15 de jun. de 2010



participe da consulta sobre a revisão da lei de direito autoral

teotônio simões se entrega à justiça


"Tejo preso:

Crimes confessos: Para minha dissertação de mestrado, xeroquei na Mário de Andrade e na biblioteca da Faculdade de Direito (a do Largo) diversos livros. Para minha tese de doutorado, xeroquei obras na Biblioteca do Senado, na do STF e reiterei os crimes praticados na Mário de Andrade e na biblioteca da Faculdade de Direito.

Os membros do STF formados no Largo me acompanhariam?"

veja a íntegra de sua confissão aqui.

imagem: trancafiado

teje presa

Seis policiais prenderam a viúva xeroqueira Elisângela Monteiro de Lima, que foi trancafiada na Colônia Penal Feminina do Recife.

Explica o delegado: "Só em copiar um trecho do livro, a pessoa já está cometendo um crime".

A operação foi realizada com o apoio da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos.*

* (aquela do dedão sinistro: veja aqui)


Fonte: http://www.abdr.org.br/site/textoview.asp?id=31
Imagem: digital

14 de jun. de 2010

artigo de pablo ortellado




leia artigo de pablo ortellado (gpopai-usp):

uma questão de jeito

flanela paulistana faz ponderadíssimas e excelentes perguntas em "denise vai dormir na pia, oh".



pois é, como se fosse alguma questão pessoal, não existisse leitor, não existisse editora séria, não existisse o mundo do livro, que - ufa, ainda bem! - é bem maior do que a província do plágio.

veja aqui a íntegra da matéria publicada pela folha de s.paulo.

imagem: pisando em ovos

depoimento na fsp

hoje, a folha de s.paulo publicou no caderno da ilustrada um depoimento que dei a fábio victor, "guerrilheira antiplágio".

o link para assinantes uol e fsp é:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1406201011.htm

os comentários de algumas editoras apontadas aqui no nãogostodeplágio estão em:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1406201012.htm

São Paulo, segunda-feira, 14 de junho de 2010 
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MINHA HISTÓRIA DENISE BOTTMANN, 55

guerrilheira antiplágio(...)Não existe uma tradução igual a outra. E é por isso que um tradutor é considerado um autor
(...)Compro um exemplar, comparo e vejo que são iguais, que é plágio. Publico no blog
(...)Não tomaram providência, entro no Ministério Público


FABIO VICTOR
ENVIADO ESPECIAL A REGISTRO (SP) 

Uma vez, no Orkut, o tradutor Saulo von Randow Júnior comentou que tinha pegado um volume do "Ivanhoé", do Walter Scott, publicado pela Nova Cultural em nome de um fulano de tal qualquer e descobriu que a tradução era idêntica à do Brenno Silveira.
Depois descobri que desde 2001, 2002 Alfredo Monte e o poeta e crítico Ivo Barroso já denunciavam a prática de plágio. Logo a seguir [em 2007], a Folha publicou uma matéria grande sobre a Martin Claret e os plágios [de tradução] de "Os Irmãos Karamázov" [de Dostoiévski] e "A República", de Platão.
Comparei outros volumes da Nova Cultura com a Abril Cultural, tinham nomes diferentes de tradutores e o texto igual. Ôpa, peraí. Dois livros numa coleção só: vamos ver se tem mais. Assim comecei.
Num egroup de tradutores, o pessoal ficou revoltado com essa história toda, e surgiu um blog, "assinado-tradutores". Por divergências internas, saí. Em novembro de 2008, criei onaogostodeplagio.blogspot.com.

TRADUTOR É AUTOR
Não existe uma tradução igual a outra. E é por isso que um tradutor é considerado um autor, é por isso que a legislação, do Brasil e do mundo inteiro, desde 1880, diz que tradutor é autor.
Tendo esse pressuposto, vem a pesquisa sistemática. Você pega "A Divina Comédia": quantas traduções existem? Eu tenho "A Divina Comédia" pela Abril Cultural, com tradução de Hernâni Donato. Como será essa tradução da Nova Cultural em nome de Fábio M. Alberti?
Compro um exemplar, comparo e vejo que são iguais, que é plágio. Copio trechos e publico no blog.
Só passo de uma editora à outra depois de ter esgotado aquele catálogo. Leva umas quatro horas por dia, e uns 15 dias pra eu detectar -até ir atrás, pesquisar as várias traduções existentes, encomendar, receber, comparar e chegar a uma conclusão. Antes de publicar, entro em contato com as editoras. Aí entro no site das livrarias para ver se tiraram de circulação.
Não tomaram providência, entro com pedido de representação no Ministério Público. Tenho 15 pedidos.
Já denunciei 110, 120 casos de plágio, documentados no meu blog. De 16 editoras.
No caso da Landmark, fui avisada [de suposto plágio da tradução] da "Persuasão", de Jane Austen, e do "Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë.
Entrei com representação contra a Landmark em maio [de 2009], e em setembro eles entraram com ação contra mim, contra a [blogueira] Raquel Sallaberry, porque deu o link para o meu post, e os provedores dos blogs. Recebi [a notificação] em fevereiro.

MANIFESTO
E aí foi muito bonito, porque alguns colegas -Jório Dauster, Ivo Barroso, Ivone Benedetti e Heloísa Jahn- escreveram um manifesto em minha defesa, que teve quase 3.000 assinaturas.
A Landmark pediu a remoção imediata do blog, aí a coisa se abriu mais, porque pegou a liberdade de expressão na blogosfera -e quem disse isso foi o juiz que indeferiu o pedido de liminar.
Seria uma intimidação a mais -já sofri tanta. Foram duas da Martin Claret, uma notificação extrajudicial, pela editora, e uma ação do sr. Martin Claret -esta o juiz julgou improcedente, eles recorreram e perderam. Agora só cabe recurso no Supremo.
Tive uma intimidação do sr. Luiz Fernando Emediato [denúncia de três livros plagiados pela Jardim dos Livros, da qual ele é sócio].

A AMARRAÇÃO
Era difícil no começo entender a amarração da coisa. Hoje entendo que é uma consequência razoavelmente direta da lei do direito autoral de 1998, a lei 9.610.
Porque [as obras plagiadas] são basicamente obras cujo original está em domínio público e cujas traduções no Brasil estão esgotadas -de editoras que fecharam ou que foram compradas.
Mas são traduções que estão protegidas pela lei, que determina que as obras só podem entrar em domínio público decorridos 70 anos após a morte do autor.

