e aqui, e dedicarei mais alguns posts a respeito. As traduções de Torrieri eram visivelmente feitas a partir do espanhol, a despeito do que ele possa ter afirmado em entrevista aos pesquisadores.

1b. Quanto às traduções que inauguram o dito "boom" dos anos 60, ver observações ao item III, 3.

4. Uma rápida retificação: a primeira edição da Metamorfose pela BUP (Biblioteca Universitária Popular, pertencente a Ênio Silveira, irmão de Brenno Silveira) é de 1963, e já traz o prefácio citado.

5. A citação em asterisco, reproduzida abaixo, também mereceria alguns breves comentários e será objeto de um post à parte.

6. Aqui mais uma pequena retificação: a editora Arcádia não é paulista, mas portuguesa, sediada em Lisboa; assim, caberia excluí-la de um mapeamento das traduções brasileiras de Kafka. A primeira edição deste volume é de 1962.


7. Caberia eliminar Parábolas e fragmentos desse bloco cronológico, visto que, cf. observação acima, a pioneira tradução de Geir Campos foi publicada originalmente em 1956.

III. Anos 70
1. O processo, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
2. Metamorfose, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
3. O processo, Manoel Ferreira Pinto e Syomara Cajado, Círculo do Livro, 1977

Observações:
3. A tradução de Syomara Cajado (pelo inglês) foi publicada originalmente pela editora Nova Época. Manoel Ferreira Pinto foi provavelmente o preparador do texto para a edição posterior do Círculo Livro.

Quanto aos anos 80 em diante, chamou-me a atenção um apontamento dos articulistas: em 1985, haveria "uma nova tradução realizada também a partir do inglês por Enio Silveira e Marques Ribeiro Calouro, cuja publicação fica a encargo da editora Tecnoprint". (p. 239) Não consegui localizar nenhuma referência a esta edição e teria muita curiosidade em conhecê-la. Por outro lado, encontrei menção a um volume publicado pela Civilização Brasileira em 1983 (e mais numerosas para o ano de 1993), com o título de Contos, fábulas e aforismos, com seleção, introdução e tradução de Ênio Silveira, proprietário da editora. Marques Rebelo, por seu lado, fazia muitas adaptações para a Coleção Calouro da Tecnoprint. Talvez tenha havido aí alguma mistura entre os nomes

* Comentam os autores quanto a esta edição: "Um problema a ser levantado é o fato de Torrieri Guimarães referir-se à antologia como se fosse do próprio Kafka. Em nenhum momento, é esclarecido ao leitor que os textos não foram reunidos e dispostos daquela forma pelo autor (fato relevante, uma vez que se conhece a preocupação de Kafka com essa questão). Também não são indicados os critérios para a seleção dos textos." (p. 234). Para o esclarecimento dessa questão, ver aqui.

Quanto à fortuna de Metamorfose no Brasil, recomendo vivamente o livro de Celso Cruz, Metamorfoses de Kafka. São Paulo: Fapesp/ Annablume, 2007.

.

23 de jul. de 2011

os sons do tempo III

descubro que lúcio cardoso, um dos poucos autores brasileiros do século XX em quem consigo perceber alguma afinidade com o intenso espírito trágico-romântico que vemos em poe, também traduziu e fez a adaptação teatral de the tell-tale heart, com o título de "o coração delator", para o teatro de câmera, em 1947.

segundo enaura quixabeira rosa e silva, "por inexplicável escrúpulo, lúcio cardoso apresenta [a peça] como de autoria de graça mello" (aqui, p. 147).

numa entrevista a sábato magaldi, porém, ele comenta:
... fundei com Agostinho Olavo e Gustavo Dória o “Teatro de Câmera”, que marcou a primeira reação contra o gênero “grande espetáculo” que “Os Comediantes” vinham impondo como gênero absoluto e que deu nascimento a essa série de teatrinhos íntimos e espetáculos mais ou menos fechados, atualmente tão em voga. O “Teatro de Câmera” deu-me sessenta contos de prejuízo e inúmeros dissabores. Mesmo assim, montei, num espetáculo inteiramente organizado por mim, O Coração Delator, de Edgar Poe. Foram tais atropelos que jurei não voltar tão cedo ao teatro. (in Junia N. Neves, aqui, p.63)
seria fascinante saber quais foram as soluções sonoras adotadas no palco para o deathwatch! aliás, lembrando a grandíssima amizade entre lúcio cardoso e clarice lispector, talvez não à toa a tradução e adaptação de the tell-tale heart feita por clarice, muitos anos depois, também se chame "o coração delator".
.

16 de jul. de 2011

na oficina com mrs. dalloway

.

comecei a traduzir mrs. dalloway, de virginia woolf, e criei uma espécie de diário de bordo: quem quiser acompanhar, o blog se chama traduzindo mrs. dalloway e está aqui.

imagem: manuscrito mrs. dalloway
.

