Retomo o precioso artigo de Ribeiro, Brito e Santos, "A recepção da obra de Franz Kafka no Brasil", publicado na revista
Pandaemonium Germanicum 9/2005, pp. 227-53, que venho comentando em alguns posts -
ver aqui.
Sempre no intuito de contribuir para a reconstituição da trajetória de Kafka no Brasil, consolido aqui alguns dados e breves retificações, concentrando-me nas décadas 50 a 70. Os pesquisadores apresentam o seguinte levantamento das traduções e retraduções para este período, que complemento nas "Observações":
I. Anos 50
1.
Metamorfose, Brenno Silveira, Civilização Brasileira, 1956
2. "O artista do trapézio", tradução anônima, Cultrix, 1958 (in
Maravilhas do conto alemão, tradução dada como provavelmente a partir do inglês)
Observações:
1. Em 1956, temos também a publicação de
Parábolas e fragmentos, em seleção e tradução de Geir Campos, pela Philobiblion, Civilização Brasileira, em edição especial para sua coleção Maldoror, com tiragem de 300 exemplares e quatro águas-fortes de Poty. A coleção Maldoror era feita na prensa manual "A Verônica", de Manuel Segalá. Assim, caberia colocá-la como pioneira, ao lado de
Metamorfose.
2. Uma retificação rápida: o ano correto da primeira edição é 1957. Quanto à fonte dessa tradução, não creio que seja o inglês, de forma alguma, e merecerá um post à parte.
II. Anos 60
1.
O castelo, Torrieri Guimarães, Tecnoprint, 1964 (supostamente do francês)
2.
O processo, Torrieri Guimarães, Tema, 1964 (idem)
3.
América, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem)
4.
Metamorfose em 3a. ed. (não cita a segunda), Brenno Silveira, BUP, teria ganhado prefácio de Ênio Silveira, 1965
5.
A colônia penal, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem, 39 títulos)*
6.
Os melhores contos de Kafka, trad. A. Serra Leal, editora “paulista” Arcádia, 1966.
7.
Parábolas e fragmentos, sel. e trad. Geir Campos, Ediouro, 1967
8.
A muralha da China, Torrieri Guimarães, Clube do Livro, 1968 (30 contos)
9.
A metamorfose; Na colônia penal; O artista da fome, trad. Brenno Silveira, Leandro Konder e Eunice Duarte (os 2 últimos pelo francês), Civilização Brasileira, 1969
Observações:
1. Em 1964, caberia ainda lembrar a publicação de
Diário íntimo pela Livraria Exposição do Livro, em tradução de Torrieri Guimarães.
A Nova Época Editorial, concorrente direta da Exposição do Livro naquela mesma época, também publica
Diário íntimo, em tradução de Osvaldo da Purificação, mas não consegui descobrir o ano exato de seu lançamento.
1a. A propósito de Torrieri Guimarães: as várias menções no ensaio apresentando o francês como suposta base para suas traduções a meu ver não procedem. Já demonstrei este ponto em relação a
Metamorfose e
Um artista da fome,
aqui e
aqui, e dedicarei mais alguns posts a respeito. As traduções de Torrieri eram visivelmente feitas a partir do espanhol, a despeito do que ele possa ter afirmado em entrevista aos pesquisadores.
1b. Quanto às traduções que inauguram o dito "boom" dos anos 60, ver observações ao item III, 3.
4. Uma rápida retificação: a primeira edição da
Metamorfose pela BUP (Biblioteca Universitária Popular, pertencente a Ênio Silveira, irmão de Brenno Silveira) é de 1963, e já traz o prefácio citado.
5. A citação em asterisco, reproduzida abaixo, também mereceria alguns breves comentários e será objeto de um post à parte.
6. Aqui mais uma pequena retificação: a editora Arcádia não é paulista, mas portuguesa, sediada em Lisboa; assim, caberia excluí-la de um mapeamento das traduções brasileiras de Kafka. A primeira edição deste volume é de 1962.
7. Caberia eliminar
Parábolas e fragmentos desse bloco cronológico, visto que, cf. observação acima, a pioneira tradução de Geir Campos foi publicada originalmente em 1956.
III. Anos 70
1.
O processo, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
2.
Metamorfose, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
3.
O processo, Manoel Ferreira Pinto e Syomara Cajado, Círculo do Livro, 1977
Observações:
3. A tradução de Syomara Cajado (pelo inglês) foi publicada originalmente pela editora Nova Época. Manoel Ferreira Pinto foi provavelmente o preparador do texto para a edição posterior do Círculo Livro.
Quanto aos anos 80 em diante, chamou-me a atenção um apontamento dos articulistas: em 1985, haveria "uma nova tradução realizada também a partir do inglês por Enio Silveira e Marques Ribeiro Calouro, cuja publicação fica a encargo da editora Tecnoprint". (p. 239) Não consegui localizar nenhuma referência a esta edição e teria muita curiosidade em conhecê-la. Por outro lado, encontrei menção a um volume publicado pela Civilização Brasileira em 1983 (e mais numerosas para o ano de 1993), com o título de
Contos, fábulas e aforismos, com seleção, introdução e tradução de Ênio Silveira, proprietário da editora. Marques Rebelo, por seu lado, fazia muitas adaptações para a Coleção Calouro da Tecnoprint. Talvez tenha havido aí alguma mistura entre os nomes
* Comentam os autores quanto a esta edição: "Um problema a ser levantado é o fato de Torrieri Guimarães referir-se à antologia como se fosse do próprio Kafka. Em nenhum momento, é esclarecido ao leitor que os textos não foram reunidos e dispostos daquela forma pelo autor (fato relevante, uma vez que se conhece a preocupação de Kafka com essa questão). Também não são indicados os critérios para a seleção dos textos." (p. 234). Para o esclarecimento dessa questão, ver
aqui.
Quanto à fortuna de
Metamorfose no Brasil, recomendo vivamente o livro de Celso Cruz,
Metamorfoses de Kafka. São Paulo: Fapesp/ Annablume, 2007.
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