SEM XEROX, COM PLÁGIO
Essas obras são o quê? Platão, Aristóteles, Max Weber, Kant, Hobbes, Locke... São para o público universitário. São obras que até existem nas bibliotecas das universidades, são bibliografia em ciências humanas. Só que são esgotadas, e a lei de 1998 proibiu o xerox.
Das 16 editoras [que pesquisei], apenas duas praticavam plágio antes de 98. Tenho a maior clareza que foi a proibição do xerox que criou um mercado líquido e certo.
Vêm os espertos, pegam essas traduções que ninguém mais lembra, porque são dos anos 30, 40, 50, crau, mudam o nome, publicam e vende que nem pãozinho quente. Cinco, dez, 20 edições, reedições. Os tradutores estão mortos, as editoras estão fechadas, as que não estão fechadas poucos se interessam, os herdeiros dos tradutores não estão nem aí.
Não faço isso por interesse profissional ou por categoria. É que eu tenho 55 anos, sou pré-internet. E junta minha formação de historiadora e a ideia de que a cultura não se constrói num estalar de dedos. O português é uma língua secundária, o Brasil é um país que depende essencialmente de tradução, quer dizer, a tradução não é só uma tradução. Basta pegar quem são nossos tradutores: Machado, Bandeira, Drummond, Cecília Meirelles.

QUEBRA-CABEÇAS
Uma coisa que gosto muito é o desafio mental, intelectual, algo meio competitivo de você consigo mesmo. É quase um jogo, uma espécie de quebra-cabeças.
Tenho uns 80 livros traduzidos, de inglês, francês e italiano, sempre em humanidades, história da arte -não faço tradução literária nem técnica. Trabalho para três editoras: Companhia das Letras, Cosac Naify e L&PM.
Não, guerrilheira não. Uma vez eu me referi ao nao gostodeplagio como um blog de combate.
Entro com representação nos casos de quem não dá satisfação. A Nova Cultural relançou uma edição especial da "Divina Comédia", ressarciu tradutores. Tenho a satisfação de dizer que de seis a oito editoras retiraram [as edições plagiadas]. Eu escrevo, telefono, falo. Você tem resultados concretos. É isso que me permite continuar.



São Paulo, segunda-feira, 14 de junho de 2010 
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Para editoras, blogueira erra no tom da açãoDE SÃO PAULO
O advogado da Landmark, Alberto Marchi Macedo, disse que a editora processou Denise Bottmann não pelas denúncias de plágio em si, mas pelo seu teor. "Nosso problema não é o blog. Mas não dá para qualificar de "picareta" e "bandida."'
A Landmark nega os plágios e mantém em seu catálogo os títulos.
O editor Luiz Fernando Emediato afirmou que Bottmann "não é boa tradutora, mas uma ativista". Mas admitiu que ela "estava certa quanto à má qualidade" da tradução de uma obra da Jardim dos Livros.
Ele diz que encomendou nova tradução. "Acho que ela faz a coisa certa, mas de maneira errada. Jamais trabalhará para nós."
A advogada da Martin Claret, Maria Luiza Egéa, afirma que Bottmann não mostrou prova pericial. "Sem prova, não passa de acusação." Segundo ela, o editor acionou a blogueira porque "ela extrapola, chama de ladrão, ultrapassa os limites".
A porta-voz da Nova Cultural, Cristiane Mutus, declarou que ocorreram os plágios denunciados, que a editora lamenta e tomou todas as providências para corrigir o erro, fruto de "desvio de procedimento interno". (FV) 

consulta pública


hoje foi aberta a consulta pública do governo sobre a proposta de revisão da atual lei dos direitos autorais, a lda.
para participar, clique aqui e se cadastre no site do MinC.

13 de jun. de 2010

traduzir significa...

uma matéria superlegal de carolina leão, com gente de primeira linha como josé lira e everardo norões:
traduzir significa verter uma paixão

12 de jun. de 2010

prêmio em debate



os posts relacionados a esta premiação se encontram em:
quero frisar duas coisas:
- sou da opinião que qualquer pessoa é absolutamente livre para traduzir o que quer que seja da maneira como bem entender.
- sou da opinião que a academia brasileira de letras, até em virtude de sua imensa importância histórica desde sua criação por iniciativa de machado de assis, tem uma responsabilidade social e pública por seus atos que ultrapassa em muito a esfera privada da fundação.

é neste campo da responsabilidade objetiva da abl que, a meu ver, deve ser discutida essa sua atribuição do prêmio de tradução literária em 2010. voltarei ao tema em breve.

10 de jun. de 2010

moi aussi, j'en ai assez...


lendo a orelha do livro pequenas traduções de grandes poetas IV, agraciado com o prêmio da abl de 2010 para a melhor tradução literária, vi que o imortal tradutor e poeta ivan junqueira menciona "a primorosa (e pioneira)* tradução dos 'Alcools' de Guillaume Apollinaire" feita pelo tradutor premiado, com destaque para o poema Zone. fiquei interessada e, como sou diligente feito uma formiga, fui conhecê-la.

*um pequeno reparo: não é "pioneira", pois já havia a de daniel fresnot.





o que encontro ali é, por exemplo, à p. 17:


Zona (Zone)

À la fin tu es las de ce monde ancien

No fim estás cansado ante esse mundo infindo

Bergère ô tour Eiffel le troupeau des ponts bêle ce matin

Pastora ó torre Eiffel manhã pontes balindo



Tu en as assez de vivre dans l’antiquité grecque et romaine
Ici même les automobiles ont l’air d’être anciennes

Vives na antiguidade helênica e romana
Os automóveis têm um ar de coisa anciana

La religion seule est restée toute neuve la religion
Est restée simple comme les hangars de Port-Aviation

Face nova quem tem é a religião
Como se fosse o hangar de algum Porta-Avião

Seul en Europe tu n’es pas antique ô Christianisme
L’Européen le plus moderne c’est vous Pape Pie X
Et toi que les fenêtres observent la honte te retient
D’entrer dans une église et de t’y confesser ce matin

Ó cristianismo não és velho só na Europa
O Papa Pio X é o mais novo da tropa
Das janelas te vêem o que impede o teu pejo
De ao padre confessar como é do teu desejo

não tenho plena certeza de que o premiado tradutor tenha entendido inequivocamente o que en avoir assez de ou même e seul significam em francês; ou que Port-Aviation não é um porta-avião,* e outras miudezas do gênero que aparentemente não incomodaram muito o autor da missiva reproduzida na orelha.