15 de jul. de 2011

da translação à tradução

.

saiu o número 9 da revista scientia traductionis, da pós-gradução em estudos da tradução da ufsc. está disponível aqui, com muitos artigos valiosos.

um dos que mais me despertaram interesse foi o de antoine berman, em edição bilíngue, com tradução de marie-hélène torres e marlova assef: de la translation à la traduction (da translação à tradução). um dos aspectos históricos significativos levantados por berman diz respeito à prática renascentista da tradução como maneira de desenvolver o domínio da própria língua*: en fait, on apprend à écrire en traduisant. o artigo traz um belo painel da atividade tradutória entre o renascimento e o início da era moderna, uma exploração bastante convincente das conotações do radical ducere da palavra, as razões para a preservação do termo translation em inglês, a importância específica de algumas obras (como a poemata) e vários outros aspectos histórico-culturais em torno dessa atividade intelectual tão singular que é a tradução.

o artigo de berman está disponível para leitura e download aqui.

* embora a competente tradução de marie-hélène e marlova traga maîtrise de la langue, maîtrise du français como "matriz da língua", "matriz do francês", pessoalmente prefiro "domínio da língua", "domínio do francês".
.

14 de jul. de 2011

falsos amigos II

.

ricardo bada relata um caso muito divertido de um falso amigo que pegou nosso grande antônio callado:
Ahora bien, la historia más linda de las dos es una que me pasó personalmente cuando estaba chequeando las traducciones al alemán de García Márquez, por un común acuerdo del autor, la editorial y la traductora. Fue con El amor en los tiempos del cólera, y recuerdo que unos días antes de enfrentarme con los primeros capítulos de la traducción, tuvo lugar la Buchmesse, la feria del libro de Fráncfort, y allí, en el pabellón brasileño, descubrí un ejemplar de O Amor nos Tempos de Cólera, la novela de Gabo, traducida por otro gran novelista, Antonio Callado. Y me dije que sería bueno tenerlo a mano al estar chequeando la traducción de Dagmar Ploetz, buena amiga mía, para mirar las soluciones de Callado cuando ella y/o yo estuviésemos en dudas. ...
Dagmar Ploetz ... en este caso se limitó a subrayar una palabra y a poner varios signos de interrogación detrás:
Allí estaban las autoridades sin más protección contra el sol que los paraguas de diario, estaban las escuelas primarias agitando banderitas al compás de los himnos, las reinas de la belleza con flores achicharradas y coronas de cartón de oro, y ¿¿la papayera?? de la próspera población de Gayra, que era por aquellos tiempos la mejor de la costa Caribe.

¿Qué caramba era una «papayera»? Tampoco yo lo sabía entonces, pero releí el párrafo, hice mi composición de lugar (autoridades, escolares agitando banderitas al compás de los himnos, etc.) y me dije que debía de ser la banda de música. Seguro de que era eso, miré la traducción de Callado, donde decía:

Lá estavam as autoridades que só tinham como proteção contra o sol os guarda-chuvas do dia-a-dia, as escolas primárias agitando bandeirolas ao compasso dos hinos, as rainhas de beleza com flores esturricadas e coroas de papelão dourado, e gente da plantação de mamão da próspera localidade de Gayra, naqueles tempos a melhor da costa Caribe.

Me dije que fuera lo que fuese una papayera, con toda seguridad había algo que sí que no era: la gente de la plantación de papaya. Así es que llamé a Pacho Zumaqué, uno de los mejores compositores colombianos, y a la sazón agregado cultural en la embajada en Bonn, y el buen Pacho, que es de Montería, o sea, costeño, de la zona donde se desarrolla la novela de Gabo, a mi pregunta de qué era una papayera me contestó con una expresión que jamás olvidaré: «Un combo de chupacobres». O sea, lo que en alemán se traduciría como Blaskapelle, una banda de música compuesta de instrumentos de viento.
a íntegra do artigo está aqui.

imagem: google images
.

13 de jul. de 2011

falsos amigos I

como compartilho da posição de julia escobar, publicada aqui, creio que podemos e devemos comentar nossos erros com serenidade, sem medo de ferir suscetibilidades. digo erros, não partidos adotados, não escolhas mais afortunadas ou menos afortunadas: erros mesmo. acho que é importante para o amadurecimento do ofício a médio e longo prazo, contribui para um processo de aprendizagem mais amplo, faz parte da ética profissional e é uma mostra de respeito pela principal instância à qual dedicamos tantos neuroninhos, que é o leitor.

eu começaria por uma família de erros que é simples, mas muito numerosa.

I.
faz parte do beabá do ofício de tradução a cautela que se deve ter com o chamado "falso amigo": é aquela palavra estrangeira que é muito parecida com outra palavra em português (ou outra língua qualquer), mas cujos sentidos são diferentes. podem ter a mesma origem etimológica e foram seus sentidos que seguiram rumos diversos, e nesses casos são "cognatos", ou podem ter origens distintas e seus sentidos sempre foram diferentes, e aí são "falsos cognatos" - de qualquer forma, cognatos ou não cognatos, deve-se desconfiar da amizade que eles nos oferecem com tanta prestimosidade.


falando aqui só do inglês para o português, eles existem às centenas, aos milhares, desde os mais descarados aos mais insidiosos. alguns exemplos bastante conhecidos: eventually, actual, relevance, evidence, ingenious, conceit, deception, (to be) partial e seus vários correlatos. isso no nível vocabular, mas existem amigos bem falsinhos também no nível sintático.

um exemplo mais propriamente sintático seria, digamos, what can be substituted for eggs when cooking? pode acontecer que algum tradutor, feliz da vida com uma frase tão facinha ou nem feliz, mas simplesmente sem se dar conta, ponha assim: "o que pode ser substituído por ovos na hora de cozinhar?" - na verdade, a pergunta é "o que pode substituir os ovos na hora de cozinhar?"

