4 de jul de 2011

o primeiro kafka no brasil

como são impressionantes as lacunas sobre a história literária no brasil (digo "no", não "do"). estou pensando no caso de kafka, que começou a ser traduzido no país há cerca de cinquenta anos, com interposição do inglês e do espanhol, e só nas últimas décadas diretamente do alemão.

e mesmo assim, decorrido meio século apenas, é tremenda a dificuldade em reconstruir a trajetória de sua divulgação entre nós. transcrevo abaixo uma passagem de um artigo chamado "a recepção da obra de franz kafka no brasil", de celeste ribeiro de sousa, eduardo manoel de brito e maria célia ribeiro santos, publicado na revista pandemonium germanicum, 9/2005 (pp. 227-53, disponível aqui):
... a 1a obra de Kafka em tradução para o português do Brasil, realmente localizada, foi Die Verwandlung (A metamorfose) de 1956, uma tradução realizada por Brenno Silveira, e que marca o início da 1a fase. Trata-se de uma tradução efetuada a partir do texto em inglês, e publicada pela Civilização Brasileira no Rio de Janeiro. Essa tradução foi objeto de controvérsias. Enquanto Otto Maria Carpeaux, nos artigos “Romances proféticos” de 09.08. 1958 e “Livros que não há na mesa” de 13.06.1959, ambos publicados pelo jornal O Estado de São Paulo lamenta que nenhum texto de Kafka tenha sido traduzido no Brasil, estudiosos como João Barrento e Edgard Cavalheiro fazem referência em 1957 a essa tradução, desconhecida por Carpeaux. A própria editora Civilização Brasileira, em resposta à nossa solicitação de esclarecimentos, negou ter publicado tal tradução! Após várias buscas, contudo, dois exemplares deste texto controverso foram localizados no acervo de “Obras Raras” da Biblioteca Municipal Mário de Andrade em São Paulo, o que atesta a veracidade das informações de Barrento e Cavalheiro - a tradução de A metamorfose de 1956 realmente foi feita e existe.
eis a sobrecapa e a página de rosto da edição de 1956. foi uma edição de luxo, em tamanho grande (24,5 x 34,5), com sobrecapa e ilustrações em página inteira de walter lewy, com tiragem de 1.000 exemplares.



 

várias informações úteis sobre a edição e também sobre lewy podem ser encontradas no livro de celso cruz, metamorfoses de kafka (annablume/ fapesp, 2007, visualização aqui).
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63 comentários:

  1. Denise, ótimo post. O caso de Kafka realmente é emblemático, e nos impressiona pelo fato de ser um autor tão importante para a modernidade. Nesta curta exposição, é possível perceber várias coisas negativas que concernem a nossa produção editorial (as quais, espero, têm mudado): a começar pela capa, totalmente contrária à vontade (e pretensão literária) do autor, passando pelo fato de a própria editora não assumir - ou, quem sabe, sequer manter o registro de - suas publicações mais longínquas.

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  2. Anônimo4.7.11

    Não existe uma edição da Nova Época, 1948, tradução de Syomara Cajado?

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  3. olá, laion: é incrível mesmo - os arquivos somem - ou sabe-se lá se a empresa mantinha arquivos...

    prezado anônimo: também fiquei muito encafifada ao ver vários registros d'a metamorfose pela nova época com data de 1948 na estante virtual.

    http://www.estantevirtual.com.br/mod_perl/busca.cgi?pchave=%2Ba%20%2Bmetamorfose&alvo=autor ou titulo&showptit=1&inicio=1&orderby=livros_antigos&fvend=&fperf=&fpric=&fest=&fano=&fcid=&bestante=&bvendor=&refinar=0&memoria_queries=autor ou titulo 1v1 %2Ba%20%2Bmetamorfose&just_remodeling=1&ffpagto=&paginar=40&fadded=

    tenho dois volumes da editora ("carta a meu pai" e "a colônia penal"), simplesmente sem qualquer data de publicação. ao ver esses registros, escrevi a uns 3 ou 4 sebos da EV pedindo confirmação da data (inclusive um deles anuncia a data de 1948 e a chamada "em nova e primorosa tradução de syomara cajado" - o que faria supor, além do mais, que haveria uma tradução até anterior). um me respondeu confirmando a data, e outro se desculpou dizendo que não tinha data e iria corrigir no cadastro.
    comentei o caso com o celso donizete cruz. ufa: afinal deslindamos o mistério pelo exemplar dele - é: copyright 1948 by schocken books (que aliás tb é o mesmo copyright da colônia penal - pois a schocken publicou as obras completas do kafka em 48)... é uma loucura. de qq forma, se celso não tivesse confirmado com o exemplar dele e eu não corroborasse com meu exemplar da colônia e a data de edição da schocken, teria de comprar um exemplar para tirar a dúvida.
    pois a loucura é que a nova época nem existia em 1948...

    mas são bem esses os ossos do ofício de pesquisador :-) fico contente que vc tenha notado a questão da data!

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  4. Os dados bibliográficos que constam em muitos dos livros à venda na EV não são confiáveis, como podemos comprovar com o caso em questão.Tampouco são corretos os pesos de inúmeros livros lá ofertados. Mas isso foge ao tópico.

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  5. caro henrique, às vezes fico perplexa: é tão difícil assim copiar as coisas certo?

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  6. Ranieri31.7.11

    Prezada Denise

    Desculpe fugir do tópico, mas preciso sugerir um tópico aqui neste blog que tem prestado um serviço de utilidade pública aos leitores brasileiros. Gostaria que discutissemos a autenticidade das traduções do Sr. Edson Bini. Como sabemos, este senhor traduziu Kant, Aristóteles e a obra completa de Platão. Curiosamente, se fizermos uma pesquisa no Google, não encontraremos nenhuma menção à sua biografia, atividades intelectuais ou de qualquer natureza. Trata-se de um Ghost Writer, tal como no Trunvirato de tradutores da Martin Claret. O problema é que, no caso da Martin Claret, já é público que se trata plágio. Todos sabemos que são falsas traduções e já há uma recusa difusa nos meios acadêmicos em citar tais edições. Sou professor e sempre alerto meus alunos na graduação e na pós. Entretanto, no caso de Edson Bini, há anúncios em sites de livrarias como: "a retórica de Aristóteles numa tradução magistral de Edson Bini". E nos meio acadêmicos estas traduções estão amplamente difundidas, citadas e recomendadas. Sabemos que o tradutor maior de Platão no Brasil é Carlos Alberto Nunes, este tradutor magnífico (este sim com biografia e trajetória intelectual reconhecidas). Não obstante, as traduções de Nunes estão esgotadíssimas e as de Edson Bini podem ser compradas num click em qualquer livraria.
    Minha pergunta é: Quem é Edson Bini? Onde ele estudou? Onde Aprendeu Grego? Ele dá aulas? Em que Universidade? Trata-se de um tradutor diletante?
    Desafio a todos descobrir, porque no google, não há nada.

    atenciosamente
    ranieri

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    1. Olá, Ranieri!!! A tradução de Carlos Alberto Nunes voltou a ser editada pela editora da UFPA.

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    2. PROCUREM NO SITE DA EDIPRO,lá tem o currículo do Sr. EDSON BINI

      Edson Bini é um consagrado e produtivo tradutor,  sendo esta sua atividade principal há mais de 40 anos. Nasceu em São Paulo, em 02 de dezembro de 1946. O primeiro livro que leu na vida foi O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Aos 12 anos se apaixonou por filosofia quando leu pela primeira vez Platão. Estudou filosofia na Faculdade de Filosofia,  Letras e Ciências Humanas da USP e seu interesse inicial pela língua grega foi despertado nas primeiras aulas do professor José Cavalcante de Souza (doutor em língua e literatura gregas) quando ele escrevia fragmentos dos pré-socráticos em grego no quadro negro. Nesta época, década de 70, iniciou sua atividade como tradutor e redator, além de se dedicar ao estudo da história das religiões. Trabalhou com o jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão. Realizou dezenas de traduções nas áreas da filosofia, inclusive filosofia do direito, para as editoras Hemus, Ícone, Martins Fontes, Landy, Loyola e há quase 20 anos é tradutor da Edipro, ocupando-se principalmente da tradução anotada, de cunho marcantemente didático e formativo, de grandes obras da filosofia grega antiga, embora haja também trazido para nosso vernáculo, autores como Maquiavel, Kant, Montesquieu, Nietzsche, Rousseau, Bacon e Descartes. Dedicando-se, sobretudo, à tradução anotada durante este período, seu trabalho que ganhou maior notoriedade foi a tradução das obras completas de Platão e na sequência obras de Aristóteles.  http://edipro.com.br/autor-nome/?nome=Edson%20Bini

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  7. olá, ranieri: pois é, você não é a primeira pessoa que comenta aqui no blog as traduções de edson bini.

    na verdade, ele existe, sim. uma vez cheguei a ler uma extensa entrevista feita por uma estudante, com fotos e tudo - pena que não guardei nem gravei o link.
    pelo que entendi, ele dava aulas no curso de jornalismo da cásper líbero, e falou bastante sobre suas traduções. estas parecem percorrer várias editoras, desde a hemus, a ícone, a madras, a edipro.

    parecem também cobrir um amplo leque: muita coisa de mecânica, de misticismo, de manuais técnicos, chapas metálicas, sexualidade, e esse veio aparentemente muito fértil dos clássicos da filosofia e da teoria política - se não me engano ele fez curso de filosofia na usp na juventude (agora é um senhor, deve estar na faixa dos 70 anos).