* aliás, alguém consegue imaginar como seria isso, se não for demasiado idiota ter de explicar que um porta-avião é um navio de guerra que dificilmente será rebocado à terra para se alojar num campo de aviação? Port-Aviation era o nome do aeroporto.

quanto à finura das rimas, deixo o juízo a quem tem maior competência do que eu, pois confesso que não tive sensibilidade suficiente para ter sequer um remoto vislumbre poético apollinaireano em, por exemplo, europa/tropa...

9 de jun. de 2010

cuidado com a tampa!



tenho o maior respeito pelas instituições do país. quanto à academia brasileira de letras, considero-a uma veneranda entidade de enorme ressonância pública, que abriga em seu variegado quadro muitas pessoas de grande relevância na vida intelectual brasileira. 

e a tradução, como elemento formador da cultura nacional, nunca foi estranha à abl, desde sua fundação: basta lembrar machado de assis tradutor.

aliás, fiquei muito feliz que a vaga de josé mindlin foi ocupada por geraldo de holanda cavalcanti, um dos grandes tradutores literários do brasil. no atual quadro, há vários imortais conhecidos também por suas traduções, por exemplo: ana maria machado, carlos heitor cony, carlos nejar, celso lafer, ivan junqueira, lêdo ivo, moacyr scliar, sergio paulo rouanet...

a abl, diga-se de passagem, também deu apoio a essa nossa luta, com uma vigorosa moção de repúdio ao plágio de tradução.

então tudo isso me faz acompanhar com muito interesse suas iniciativas de fomento à tradução, entre elas o prêmio anual "odorico mendes" para a melhor tradução literária.

devo, porém, confessar minha perplexidade com a notícia de que a obra escolhida neste ano pela comissão julgadora - composta pelos imortais evanildo bechara, carlos nejar e ivan junqueira - foi pequenas traduções de grandes poetas, por milton lins.

creio não ser abusado atrevimento de minha parte indagar quais teriam sido os critérios utilizados para essa premiação.

queixa do esquecimento dos mortos, de jules laforgue (p. 167):

Grand-papa se penchait,
Là, le doigt sur la tempe,
Soeur faisait le crochet,
Mère montait la lampe.

Vovô como bebê,
Com o dedo na tampa,
A mana no crochê,
Mamãe trocando a lamp'a.

ou ainda, à mesma página:

Les morts
C'est discret,
Ça dort
Trop au frais. 

 
No morto,
Sem ressalto,
Conforto
O frete alto. 

imagens: a tampa; custo do frete

pela reforma da lda II

comentei no post anterior que o capítulo de exceções na atual lda é extremamente reduzido, o que faz de nossa legislação uma das mais restritivas do mundo e prejudica muito o ensino, a pesquisa, a conservação de acervos e assim por diante.

reproduzo-o aqui (título III, Dos Direitos do Autor)

Capítulo IV

Das Limitações aos Direitos Autorais

Art. 46. Não constitui ofensa aos direitos autorais:
I - a reprodução:
a) na imprensa diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diários ou periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de onde foram transcritos;
b) em diários ou periódicos, de discursos pronunciados em reuniões públicas de qualquer natureza;
c) de retratos, ou de outra forma de representação da imagem, feitos sob encomenda, quando realizada pelo proprietário do objeto encomendado, não havendo a oposição da pessoa neles representada ou de seus herdeiros;
d) de obras literárias, artísticas ou científicas, para uso exclusivo de deficientes visuais, sempre que a reprodução, sem fins comerciais, seja feita mediante o sistema Braille ou outro procedimento em qualquer suporte para esses destinatários;
II - a reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro;
III - a citação em livros, jornais, revistas ou qualquer outro meio de comunicação, de passagens de qualquer obra, para fins de estudo, crítica ou polêmica, na medida justificada para o fim a atingir, indicando-se o nome do autor e a origem da obra;
IV - o apanhado de lições em estabelecimentos de ensino por aqueles a quem elas se dirigem, vedada sua publicação, integral ou parcial, sem autorização prévia e expressa de quem as ministrou;
V - a utilização de obras literárias, artísticas ou científicas, fonogramas e transmissão de rádio e televisão em estabelecimentos comerciais, exclusivamente para demonstração à clientela, desde que esses estabelecimentos comercializem os suportes ou equipamentos que permitam a sua utilização;
VI - a representação teatral e a execução musical, quando realizadas no recesso familiar ou, para fins exclusivamente didáticos, nos estabelecimentos de ensino, não havendo em qualquer caso intuito de lucro;
VII - a utilização de obras literárias, artísticas ou científicas para produzir prova judiciária ou administrativa;
VIII - a reprodução, em quaisquer obras, de pequenos trechos de obras preexistentes, de qualquer natureza, ou de obra integral, quando de artes plásticas, sempre que a reprodução em si não seja o objetivo principal da obra nova e que não prejudique a exploração normal da obra reproduzida nem cause um prejuízo injustificado aos legítimos interesses dos autores.

Art. 47. São livres as paráfrases e paródias que não forem verdadeiras reproduções da obra originária nem lhe implicarem descrédito.

Art. 48. As obras situadas permanentemente em logradouros públicos podem ser representadas livremente, por meio de pinturas, desenhos, fotografias e procedimentos audiovisuais.

trocando em miúdos, no que se refere a livros, é proibida a reprodução xerográfica, digital ou por qualquer outro meio de qualquer obra, mesmo para fins pessoais de estudo ou pesquisa, sem fins lucrativos, exceto pequenos trechos (art. 46, VIII).

a interpretação do que são "pequenos trechos" tem gerado uma infinidade de discussões, sendo que o entendimento jurídico hoje em dia fala em cerca de 5 a 10% da obra, ao passo que entidades do setor editorial alegam que mesmo a reprodução de um só parágrafo é inadmissível, pois prejudica "a exploração normal da obra".

ao longo desses anos, têm ocorrido incontáveis manifestações de instituições de ensino, docentes, discentes, com um caudal de textos, artigos, estudos e manifestos* sobre o impacto negativo de tais restrições sobre a qualidade do ensino e os prejuízos para a formação dos estudantes. têm ocorrido também ações policiais e invasões armadas em escolas para apreender qualquer tipo de reprodução "ilegal", a pedido da entidade abdr (já escrevi vários posts sobre os despropósitos dessa entidade: veja aqui), além da instauração de processos judiciais de editoras contra universidades por albergarem máquinas de xerox em seu recinto. aliás, o requinte da coisa chega ao ponto de que, se uma biblioteca tiver alguma obra em seu acervo em risco de deterioração, ela não pode ser microfilmada nem digitalizada.