os falsos amigos que fazem a gente cair nessas esparrelas compõem um dos capítulos mais divertidos e mais embaraçosos dessa vida nossa de tradutor. alguns, a rigor, nem são falsíssimos, estão mais para hipócritas: um que não esqueço e jamais esquecerei é um intoxicated que pus como "intoxicado" (em vez de "embriagado", p.ex.) no belíssimo homens em tempos sombrios da hannah arendt, e que deve continuar circulando por aí em sua enésima edição. apesar do ditado "desgraça compartilhada é meia alegria", pouco consolo foi encontrar paulo rónai e aurélio buarque de hollanda usando também o mesmo infeliz "intoxicado" em algum conto do mar de histórias. bom, pelo menos a companhia é ilustre...

imagem: mango juice

.

las meteduras de pata e os direitos do leitor

.

lúcido artigo publicado em el trujamán:
Los derechos del lector

Por Julia Escobar

Decía Steiner que hay que aprender a traducir a través del tiempo. Creo que, de mejor o peor manera, es lo que hacemos ya todos. Somos deudores de nuestra tradición y de los que, antes que nosotros, abrieron las sendas por las que hoy transitamos. Por eso en traducción, como en cualquier otra profesión práctica, aprendemos de los errores, nuestros y ajenos, como puede aprender un ingeniero de caminos a rectificar una curva mal trazada por él mismo, o por otro.

Por eso no entiendo por qué muchos colegas se rasgan las vestiduras cuando se exponen a la luz las jugosas meteduras de pata que salpican tantas publicaciones. No se trata, como es natural, de cebarse en el malhadado traductor que la ha cometido, por el dudoso placer de reírse del torpe, sino en destacarla y señalarla para que no se vuelva a cometer jamás. Al impedir que se comente una mala traducción estamos haciendo un flaco favor a nuestra profesión, pues permitimos que funcione el peor de los corporativismos: el que sirve para enmascarar incompetencias y premiar nulidades. Además, y eso es todavía peor, contribuimos a estafar y engañar al verdadero destinatario de nuestro trabajo: el lector, el único que todavía no tiene establecidos sus derechos.
imagem: aqui
.

aos senhores orientadores

uma doutoranda da usp pede informações biográficas sobre berenice xavier, em comentário aqui. informei o pouco que sei, mas a consulta me animou a a reiterar uma convicção que tenho faz algum tempo:

a contribuição da esquerda militante para a história da tradução no brasil durante o século 20 é preciosa, em quantidade impressionante e não raro com qualidade bastante respeitável.

seria, a meu ver, um tema de pesquisa excelente e realmente indispensável.
.

6 de jul. de 2011

good girl

.

sequência das traduções de kafka no brasil

sempre com o intuito de colaborar nessa ingente tarefa de reconstituir a trajetória de kafka no brasil, eu faria uma pequena retificação na seguinte passagem do artigo de sousa, brito e santos:
Manoel Paulo Ferreira e Syomara Cajado são os responsáveis por nova tradução de O processo em 1977.     A fonte não é mencionada e a publicação é de responsabilidade do Círculo do Livro (São Paulo). (p. 236)
em verdade, a tradução d' o processo feita por syomara cajado saiu em c.1972, pela editora paulista nova época. manoel paulo ferreira provavelmente foi o responsável pela revisão para a edição do círculo do livro.



veja também os vários posts reunidos em "pesquisa kafka", aqui.

imagem: aqui
.

5 de jul. de 2011

o segundo ano de kafka no brasil

prosseguindo com essa difícil reconstrução da fortuna de kafka no brasil, apresentada no valioso artigo de sousa, brito e santos,* temos que:
Uma 2a tradução, Erstes Leid (traduzida como O artista do trapézio), vem a público em 1958, pela editora Cultrix, de autoria e fonte não mencionadas. O texto faz parte de uma antologia com o título Maravilhas do conto alemão, organizada por Diaulas Riedel. A seleção dos textos foi feita por Albert H. Widmann, com introdução e notas de Edgard Cavalheiro. Embora o tradutor não seja mencionado, há informações de que a tradução foi revista por T. Booker Washington, o que indica que o texto provavelmente também tenha sido traduzido a partir de edição inglesa. (pp. 232-33)
tentando contribuir, eu acrescentaria um ou dois pormenores.


a. essa coleção da cultrix em 24 volumes, com o título de maravilhas do conto x, y, z (aliás, bastante boa), concebida pelo falecido proprietário diaulas riedel, traz o nome de t. booker washington em vários deles: nas maravilhas do conto inglês, do conto italiano, do conto francês, do conto norte-americano, do conto russo, do conto universal... o que quero dizer é que, em vista disso, a presença do nome "t. booker washington" como revisor da tradução não indica que o texto de base fosse em inglês: como já afirmei em outro lugar (veja aqui), parece-me provável que seja apenas um pseudônimo usado por algum editor da casa na época - aliás, quem sabe se numa ressonância de booker t. washington, o ativista e pedagogo americano.

b. quanto ao responsável pela seleção desse volume de contos alemães da cultrix, não consegui localizar nenhuma referência a um "albert h. widmann" como antologista de kafka ou de qualquer outra coisa, seja em países de língua alemã ou de língua inglesa. eu não estranharia muito se fosse uma seleção nacional com nome istranjêro para ficar mais bonito.

