Sempre no intuito de contribuir para a reconstituição da trajetória de Kafka no Brasil, consolido aqui alguns dados e breves retificações, concentrando-me nas décadas 50 a 70. Os pesquisadores apresentam o seguinte levantamento das traduções e retraduções para este período, que complemento nas "Observações":
I. Anos 50
1. Metamorfose, Brenno Silveira, Civilização Brasileira, 1956
2. "O artista do trapézio", tradução anônima, Cultrix, 1958 (in Maravilhas do conto alemão, tradução dada como provavelmente a partir do inglês)
Observações:
1. Em 1956, temos também a publicação de Parábolas e fragmentos, em seleção e tradução de Geir Campos, pela Philobiblion, Civilização Brasileira, em edição especial para sua coleção Maldoror, com tiragem de 300 exemplares e quatro águas-fortes de Poty. A coleção Maldoror era feita na prensa manual "A Verônica", de Manuel Segalá. Assim, caberia colocá-la como pioneira, ao lado de Metamorfose.
2. Uma retificação rápida: o ano correto da primeira edição é 1957. Quanto à fonte dessa tradução, não creio que seja o inglês, de forma alguma, e merecerá um post à parte.
II. Anos 60
1. O castelo, Torrieri Guimarães, Tecnoprint, 1964 (supostamente do francês)
2. O processo, Torrieri Guimarães, Tema, 1964 (idem)
3. América, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem)
4. Metamorfose em 3a. ed. (não cita a segunda), Brenno Silveira, BUP, teria ganhado prefácio de Ênio Silveira, 1965
5. A colônia penal, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem, 39 títulos)*
6. Os melhores contos de Kafka, trad. A. Serra Leal, editora “paulista” Arcádia, 1966.
7. Parábolas e fragmentos, sel. e trad. Geir Campos, Ediouro, 1967
8. A muralha da China, Torrieri Guimarães, Clube do Livro, 1968 (30 contos)
9. A metamorfose; Na colônia penal; O artista da fome, trad. Brenno Silveira, Leandro Konder e Eunice Duarte (os 2 últimos pelo francês), Civilização Brasileira, 1969
Observações:
1. Em 1964, caberia ainda lembrar a publicação de Diário íntimo pela Livraria Exposição do Livro, em tradução de Torrieri Guimarães.
1a. A propósito de Torrieri Guimarães: as várias menções no ensaio apresentando o francês como suposta base para suas traduções a meu ver não procedem. Já demonstrei este ponto em relação a Metamorfose e Um artista da fome, aqui e aqui, e dedicarei mais alguns posts a respeito. As traduções de Torrieri eram visivelmente feitas a partir do espanhol, a despeito do que ele possa ter afirmado em entrevista aos pesquisadores.
1b. Quanto às traduções que inauguram o dito "boom" dos anos 60, ver observações ao item III, 3.
4. Uma rápida retificação: a primeira edição da Metamorfose pela BUP (Biblioteca Universitária Popular, pertencente a Ênio Silveira, irmão de Brenno Silveira) é de 1963, e já traz o prefácio citado.
5. A citação em asterisco, reproduzida abaixo, também mereceria alguns breves comentários e será objeto de um post à parte.
6. Aqui mais uma pequena retificação: a editora Arcádia não é paulista, mas portuguesa, sediada em Lisboa; assim, caberia excluí-la de um mapeamento das traduções brasileiras de Kafka. A primeira edição deste volume é de 1962.
7. Caberia eliminar Parábolas e fragmentos desse bloco cronológico, visto que, cf. observação acima, a pioneira tradução de Geir Campos foi publicada originalmente em 1956.
III. Anos 70
1. O processo, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
2. Metamorfose, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
3. O processo, Manoel Ferreira Pinto e Syomara Cajado, Círculo do Livro, 1977
Observações:
3. A tradução de Syomara Cajado (pelo inglês) foi publicada originalmente pela editora Nova Época. Manoel Ferreira Pinto foi provavelmente o preparador do texto para a edição posterior do Círculo Livro.