*veja, por exemplo, o manifesto estudantil "copiar livro é direito", de 2006, um lúcido e comovente apelo à sensatez.

é um dos embates mais absurdos que conheço, revelando a face mais mesquinha do setor. a meu ver, é também o ponto mais brutalmente escandaloso da atual lda. felizmente, tirando as posições mais estridentes e truculentas de algumas entidades do setor editorial, há consenso entre a sociedade de que deve ser urgentissimamente reformado.

imagem: luto

8 de jun. de 2010

pela reforma da lda I


em breve, o ministério da cultura deve colocar o anteprojeto para a reforma da lei do direito autoral (lda) em consulta pública.

na coluna à direita, em "documentos", encontram-se os materiais mais relevantes para a questão.

aqui seguem-se alguns conceitos básicos.

I.
os direitos autorais são de duas espécies: os morais e os patrimoniais.

os principais direitos morais do autor são: o de paternidade (reivindicar a qualquer momento a autoria da obra), e o direito ao nome (como autor da obra). são direitos de personalidade (que fazem parte da própria pessoa, mesmo após sua morte), inalienáveis e irrenunciáveis.

aqui no nãogostodeplágio, minhas críticas se dirigem sobretudo a editoras que, ao lançar mão da prática do plagiato, ferem o direito MORAL do tradutor a seu nome.

os direitos patrimoniais do autor são de natureza econômica e podem ser transferidos a pessoas jurídicas, para a exploração comercial da obra. essa transferência dos direitos patrimoniais pode ser feita por licença gratuita ou onerosa ou por cessão, seja em caráter parcial ou total (para uma, várias ou todas as finalidades econômicas, em um, vários ou quaisquer veículos e suportes), por tempo determinado ou em caráter definitivo.

a atual lda apresenta um viés fortemente patrimonialista, isto é, beneficia mais acentuadamente as pessoas jurídicas detentoras dos direitos patrimoniais contratados.

II.
esse viés demasiado privatista da atual lda acaba por desatender a interesses sociais básicos, como o ensino, a pesquisa, as bibliotecas, os acervos, segmentos da população com deficiências visuais.

esses interesses sociais mais amplos normalmente são contemplados nas várias legislações autorais do mundo pelo princípio do fair use e/ou nos chamados "capítulos de exceção". são cláusulas e dispositivos em capítulo próprio dentro da lei que abrem exceção para esses casos, autorizando práticas como a reprodução de obras para finalidades de ensino, uso pessoal privado, conservação de acervos e assim por diante.

a lda brasileira é tida como uma das mais restritivas do mundo, porque não abre praticamente nenhuma exceção em sua tutela dos direitos patrimoniais da esfera privada para atender ao interesse público da sociedade. e esta é uma das propostas na reforma da atual lda: ampliar o acesso da sociedade a bens culturais com a ampliação do capítulo de exceções previstas em lei.

imagem: cartaz pela reforma da lda

7 de jun. de 2010

um chilique a menos


Prezada Denise,

 Informamos que a edição de A Origem das Espécies citada em seu texto "chilique" (publicado no blog http://naogostodeplagio.blogspot.com, no dia 10/05/2010) já passou por avaliação da Diretoria Executiva da Fundação Biblioteca Nacional, sendo retirada da lista de obras a serem adquiridas.

Agradecemos pelo acompanhamento constante das ações da FBN.

Cordialmente,

Jean Souza
Assessor de Imprensa
Fundação Biblioteca Nacional - Ministério da Cultura

acompanhe a questão em:
 imagem: pheew!, emoticon msn

4 de jun. de 2010



carta de são paulo pelo acesso a bens culturais: dê seu apoio!


3 de jun. de 2010

esopo, fábulas V

Hermes e Tirésias (1)

Hermes, querendo investigar se a arte da adivinhação de Tirésias era verdadeira, roubou os bois do adivinho que estavam no campo, foi ter com ele na cidade, sob a forma de um mortal, e a ele se apresentou. Avisado da perda da junta de bois, Tirésias levou Hermes para os arredores, para observar algum sinal sobre o roubo. Tirésias pediu a Hermes que dissesse que tipo de pássaro ele via. Hermes primeiro viu uma águia voando da direita para a esquerda e descreveu a cena. Tirésias disse que esse pássaro não interessava. Numa segunda vez, viu o deus uma gralha, pousada numa árvore, olhando ora para cima, ora para a terra, e explicou isso ao adivinho. Tirésias, tomando a palavra, disse: “Bem, pelo menos essa ave jura pelo Céu e pela Terra que, se quiseres, encontrarei meus bois”.

Poder-se-ia aplicar essa fábula a um ladrão.


Hermes e Tirésias (2)

Hermes, querendo por à prova a arte de adivinhação de Tirésias e ver se era verdadeira, roubou os bois do adivinho que estavam no campo, foi ter com ele na cidade, sob a forma de um mortal, e a ele se apresentou. Assim que soube da perda da junta de bois, Tirésias levou Hermes para fora da cidade para observar algum sinal sobre o roubo. Tirésias pediu então a Hermes que lhe descrevesse todo pássaro que ele via. Hermes viu primeiro uma águia que voava da sua direita para a esquerda, e descreveu a cena. Tirésias disse que esse pássaro não interessava. Em uma segunda tentativa, Hermes viu uma gralha, pousada em uma árvore, olhando ora para cima, ora para a terra, e relatou isso ao adivinho. Tirésias, tomando a palavra, disse: “Bem, pelo menos essa gralha jura pelo Céu e pela Terra que, se tu o consentires, encontrarei meus bois”.