c. o volume citado apareceu pela cultrix em 1957 (em 1958 talvez se trate de uma segunda edição).

d. finalmente, erstes leid traduzido como um artista do trapézio me evoca, em primeiro lugar e acima de tudo, a antiga tradução espanhola un artista del trapecio (publicada em nome de jorge luis borges, e que é toda uma outra novela do plagiarismo transnacional). vale notar que erstes leid foi publicado em inglês primeiro como first grief e depois, na tradução que se consagrou, como first sorrow - naturalmente, nada impede que um tradutor brasileiro resolvesse traduzir erstes leid ou first sorrow por um artista do trapézio. mas sinceramente me parece bem mais provável que a base dessa tradução publicada pela cultrix tenha sido mesmo un artista del trapecio.

de qualquer forma, esses dados da edição da cultrix parecem tão bizarros que mereceriam maiores pesquisas.

* veja aqui o primeiro kafka no brasil.

imagem: aqui
.

4 de jul. de 2011

o primeiro kafka no brasil

como são impressionantes as lacunas sobre a história literária no brasil (digo "no", não "do"). estou pensando no caso de kafka, que começou a ser traduzido no país há cerca de cinquenta anos, com interposição do inglês e do espanhol, e só nas últimas décadas diretamente do alemão.

e mesmo assim, decorrido meio século apenas, é tremenda a dificuldade em reconstruir a trajetória de sua divulgação entre nós. transcrevo abaixo uma passagem de um artigo chamado "a recepção da obra de franz kafka no brasil", de celeste ribeiro de sousa, eduardo manoel de brito e maria célia ribeiro santos, publicado na revista pandemonium germanicum, 9/2005 (pp. 227-53, disponível aqui):
... a 1a obra de Kafka em tradução para o português do Brasil, realmente localizada, foi Die Verwandlung (A metamorfose) de 1956, uma tradução realizada por Brenno Silveira, e que marca o início da 1a fase. Trata-se de uma tradução efetuada a partir do texto em inglês, e publicada pela Civilização Brasileira no Rio de Janeiro. Essa tradução foi objeto de controvérsias. Enquanto Otto Maria Carpeaux, nos artigos “Romances proféticos” de 09.08. 1958 e “Livros que não há na mesa” de 13.06.1959, ambos publicados pelo jornal O Estado de São Paulo lamenta que nenhum texto de Kafka tenha sido traduzido no Brasil, estudiosos como João Barrento e Edgard Cavalheiro fazem referência em 1957 a essa tradução, desconhecida por Carpeaux. A própria editora Civilização Brasileira, em resposta à nossa solicitação de esclarecimentos, negou ter publicado tal tradução! Após várias buscas, contudo, dois exemplares deste texto controverso foram localizados no acervo de “Obras Raras” da Biblioteca Municipal Mário de Andrade em São Paulo, o que atesta a veracidade das informações de Barrento e Cavalheiro - a tradução de A metamorfose de 1956 realmente foi feita e existe.
eis a sobrecapa e a página de rosto da edição de 1956. foi uma edição de luxo, em tamanho grande (24,5 x 34,5), com sobrecapa e ilustrações em página inteira de walter lewy, com tiragem de 1.000 exemplares.



 

várias informações úteis sobre a edição e também sobre lewy podem ser encontradas no livro de celso cruz, metamorfoses de kafka (annablume/ fapesp, 2007, visualização aqui).
.

tradutores e editoras III

o blog da cosac naify também traz algumas entrevistas de tradutores que publicam pela casa.
  • cláudio aquati, satíricon, aqui.
ou no próprio site da editora:
  • carlito azevedo, traduzindo pablo neruda, aqui
  • nicolau sevcenko, alice no país das maravilhas, aqui
  • rubens figueiredo, anna kariênina, aqui

2 de jul. de 2011

artigo

Why does — sometimes — the translated text take on a radiance which pushes the original work to another level altogether?
um artigo muito simpático de mini krishnan, phantom power of language, disponível aqui.

30 de jun. de 2011

tradutores e editoras II

a l&pm tem em seu site uma seção muito legal de entrevistas, várias delas com tradutores de obras publicadas
pela casa. por exemplo:
estas e outras entrevistas estão agrupadas aqui.
.

29 de jun. de 2011

tradutores e editoras I

acho legal que a companhia das letras venha publicando textos de tradutores de obras lançadas pela casa. eis alguns:
  • alexandre barbosa de souza, orgulho e preconceito, de jane austen (aliás, com um ótimo vídeo com raquel sallaberry, do jane austen em português): aqui
  • rosa freire d'aguiar, os ensaios, de michel montaigne: aqui
  • paulo geiger, traduzindo amós oz: aqui
os posts da companhia das letras sobre as traduções estão agrupados aqui.

.