    é uma pena que tantas traduções boas de filosofia estejam esgotadas...

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  8. ranieri2.8.11

    Denise, Prezada

    O caso de Bini, suspeito, é quase tão surpreendente quanto o caso da Martin Claret. Há um site chamado Perseus em inglês no qual estudiosos do mundo todo tiram dúvidas acerca de termos e obras greco-latinas. Desconfio seriamente que as traduções de Bini são versões das traduções em inglês. Estou a cotejar algumas e percebi textos ipsis litteris em várias passagens. A tradução de "As Leis" de Platão que está disponível no Perseus e é uma muito usada em Harvard, de R.G. Bury, inicia-se da seguinte forma:

    Athenian
    To whom do you ascribe the authorship of your legal arrangements, Strangers? To a god or to some man?
    Clinias
    To a god, Stranger, most rightfully to a god. We Cretans call Zeus our lawgiver; while in Lacedaemon, where our friend here has his home, I believe they claim Apollo as theirs. Is not that so, Megillus?
    Megillus
    Yes.
    Athenian
    Do you then, like Homer,1 say that [624b] Minos used to go every ninth year to hold converse with his father Zeus, and that he was guided by his divine oracles in laying down the laws for your cities?
    Clinias
    So our people say. And they say also that his brother Rhadamanthys,—no doubt you have heard the name,—was exceedingly just. And certainly we Cretans [625a] would maintain that he won this title owing to his righteous administration of justice in those days.
    (http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.01.0166)

    Edson Bini, por sua vez (desculpe os eventuais erros na digitação, a pressa incorre nisso):

    a ateniense: A quem atribuis, estrangeiros, a autoria de vossas disposições legais? A um deus ou a algum homem?
    Clínias: A um deus, estrangeiro, com toda a certeza a um deus. Nós cretenses chamamos de Zeus o nosso legislador, enquanto na Lacedemômia, onde nosso amigo aqui
    tem seu domicílio, afirma,- acredito - ser Apolo
    o deles. Nao é assim, Megilo?
    Megilo: Sim.
    o ateniense: Dizes, então, como Homero, que Minos costumava ir de nove em nove anos manter eonversações com seu pai, e que ele era guiado por seus oráculos divinos no estabelecimento das leis para vossas cidades?
    Clínias: Assim diz nosso povo, que diz tamhem que seu irmao Radamanto -indubitavelmente ouviste este nome - foi sumamente justo. E certamente nós, cretenses, sustentaríamos que ele conquistou este título devido a sua correta administração da justiça naquela época.

    Há várias traduções deste texto em inglês (no library.nu podemos baixar umas três das boas). Mas cada uma tem um encadeamento de texto distinto. A tradução do Bini é apenas uma tradução dessa tradução inglesa. Basta seguir o texto e verás.

    A tradução dele, Bini, está disponível para download no 4shared.

    bem, é isso. Valeu!
    Ranieri

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  9. olá, ranieri: sim, tem toda razão, é uma tradução literal, por decalque, como a gente diz. e a editora não dá na ficha catalográfica a edição em inglês que serviu de base? aí complica...

    eu tinha encontrado essas anotações aqui:

    “A tradução em português (do Brasil) de Bini, acompanha muito de perto a tradução inglesa de Cooke.” In Rivia Silveira Fonseca, “Aristóteles e a Linguagem: Estudo e Tradução do Perì Hermeneías”, tese de doutorado, IEL/Unicamp, 2009, p. 39 http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000449687

    Pedro de Moraes Rego e Freitas Santos, USJT, in “Força existencial e formas categóricas na silogística de Aristóteles”, Integração, ano XIII, n. 50, pp. 283-290, à p. 290, nota 4: “O que é de fato surpreendente é que as duas traduções do De Int. para o português que eu conheço, a portuguesa de Pinharanda Gomes e a brasileira de Edson Bini, vertam tanto 1) quanto 2) incorretamente por ‘um homem não é branco’.” ftp://ftp.usjt.br/pub/revint/283_50.pdf

    um professor da usp tinha me dito que a metafísica do kant que saiu pela coleção folha com tradução do mesmo senhor era feita a partir do francês, mas não cheguei a ir atrás.

    tradução por interposição ainda é frequente entre nós, uma pena. é lamentável, mas é lícito. o problema é se a editora escamoteia ou oculta esse dado ao leitor.

    tendo ocasião, vou visitar com calma o site que vc citou.

    obg!
    abraço
    denise

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  10. ranieri, encontrei a entrevista do senhor com as mocinhas da cásper líbero, mas o link não funciona mais. me parece meio fraquinha e demagógica, mas se vc quiser que te envie a título de curiosidade, é só avisar.
    dbottmann@uol.com.br

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  11. Olá,

    Quanto a essas traduções de Edson Bini, também eu suspeitava que fossem das versões inglesas disponibilizadas no site da Perseus (no caso de obras gregas).

    Eu já tive a tradução dele, do Bini, da "Metafísica" de Aristóteles, e, suspeitando, dentre outras coisas, da incrível rapidez com que este tradutor publicava traduções de Platão do "original grego" (como em muitas, ou em todas as edições se afirma), já que normalmente uma tradução de textos originais gregos ou latinos (ainda mais de filosofia) são trabalhosas e por isso mesmo demoram mais ou menos, resolvi por acaso fazer um cotejo no referido site e constatei o mesmo que o Ranieri.

    Uma pena eu não ter mais o exemplar para aqui fazer o cotejo das duas traduções...
    Mas como um exemplo já foi dado aqui, estou só reforçando esta mesma opinião de que essas traduções são do inglês, e não do grego, como consta nas edições.

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  12. Claudio21.3.12

    Prezados,

    Minha teoria: Edson Bini NÃO EXISTE, tratando-se, na verdade, de um pseudônimo utilizado por um, ou muito provavelmente, por vários "tradutores", que se utilizam deste nome.
    Digo isso porque não há vestígios do homem no Google - apenas um quase homônimo - no Facebook. Conheço inúmeras pessoas do meio em São Paulo que jamais o viram pessoalmente.
    Um artifício engenhoso da editora, pois a nossa atenção acaba recaindo sobre este suposto "Edson Bini", quando, na verdade, é editora a EDIPRO que deveria ser questionada.
    SUGESTÃO: PROPAGANDA NEGATIVA DESTA EDITORA EM TODAS AS REDES SOCIAIS

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    1. Quanta irrespossabilidade Sr Claudio.
      Pesquisas apontam que 100 milhões de brasileiros usam a internet, o que faz com que porventura venham a ter conta no facebook e seu nome no Google, e portanto usando sua lógica existirem, mas e os outros 90 milhões que não usam internet, para o Sr não existem?

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  13. prezado claudio: edson bini publica suas traduções - que, de fato, são bastante ecléticas - faz mais de trinta anos, pela hemus, e nos últimos dez, doze anos pela edipro. até onde sei, é aposentado, está na faixa dos 60-65 anos de idade e mora em bauru.

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  14. Anônimo26.6.12

    Quanta irresponsabilidade difamar deste jeito uma pessoa que vocês sequer conhecem. Em primeiro lugar, é claro que ele existe de verdade, o conheço pessoalmente e sei que, assim como eu, ele se formou em filosofia pela USP. Edison Bini trabalha no mercado editorial a mais de 30 e possui, além de suas traduções, livros publicados de própria autoria. Em segundo lugar, sim, ele traduz direto do grego. Todas as traduções deste autor, inclusive, são feitas das linguas originais. Se ele públicou muitas obras de Platão em um tempo curto, isto significa que, ou ele trabalha sob pressão da editora ou domina bem a lingua grega, ou ainda, pode significar as duas coisas. Pessoalmente posso dizer que Edison Bini é um profissional sério e copetente, acho justo e positivo que se faça críticas sobre a qualidade técnica de seu trabalho, mas colocar sob suspeita sua integridade ética sem nenhuma base consistente(o Google não é nenhuma fote universal de todas as verdades, caso vocês não saibam) é muita irresponsabilidade. Algumas pessoas aqui deveriam ser processadas por calúnia, tomem mais cuidado ao avaliarem o trabalho dos outros.

