10 de mai de 2010

chilique

o projeto mais cultura vai gastar alguns bons milhões de reais implantando e modernizando bibliotecas públicas, sobretudo em municípios carentes (como os da região onde moro, o vale do ribeira).

divulguei o edital, escrevi - de um em um! - para todos os membros da comissão de seleção de obras para o programa, e também para as ilustríssimas presidência, diretoria e secretaria da fundação biblioteca nacional, que estavam juntos no projeto.

consultem o anúncio do edital que eu, boa moça que sou, divulguei aqui.

pois é. saiu o resultado da seleção, trazendo na aba A: "Darwin, Charles A origem das espécies Martin Claret 1a. ed.  2004".

aaaahnnnn?! a origem das espécies, de darwin, pela editora martin claret? que está com chapa fria no isbn em nome de "jean melville"? em pretensa tradução de "john green", o mesmo que assina a cópia fraudada do sherlock holmes de joaquim machado, publicado nos anos 1950 pela melhoramentos?!

e que nessa edição do darwin traz pérolas do gênero:

- original:
Such facts as the complex and extraordinary out growths which variably follow from the insertion of a minute drop of poison by a gall-producing insect, shows us what singular modifications might result in the case of plants from a chemical change in the nature of the sap.

- trad. Joaquim Dá Mesquita Paul (1913, Lello & irmãos):
Fatos tais como as excrescências extraordinárias e complicadas, conseqüência invariável do depósito de uma gota microscópica de veneno fornecida pelo cínipe, provam-nos que modificações singulares podem, entre as plantas, resultar de uma alteração química na natureza da seiva.

- trad. "John Green" (2004, 2009, Martin Claret):
Fatos como as excrescências complicadas, conseqüência invariável do depósito de uma gota microscópica de veneno fornecida pelo cínipe, provam-nos que modificações isoladas podem, entre as plantas, resultar de uma alteração química na natureza da selva. [sic]

para centenas e centenas de bibliotecas municipais? para dezenas e dezenas de anos no acervo público? para milhões de leitores de norte a sul do país? e pago com meu dinheirinho de cidadã? aqui, ó!

imagem: "cínipe", quaquá!

7 comentários:

  1. Tirem a mão do meu bolso!

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  2. pois não é mesmo, querida raquel? uns estelionatários!

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  3. Jander11.5.10

    Daqui a pouco a solução vai ser mesmo nos esforçar para aprender o máximo de línguas para ler no original mesmo. Poxa, a gente não tem dado conta nem das obras básicas estrangeiras.

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  4. Anônimo15.5.10

    Oi Denise

    Louvo o teu esforço de tentar mostrar uma chaminha neste mar de escuridão.

    Não estou inteirado sobre a problemática do plágio na tradução nem sei muito sobre esse caso específico que contas, mas concordo com o Jander: A única possibilidade de ler com qualidade para quem vive no Brasil é aprender a língua do original e ler no original.

    Essa versão do Darwin que citas eu não li, mas aí pelos 12-14 anos desisti de querer conhecer a teoria da evolução após meses de luta com uma """"tradução"""" da Editora Hemus. Consultei meu pai, um conhecedor de sofisticações da língua, que também não conseguiu decifrar as pseudosentenças.

    É isso mesmo, Jander. Se nem num bestseller como "O mundo assombrado pelos demônios" do Carl Sagan estamos livres de besteiras como "a negação não é um rio do Egito", imagina em obras menos procuradas... (neste caso, quando eu li já era fluente em inglês e fiz a engenharia reversa: "The Nile is not a river in Egypt", um trocadilho que o """"tradutor"""" não teve competência para desenrolar).

    E o mais triste é que existem tradutores competentes neste país. Pena viverem no Brasil, terra da maior e mais eficiente máquina de destruição de inteligências, conhecida como "escola".

    (Volto a estudar línguas)

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  5. prezado jander: não desanime. as traduções plagiadas, em sua maioria, eram bastante boas. o problema são os ishpertos que surripiam para lucrar mais.

    prezado anônimo: a """tradução""" da hemus está na fila para o ministério público. é plágio mal disfarçado da tradução portuguesa de joaquim dá mesquita paul (esta, porém, realmente deixa a desejar, independentemente do plágio: é de 1913, feita do francês, por um médico cujo inglês devia ser nulo e cujo francês era bem fraquinho). veja "miséria pouca é bobagem":
    http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/10/miseria-pouca-e-bobagem.html

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  6. Sugiro que adicionem à relação (se ainda lá não estão) "A Cidade Antiga", de F. de Coulanges, e "Dos delitos e das penas", de Beccaria. Pela preocupação da ABDR em tirar estes títulos legais (em todos os sentidos) da estante virtual do eBooksBrasil no Scribd, sua gratuidade está incomodando os lucros de alguém.
    A propósito: continuam nas estantes do eBooksBrasil.org.

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  7. Anônimo16.8.10

    divulguem essa informação no site do Minc.

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