28 de jun. de 2011

sim, não, muito pelo contrário

aliás, nessa história de tradução que troca negativa por afirmativa ou viceversa e outros erros de entendimento, além do caso do brenno em o grande gatsby que mencionei no último post, há um caso divertido em que tanto oscar mendes quanto josé paulo paes trocam as bolas: o gato preto, de edgar allan poe. o narrador está falando de sua esposa e diz a certa altura: my wife, who at heart was not a little tinctured with superstition... [not a little: não pouco, muito, bastante].


oscar mendes se saiu com "minha mulher, que no íntimo não tinha nem um pouco de superstição", e josé paulo paes com "minha mulher, que no íntimo não era nem um pouco supersticiosa". nessa brenno silveira não caiu e deu corretamente como "minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa".

em walden, fiz uma bobagem dessas em in a new country, fuel is an encumbrance: dei como "num país novo, combustível é um problema" (p. 71).

tal como nos outros casos, minha gafe também não engatava no contexto - pois thoreau está justamente dizendo que não é preciso se preocupar com o aquecimento das casas. foi só relendo o livro depois de impresso é que me veio num raio: pois claro, denise, que marcada! num país novo, com suas matas, a madeira - para se fazer lenha - é tanta que chega a atravancar! (numa eventual reedição, vou pedir que corrijam para algo como "num país novo, lenha é o que não falta" ou "lenha dá e sobra".)


em suma, às vezes a gente dá uns escorregões...

imagens: google images
.

27 de jun. de 2011

coleção abril, perplexidades

MANTENHO ESTE POST COMO LEMBRETE E ALERTA PARA MIM MESMA, PARA QUE NÃO VOLTE A ACONTECER: MANIFESTAR-ME SEM TER CHECADO MELHOR AS INFORMAÇÕES.

agradeço a beth, nos comentários, por ter feito o que evidentemente cabia a mim fazer: checar a existência efetiva da edição comentada por um leitor e que constitui o assunto deste post. como ela diz: "Estranho. O título O Grande Gatsby não consta da coleção Clássicos Abril Coleções, lançada em 2010, como pode ser conferido facilmente, consultando o site http://www.abrilcolecoes.com.br/colecoes/classicos-abril-colecoes-536162.shtml"

apenas agora fiz o que devia ter feito desde o começo: uma pesquisa mais apurada e sempre indispensável antes de afirmar qualquer coisa. não consegui localizar a edição da abril, nem mesmo em suas coleções dos anos 70 e 80, correspondente à tradução comentada abaixo. o que localizei foi um lançamento de o grande gatsby em portugal, em 2000, pela Abril/Controljornal, uma joint venture entre a brasileira Abril e a portuguesa Controljornal, com publicações para venda em bancas, atualmente chamada Edimpresa. o livro de fitzgerald faz parte da colecção novis, 5, biblioteca visão, utilizando a tradução de fernanda césar com licenciamento da europa-américa (disponível aqui). peço ao leitor que deixou o comentário inicial se pode confirmar esses dados de edição ou acrescentar outros.


fica aqui registrado meu pedido de desculpas à editora abril pelas bobagens que escrevi, e retiro o que afirmei. e a todos, minhas desculpas por minha irresponsabilidade neste post.

FIM DA ATUALIZAÇÃO. SEGUE-SE O POST ORIGINAL.

em 2010, saudei a notícia do lançamento da coleção clássicos da abril, mas não cheguei a acompanhá-la. outro dia, um leitor deixou um comentário aqui a respeito de um de seus títulos, o grande gatsby, de scott fitzgerald. diz ele:
denise, vc já viu a tradução de the great gatsby da ed. abril da fernanda césar? pq, sério, acho que nunca vi tradução tão ruim qt aquela. sério, é PÉSSIMA. vou colar um trecho do início (desculpa a má formatação):
"Quando eu era mais novinho, e mais vulnerável, o meu pai deu-me um determinado conselho que ainda hoje me anda às voltas na cabeça.
- De cada vez que te apetecer criticar alguém - disse-me -, lembra-te sempre de que nem toda a gente neste mundo gozou algum dia das vantagens que tu tens tido.
E mais não disse. Mas fomos sempre invulgarmente comunicativos, se bem que de modo algo reservado, e percebi que ele queria dizer muito mais do que disse. Tornei-me, em consequência disso, propenso a reservar todos os juízos, hábito que atraiu a mim muitas índoles curiosas e fez de mim, igualmente, a vítima de não poucos chatos de carreira. A mente anormal é ágil a detectar e a ater-se a esta qualidade, quando ela se revela numa pessoa normal, e assim aconteceu que, quando andava na universidade, vim a ser injustamente acusado de me meter em política, só porque conhecia as angústias secretas de pessoas impulsivas anónimas."
pelo exemplo transcrito acima, a tradução de fernanda césar, publicada pela europa-américa desde os anos 80, não me parece ruim: pelo contrário, respeita bastante o original e, para quem gosta do linguajar lusitano, acho que flui até bem saborosa e escorreita. o que me parece ruim mesmo e totalmente despropositado é que a abril lance uma tradução portuguesa sem qualquer cuidado em adaptá-la, nem mesmo nos acentos, ao português brasileiro, e assim ela acaba nos soando meio arrevesada.


ainda no mesmo post, bem lembra elaphar que no brasil temos a conhecidíssima tradução de brenno silveira, publicada desde 1962 em inúmeras edições pela civilização brasileira, abril cultural, círculo do livro, biblioteca da folha, record, record/altaya, globo.


em 2003 saiu uma nova tradução, agora de roberto muggiati, pela record, reeditada em 2007 pelo selo bestbolso.