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    1. Anônimo29.4.15

      Por que vc não defende usando o seu nome? Será um fake?

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    2. Capaz de ser um editor, ou assistente de editor, da EDIPRO. Mesmo que o Google não seja o "mestre da verdade", é curioso que podemos encontrar mais ou menos facilmente todo grande tradutor, estudioso e reconhecido pensador aqui do país por meio dessa ferramenta tecnológica. Não conta uma biografia dada pela editora interessada ou por um sujeito anônimo. Bini não está no Lattes, não se encontra dados dele na USP... Simplesmente existe a alegação de ser uma grande tradutor trabalhando há 30 anos. Estudo grego há 4 anos na UFRGS e ainda suspeito das traduções de Bini. Pode ser real essa história? Pode. Mas é muito curioso que suas traduções sejam tão "decalques" do inglês e francês. Fazendo exercícios de tradução de Aristófanes e cotejando com as traduções no país, pude perceber que é muitíssimo difícil termos traduções assemelhadas, quando muito decalcadas... Para mim, ainda resta que esse senhor apareça de uma modo mais claro para que eu deposite fé em sua idoneidade.

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  15. prezado anônimo: tenho procurado esclarecer constantemente nos comentários que há notícias e inclusive entrevista de edson bini na rede, que tem longo currículo com mais de trinta anos de traduções, com um amplo currículo eclético de obras variadas, e que não se trata de nenhum fantasma editorial. cheguei também a especificar que edson bini se formou em filosofia na usp. quanto às leis de platão, parece bastante evidente que a fonte da tradução foi o inglês, o que, aliás, não é nenhum crime, é algo plenamente lícito e bastante usual sobretudo em obras de filosofia clássica em grego. quanto às avaliações críticas de Rivia Silveira Fonseca e Pedro de Moraes Rego e Freitas Santos sobre a tradução de edson bini, creio que o mais adequado seria que o comentador anônimo encaminhasse seus reparos a eles.

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  16. ESCLARECIMENTO DA EDIPRO. EDIÇÕES PROFISSIONAIS LTDA.
    SOBRE O TRABALHO DE TRADUÇÃO DE EDSON BINI
    Surgiram no blog nao gosto de plágio matérias em torno da dúvida quanto a autenticidade das traduções de EDSON BINI. Esse blog presta um importante serviço público aos leitores de língua portuguesa, pois seus integrantes
    fiscalizam e examinam as traduções publicadas, expressando um parecer acerca delas, o que é altamente positivo e proveitoso. Registramos, aqui, a nossa admiração e reconhecimento a esse valioso serviço. Entretanto, no seu zelo, o que é até compreensível, esse blog às vezes permite a publicação de impropriedades e avaliações equivocadas.
    As traduções anotadas do Sr. Bini para esta Editora são sempre baseadas nos textos na língua original, sobre os quais se debruça, utilizando-os como o seu ponto de partida e fundamento. E, nesse sentido, entendemos que são traduções realizadas a partir do original.
    O leitor pode estar certo de que as traduções anotadas do Sr. Bini são totalmente confiáveis.Finalmente, informamos que ele obviamente existe (no blog um participante blog chega a nadificá-lo ou imaginá-lo como uma invenção desta Editora!). Ele é um cidadão brasileiro de carne e
    osso, cujo ganha-pão é traduzir profissionalmente durante muitas horas por dia, o que explica a publicação de tantas traduções suas num período relativamente curto. Iniciou suas atividades com esta Editora há aproximadamente quinze anos. Seu trabalho esta profusamente indicado na Internet e seu curriculum esta disponível na Edipro. Por uma questão de temperamento e personalidade, sempre foi esquivo à publicidade. É algo que respeitamos.
    A EDIPRO, atuante desde 1975, continuará trabalhando seriamente em prol da formação humanística em nosso país.Colocamo-nos à disposicao para que os integrantes do blog possam marcar um encontro nesta editora, em São Paulo, juntamente com o Sr. Edson Bini, onde ele, pessoalmente, prestará todas as informações e responderá às indagações que julgarem necessárias. Contato: edipro@edipro.com.br
    Solicitamos respeitosamente que blogueiros e contribuintes do blog utilizem este mesmo email para checar a veracidade das informações referentes à Edipro, suas publicações e seus tradutores, antes de publicar informações inapropriadas neste ou em qualquer outro veículo.
    Cordialmente,
    EDIPRO. EDIÇÕES PROFISSIONAIS LTDA.
    CNPJ 47.640.982/0001-40
    edipro@edipro.com.br

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    1. Edson Bini
      Conheço Edson Bini há mais de 30 anos e garanto que a arte de traduzir se aprimora mais no dia-a-dia do serviço nas empresas (no caso de traduções técnicas) do que em cursos uiversitários. As bordoadas ultrajantes a ele e a editoras despejadas nos blogs, por mortais apagados e supostos professores podem ser facilmente contestadas. Existem traduções diretas de grego e latim (e eslavônico!) que são simplesmente ridículas: se quiserem dou provas). E existem traduções cotejadas com outras (de valor), traduções oblíquas, que são valiosas; tudo depende do talento e cultura do tradutor. Lembro que Gogol, Tolstoi, Dostoievski e outros, no século passado eram publicados pela José Olímpio em traduções oblíquas e nunca anatematizadas! Ora, a Bíblia que se lê há séculos é tradução do grego e o Novo Testamento que pulula nas livrarias é tradução (boa ou não) do latim e não do grego. Aos ululantes invejosos, o tradutor pode dizer: Se traduzi mal, mostrem onde; se traduzi bem, por que me esbofeteiam? Desculpem, não estou plagiando Jesus Cristo, apenas parafraseando...
      joshuah traduções

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    2. Caro Joshuah, a dificuldade de qualquer estudioso é que podemos encontrar mais ou menos facilmente todo grande tradutor, estudioso e reconhecido pensador aqui do país por meio da internet. É sempre passível de dúvidas (dúvidas honestas ainda por cima) uma biografia dada pela editora interessada ou por sujeitos com credibilidade difícil de atestar. Bini não está no Lattes, não se encontra dados dele na USP, não há artigos publicados desse senhor (só para dar exemplos simples, podia continuar listando meios de avaliá-lo)... Simplesmente existe a alegação de ser uma grande tradutor trabalhando há 30 anos. Se for isso um fato, fico feliz. Estudo grego há 4 anos na UFRGS e ainda suspeito das traduções de Bini. Suspeita honesta, de quem está interessado em pesquisa. Pouco importa se antigamente José Olympio fazia traduções oblíquas, afinal, todo sério estudioso da literatura sabia disso, mas o alvo daquela editora era o público amplo. Mas é muito curioso que as traduções desse senhor sejam tão "decalques" do inglês e francês. Fazendo exercícios de tradução de Aristófanes e cotejando com as traduções no país, pude perceber que é muitíssimo difícil termos traduções direto do grego que sejam entre si assemelhadas, quando muito decalcadas... Para mim, ainda resta que esse senhor apareça de uma modo mais claro para que eu deposite fé em sua idoneidade. Ao contrário do que afirmam outros usuários que postaram no blog nessa discussão, é um ato de muita responsabilidade averiguar o caráter das traduções a que se servem pesquisadores. Para o grande público as traduções que existem são boas, oblíquas ou não. Se o objetivo da Edipro é o público amplo, então está bem, pode ser até um ghost writer, poderia ser até da Martin Claret... Mas isso deveria estar mais claro. Se suas traduções querem ser fonte para pesquisadores, bom, então precisa-se mais transparência acerca da biografia acadêmica e/ou trajetória intelectual desse senhor.

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  17. agradeço à edipro pela manifestação. os leitores que deixaram comentários e expressaram suas dúvidas na caixa de comentários deste blog certamente se sentirão mais esclarecidos.

    por outro lado, cabe esclarecer que este blog jamais publicou nenhuma matéria sobre o sr. edson bini e suas traduções, seja na hemus ou na edipro. em resposta a comentários de leitores, este blog sempre procurou esclarecer dúvidas sobre a existência do referido tradutor, inclusive sobre sua formação acadêmica, o longo tempo e o ecletismo de sua atuação.

    com a manifestação abalizada da edipro, a quem novamente agradeço, creio que ficam definitivamente dirimidas quaisquer eventuais dúvidas dos leitores deste blog.

    denise bottmann

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    1. Desculpe, Denise, mas não ficam não "dirimidas as dúvidas" como você diz. Ainda restam questões. Vide minha resposta ao senhor Joshuah acima.