Quanto aos anos 80 em diante, chamou-me a atenção um apontamento dos articulistas: em 1985, haveria "uma nova tradução realizada também a partir do inglês por Enio Silveira e Marques Ribeiro Calouro, cuja publicação fica a encargo da editora Tecnoprint". (p. 239) Não consegui localizar nenhuma referência a esta edição e teria muita curiosidade em conhecê-la. Por outro lado, encontrei menção a um volume publicado pela Civilização Brasileira em 1983 (e mais numerosas para o ano de 1993), com o título de Contos, fábulas e aforismos, com seleção, introdução e tradução de Ênio Silveira, proprietário da editora. Marques Rebelo, por seu lado, fazia muitas adaptações para a Coleção Calouro da Tecnoprint. Talvez tenha havido aí alguma mistura entre os nomes
* Comentam os autores quanto a esta edição: "Um problema a ser levantado é o fato de Torrieri Guimarães referir-se à antologia como se fosse do próprio Kafka. Em nenhum momento, é esclarecido ao leitor que os textos não foram reunidos e dispostos daquela forma pelo autor (fato relevante, uma vez que se conhece a preocupação de Kafka com essa questão). Também não são indicados os critérios para a seleção dos textos." (p. 234). Para o esclarecimento dessa questão, ver aqui.
Quanto à fortuna de Metamorfose no Brasil, recomendo vivamente o livro de Celso Cruz, Metamorfoses de Kafka. São Paulo: Fapesp/ Annablume, 2007.
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Gostaria que você comentasse algo sobre a tradução de cartas a Milena.
ResponderExcluirmerci
olá, venise, atendendo à sua sugestão, eis o post: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/03/cartas-milena.html
ResponderExcluirOlá, Denise. Para somar à lista, há uma coletânea de contos chamada "Nas Galerias", com tradução e prefácio de Flávio Kothe, editada pela Estação Liberdade em 89 (embora a data do prefácio seja de 86).
ResponderExcluirResumo no site da livraria Phylos (onde comprei meu exemplar):
Esta coletânea reúne contos e fábulas de Franz Kafka, escritos no período de 1912 a 1924, a maioria inédita no Brasil. Em todos eles, no entanto, identifica-se, como denominador comum, o conflito, que constitui a própria espinha dorsal, a dominante, das narrativas de Kafka, sem que se encontre nelas jamais (a não ser ironicamente) a solução positiva, ingenuamente otimista das narrativas triviais. Graças ao autor, contudo, cria-se um horizonte de consciência a que o leitor pode talvez ascender, sem os enormes custos pagos por ele.
http://www.livrariaphylos.com.br/?190,1495,nas-galerias-franz-kafka.html
Há pelo menos uma versão digital: http://pt.scribd.com/doc/35413209/Kafka-Nas-Galerias
A editora Civilização Brasileira acaba de lançar também uma coletânea intitulada “Blumfeld, um solteirão de mais idade” com tradução de Marcelo Backes. O livro reúne 36 narrativas de Kafka, algumas, até então "inéditas" aqui no Brasil. Apesar de tudo, queria mesmo é que alguma editora lançasse todos os contos do autor num único volume, e não apenas contos selecionados.
ResponderExcluirEstou lendo América, traduzido por Torrieri Guimarães (Livraria Exposição do Livro, 1965), e alguns problemas da má tradução denunciam que veio de fato pelo espanhol: ""...e não de seus prejuízos nacionais..." (p. 40). Prejuízos por preconceitos. Espanholada brava! Mistura de pessoas: no terceiro capítulo, Karl fala "você" à filha do banqueiro (p.71), e na continuidade, na mesma página, ela o tuteia. "Não ouvistes seu automóvel que vinha adiante do vosso?"Você deve vir de Usted, que em espanhol é um tratamento formal. No Brasil, não. Pensei até que Torrieri fosse português...
ResponderExcluirOlá, há uma versão da obra A Metamorfose de Franz Kafka no site domínio público, foi disponibilizado pela Universidade da Amazonia, entretanto, essa versão não tem indicação do tradutor, você sabe nos dizer de quem pertence???
ResponderExcluirAdquiri O Castelo numa sebo om tradução do Torrieri e com a logo Edições Tema. É o tipo de leitura que é preciso andar com um dicionário a tira colo para consultar a cada parágrafo. O expediente curiosamente não tem data e nem diz qual é a edição.
ResponderExcluirAqui no seu blog fala de uma edição de '64 pela Tecnoprint. Esse dado está correto? Tem ideia de quando o Castelo foi republicado pela Tema?