como se sabe, a editora abril não tem um catálogo próprio de traduções e apenas adquire a licença de uso de traduções publicadas por outras editoras. até imagino que nem sempre seja fácil fechar alguma negociação, e sem dúvida a abril deve ter tido suas razões para optar por uma tradução estrangeira. mas o estranhamento que um texto de dicção tão marcadamente lusitana causa em leitores brasileiros parece indicar que a editora, na hora de escolher, bem que poderia e deveria ter pensado duas vezes.

p.s.: elaphar, no mesmo link dado acima, coloca um trechinho na tradução de brenno silveira e o original correspondente:
Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci:
- Sempre que você tiver vontade de criticar alguém - disse-me ele - lembre-se que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou.
In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I’ve been turning over in my mind ever since.
"Whenever you feel like criticizing any one," he told me, "just remember that all the people in this world haven’t had the advantages that you’ve had."
não por nada, mas aí quem está certa é a fernanda e o brenno marcou: all the people... haven't had  quer dizer "nem todo mundo teve" e não "ninguém teve".
.

abl - boa notícia

.
parabéns, que programação esmerada!


com coordenação de nosso prezado geraldo holanda cavalcanti, grande nome na seara da tradução poética, em 28 de junho se inicia na abl o ciclo "desafios da tradução literária", com conferências de pesos-pesados: andréia guerini, rosa freire d'aguiar, aleksandar jovanovic e mamede jarouche.
.


23 de jun. de 2011

swift, wilde, yeats, beckett etc.

 

peter o'neill desenvolve um belo trabalho de pesquisa sobre a literatura irlandesa no brasil desde 1888, com levantamento exaustivo de autores, obras, traduções, capas, editoras e datas das edições lançadas entre nós, atualizado até 2011.

dá gosto de ver: irish literature in brazil since 1888.
.

que pena!

.
encafifada com a impressão de que a editora martin claret estaria tentando dar uma no cravo e outra na ferradura ao cadastrar uma tradução de mário laranjeira (flores do mal) e depois uma suposta tradução de um suposto "rodolfo schaefer" (crítica da razão prática) - veja aqui -, fiz um levantamento de seus dez últimos registros oficiais na agência do isbn, na fundação biblioteca nacional. são eles (clique nos títulos para ver as fichas):

978-85-7232-817-3 As flores do mal - trad. Mário Laranjeira
978-85-7232-818-0 Memórias de Sherlock Holmes - trad. Joaquim Machado
978-85-7232-819-7 As aventuras de Huckleberry finn - trad. Alex Marins
978-85-7232-820-3 Dos delitos e das penas - trad. Torrieri Guimarães
978-85-7232-821-0 A arte da guerra - trad. Pietro Nassetti
978-85-7232-822-7 Os melhores contos de Lovecraft - trad. Lenita Esteves
978-85-7232-823-4 Os melhores contos de Edgar Alan Poe - trad. Katia Orberg e Eliane Fittipaldi
978-85-7232-824-1 A arte da prudência - trad. Pietro Nassetti
978-85-7232-825-8 Crítica da razão prática - trad. Rodolfo Schaefer
978-85-7232-826-5 Os arquivos de Sherlock Holmes - trad. Casemiro Linarth

entre os tradutores da lista acima, mário laranjeira e lenita esteves são ambos docentes da usp e autores de traduções sérias e respeitadas. casemiro linarth, jornalista paranaense, tem se dedicado nos últimos anos a traduzir conan doyle para a editora, e não conheço nada que possa desabonar suas traduções. o mesmo em relação a kátia orberg e eliane fittipaldi, esta última também tradutora experiente, docente e conhecedora de poe.
torrieri guimarães, advogado já falecido, traduzia pelo espanhol e, apesar de ter feito e assinado várias traduções ao longo da vida, não chegou propriamente a criar respeitabilidade entre leitores e profissionais.

pietro nassetti, dentista também falecido poucos anos atrás, virou motivo de indignação, espanto e piada em inúmeros veículos de comunicação por dar seu nome a mais de uma centena de cópias e plágios de tradução na editora martin claret. alex marins, que comparece como autor de dezenas de traduções espúrias, não passa de uma figura de fantasia, e tampouco "rodolfo schaefer" parece ser mais do que um simples nome de cobertura.

joaquim machado, tradutor português, era publicado no brasil pela editora melhoramentos, a qual declarou que jamais cedeu os direitos dessa tradução para a martin claret. sua tradução tinha sido adulterada e copiada com o nome de "john green", o mesmo que assina a estupefaciente edição d' a origem das espécies pela editora claret. mas talvez, quem sabe, pode ser que esta tenha vindo a adquirir a licença em data mais recente. a ver.

das dez obras citadas acima, cinco delas, eivadas de irregularidades e/ou inexplicáveis peculiaridades, já foram comentadas no nãogostodeplágio.
  • memórias de sherlock holmes: veja aqui e aqui
  • as aventuras de huckleberry finn: aqui e aqui
  • a arte da guerra: denúncia do jornalista adam sun, na revista piauíaqui; ver também aqui
  • a arte da prudência: aqui e aqui
  • crítica da razão prática: aqui e aqui
mas esses registros recentes na agência do isbn na fundação biblioteca nacional parecem sugerir que a editora martin claret não renunciou a suas bizarras práticas que se estendem por mais de uma década. lamentavelmente, não vejo como a pequena minoria de traduções sérias e honestas conseguiria escapar aos respingos dessa política editorial.