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  18. A respeito da comparação entre a tradução inglesa disponível na biblioteca digital Perseus e o texto do sr. Edson Bini, cotejei brevemente alguns trechos aleatórios daas traduções do Górgias e, embora hajam semelhanças, elas me pareceram inconclusivas. Além disso, as notas de rodapé das edições inglesa e brasileira diferem radicalmente, demonstrando a edição brasileira um grande cuidado alertar os leitores brasileiros para a polissemia dos termos gregos bem como para ocasionais jogos de palavras intraduzíveis.
    Disponho aqui de um exemplar da República traduzida por Maria Helena da Rocha Pereira e publicada pela editora portuguesa Calouste Gulbenkian, mas não tenho nenhum exemplar da edição da Edipro para compara-las. Entretanto, acho o padrão das notas de rodapé desta edição da República e das edições dos demais Diálogos publicadas pela Edipro muitíssimo semelhantes; se alguém possuir algum exemplar da República da Edipro pra cotejarmos as traduções, favor entrar em contato.

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    1. Anônimo12.6.15

      "hajam" semelhanças?

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  19. Bem, voltando ao tópico... rsrsrs... Denise, teria alguma informação sobre traduções de Kafka por Carlos Drummond de Andrade? Parece que chegou a traduzir do francês "O Caçador Graco".

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    1. olhaí, unknown, desta eu não sabia. vou ver se encontro algo a respeito e posto aqui.
      em http://www.dicionariodetradutores.ufsc.br/pt/CarlosDrummonddeAndrade.htm tem uma listagem (não sei até que ponto completa) das traduções do drummond.

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  20. Anônimo3.1.13

    O livro "Crepúsculo dos Ídolos" de Nietzsche, traduzido por Edson Bini e Márcio Pugliesi e publicado pela editora Hemus é horrível. A impressão é que eles traduziram, mas não leram o que traduziram.

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  21. Anônimo12.9.14

    Caros, por acaso, caí nesse blog procurando no google uma informação sobre traduções e me chamou a atenção, citarem o nome Edson Bini, especialmente como se ele não existisse. Achei engraçado. Ele existe sim, e é meu primo. Quando criança eu já ouvia falar de seu trabalho uma bíblia que havia em casa "Dicionário Técnico Industrial" se não me engano. Eu confesso que mesmo sendo sua prima-irmã, por sermos de gerações diferentes também não conheço muito a obra e a trajetória dele. Mas que eu saiba ele fez USP sim e trilhou um caminho autodidata em vários outros idiomas (pelo menos, que eu me lembre). Bem, a editora já publicou o contato dele. abraços Carla

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    1. Afirmações de uma anônimo... Meu desejo de que seja verdade não torna verdade, infelizmente.

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  22. Entrei neste blog para buscar informações a respeito da Editora Edipro, porque fiquei extremamente preocupado ao começar a ler o livro 'A Política" de Aristóteles da Editora Edipro, 2ª edição de 2009, tradução de Nestor Silveira Chaves, e encontrar à página 15, a palavra manjedoura escrita com g, ou seja, mangedoura. Se possível, gostaria de uma palavra a respeito da confiabilidade da editora. Obrigado, Alex

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  23. Encontrei este post ao procurar informações sobre Edson Bini e a Edipro. Logo em seguida surgem dúvidas sobre Cássio M. Fonseca, de quem não encontro nenhuma informação a respeito além de sua tradução da Ética de Aristóteles, sobre Nestor Silveira Chaves e Torrieri Guimarães. Alguma informação conclusiva? Seria possível criar um tópico sobre a questão? Procuro uma edição confiável de Aristóteles: alguma indicação? Muitíssimo grato.

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  24. alex e felipe, a tradução de "a políotica" de aristóteles, por nestor silveira chaves, é dos anos 40, pela editora atena, que tem sido reeditada pela ediouro e pela edipro nas últimas décadas. talvez isso explique o "mangedoura", sem ter passado por uma revisão mais atenta.

    quanto a cássio m. fonseca, felipe, há uma questão interessante sobre a editora athena (e atena sem o "h" após 1942, mais ou menos): era uma editora de esquerda, com muitos integrantes das ligas antifascistas e trotskistas, e alguns presos políticos durante a ditadura varguista traduziram sob pseudônimo para a editora, durante o cárcere. é o caso de aristides lobo e de fúlvio abramo, p.ex. - de fato, não se encontram referências a "cássio m fonseca" afora sua tradução, que é de 1940, no máximo. seria interessante uma pesquisa - pelo perfil da casa, não é impossível que se tratasse de um caso semelhante. procure aqui no blog, na linha de assuntos na coluna à direita, "athena". vc encontrará algum material.

    já quanto a torrieri, falecido poucos anos atrás, foi um tradutor bastante prolífico, apenas a partir do espanhol e infelizmente também com alguns problemas de plagiar traduções alheias. procure aqui no blog, na linha de assuntos na coluna à direita, "torrieri guimarães". vc encontrará bastante material.

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  25. Anônimo24.1.15

    Sobre a confiabilidade das editoras: interessante como não vejo ninguém questionar uma editora como Martins Fontes, Cia das Letras...Por exemplo, no exemplar da "Fenomenologia da Percepção" (1999), uma excelente tradução, sem dúvida, falta um parágrafo inteiro do original! E já peguei "erros" de português em edições da Cia das Letras. Então...elas não seriam confiáveis? O que quero dizer com isso tudo é que a postura de alguns "críticos" parece dupla. Ora, as editoras mencionadas são confiáveis sim, obviamente, têm tradição no mercado, porém, não são imunes aos erros...Cabe aos leitores que se sentirem incomodados entrar em contato com a editora e relatar os erros, questionar algum dado etc. Como poderia ter sido feito no caso do tradutor Edson Bini. O que custava ter entrado em contato com a editora e perguntar sobre? Já partem do pressuposto de que vão receber uma resposta mentirosa? E então partem para "teorias" sobre? Um pouco mais de responsabilidade e ponderação, por favor, ó intelectuais letrados e eruditos.

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  26. anônimo, você está totalmente equivocado. como diz o nome deste blog, aqui trato de plágios de tradução - em paralelo, também faço pesquisas em história da traduções e publico aqui pequenos achados que me parecem interessantes. não trato de erros nem analiso a qualidade de traduções. sobre edson bini, que só veio a ser comentado neste blog em função de comentários de leitores, de nada sei que o desabone como legítimo tradutor das obras com créditos em seu nome, como tampouco de nada sei que desabone a autenticidade das traduções publicadas pela martins fontes e a companhia das letras, que vc citou.

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  27. Anônimo20.3.15

    Para começar, achei essa discussão muito útil e esclarecedora. Tenho todas as traduções de Platão e Aristóteles do Bini. Sempre as achei boas, o texto fluente e didático. Porém a falta de informações sobre o tradutor e o fato de que nenhum professor (sou de Fortaleza) também de nada sabiam sobre o referido tradutor e ainda a enxurrada de traduções do grego que do dia para a noite inudava as prateleiras sempre me deixaram com um pé atrás. Agora com o esclarecimento da editora estou bem mais tranquilo. O homem é apenas um original. Obrigado a todos que contriv

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    1. Resta saber se essas traduções são boas somente para o público amplo ou para pesquisadores também. Ainda continuo com um pé atrás. Estudo grego clássico há quatro anos e traduções boas do original são difíceis de fazer, por isso confiar em tradutores para pesquisa acadêmica deve passar por um crivo um pouco mais forte. Ora, esse senhor pode existir de fato e ser tudo o que a editora alega ser, porém academicamente ele é ausente. Só saber traduzir do grego não é suficiente para autores como Platão, Aristóteles, Plotino e cia. É preciso compreender do que trata o autor para fazer uma tradução realmente adequada. Talvez as traduções da Edipro sejam simplesmente para consumo do publico amplo, não para pesquisadores. Se for o caso, então pouco importa se o sr. Bini existe ou não ou se as traduções são decalques do inglês.

