
17 de jun. de 2009
16 de jun. de 2009
brasilices, poe XV
os erros de baudelaire
essa questão de atribuição pode parecer um detalhe, mas é uma coisa manhosa, a ponto, por exemplo, de induzir um intelectual brasileiro de certo renome a afirmar que, "ao traduzir tales of grotesque and arabesque para histoires extraordinaires, charles baudelaire errou duas vezes. a primeira, ao trair a vontade expressa do autor, de que o título de um livro deve mostrar tudo o que contém; e a segunda, por não perceber a enorme riqueza semântica do original".o altaneiro veredito apenas mostra que quem o enunciou pouca ou nenhuma familiaridade tem, seja com tales of the grotesque and arabesque, seja com histoires extraordinaires. e é a nossas editoras, com suas atribuições displicentes e equivocadas, que devemos atribuir a produção de tais pérolas do saber acadêmico. aliás, diga-se de passagem que baudelaire é o primeiro a reconhecer em seu prefácio a expressividade de "le titre Tales of the Grotesque and the Arabesque — titre remarquable et intentionnel".
toque de caixa
imagino uma cena assim, na hora do fechamento do livro:
- ih meu, tá faltando o nome do original! e como se chama essa coisa?
- procura aí na outra edição.
- pô, não tem. mas aqui na página da frente o pessoal tá falando de umas histórias extraordinárias em francês.

- francês????? mas o livro é do inglês!
- não, é que parece que um tal baú–de–láire, sei lá como se diz isso, pegou o pôu e traduziu em francês. que nome mais esquisito.
- que nome é, então? o inglês, o inglês, não o francês.
- peraí, peraí, tô lendo.
- vai logo, tem que botar o nome de algum original aí.
- ah, achei! téles ovi de grotéski endi arabéski, acho que é isso.
- tá, tá bom, se não é, fica sendo. mas bota por escrito aqui na prova.
outra sala:
- pronto, chefe. tá qui, tudo em cima.
- acharam o nome do tal livro?
- ah, foi moleza. eu até já conhecia.
- então tá bom. deixa aí na mesa que depois dou uma olhada. tá pronto pra rodar?
- ôôô, pode mandar bala.
e o resto virou história.
e a m
oda pegadona ediouro, se faz mais de trinta anos que a sra. diz que foi a clarice lispector que escolheu os contos do poe que vocês publicam, como é que a antologia dela acabou virando tradução do original tales of the grotesque and arabesque?
agora, falando sério
este ano comemoram-se os duzentos anos de nascimento de edgar allan poe (1809-1849). a universidade federal de minas gerais está organizando um grande congresso internacional, para sempre poe, entre os dias 20 e 23 de setembro. vale a pena conferir. tomara que a gente consiga sair dessa brincadeira de roda e comece a se entender com as coisas.
nessa pesquisa foram muito úteis os artigos de carlos daghlian, a recepção de poe na literatura brasileira e obras de e sobre poe em português ou publicadas no brasil. agradeço de novo a saulo von randow jr. e a joana canêdo, que colaboraram com coisas magníficas.
imagens: o gato assustado; o gato apavorado; o gato pálido de susto
contos do grotesco e arabesco, prefácio, poe XIII
PrefácioVer-se-á que os termos “grotesco” e “arabesco” indicam com bastante precisão o teor dominante dos contos aqui publicados. Mas, se durante dois ou três anos escrevi 25 histórias curtas cujo caráter geral pode ser definido com tanta brevidade, não é justo – ou, em todo caso, não é verdadeiro – inferir daí que alimento um especial ou enorme gosto ou propensão por esse tipo de texto. Posso ter escrito pensando em reeditá-los em forma de livro e, portanto, posso ter tido a intenção de preservar, pelo menos até certo ponto, uma certa unidade de concepção. Na verdade, é este o caso; e pode até acontecer que eu nunca mais componha nada dessa maneira. Menciono aqui essas coisas porque sou levado a pensar que foi este predomínio do “arabesco” em meus contos sérios que levou um ou dois críticos a me censurar, muito amigavelmente, por algo que lhes aprouve chamar de “germanismo” e soturnez. É uma acusação de mau gosto, e suas razões não estão bem fundamentadas. Admitamos por um momento que as “peças de fantasia” aqui apresentadas sejam mesmo germânicas, ou o que for. Neste caso, o germanismo é “o estado de espírito” de agora. Amanhã posso ser tudo menos germânico, tal como ontem fui qualquer outra coisa. Estes vários contos continuam a ser um livro só. Meus amigos teriam igual razão em censurar um astrônomo por excesso de astronomia ou um autor ético por tratar demais da moral. Mas a verdade é que, salvo uma única exceção, em nenhuma destas histórias o estudioso reconhecerá as características próprias daquela espécie de pseudohorror que aprendemos a chamar de germânico, sem outra razão melhor a não ser porque alguns dos nomes menores da literatura alemã passaram a ser identificados com sua tolice. Se o terror é a tese em muitas criações minhas, digo que o terror não é da Alemanha, e sim da alma – que eu deduzi este terror apenas de suas fontes legítimas e o conduzi apenas a seus legítimos resultados.