.

22 de jun. de 2011

muito prático

.
para traduzir kant, os claretistas devem ter achado que um nome de ressonância teutônica iria melhor do que um macarrônico pietro nassetti. deve ter sido assim que nasceu "rodolfo schaefer". essa criatura - um golem, talvez? - então parece ter pegado a conhecida tradução de artur morão (edições 70, 1984), e botado uns temperos da tradução mais antiga de afonso bertagnoli (brasil editora, 1959; depois na ediouro).
















[POST ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 06/04/2009 - desnecessário dizer que qualquer tradutor de kant, seja diretamente do alemão ou por interposição de outra língua, há de ter alguma bagagem, seja acadêmica, seja tradutória. "rodolfo schaefer", porém, parece não apresentar outras credenciais além de ser o nome de uma rua na cidade de guabiruba em santa catarina.]

a quem se interessar pela crítica da razão prática na tradução de afonso bertagnoli, ela se encontra disponível para download no site do ebooksbrasil, aqui.

apresento abaixo morão, bertagnoli, "schaefer" e kant. é fácil ver que a base da cópia é o texto de morão, e os vários enxertos de bertagnoli são evidentes. além da cópia literal, que nem é preciso apontar, destaquei alguns exemplos mais curiosos em que "schaefer" repete soluções meio esdrúxulas de bertagnoli ou mistura as duas fontes em português, estropiando o sentido das frases.

ahn, ahn

.
comemorei no post anterior, se não o lançamento (pois não encontrei ainda à venda nas livrarias), pelo menos o cadastramento da tradução de mário laranjeira d' as flores do mal de baudelaire pela editora martin claret. veja aqui.

mas parece mesmo que, como dizem, alegria de pobre dura pouco ou, alternativamente, o lobo perde o pelo, mas não perde o vício; pau torto não endireita, e outras máximas da sabedoria popular. eis que entre os novos livros da editora cadastrados no isbn aparece este aqui: Crítica da razão prática. clicando no título, aparece o cadastro, que é o seguinte:

ISBN: 978-85-7232-825-8
TÍTULO: Crítica da razão prática
COLEÇÃO: A obra-prima de cada autor
VOLUME DA COLEÇÃO: 126
AUTOR: Immanuel Kant
TRADUTOR: Rodolfo Schaefer
EDIÇÃO: 3
ANO DE EDIÇÃO: 2011
LOCAL DE EDIÇÃO: SÃO PAULO
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
PÁGINAS: 400
EDITORA: MARTIN CLARET

aí vira brincadeira. começa que essa suposta tradução desse suposto "rodolfo schaefer" nem seria a terceira, como está registrado, e sim a nona, pois encontram-se à venda edições de 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010.


o mais grave, porém, é a tradução, que já comentei aqui em abril de 2009 e vou republicar no próximo post.
.

nova tradução de flores do mal?

vejo que a editora martin claret cadastrou recentemente no isbn/fbn uma nova edição das flores do mal de baudelaire, agora com tradução de ninguém menos que mário laranjeira.
ISBN: 978-85-7232-817-3
TÍTULO: As flores do mal
COLEÇÃO: A obra-prima de cada autor
VOLUME DA COLEÇÃO: 52
AUTOR: Charles Baudelaire
TRADUTOR: Mário Laranjeira
EDIÇÃO: 1
ANO DE EDIÇÃO: 2011
LOCAL DE EDIÇÃO: SÃO PAULO
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
PÁGINAS: 272
EDITORA: MARTIN CLARET
mário laranjeira é um dos grandes tradutores atuais do brasil, mestre no ofício - procurei essa nova edição da claret em alguns sites de livrarias para comprar, mas pelo jeito ainda não saiu.

imagino que a nova edição da martin claret (isbn 978-85-7232-817-3) provavelmente vem para substituir sua edição anterior, de 2001 (isbn 85-7232-405-4, imagem da capa abaixo). essa edição de 2001, que a editora ainda divulga em seu site (veja aqui), foi um escândalo: tratava-se de uma cópia atamancada da tradução de jamil almansur haddad, que a editora tinha publicado atribuindo-a a "pietro nassetti" - quem denunciou a fraude já em 2002 foi o grande tradutor, poeta e crítico literário ivo barroso, insigne mestre do ofício, em seu artigo "flores roubadas do jardim alheio" publicado na revista agulha. o artigo de ivo barroso mostra com vários exemplos a apropriação feita e os toscos disfarces estropiando os poemas, na tentativa de mascarar o plágio. veja aqui.


resta ainda que a editora martin claret retire rapidamente de circulação e catálogo as sobras dessa edição espúria e lance logo a nova tradução, agora de mário laranjeira. não seria mau de todo se a editora também se prontificasse a ressarcir os leitores que foram ludibriados com a velha edição, trocando-a pela edição de 2011 já cadastrada na fbn.
.

17 de jun. de 2011

tradução vira original

.


L’arte di scrivere i libri degli altri, ovvero i furbi dell'editoria: impressionante! a tradução italiana do romance de patrick süskind, il profumo, feita por giovanna agabio, vira um livro italiano chamado sí no, de autoria de um tal "alberto canetto", mudando um nominho aqui, outro nominho ali.


agradeço o toque de tamara barile, via facebook
.

16 de jun. de 2011

prêmio abl de tradução 2011: ufa!