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  28. Anônimo2.4.15

    Desculpem, mas continuo com a impressão de que a editora não esclareceu nada, apenas usou de um subterfúgio: "As traduções anotadas do Sr. Bini para esta Editora são sempre baseadas nos textos na língua original, sobre os quais se debruça, utilizando-os como o seu ponto de partida e fundamento. E, nesse sentido, entendemos que são traduções realizadas a partir do original." Obviamente, todos os tradutores valem-se do trabalho de outros tradutores, mas 'entender, nesse sentido' que se trabalha 'a partir do original', para mim, apenas significa que ele coteja o original com traduções em línguas modernas e apresenta uma versão em português. E isso deve ser indicado 'claramente' para o leitor, em respeito aos leitores e aos que trabalham, de fato, com o original.

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  29. publico a pedido de maíra lot micales, coordenadora da edipro, um esclarecimento de edson bini. está dividido em várias partes porque é extenso, e a caixa de comentários do blogger aceita apenas 4096 caracteres por comentário.

    Há mais de dois anos respondi ao site Não gosto de plágio. Expressei meu pasmo diante da minha “não-existência” e por um momento, evocando Descartes nas suas Meditações Metafísicas, pus em dúvida a existência de meu corpo e de meu espírito. Apressei-me em conferir a certidão de nascimento, o R.G. e o CPF. No corredor do prédio dirigi-me a uma pessoa e ela não hesitou em perceber minha presença. Apalpei-me. Bem, só pude concluir por uma revolução nos conceitos ontológicos, isto é: “Não tenho uma existência virtual, informática”, isto já evocando Parmênides, a pensar que o Google determina tanto o ser como o não-ser.
    Mas basta de ironia! Fiz então considerações sobre as críticas, algumas desrespeitosas, nada construtivas e naquele estilo: “Atiro primeiro e pergunto depois!”, outras nem tanto. Felizmente a mediadora ou moderadora do blog, Srta. ou Sra. Denise, cumprindo conscientemente sua função, procurou esclarecer, atestando minha existência e adjetivando apropriadamente minhas traduções de ecléticas, demonstrando ponderação em meio a alguns ânimos exaltados, a exemplificar o seguinte: o conhecer e o compreender devem anteceder o julgar e o condenar.
    Passei então a responder de modo pontual e específico às questões técnicas da tradução de As Leis, inclusive explicando minha metodologia de trabalho. Entretanto, devido à limitação das páginas do blog (parece-me que 32 linhas) e a dificuldade para o registro do grego, enviamos ao e-mail da moderadora minha um tanto longa resposta relativa à tradução de As Leis e esclarecimentos sobre a Metafísica dos Costumes, de Kant. A Edipro, de sua parte, expressou seu posicionamento institucional.
    Ora, mais de dois anos depois, apesar do esclarecimento fornecido pela moderadora e aquele da Editora, prossegue a polêmica e... estranhamente não topo com minha resposta em lugar algum!!
    Diante disso, anexo aqui tal resposta.
    Traduzimos a partir do original, porém não como um tradutor antigo ou medieval, digamos um monge beneditino que se enclausura numa biblioteca com apenas um manuscrito diante dos olhos.
    O tradutor contemporâneo pode e deve conhecer a fundo e compulsar as traduções já existentes do texto ou obra que está traduzindo. Aliás, é bastante provável que os tradutores do passado assim não agiram simplesmente porque suas traduções eram geralmente pioneiras, ou seja, as primeiras.
    Nada há de ilícito e de desonesto nessa conduta do tradutor contemporâneo e nada que comprometa a qualidade da tradução. Essa prática nada tem a ver com plágio. Objetiva a realização de uma nova tradução que intenta superar em qualidade e atualizar linguisticamente (inclusive na supressão de arcaísmos) as anteriores e, é claro, incorpora e assimila muitos elementos das traduções anteriores que são estudadas.
    Assim, o tradutor contemporâneo não deve, mesmo traduzindo do original, trabalhar absoluta e isoladamente com o original e insciente e dissociado das traduções disponíveis em outros idiomas distintos do original.
    Nesse sentido, não existe, a rigor, trabalho absolutamente individual.
    Entre muitos exemplos, citemos o do eminente helenista W.K.C. Guthrie ao se referir à sua tradução do PERI OURANOU (PERI URANOY), Do Céu, de Aristóteles:
    “... I have also used the text and German translation of C. Prantl (Leipzig, 1854), but his readings agree to a large extent with those of Bekker, and his own alterations are not always an improvement. I have only occasionally cited him by name.
    My greatest debt is to the translation of this treatise by J.L. Stocks in the Oxford translation of Aristotle. …”
    Traduzindo:
    “…Usei também o texto e tradução alemã de C. Prantl (Lepzig, 1854), mas suas interpretações em grande medida concordam com aquelas de Bekker, e suas próprias alterações nem sempre constituem um aprimoramento. Citei-o pelo nome apenas ocasionalmente.
    [continua]

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  30. [continuação]
    Meu maior débito é com a tradução deste tratado por J.L. Stocks na tradução da Oxford de Aristóteles. ...” (HARVARD UNIVERSITY PRESS, THE LOEB CLASSICAL LIBRARY, On the Heavens, p. vii)
    No produto final da tradução (mesmo no que toca a textos clássicos, em que há uma tendência a ocorrer diferenças consideráveis e até disparidades formais e estruturais - a “escola” francesa de tradutores prima pelas paráfrases elaboradas, enquanto a anglo-saxônica prefere usualmente traduções espartanas que se aproximam mais da literalidade) é, portanto, natural e compreensível registrar menores ou maiores semelhanças entre uma tradução anterior e uma nova, sobretudo formais, mas às vezes até de teor, principalmente quando o autor escreve mediante construções gramaticais simples e concisas.
    Um exemplo destes é precisamente o dado pelos integrantes do blog em pauta e que os leva a suspeitar da autenticidade das traduções da Edipro, fazendo-os tender a classificá-las como plágio e executadas sem ter como base o texto original.
    São as duas falas iniciais de As Leis, de Platão:
    Aq. Qeos h tis anqrwpwn umin, w xenoi, eilhfe thn aitian ths twn nomwn diaqesews ;
    KL. Qeos, w xene, qeos, ws ge to dikaiotaton eipein para men hmin Zeus, para de Lakedaimoniois, oqen od estin, oimai fanai toutous Apollwna. h gar ;
    (Obs.: eliminamos os acentos e espíritos e os sigmas finais estão graficamente irregulares)

    Transliteração:
    Ath. Theos e tis anthropon ymin, o xenoi, eilefe ten aitian tes ton nomon diatheseos ;

    KL. Theos, o xene, theos, os ge to dikaiotaton eipein para men emin Zeys, para de Lakedaimoniois, othen od estin, oimai fanai toytoys Apollona. e gar ;

    Tradução de R.G. Bury:
    ATH. To whom do you ascribe the authorship of your legal arrangements, Strangers? To a god or to some man?

    CLIN. To a god, Stranger, most rightfully to a god. We Cretans call Zeus our lawgiver; while in Lacedaemon, where our friend here has his home, I believe they claim Apollo as theirs. Is not that so, Megillus?

    Tradução de E. Bini
    O ateniense: A quem atribuís, estrangeiros, a autoria de vossas disposições legais? A um deus ou a algum homem?

    Clínias: A um deus, estrangeiro, com toda a certeza a um deus. Nós cretenses, chamamos de Zeus o nosso legislador, enquanto que na Lacedemônia, onde nosso amigo aqui tem seu domicilio, afirmam – acredito – ser Apolo o deles. Não é assim, Megilo?

    É incontestável a grande semelhança (sobretudo, formal) das traduções, até porque ambos os tradutores traduzem mais próximos da literalidade e mais distanciados da chamada tradução livre, e Platão, diferentemente do que ocorre em outros textos e contextos seus (especialmente nos discursos míticos), escreve aqui com parcimônia verbal e franca brevidade, sem a riqueza literária que exibe comumente em seus outros diálogos. Some-se a isso o fato de ambos os tradutores terem trabalhado com o mesmo texto grego, texto, a propósito, indicado na Nota do Tradutor na edição da Edipro.
    Mas, a despeito da grande semelhança, notamos, por exemplo, entre outras coisas, que onde Bury traduz o superlativo dikaiotaton (dikaiotaton) por most rightfully (com a maior justiça, de maneira maximamente apropriada), traduzimos por com toda a certeza, captando uma outra denotação ou conotação.
    Tradução é arte e não ciência.

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  31. [continuação]
    A propósito, reproduzimos aqui abaixo, entre outras muitas passagens que poderiam ser citadas, precisamente as duas últimas falas desse mesmo diálogo, em que a semelhança das traduções é muito menor:
    KL. Alhqestata legeis, w Megille, kai egw te poihsw tauq outw kai su xullambane.
    ME. Xullhyomai.
    (acentos e espíritos suprimidos e sigma final graficamente irregular)

    Tradução de R.G. Bury
    CLIN. That is most true, Megillus; I will do as you say, and do you yourself assist me.
    MEG. Assist you I will.

