27 de jun de 2011

coleção abril, perplexidades

MANTENHO ESTE POST COMO LEMBRETE E ALERTA PARA MIM MESMA, PARA QUE NÃO VOLTE A ACONTECER: MANIFESTAR-ME SEM TER CHECADO MELHOR AS INFORMAÇÕES.

agradeço a beth, nos comentários, por ter feito o que evidentemente cabia a mim fazer: checar a existência efetiva da edição comentada por um leitor e que constitui o assunto deste post. como ela diz: "Estranho. O título O Grande Gatsby não consta da coleção Clássicos Abril Coleções, lançada em 2010, como pode ser conferido facilmente, consultando o site http://www.abrilcolecoes.com.br/colecoes/classicos-abril-colecoes-536162.shtml"

apenas agora fiz o que devia ter feito desde o começo: uma pesquisa mais apurada e sempre indispensável antes de afirmar qualquer coisa. não consegui localizar a edição da abril, nem mesmo em suas coleções dos anos 70 e 80, correspondente à tradução comentada abaixo. o que localizei foi um lançamento de o grande gatsby em portugal, em 2000, pela Abril/Controljornal, uma joint venture entre a brasileira Abril e a portuguesa Controljornal, com publicações para venda em bancas, atualmente chamada Edimpresa. o livro de fitzgerald faz parte da colecção novis, 5, biblioteca visão, utilizando a tradução de fernanda césar com licenciamento da europa-américa (disponível aqui). peço ao leitor que deixou o comentário inicial se pode confirmar esses dados de edição ou acrescentar outros.


fica aqui registrado meu pedido de desculpas à editora abril pelas bobagens que escrevi, e retiro o que afirmei. e a todos, minhas desculpas por minha irresponsabilidade neste post.

FIM DA ATUALIZAÇÃO. SEGUE-SE O POST ORIGINAL.

em 2010, saudei a notícia do lançamento da coleção clássicos da abril, mas não cheguei a acompanhá-la. outro dia, um leitor deixou um comentário aqui a respeito de um de seus títulos, o grande gatsby, de scott fitzgerald. diz ele:
denise, vc já viu a tradução de the great gatsby da ed. abril da fernanda césar? pq, sério, acho que nunca vi tradução tão ruim qt aquela. sério, é PÉSSIMA. vou colar um trecho do início (desculpa a má formatação):
"Quando eu era mais novinho, e mais vulnerável, o meu pai deu-me um determinado conselho que ainda hoje me anda às voltas na cabeça.
- De cada vez que te apetecer criticar alguém - disse-me -, lembra-te sempre de que nem toda a gente neste mundo gozou algum dia das vantagens que tu tens tido.
E mais não disse. Mas fomos sempre invulgarmente comunicativos, se bem que de modo algo reservado, e percebi que ele queria dizer muito mais do que disse. Tornei-me, em consequência disso, propenso a reservar todos os juízos, hábito que atraiu a mim muitas índoles curiosas e fez de mim, igualmente, a vítima de não poucos chatos de carreira. A mente anormal é ágil a detectar e a ater-se a esta qualidade, quando ela se revela numa pessoa normal, e assim aconteceu que, quando andava na universidade, vim a ser injustamente acusado de me meter em política, só porque conhecia as angústias secretas de pessoas impulsivas anónimas."
pelo exemplo transcrito acima, a tradução de fernanda césar, publicada pela europa-américa desde os anos 80, não me parece ruim: pelo contrário, respeita bastante o original e, para quem gosta do linguajar lusitano, acho que flui até bem saborosa e escorreita. o que me parece ruim mesmo e totalmente despropositado é que a abril lance uma tradução portuguesa sem qualquer cuidado em adaptá-la, nem mesmo nos acentos, ao português brasileiro, e assim ela acaba nos soando meio arrevesada.


ainda no mesmo post, bem lembra elaphar que no brasil temos a conhecidíssima tradução de brenno silveira, publicada desde 1962 em inúmeras edições pela civilização brasileira, abril cultural, círculo do livro, biblioteca da folha, record, record/altaya, globo.


em 2003 saiu uma nova tradução, agora de roberto muggiati, pela record, reeditada em 2007 pelo selo bestbolso.


como se sabe, a editora abril não tem um catálogo próprio de traduções e apenas adquire a licença de uso de traduções publicadas por outras editoras. até imagino que nem sempre seja fácil fechar alguma negociação, e sem dúvida a abril deve ter tido suas razões para optar por uma tradução estrangeira. mas o estranhamento que um texto de dicção tão marcadamente lusitana causa em leitores brasileiros parece indicar que a editora, na hora de escolher, bem que poderia e deveria ter pensado duas vezes.

p.s.: elaphar, no mesmo link dado acima, coloca um trechinho na tradução de brenno silveira e o original correspondente:
Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci:
- Sempre que você tiver vontade de criticar alguém - disse-me ele - lembre-se que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou.
In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I’ve been turning over in my mind ever since.
"Whenever you feel like criticizing any one," he told me, "just remember that all the people in this world haven’t had the advantages that you’ve had."
não por nada, mas aí quem está certa é a fernanda e o brenno marcou: all the people... haven't had  quer dizer "nem todo mundo teve" e não "ninguém teve".
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4 comentários:

  1. O texto da Fernanda não come nenhuma preposição, como tem sido cada vez mais comum na escrita do português brasileiro. Mas só isso. E mesmo isso não soa pra mim um estranhamento: leio pensando que poderia ter sido escrito por um brasileiro.

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  2. concordo em termos, leonardo. acho que até os anos 50 a proximidade entre os dois "portugueses" era maior. mas, sinceramente, hoje(ou mesmo nos anos 80, que é quando foi feita essa tradução da fernanda) nenhum brasileiro escreveria assim. lê-se bem, é simpático, acho bonitos alguns torneios, mas soa distintamente luso.

    uma coisa pouco comentada em nossos hábitos de leitura, acho que tem a ver com a questão dos copirraites. até 50, 60, justamente, era muito frequente adquirir os direitos de tradução de uma obra para Portugal, Brasil e todos os países de fala portuguesa. isso vinha especificado na página de créditos ou na imprenta dos livros. e muitas vezes quem adquiria primeiro os direitos era portugal, não o brasil, daí resultando a grande presença de traduções importadas de portugal ou mesmo a abertura de filiais de editoras portuguesas no brasil, ou de escritórios de editoras brasileiras em santos (por causa da importação dos livros: caso da martins fontes, p.ex.).
    isso só muda radicalmente nos anos 70, quando se generaliza a venda dos direitos de tradução por país, e não pela língua.
    com isso aumenta muito a atividade de tradução especificamente brasileira e diminui nosso contato com a tradução portuguesa. acho que isso tem um efeito cumulativo determinante para esse estranhamento que gerações mais novas sentem diante de um texto lusitano.

    é apenas uma hipótese bem intuitiva, mas acho que valeria a pena explorar um pouco esse aspecto e sua influência na formação de nossos hábitos de leitura.

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  3. Estranho. O título O Grande Gatsby não consta da coleção Clássicos Abril Coleções, lançada em 2010, como pode ser conferido facilmente, consultando o site
    http://www.abrilcolecoes.com.br/colecoes/classicos-abril-colecoes-536162.shtml

    O leitor critica a tradução mas não sabe que livro comprou?

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  4. nossa, beth, vou verificar. obrigada.

    shame on me, pois competia a mim verificar melhor antes de me manifestar...

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