.
.
a abl não deu vexame no prêmio de tradução 2011: ganha sergio flaksman com sua tradução o amante de lady chatterley, de david herbert lawrence. parabéns ao sergio, tradutor com extensa relação de obras publicadas, todas de alto nível.

aqui a lista completa dos prêmios literários da abl em 2011, com meus votos para que a abl, pelo menos nos prêmios de tradução, não se extravie mais pelas sendas escusas do compadrio.

aqui o arquivo abl, prêmio de tradução 2010.
.

6 de jun. de 2011

por que quero premiações de verdade

aproxima-se a data do prêmio de tradução da abl para obras literárias publicadas em 2010.

gostaria de explicar por que acho importante que esse prêmio de fato premie boas traduções.

em primeiro lugar, creio ser inegável que as obras de tradução têm um peso considerável no brasil. se - segundo dados que vejo na internet - nos estados unidos as traduções literárias correspondem a menos de 4% da produção editorial e, na europa, a cerca de 12-14%, no brasil alguns pesquisadores como heloísa barbosa e lia wyler estimam uma proporção que chega aos 80%.

apesar dessa presença significativa de obras traduzidas no país, o reconhecimento do ofício de tradução está muito aquém do que se poderia esperar. uma das formas de reconhecimento público, em todo o mundo, é a outorga de prêmios a obras de destacada qualidade. no brasil, porém, conta-se nos dedos de uma das mãos o número de prêmios de tradução. e refiro-me apenas à tradução literária, pois a tradução não literária é ainda menos reconhecida.

veja-se como está a situação dos prêmios de tradução literária no brasil:
  • o prêmio açorianos deixou de existir desde o ano retrasado;
  • agora em 2011, a cbl eliminou uma das duas categorias de tradução no prêmio jabuti;
  • com isso, restam apenas o jabuti (em apenas uma categoria, câmara brasileira do livro), o paulo rónai (fundação biblioteca nacional) e o da abl (academia brasileira de letras). a fundação nacional de literatura infanto-juvenil mantém o monteiro lobato tradução criança e o monteiro lobato tradução jovem.
em tradução não literária, temos apenas um prêmio, o da união latina, a cada três anos!

é por isso que acho que temos tanto mais razão em esperar que esses poucos, minguados, rarefeitos prêmios de tradução de fato premiem os praticantes de um ofício que responde por grande parte das publicações e das leituras do país.

e é por isso que acho uma pena enorme que a abl tenha descarrilado totalmente no ano passado, ao conceder um desses raríssimos prêmios a uma obra que não tinha as qualidades mínimas necessárias para ser sequer indicada.

ademais, não podemos esquecer que, antes desse triste episódio na abl em 2010, seu histórico de premiações era digno e louvável. veja-se:
2003 – Boris Schnaiderman
2004 – Bruno Palma e Marcos Santarrita
2005 – Ivo Barroso e Eduardo Brandão
2006 – Geraldo de Holanda Cavalcanti
2007 – Bárbara Heliodora
2008 – Leonardo Fróes e Agenor Soares dos Santos
2009 – Paulo Bezerra
[2010:  Milton Lins]
quanto ao velho argumento de que a abl, sendo uma fundação de direito privado, premia quem ela bem quiser, já expus longamente minha opinião: resumindo, por seu papel institucional, ela tem, sim senhor, de dar algum tipo de satisfação pública pelas escolhas culturais que faz.
 
então, a quem considera tola e inglória essa minha briga para se ter uma premiação legítima na abl, eu respondo: não, muito pelo contrário! temos é de torcer para que a abl volte a reconhecer devidamente a importância das boas traduções.

a quem afirma que essa minha esperança na verdade seria uma cruzada em proveito próprio, só posso lembrar que não costumo fazer tradução literária e me sinto bastante tranquila para defender desinteressadamente prêmios para traduções literárias meritórias.
 
e por fim, a quem pensa que eu não deveria criticar premiações francamente equivocadas porque estaria ferindo colegas de ofício, bom, só posso dizer que o corporativismo nunca foi uma coisa muito saudável em qualquer ofício que seja.
 
atualização: ao que parece, a comissão de tradução da abl já se reuniu e já tem suas indicações para este ano. seria legal se divulgassem.

quem quiser se informar sobre os descaminhos da abl em sua premiação de 2010, ver aqui.
.

5 de jun. de 2011

"se tirar nota zero, eu furo o céu": o shakespeare de milton lins

.

o despropósito que é a tradução dos sonetos de shakespeare cometida por milton lins, aquele mesmo da acintosa premiação da abl em 2010, continua a espantar seus leitores. menos mau que esse crime de lesa-letras não passe em branco, como mostra uma lúcida resenha publicada recentemente: veja aqui.

entre maio e junho de 2010, este blog se manifestou longamente sobre o assunto: a bofetada pública que a abl desferiu simbolicamente contra o digno ofício de tradução ao premiar uma obra de tradução que apenas demonstrava a incompetência linguística de seu autor; o jogo de influências dentro da abl; o silêncio ou desconversa de vários imortais; a cobertura da imprensa sobre esse escândalo; a manifestação de muitos tradutores sérios e intelectuais probos, além de vários exemplos ilustrando os incríveis disparates perpetrados por milton lins. veja aqui os posts publicados a esse respeito.

imagem: voodoo pen-holder, google images
.