    Tradução de E. Bini
    Clínias: O que declaras é a pura verdade, Megilo. Farei como dizes, mas conto com tua ajuda.
    Megilo: Eu te ajudarei.
    Que se acrescente que optar, como optamos, no caso de As Leis e de outros diálogos de Platão e tratados de Aristóteles, por uma tradução mais próxima da literalidade do que da paráfrase não é direito exclusivo de R.G. Bury, nosso ou de qualquer outro tradutor que execute uma tradução anterior ou posteriormente a nós, mesmo que com isso aumente-se em muito as semelhanças.
    A esse propósito, observe-se a derradeira frase do diálogo As Leis, frase sumamente lacônica composta de uma única palavra: Xullhyomai (Xyllepsomai), conjugação da primeira pessoa do singular do verbo xullambanw (xyllambano), verbo que apresenta variação na grafia, pois pode ser escrito também com s inicial em lugar de x, e que tem aqui por extensão o significado de ajudar. Ora, não é porque um tradutor de outra língua (inglês, francês, alemão, italiano, romeno, etc.) anteriormente traduziu essa frase próxima à literalidade ou mesmo na literalidade que nós temos que nos ver impedidos de também traduzi-la próxima à literalidade ou na literalidade no nosso vernáculo, ou seja, na língua portuguesa!!

    Citamos abaixo o início do mais famoso diálogo de Platão, A República – ou do justo [Politeia - h peri dikaiou (Politeia – e peri dikaioy)], onde Platão concede mais brilho literário à narrativa de Sócrates. Notar-se-á no confronto das traduções (nossa e de um tradutor de língua inglesa) que a semelhança é menor, quer nas construções gramaticais, quer no aspecto formal, quer no conceitual (eliminamos as chamadas de notas tanto do tradutor de língua inglesa quanto da tradução da Edipro):
    I. Katebhn cqes eis Peiraia meta Glaukwnos tou Aristwnos, proseuxomenos te th qew kai ama thn eorthn boulomenos qeasasqai tina tropon poihsousin, ate nun prwton agontes. kalh men oun moi kai h twn epicwriwn pomph edoxen einai, ou mentoi htton efaineto prepein hn oi Qrakes epempon.
    Proseuxamenoi de kai qewrhsantes aphmen pros to astu. katidwn oun porrwqen hmas oikade wrmhmenous Polemarcos o Kefalou ekeleuse dramonta ton paida perimeinai e keleusai. kai mou opisqen o pais labomenos tou imatiou, Keleuei umas, efh, Polemarcos perimeinai.
    (Obs.: suprimimos os acentos e os espíritos e os sigmas finais estão graficamente irregulares)
    Transliteração:
    I. Kateben khthes eis Peiraia meta Glaykonos toy Aristonos, proseyxomenos te te theo kai ama ten eorten bulomenos theasasthai tina tropon poiesusin, ate nyn proton agontes. kale men un moi kai e ton epikhorion pompe edoxen einai, u mentoi etton efaineto prepein en oi Thrakes epempon.
    Proseyxamenoi de kai theoresantes apemen pros to asty. katidon un porrothen emas oikade ormemenoys Polemarkhos o Kefaloy ekeleyse dramonta ton paida perimeinai e keleysai. kai moy opisthen o pais labomenos toy imatiu , Keleyei ymas, efe, Polemarkhos perimeinai.

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  32. [continuação]
    Tradução de P. Shorey:

    I. SOCRATES. I went down yesterday to the Peiraeus with Glaucon, the son of Ariston, to pay my devotions to the Goddess, and also because I wished to see how they would conduct the festival since this was its inauguration. I thought the procession of the citizens very fine, but it was no better than the show made by the marching of the Thracian contingent.
    After we had said our prayers and seen the spectacle we were starting for town when Polemarchus, the son of Cephalus, caught sight of us from a distance as we were hastening homeward and ordered his boy run and bid us to wait for him, and the boy caught hold of my himation from behind and said: “Polemarchus wants you to wait.”

    Tradução de E. Bini:

    “Fui ontem ao Pireu com Gláucon, filho de Aríston, fazer minhas oblações à deusa e, também, porque queria ver como conduziriam o festival, já que o comemoravam pela primeira vez. Achei excelente a procissão dos cidadãos, não sendo, contudo, menos notável a apresentação oferecida pelo desfile do contingente trácio.
    Depois de fazermos nossas orações e termos visto o espetáculo, iniciávamos o retorno quando Polemarco, o filho de Céfalo, nos avistou de longe à medida que rumávamos para casa e ordenou ao seu pequeno escravo que corresse até nós e nos solicitasse que aguardássemos por ele; o escravo segurou-me o manto por trás ao mesmo tempo que dizia: “Polemarco deseja que esperes.”
    Especificamente quanto ao conteúdo, apontamos para a apreciação do leitor, que como costumamos afirmar, “é o legítimo juiz de nosso trabalho”, uma outra passagem, que como tantas outras centenas em A República, demonstra nosso cuidado ao lidar com o texto em grego e nosso suficiente conhecimento da cultura e religião gregas antigas.
    Em 329a (numeração de Stephanus):
    III. Egw soi, efh, nh ton Dia erw, w Swkrates, oion ge moi fainetai.

    Transliteração:

    III.Ego soi, efe, ne ton Dia ero, o Sokrates, oion ge moi fainetai. ...

    Tradução de P. Shorey:

    III. “Yes, indeed, Socrates,” he said, “I will tell you my own feeling about it. …

    Tradução de E. Bini:

    “Por Zeus, Sócrates”, disse, “direi a ti o que sinto no tocante a isso. ...
    O ...ton Dia... (ton Dia) que o tradutor para o inglês fez equivaler a indeed (na verdade, realmente!) e que traduzimos por “Por Zeus” não só consta no texto original e deve ser traduzido, como é importantíssimo, pois o velho Céfalo, que estava ocupado num culto doméstico à chegada de Sócrates e dos outros, era alguém muito devoto e religioso. Muitos tradutores de A República, inclusive, tanto nesta passagem quanto em muitas outras costumam traduzir essa expressão reverencial por Por Deus, By god e seus congêneres em outras línguas modernas. Não é o que fazemos nas nossas traduções.

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  33. [continuação]
    Quanto à Metafísica dos Costumes de Kant, a indicação da edição original que serviu de base consta por completo na pg. de créditos da edição da Edipro. Na edição pela FOLHA DE S. PAULO, consta no último parágrafo da Apresentação.
    Quanto, em geral, ao ponto de vista daqueles que afirmam ou tendem a afirmar que nossa tradução não é realizada a partir do original, mas pura e simplesmente de uma tradução em língua inglesa ou de outra língua moderna, devemos lembrá-los, além da explicação técnica que acabamos de proporcionar (descrevendo, inclusive, nossa metodologia de trabalho) que nossas traduções são densamente anotadas, e que na grande maioria das notas a leitura e entendimento do texto original são absolutamente necessários para a redação das notas, que, a propósito, reproduzem não só vocábulos e conceitos da obra no original, como expressões ou mesmo frases inteiras! Como produzir essas notas sem ter como base o texto original?
    (FIM da resposta de 2013)