Poder-se-ia aplicar essa fábula a um ladrão.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



esopo, fábulas IV


arthur rackham, the tortoise and the hare

A tartaruga e a lebre (1)

Uma tartaruga e uma lebre discutiam sobre qual era a mais rápida. E então, marcaram um dia e um lugar e se separaram. Ora, a lebre, confiando em sua rapidez natural, não se apressou em correr, deitou-se no caminho e dormiu. Mas a tartaruga, consciente de sua lentidão, não parou de correr e, assim, ultrapassou a lebre que dormia e chegou ao fim, obtendo a vitória.

Muitas vezes, o trabalho vence os dons naturais, quando estes são negligenciados.

(1) Esopo, Fábulas completas, tradução de Neide Smolka do original grego, ed. Moderna, 1994. 
 
A tartaruga e a lebre (2)

Uma tartaruga e uma lebre discutiam sobre quem seria a mais rápida. Marcaram um dia e um lugar para o desafio e se separaram. Ora, a lebre, contando com sua rapidez natural, não se apressou em correr, mas deitou-se no caminho e dormiu. Mas a tartaruga, consciente de sua lentidão, não parou de correr e ultrapassou a lebre que dormia, obtendo assim a vitória.

Moral: A fábula mostra que, muitas vezes, o trabalho vence os dons naturais, quando estes são negligenciados.

(2) Esopo, Fábulas, tradução de Pietro Nassetti do original em latim [sic], ed. Martin Claret, 2006.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



2 de jun. de 2010

esopo, fábulas III


O lobo e o cordeiro (1)

Um lobo, ao ver um cordeiro bebendo de um rio, resolveu utilizar-se de um pretexto para devorá-lo. Por isso, tendo-se colocado na parte de cima do rio, começou a acusá-lo de sujar a água e impedi-lo de beber. Como o cordeiro dissesse que bebia com as pontas dos beiços e não podia, estando embaixo, sujar a água que vinha de cima, o lobo, ao perceber que aquele pretexto tinha falhado, disse: “Mas, no ano passado, tu insultaste meu pai”. E como o outro dissesse que então nem estava vivo, o lobo disse: “Qualquer que seja a defesa que apresentes, eu não deixarei de comer-te”.

A fábula mostra que, ante a decisão dos que são maus, nem uma justa defesa tem força.

(1) Esopo, Fábulas completas, tradução de Neide Smolka do original grego, ed. Moderna, 1994.
 



O lobo e o cordeiro (2)

Um lobo vira um cordeiro bebendo na margem de um rio, e quis usar de um pretexto para devorá-lo. Para tanto, colocou-se a montante do lugar, e começou a acusá-lo de sujar a água, impedindo-o assim de beber. O cordeiro respondeu que só bebia com as pontas dos beiços e, estando a jusante, seria impossível sujar a água que vinha de cima. O lobo, ao perceber que aquele pretexto tinha falhado, disse então: “Mas, no ano passado, tu insultaste meu pai”. E o cordeiro replicou que na época nem sequer havia nascido. E o lobo lhe disse: “Talvez não te faltem argumentos de defesa, mas nem por isso deixarei de comer-te”.

Moral: A fábula mostra que, ante a decisão dos que são maus, nem uma justa defesa tem força.

(2) Esopo, Fábulas, tradução de Pietro Nassetti do original em latim [sic], ed. Martin Claret, 2006.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



esopo, fábulas II


A RAPOSA E O BODE (1)

Uma raposa caiu em um poço e foi obrigada a permanecer ali. Um bode, levado pela sede, aproximou-se do mesmo poço e, vendo a raposa, perguntou-lhe se a água estava boa. E ela, regozijando-se pela circunstância, pôs-se a elogiar a água, dizendo que estava excelente e o aconselhou a descer. Depois que, sem pensar e levado pelo desejo, o bode desceu junto com a raposa e matou a sede, perguntou-lhe como sair. A raposa tomou a palavra e disse: “Conheço um jeito, desde que nos salvemos juntos. Apóia, pois, teus pés da frente contra a parede e deixa teus chifres retos. Eu subo por aí e te guindarei.” Tendo o bode se prestado de boa vontade à proposta dela, a raposa, subindo pelas pernas dele, por seus ombros e seus chifres, encontrou-se na boca do poço, saltou e se afastou. Como o bode a censurasse por não cumprir o combinado, a raposa voltou-se e disse ao bode: “Ó camarada, se tivesses tantas idéias como fios de barba no queixo, não terias descido sem antes verificar como sair.”

Assim também, é preciso que os homens sensatos primeiro verifiquem o resultado de uma ação antes de pô-la em prática.

(1) Esopo, Fábulas completas, tradução de Neide Smolka do original grego, ed. Moderna, 1994.




A RAPOSA E O BODE (2)

Uma raposa caiu em um poço e não conseguia sair ali. Um bode, levado pela sede, aproximou-se do mesmo poço e, vendo a raposa, perguntou-lhe se a água estava boa. E ela, fingindo alegria em sua desgraça, regozijando-se pela circunstância, teceu longo elogio à água, dizendo que estava excelente e o aconselhou a descer também. Dando ouvidos apenas ao próprio desejo, o bode desceu junto com a raposa e matou a sede, procurou saber com ela como sair. A raposa lhe disse uma idéia que poderia salvar os dois. "Apóia, pois, teus pés da frente contra a parede e inclina teus chifres. Eu subirei em teu dorso e te guindarei.” O bode se prestou de boa vontade à proposta dela, e a raposa, subindo pelas pernas dele, por seus ombros e seus chifres, atingiu a boca do poço, saltou para fora e se dispôs a ir embora. Como o bode a censurasse por não respeitar o acordo, a raposa voltou-se e disse ao bode: “Meu amigo, se tivesses tantas idéias como fios de barba no queixo, não terias descido sem antes verificar como sair.”

Moral: Assim também, é preciso que os homens sensatos primeiro verifiquem o resultado de uma ação antes de pô-la em prática.

(2) Esopo, Fábulas, tradução de Pietro Nassetti do original em latim [sic], ed. Martin Claret, 2006.

sempre é tempo de aprender

Jean de La Fontaine escreveu a obra Esopo Fábulas completas em latim (Aeseepi: fabulae).