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  34. [continuação]
    Aproveito agora para defender-me de algumas invectivas entremeadas de dúvidas de um dos comentaristas do blog, e esclarecer as dúvidas de outros mais contidos.
    Em primeiro lugar, o Google, a despeito de sua indiscutível importância e colossal utilidade, não é uma instância suprema e onipotente a determinar a existência ou não-existência das pessoas, inclusive daqueles que, como eu, executam um trabalho de interesse público. Com certeza, todas as Editoras às quais prestei meus serviços (o que inclui obviamente a Edipro) podem fornecer informações amplas e detalhadas sobre meu curriculum e atividades intelectuais. Em lugar da celeuma e quase conspiração criadas em torno de meu nome e da Edipro, bastava um mero contato com a Editora para manifestar-se livremente: conhecer este tradutor, dirimir dúvidas, fazer indagações, afastar suspeitas, etc. Se ghost writer é quem é contratado por alguém para escrever algo utilizando o nome desse alguém é descabido afirmar que sou um ghost writer, pois uso o meu próprio nome! Quanto à ampla aprovação que receberam e recebem minhas traduções “nos meios acadêmicos”, parece-me que é a posição de centenas de docentes e milhares de discentes que são as pessoas às quais compete julgar o meu trabalho e que são a razão de ser do mesmo. Evidentemente os professores têm o pleno direito de aprovar ou reprovar meu trabalho. Quanto ao eminente Carlos Alberto Nunes, figura de proa do helenismo brasileiro, cuja imensa erudição o capacitou, inclusive, além de Platão, a traduzir direto do grego a Ilíada e a Odisseia de Homero em versos brancos, concordo inteiramente com meu crítico e assino embaixo suas palavras: é o “tradutor maior de Platão no Brasil”. Quanto a mim, sou um dedicado tradutor que traduz a partir do grego e jamais pretendi erudição alguma. Em praticamente todas as minhas notas às traduções reconheço minhas limitações, esclarecendo o leitor, inclusive, que o propósito dessas edições da Edipro é didático e formativo! Mas sejamos pragmáticos e realistas, e cito mais uma vez meu crítico textualmente: “Não obstante, as traduções de Nunes estão esgotadíssimas e as de Edson Bini podem ser compradas num click em qualquer livraria.” E acrescento: as pouquíssimas vezes que me deparei numa livraria com as primorosas traduções do mestre Nunes (apenas dois a três diálogos disponíveis) observei edições luxuosas em capa dura a um preço muito dificilmente acessível ao bolso da grande maioria dos estudantes de filosofia no Brasil.
    “Quem é Edson Bini?”: é um homem e cidadão que dedicou a maior parte de sua existência à tradução. “Onde ele estudou?”: sempre em escolas públicas (do curso primário à filosofia na USP). “Onde aprendeu grego?”: em sua casa de forma autodidática. “Ele dá aulas?”: não. “Trata-se de um tradutor diletante?”: de modo algum, pois é tradutor profissional há mais de quarenta anos, a tradução sendo simplesmente seu ganha-pão.

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  35. [continuação]
    Outro crítico questiona minhas traduções devido à “incrível rapidez”: iniciei minha primeira tradução a partir do grego para a Edipro em 1998. Todos os diálogos de Platão (incluindo a Apologia de Sócrates) mais doze obras de Aristóteles representam, admito, um enorme volume de trabalho. Pois bem, não há segredo: foram 16 anos de trabalho numa média de catorze horas por dia de atividade! Não tenho esposa, nem filhos, nem netos. Apenas duas amantes: a tradução e a filosofia.
    A “teoria” do Cláudio e tão delirante e surreal que não merece resposta. De qualquer modo, remeto-o às minhas primeiras considerações sobre o Google.
    Quanto à afirmação de que a tradução da Metafísica dos Costumes (Die Metaphysik der Sitten) de Kant, foi feita a partir do francês é totalmente infundada. Repito aqui mais uma vez as informações indicadas tanto na edição da Edipro quanto na publicação da Folha, a saber, “Esta tradução foi baseada na edição alemã de 1977 da Suhrkamp Verlag (que corresponde à edição de 1956 de Insel-Verlag, Wiesbaden). Estas edições, por sua vez, se reportam diretamente às edições de 1797 e 1798 (para a Doutrina do Direito) e exclusivamente à edição original de 1797 (para a Doutrina da Virtude)”. É uma questão de metodologia de trabalho. Na tradução da obra de Kant a partir do alemão o cotejo foi feito com traduções de língua inglesa e não de língua latina.
    A Rivia e o Pedro podem, por favor, consultar minha resposta de mais de dois anos atrás (aqui novamente anexada, pois havia sumido?!), a respeito de semelhanças em matéria de traduções. No que diz respeito ao erro que Pinharanda Gomes e eu teríamos cometido na tradução de PERI ERMHNEIAS (Da Interpretação), de Aristóteles, peço, por gentileza, que me ajudem na localização mediante a numeração de Bekker ou o número da página da edição da Edipro, para que eu apure se procede, e, em caso positivo, corrija. E aproveito para repetir no estilo do lacônico Leônidas: “Errar é sempre o risco de quem faz!”
    Quanto ao anônimo que opina em 2-04-15, devo dizer que não há subterfúgio por parte da Editora. Há apenas uma dificuldade de compreender (não só entre professores e estudantes de filosofia como também entre os próprios editores) que há um método de tradução mediano entre a tradução direta do original (do grego, por exemplo) e a tradução realizada pura e simplesmente de uma língua moderna (inglês, francês, italiano, etc.), tradução esta que foi, de sua parte, inicialmente feita diretamente do original (grego). Esse método de tradução (a fugirmos de uma dualidade ou dicotomia em matéria de técnica de tradução) é a tradução a partir do original, que não deve ser confundida com tradução direta do original. A tradução direta exclui rigorosamente qualquer cotejo e subsídio de outras traduções referenciais; a tradução a partir, pelo contrário, vale-se desse cotejo e subsídio: a primeira pode ser filiada a uma escola purista ou ortodoxa de tradução, a segunda a uma liberal e heterodoxa. Teoricamente, é claro, as traduções diretas são superiores e costumam ser obra de tradutores eruditos. Na prática, porém, a contemplar mais o didatismo do que a erudição, as traduções a partir mostram-se mais acessíveis, mais compreensíveis e mais proveitosas aos estudantes. Além disso, com a ressalva que considero que o tradutor que traduz a partir também trabalha com o original, o crítico em pauta, judicioso, educado e construtivo, entendeu sem maiores problemas o meu método de trabalho que envolve, naturalmente, a tradução a partir do original e não a outra.

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  36. [continuação]
    Finalmente quero agradecer aos que articularam minha defesa, como o velho colega Joshua, e também a todos os meus críticos sem distinção. Um velho amigo há pouco comentou que “o elogio nos faz acomodar, enquanto a crítica nos leva a melhorar.”
    E é bom lembrar que professores de filosofia, editores e tradutores de filosofia têm uma meta importantíssima: manter o espírito filosófico vivo e formar mentes capazes de reflexão, no que o tradutor, embora desempenhando um papel secundário, é um colaborador. Seria grandemente desejável que professores, tradutores e editores se empenhassem num diálogo e entendimento regulares com um único objetivo comum: a formação e o proveito dos estudantes.
    Edson Bini (2-10-15)

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    1. Leticia25.2.16

      Eu havia escrito um grande texto fazendo o elogio do trabalho do Sr. Edson Bini, mas o perdi ao tentar publicar como "anônimo", infelizmente. Só queria dizer que sua resposta foi magnífica e que se tivesse uma página no Facebook eu seria uma leitora assídua. Obrigada por suas traduções, que tornaram acessível a leitura de obras como Platão e mudaram minha vida para melhor.

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  37. Muito obrigado, Denise, por trazer essas informações.

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  38. Anônimo4.11.15

    O serviço de disponibilizar a obra de Platão e Aristóteles em Português é interessante - mas permanecem sérias suspeitas quanto a estes trabalhos, e quanto a autenticidade das traduções. Acho que esta resposta da Edipro só tornou o caso da existência da autenticidade da tradução do Sr. Bini - ou da existência do Sr. Bini - mais implausível.

    Traduzir tantas obras de Platão e Aristóteles seria trabalho de um filólogo com amplo conhecimento da língua grega. Muitas vezes pesquisadores sérios trabalham em conjunto com equipes inteiras, para traduzir apenas um capítulo de obra de algum destes autores.

    As explicações do Sr. Bini mostram, pelo contrário, um conhecimento apenas rudimentar da língua grega. Considere a bobagem que ele escreveu:

    "Xullhyomai (Xyllepsomai), conjugação da primeira pessoa do singular do verbo xullambanw (xyllambano), verbo que apresenta variação na grafia, pois pode ser escrito também com s inicial em lugar de x, e que tem aqui por extensão o significado de ajudar"

    Um tradutor real nunca consideraria que "xullambanw" é grego por duas razões:

    1) a letra final "w" é uma convenção digital para a letra ômega, não é uma transliteração da língua original. Certamente se usaria a palavra "ô", com o circunflexo para sinalizar que a vogal é longa.
    2) existe a palavra "lambanô" (agarrar) e a preposição "syn" (junto), que formam a palavra composta "syllambanô". O uso da letra "csi" (transliterada "x") na preposição syn, portanto xyn, não é mera alteração da "grafia" (!?), como Bini vagamente diz na transliteração puxada dele, mas seria considerada uma variação dialetal, e um fenômeno fonemático. Em alguns casos, xyn aparece apenas porque há uma palavra antecedente que acaba em vogal longa.

    Outro erro salta a vista, que um tradutor real certamente nunca cometeria:

    Syllêpsomai não é "conjugação da primeira pessoa do singular do verbo" syllambanô, porque syllambanô já é uma conjugação da primeira pessoa do singular.... a diferença entre as duas palavras é que a primeira está no tempo futuro e na voz média e a segunda no presente e na voz ativa. Mas ambas são conjugação da primeira pessoa do singular, de forma que a afirmação do Bini não mostra que quem disso isso não tem a mínima ideia do que se trata!