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"TODAS AS INFORMAÇÕES CONTIDAS NESTE CADASTRO FORAM FORNECIDAS PELOS EDITORES NO MOMENTO DA SOLICITAÇÃO DO ISBN"

TÍTULO: ESOPO FABULAS COMPLETAS
VOLUME DA COLEÇÃO: 166
AUTOR: FONTAINE, JEAN DE LA
PÁGINAS: NÃO INFORMADO
EDITORA: MARTIN CLARET

[diga-se de passagem que o registro da obra na agência brasileira do isbn como volume n. 166 não obsta que o volume impresso traga o n. 182, e que o n. 166 seja atribuído a hipócrates, aforismos.]

esopo, fábulas I

O rouxinol e o gavião (1)

Um rouxinol, pousado num alto carvalho, cantava como de costume. Um gavião o viu e, como lhe faltasse alimento, precipitou-se sobre ele e o prendeu. Estando o rouxinol para morrer, pediu ao gavião que o deixasse ir embora, argumentando que ele sozinho não seria suficiente para encher o estômago de um gavião; que o gavião deveria, se tivesse necessidade de alimento, atacar pássaros maiores. E o gavião, tomando a palavra, disse: "Mas eu seria um estúpido se largasse uma comida que tenho certa na mão para ir atrás de outras que ainda não vi."

Assim também são insensatos os homens que, na esperança de bens maiores, deixam escapar o que têm na mão.

(1) Esopo, Fábulas completas, tradução de Neide Smolka do original grego, ed. Moderna, 1994.

O rouxinol e o gavião (2)

Um rouxinol, pousado em um alto carvalho, cantava como de costume. Um gavião o viu e, como estava sem comida, atirou-se sobre ele e o agarrou. Vendo-se prestes a morrer, o rouxinol pediu ao gavião que o soltasse, argumentando que ele sozinho não bastaria para encher o estômago de um gavião; que o gavião deveria, se lhe faltasse alimento, atacar pássaros maiores. "Mas eu seria um estúpido", respondeu-lhe o gavião, "se largasse a caça que já tenho na mão para ir atrás de outras que ainda não vi".

Moral: Os homens também mostram-se insensatos quando, na esperança de bens maiores, deixam escapar o que tem [sic] em mãos.

(2) Esopo, Fábulas, tradução de Pietro Nassetti do original em latim [sic], ed. Martin Claret, 2006.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



material escolar

der schöne magister mal sabia o que o aguardava.

faz dez anos que a fundamentação da metafísica dos costumes, de kant, na pseudotradução de "leopoldo holzbach", pela editora martin claret, (mal)abastece mochilas, bibliotecas, teses, miolos.

ver também snif

1 de jun. de 2010

luto




a fundamentação

a editora martin claret publica desde 2000, em sucessivas reedições, um volume chamado fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos, de immanuel kant. os "outros escritos" são: que significa orientar-se no pensamento?; resposta à pergunta: que é "esclarecimento"?, e sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade. a tradução de todo o volume é atribuída a um certo "leopoldo holzbach".

 já mostrei em outras ocasiões que, nestes três pequenos textos, a editora martin claret parece ter simplesmente tomado a tradução feita por floriano de souza fernandes (ed. vozes), aplicando alterações cosméticas para disfarçar a cópia.

no caso da própria fundamentação, a referida martin claret parece ter recorrido à tradução portuguesa de paulo quintela, publicada pelas edições 70 em 1988, aqui também procedendo a pequenas mudanças perfunctórias. seguem-se alguns trechos a título de exemplo.

I. paulo quintela (edições 70, 1988)

Segundo este princípio são rejeitadas todas as máximas que não possam subsistir juntamente com a própria legislação universal da vontade. A vontade não está pois simplesmente submetida à lei, mas sim submetida de tal maneira que tem de ser considerada também como legisladora ela mesma, e exactamente por isso e só então submetida à lei (de que ela se pode olhar como autora).

Os imperativos, tais como atrás no-los representámos, quer dizer como constituindo uma legislação das acções universalmente semelhante a uma ordem natural, ou como universal privilégio de finalidade dos seres racionais em si mesmos, excluíam sem dúvida do seu princípio de autoridade toda a mescla de qualquer interesse como móbil, exactamente por serem concebidos como categóricos; mas eles só foram admitidos como categóricos porque tínhamos de admiti-los como tais se queríamos explicar o conceito de dever. Mas que houvesse proposições práticas que ordenassem categoricamente, eis o que por si não pôde ser provado e o que nesta secção tão-pouco se pode provar ainda; mas podia ter acontecido uma coisa, a saber: indicar no próprio imperativo, por qualquer determinação nele contida, a renúncia a todo o interesse no querer por dever como carácter específico de distinção do imperativo categórico em face do hipotético. Ora é precisamente o que acontece na presente terceira fórmula do princípio, isto é na ideia da vontade de todo o ser racional como vontade legisladora universal.

Pois quando pensamos uma tal vontade, se bem que uma vontade subordinada a leis possa estar ainda ligada a estas leis por meio de um interesse, não é no entanto possível que a vontade, que é ela mesma legisladora suprema, dependa, enquanto tal, de um interesse qualquer; pois que uma tal vontade dependente precisaria ainda de uma outra lei que limitasse o interesse do seu amor-próprio à condição de uma validade como lei universal.

Assim o princípio, segundo o qual toda a vontade humana seria uma vontade legisladora universal por meio de todas as suas máximas (*), se fosse seguramente estabelecido, conviria perfeitamente ao imperativo categórico no sentido de que, exactamente por causa da ideia da legislação universal, ele se não funda em nenhum interesse, e portanto, de entre todos os imperativos possíveis, é o único que pode ser incondicional; ou, melhor ainda, invertendo a proposição: se há um imperativo categórico (i. é uma lei para a vontade de todo o ser racional), ele só pode ordenar que tudo se faça em obediência à máxima de uma vontade que simultaneamente se possa ter a si mesma por objecto como legisladora universal; pois só então é que o princípio prático e o imperativo a que obedece podem ser incondicionais, porque não têm interesse algum sobre que se fundem.

Se agora lançarmos um olhar para trás sobre todos os esforços até agora empreendidos para descobrir o princípio da moralidade, não nos admiraremos ao ver que todos eles tinham necessariamente de falhar. Via-se o homem ligado a leis pelo seu dever, mas não vinha à ideia de ninguém que ele estava sujeito só à sua própria legislação, embora esta legislação seja universal, e que ele estava somente obrigado a agir conforme a sua própria vontade, mas que, segundo o fim natural, essa vontade era legisladora universal. Porque, se nos limitávamos a conceber o homem como submetido a uma lei (qualquer que ela fosse), esta lei devia ter em si qualquer interesse que o estimulasse ou o constrangesse, uma vez que, como lei, ela não emanava da sua vontade, mas sim que a vontade era legalmente obrigada por qualquer outra coisa a agir de certa maneira. Em virtude desta consequência inevitável, porém, todo o trabalho para encontrar um princípio supremo do dever era irremediavelmente perdido; pois o que se obtinha não era nunca o dever, mas sim a necessidade da acção partindo de um determinado interesse, interesse esse que ora podia ser próprio ora alheio. Mas então o imperativo tinha que resultar sempre condicionado e não podia servir como mandamento moral. Chamarei, pois, a este princípio, princípio da Autonomia da vontade, por oposição a qualquer outro que por isso atribuo à Heteronomia.

O conceito segundo o qual todo o ser racional deve considerar-se como legislador universal por todas as máximas da sua vontade para, deste ponto de vista, se julgar a si mesmo e às suas acções, leva a um outro conceito muito fecundo que lhe anda aderente e que é o de um Reino dos Fins.

(*) Posso dispensar-me de apresentar aqui exemplos para esclarecer este princípio, pois os que serviram há pouco para explicar o imperativo categórico e a sua fórmula podem agora ser todos utilizados para este fim.

II. "leopoldo holzbach" (ed. martin claret, 2000, aqui ed. 2008)

paradoxalmente, a editora martin claret não se furta a estampar o sinistro dedo da abdr, reconhecendo sua plena consciência de que é um crime copiar obras alheias, e que o correto seria respeitar o direito do autor.

  

   

(kant recorria com frequência ao itálico para ênfase. note-se que praticamente todos os itálicos do original desapareceram na pretensa tradução pela ed. martin claret.)


veja também:


a título comparativo, veja-se o mesmo trecho na tradução de antonio pinto de carvalho (companhia editora nacional):

Segundo este princípio, serão rejeitadas todas as máximas que não possam estar de acordo com a legislação universal própria da vontade. A vontade não é, pois, exclusivamente subordinada à lei; mas é-lhe subordinada de modo que deva ser considerada também como promulgadora da lei, e justamente por tal motivo deve ser subordinada à lei (da qual se pode considerar autora).

Os imperativos, segundo as fórmulas por nós acima apresentadas, tanto a que exige que as ações sejam conformes a leis universais como a uma ordem da natureza, quanto aquela segundo a qual os seres racionais têm a prerrogativa universal de fins em si, excluíam, sem dúvida, de sua autoridade soberana toda mescla de qualquer interesse a título de móbil, precisamente por serem representados como categóricos; mas não eram aceitos como categóricos, senão porque precisávamos de admiti-los como tais, se quiséssemos explicar o conceito do dever. Mas que haja proposições práticas que ordenam categoricamente, é uma verdade que não podia demonstrar-se desde o princípio, como nem é possível que tal demonstração possa ser feita agora nesta Secção. Entanto, uma coisa não podia deixar de se fazer: a saber, que a renúncia a todo interesse no ato de querer por dever, considerado como característica que distingue o imperativo categórico do imperativo hipotético, fosse indicada ao mesmo tempo no próprio imperativo, por meio de alguma determinação que lhe fosse inerente, (432) e é justamente o que acontece nesta terceira fórmula do princípio, isto é, na idéia da vontade de todo ser racional considerada como vontade promulgadora de uma legislação universal.

De fato, se concebemos uma tal vontade, veremos que, enquanto existe a possibilidade de uma vontade sujeita a leis estar ainda ligada a estas leis por um interesse, todavia é impossível que uma vontade, que seja suprema legisladora, dependa neste sentido de um interesse qualquer; pois uma vontade assim dependente precisaria de outra lei, que adstringisse o interesse de seu amor-próprio à condição de ser capaz de valer como lei universal. Pelo que, o princípio, segundo o qual toda vontade humana aparece como vontade que, mediante suas máximas, institui uma legislação universal (*), se ostentasse consigo a prova de sua exatidão, conviria perfeitamente ao imperativo categórico, uma vez que, precisamente por causa da idéia de uma legislação universal, ele não se apóia em nenhum interesse e, por isso mesmo, de todos os imperativos possíveis, só ele pode ser incondicionado; ou melhor ainda, invertendo a proposição: se há um imperativo categórico (isto é, uma lei válida para a vontade de todo ser racional), ele pode apenas ordenar que procedemos sempre segundo a máxima de sua vontade, isto é, de uma vontade tal que possa, ao mesmo tempo, considerar-se como objeto, enquanto legisladora universal. Só então o princípio prático é incondicionado, do mesmo modo que o imperativo a que a vontade obedece, visto não haver nenhum interesse, sobre o qual possa fundamentar-se.

Se considerarmos os esforços envidados até ao presente para descobrir o princípio da moral, não devemos estranhar que todos necessariamente tenham falhado. Via-se que o homem estava ligado por seus deveres a leis, mas não se refletia que ele só está sujeito à sua própria legislação, e portanto a uma legislação universal, e que não está obrigado a agir senão conformemente à sua vontade própria, mas à sua vontade que, por destino da natureza, institui uma legislação universal. Pois, se o imaginássemos sujeito a uma lei (qualquer que (433) ela fosse), esta implicaria necessariamente em si um interesse sob forma de atração ou de obrigação, e, nesse caso, não derivaria, enquanto lei, da sua vontade, e esta vontade seria coagida a agir, em certo modo, conformemente à lei, mas por algum outro motivo. Ora, graças a esta conseqüência absolutamente inevitável, todo esforço para encontrar um princípio supremo do dever era irremediavelmente perdido. Nunca se descobria o dever, mas sim a necessidade de agir por um certo interesse. Que este interesse fosse pessoal ou estranho, o imperativo apresentava então sempre necessariamente um caráter condicional, e não podia valer como prescrição moral. Chamarei, pois, a este princípio, princípio da AUTONOMIA da vontade, em oposição a qualquer outro princípio, que, por isso, qualifico de HETERONÍMIA.