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  39. Agradeço à Denise e ao Sr. Bini pela resposta

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  40. Anônimo25.2.16

    Fantástica resposta do Sr. Edson Bini! Seria sensacional se ele tivesse uma página do Facebook eu seria leitora assídua. Graças à essas traduções, li toda a obra de Platão e muito Aristóteles, dando preferência às suas traduções porque são de custo muito acessível (comprei várias na livraria Cultura e outras usadas na Estante Virtual). Posso lhe dizer que, comparando com outras traduções de Cícero, por exemplo, só os textos do Sr. Bini são "bons de ler". Os Diálogos de Platão mudaram a minha vida e minha visão de mundo e sou muito grata ao Sr. Bini por isso!

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  41. Anônimo5.3.16

    bom, a resposta do senhor edson bini esclarece que, afinal, sua tradução não é direta do original. sua defesa de suas traduções acabou servindo como motivo para não lê-la! risos.

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    1. Imagine que meu nome é Влади́мир e estou traduzindo Os Sertões, de Euclides da Cunha, em 2016.

      Não é que deparo um grande problema? O português que aprendi na escola não é suficiente para o trabalho... Hum, bem, acho que preciso utilizar a ajuda de outros tradutores, de professores que passaram uma vida inteira debruçados sobre esse livro.

      Mas público acadêmico não gostou do texto final porque, apesar de eu propor ajustes e mesmo algumas inovações, meu trabalho ficou bem parecido com traduções estrangeiras. Será justo me julgar por isso?

      Imagine, agora, que não se trata de Os Sertões, mas Ἠθικὰ Νικομάχεια, uma obra de Filosofia do século IV antes da Era Comum que teve um impacto profundo e inimaginável em toda a história ocidental, não somente sobre os séculos XX e XXI, nem, muito menos, apenas no Brasil.

      E não existe nenhum lugar/pessoa/escola do mundo que ensine o grego culto realmente falado na época de Aristóteles. Posso contar tão somente com manuais e eruditos que tentam reconstruir um registro culto de um idioma por meio dos textos escritos (os que sobraram, pois muitos viraram poeira), fazendo um trabalho árduo, ingrato e fodido de engenharia reversa.

      Imagine que os dicionários de grego clássico são excertos de textos originais seguidos de elucubrações sobre o que pode ser que o autor tenha escrito, com base, muitas vezes, no que achamos que outros autores disseram usando aquela palavra ou expressão.

      Acrescente ao trabalho o peso de mais de 300 tradutores do texto no mundo todo até hoje, chutando por baixo, fora os intérpretes e os trabalhos derivados.

      Acho que a coisa muda de figura. Não é, Sr. Anônimo?

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  42. Obrigado à Denise por trazer a resposta do Sr. Bini, e obrigado a ele por todo o seu trabalho. Sou obrigado a admitir que mantinha dúvidas quanto ao seu trabalho, devido à intensa publicação; no entanto, sua resposta foi extremamente esclarecedora - e seu trabalho digno de aplauso efusivo. Quanto ao Anônimo, fica a sugestão que deixe de lado o movimento hater e passe a estudar grego. Será mais útil, e poderia ler filosofia no original, como fizeram alguns dos maiores mestres.

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    1. Pois é, muito bom a Denise fazer esse trabalho. Sugiro a ela que faça uma pagina/publicação do blog com a referida resposta e não em um comentário. Isso porque na busca pelo sr. Bini a resposta dele não aparece e, somente atravessando os muitos comentários (o que a maioria não fará), é que se encontra a resposta do senhor Bini. Eu mesmo estava com sérias duvidas com respeito as traduções do senhor Bini (pois estudo grego faz 4 anos). Porém, após o longo texto de comentário posto pela sra. Denise, sinto-me mais convencido de ter como apoio os textos de Bini. É claro, como pesquisador, nunca abandonarei os originais, porém é prática comum cotejar com outras traduções o original. Em meu mestrado cotejei traduções do espanhol, inglês e alemão a todo momento e isso, por óbvio, não diminuiu minha dissertação, muito pelo contrário. Esse tipo de "carta aberta" que o senhor Bini fez é algo que já deveria ter sido feito há bem mais tempo e em meio bem mais claro e disponível. Tenho somente a agradecer à sra. Denise pelo trabalho que faz nesse blog: extremamente importante e imprescindível. Espero que continue.

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  43. Anônimo2.8.16

    Faz um tempo que venho acompanhando a polêmica questão sobre a autenticidade do trabalho de Edson Bini pela Edipro. No fim das contas, acho que me convenci de que de fato posso ler as traduções da Edipro, mesmo não sendo um estudioso de grego.

    Não sei se seria motivo de comemoração, mas a editora da Federal do Pará está relançando as lendárias traduções de Carlos Alberto Nunes de Platão. Porém, infelizmente, devido ao preço, não são acessíveis para a maioria dos estudantes e estudiosos de filosofia. O preço por exemplar é de aproximadamente R$ 80,00 reais.

    O pior é que eles estão publicando dois textos por livro; no geral, quando a tradução ficar completa será uma obra extensa e caríssima! Se, porventura, a obra completa girar em torno de 15 livros numa conta rápida, a pessoa desembolsaria R$ 1,500,00 reais.

    Agora eu pergunto: - será que esse esforço todo valerá a pena?

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    1. Valerá a pena, certamente. Mas talvez essa pena não seja dada a nós, mas às bibliotecas das universidades. Para uso em casa e como apoio na pesquisa, as traduções de Bini servem bem.

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  44. Após toda essa discussão e ver que em âmbito acadêmico ainda paira dúvidas, fiz um e-mail para a editora do meu e-mail institucional da UFRGS, o qual compartilho com vocês a cópia:

    Assunto: Sobre uma sugestão a favor das traduções do Sr. E. Bini

    Prezados editores,

    Creio que já devam estar saturados das dúvidas de leitores acerca das traduções do Senhor Edson Bini. Quero antes fazer uma sugestão ao invés de crítica.

    Sou estudante de grego há 4 anos e 2 de latim pela UFRGS, e mestre em filosofia pela PUCRS.

    Fui levado a desconfiar das traduções do senhor Bini pelos meus professores aqui na Ufrgs. Contudo, pesquisando sobre o Sr. Bini, pude constatar a dificuldade em encontrar informações sobre ele. É claro que vosso site contém uma breve biografia dele, porém no quesito acadêmico uma biografia em site de editora não é por certo uma fonte. Pesquisando mais sobre o tradutor, descobri o site "Não gosto de plágio", onde, por sorte e persistência, li todos os comentários em um debate sobre o referido tradutor. Foi ali que descobri uma espécie de "carta aberta" que o próprio tradutor enviou para o referido blog. Esta carta é muito boa e importante para que esteja tão "oculta" na rede eletrônica. Isso porque, na busca pelo sr. Bini, a resposta dele não aparece imediatamente e, somente atravessando os muitos comentários (o que a maioria não fará), é que se encontra a resposta do senhor Bini.

    Eu mesmo estava com sérias duvidas com respeito as traduções do senhor Bini. Porém, após o longo texto de comentário postado pela sra. Denise no blog, sinto-me mais convencido de ter como apoio os textos de Bini. Esse tipo de "carta aberta" que o senhor Bini fez é algo que já deveria ter sido feito há bem mais tempo e em meio bem mais claro e disponível. Todavia, em âmbito acadêmico, certa desconfiança ainda paira.

    Minha sugestão para os senhores editores da EDIPRO é ajudar o Sr. Bini a cadastrar-se no site acadêmico LATTES. O Curriculum Lattes, com a experiência do Sr. Bini listada, fará com que os acadêmicos passem a dar muito mais credibilidade ao hercúleo trabalho de tradução do Sr. Bini.

    Espero ajudar com essa sugestão.

    Cordialmente,

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  45. Faltam palavras pra agradecer a Denise e ao Edson Bini e todos participantes do blog que serviram seja pra elucidar ou criticar, pois todos possuem seu valor seja ele qual for.

    Nunca li nenhuma tradução do Bini e com a notícia acima da federal do Pará vai ser mais dificil eu escolher as dele.

    Obrigado a todos.

    Denise, não sei se pode postar link aqui (se nao puder me perdoe e edite o comentário pls): as obras de Platão traduzidas por Carlos Alberto Nunes estão por R $60,00 no site da editora http://www.ufpa.br/editora/.

    Denise, eu sempre consulto este blog antes de comprar qualquer livro. Não pare nunca de atualiza-lo por favorm Seu trabalho é magnífico. Muito obrigado!! :)

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