O conceito, em virtude do qual todo ser racional deve considerar-se como fundador de uma legislação universal por meio de todas as máximas de sua vontade, de sorte que possa julgar-se a si mesmo e a suas ações sob este ponto de vista, conduz-nos a uma idéia muito fecunda que com ele se prende, a saber, à idéia de um reino dos fins.

(*) Posso aqui ser dispensado de aduzir exemplos para esclarecimento deste princípio, visto como os anteriormente aduzidos para explicar o imperativo categórico e suas fórmulas podem aqui ser empregados para o mesmo fim.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.




imagem: ooh!


29 de mai. de 2010

lembrete


não esqueçam, amanhã é o último dia para opinar sobre
o anteprojeto que regula a internet no brasil.


imagem: todos lá

leitura


para o final de semana sugiro a incansavelmente boa sibila. textos mais recentes sobre tradução: de leda tenório da motta, sobre as flores das flores do mal, de baudelaire, recriadas por guilherme de almeida; de fábio riggi, sobre piedra de sol, de octavio paz, em tradução de horácio costa.

28 de mai. de 2010

ainda moby

depois de ter publicado o post baleia à vista, encontrei um artigo bem legal de gabriel perissé, cotejando o começo do capítulo 86 de moby dick nas três traduções (berenice, péricles e irene/alexandre). gabriel lembra também a adaptação de monteiro lobato (1935). veja aqui epopeia em alto-mar.


gregory peck, insuperável como capitão ahab (moby dick, 1956)

quanto às pseudotraduções de moby dick publicadas pelas editoras martin claret, germape e cedic, ver:

27 de mai. de 2010

baleia à vista


os exemplos de a tale of two cities comparando o original, a tradução de berenice xavier e a tradução em nome de sandra luzia couto podem despertar algumas dúvidas, não só sobre as curiosas coincidências entre as duas traduções, mas também sobre sua qualidade intrínseca. de fato, é inegável que berenice xavier derrapou algumas vezes, e não em pormenores insignificantes.

assim, achei muito pertinente o comentário do leitor jander, que aqui reproduzo. 

"Uma dúvida (apesar de saber que você não indica traduções diretamente, mas veja que o caso é diferente): O próximo livro da Abril Coleções é Moby Dick e também foi traduzido por Berenice Xavier. Esses problemas, do Dickens, poderiam aparecer nessa tradução da Abril de Moby Dick ou temos apenas um caso isolado? Fiquei preocupado!"

minha posição pessoal a respeito da reedição de obras esgotadas de longa data se encontra na resposta ao comentário, no mesmo link acima. considero berenice xavier uma tradutora que teve papel importante nos anos 40 e 50, cujo trabalho (na média, bastante bom) merece ser resgatado e disponibilizado para toda a sociedade.

abaixo apresento duas páginas de moby dick, no original, na tradução de berenice xavier e na de péricles eugênio da silva ramos. cabe lembrar a tradução mais recente de irene hirsch e alexandre barbosa de souza (cosac naify, 2008), que ainda não tive ocasião de ler.

"Your hat, your hat, sir!" suddenly cried the Sicilian seaman, who being posted at the mizen-mast-head, stood directly behind Ahab, though somewhat lower than his level, and with a deep gulf of air dividing them.
But already the sable wing was before the old man's eyes; the long hooked bill at his head: with a scream, the black hawk darted away with his prize.
An eagle flew thrice round Tarquin's head, removing his cap to replace it, and thereupon Tanaquil, his wife, declared that Tarquin would be king of Rome. But only by the replacing of the cap was that omen accounted good. Ahab's hat was never restored; the wild hawk flew on and on with it; far in advance of the prow: and at last disappeared; while from the point of that disappearance, a minute black spot was dimly discerned, falling from that vast height into the sea.


CHAPTER 131. The Pequod Meets The Delight.
The intense Pequod sailed on; the rolling waves and days went by; the life-buoy-coffin still lightly swung; and another ship, most miserably misnamed the Delight, was descried. As she drew nigh, all eyes were fixed upon her broad beams, called shears, which, in some whaling-ships, cross the quarter-deck at the height of eight or nine feet; serving to carry the spare, unrigged, or disabled boats.
Upon the stranger's shears were beheld the shattered, white ribs, and some few splintered planks, of what had once been a whale-boat; but you now saw through this wreck, as plainly as you see through the peeled, half-unhinged, and bleaching skeleton of a horse.
"Hast seen the White Whale?"
"Look!" replied the hollow-cheeked captain from his taffrail; and with his trumpet he pointed to the wreck.
"Hast killed him?"
"The harpoon is not yet forged that ever will do that," answered the other, sadly glancing upon a rounded hammock on the deck, whose gathered sides some noiseless sailors were busy in sewing together.
"Not forged!" and snatching Perth's levelled iron from the crotch, Ahab held it out, exclaiming—"Look ye, Nantucketer; here in this hand I hold his death! Tempered in blood, and tempered by lightning are these barbs; and I swear to temper them triply in that hot place behind the fin, where the White Whale most feels his accursed life!"
"Then God keep thee, old man—see'st thou that"—pointing to the hammock—"I bury but one of five stout men, who were alive only yesterday; but were dead ere night. Only THAT one I bury; the rest were buried before they died; you sail upon their tomb." Then turning to his crew—"Are ye ready there? place the plank then on the rail, and lift the body; so, then—Oh! God"—advancing towards the hammock with uplifted hands—"may the resurrection and the life—"
"Brace forward! Up helm!" cried Ahab like lightning to his men.
But the suddenly started Pequod was not quick enough to escape the sound of the splash that the corpse soon made as it struck the sea; not so quick, indeed, but that some of the flying bubbles might have sprinkled her hull with their ghostly baptism.
As Ahab now glided from the dejected Delight, the strange life-buoy hanging at the Pequod's stern came into conspicuous relief.
"Ha! yonder! look yonder, men!" cried a foreboding voice in her wake. "In vain, oh, ye strangers, ye fly our sad burial; ye but turn us your taffrail to show us your coffin!"

berenice xavier, josé olympio, coleção "fogos cruzados", aqui na 2a. ed. (1950)



péricles eugênio da silva ramos, ed. abril cultural (1972, aqui na ed. de 1983)