Aqui há um ou dois escritos (concebidos e executados no mais puro espírito de extravaganza) para os quais não espero uma atenção séria, e dos quais não falarei mais. Para os outros, porém, não seria consciencioso de minha parte pedir indulgência alegando que foram feitos às pressas. Creio que o melhor, portanto, é dizer que, se pequei, foi deliberadamente. Estas pequenas composições são, no principal, os resultados de um propósito maduro e de uma elaboração muito cuidadosa.
fonte: preface; trad. informal minha.
imagem: tales of the grotesque and arabesque, 2 vols.
poe no brasil, poe XII
- a coletânea de histoires extraordinaires, tal como foi concebida por baudelaire, é inédita no brasil;
- e, principalmente, a coletânea de tales of the grotesque and arabesque, tal como foi concebida por poe, é inédita no brasil.
senhores editores, que tal comemorar os 200 anos de nascimento de edgar allan poe com o lançamento desse volume, com seu belo título contos do grotesco e arabesco e o breve prefácio do autor?
contos do grotesco e arabesco, poe XI
não faço ideia de como surgiu essa atribuição, e a fonte mais antiga que encontrei para ela foi a frase, já citada: "Em 1848, Contos do Grotesco e do Arabesco foi publicado na França como Histórias Extraordinárias, por Baudelaire".
a primeira incorreção desta frase, como vimos, é a data: histoires extraordinaires foi publicada na frança não em 1848, e sim em 1856.
a segunda, e crassa, é a fantástica identificação entre tales of the grotesque and arabesque e histoires extraordinaires.
não só nada a autoriza, como também é uma impossibilidade ontológica.
já vimos quais são os treze contos de poe que compõem a antologia baudelaireana das histoires, e respectivas datas de redação. mas não custa repetir: histoires extraordinaires de 1856 consiste numa coletânea traduzida de treze contos que poe escreveu originalmente entre 1832 e 1845.
tales of the grotesque and arabesque, por sua vez, é uma coletânea de 25 contos que poe selecionou e lançou em novembro/dezembro de 1839, com data de 1840, em dois volumes. ela reúne contos escritos entre 1831 e 1839, que podem ser consultados na wikisource e na edgar allan poe baltimore society.
volume I:
Morella (1835); Lionizing (1835); William Wilson (1839); The Man That Was Used Up — A Tale of the Late Bugaboo and Kickapoo Campaign (1839); The Fall of the House of Usher (1839); The Duc de L'Omelette (1831); MS. Found in a Bottle (1833); Bon-Bon [The Bargain Lost] (1831); Shadow — A Parable (1835); The Devil in the Belfry (1839); Ligeia (1838); King Pest — A Tale Containing an Allegory (1835); The Signora Zenobia (1838); The Scythe of Time (1838).volume II:
Epimanes (1833); Siope [Silence – A Fable] (1832); The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaal (1835); A Tale of Jerusalem (1832); Von Jung [Mystification] (1837); Loss of Breath [A Decided Loss] (1831); Metzengerstein (1831); Berenice (1834); Why the Little Frenchman Wears His Hand in a Sling (1837); The Visionary [The Assignation] (1832); The Conversation of Eiros and Charmion (1839), e um apêndice ao conto "hans pfaal".não sei dizer quem era o editor da civilização brasileira ou da abril cultural à época em que se instaurou toda essa confusão, mas uma coisa é certa: as histórias extraordinárias não têm nada a ver com tales of the grotesque and arabesque, digam o que disserem as referências das diversas edições, com licença da civilização, pela abril cultural, círculo do livro após 1978 e nova cultural (e sem licença pela martin claret) - e, surpreendentemente, também as edições da ediouro!
naturalmente todos os 25 contos de poe reunidos na coletânea de 1840 existem em português, porém espalhados aqui e ali. no caso da edição da aguilar, que é a mais completa, eles estão distribuídos sob várias rubricas: “contos de terror, de mistério e de morte”, “contos filosóficos”, "contos humorísticos", "viagens fantásticas" e "aventuras fabulosas". e só para lembrar o conto por onde começamos, poe escreveu the black cat em 1843, razão simples e irrefutável pela qual ele não poderia estar na companhia dos contos do grotesco e arabesco de 1840.
conclui-se que, nesse mar de sargaços, a coletânea tales of the grotesque and arabesque, tal como foi concebida, selecionada e publicada por poe, jamais – por incrível que pareça – teve uma única edição no brasil.
imagens: tales of the grotesque and arabesque, vol. I e vol. II.
15 de jun. de 2009
sobra e falta, poe X
isso não significa que não tivemos retraduções de poe a partir do francês, e pela interposição de baudelaire, justamente. e aqui cabe acrescentar mais um dado.
além de histoires extraordinaires, baudelaire selecionou, traduziu e publicou mais dois volumes de escritos de edgar allan poe.
- nouvelles histoires extraordinaires com 23 contos, em 1857:
Le Chat noir (1843)
William Wilson (1839)
L’Homme des foules (1840)
Le Cœur révélateur (1843)
Bérénice (1835)
La Chute de la maison Usher (1839)
Le Puit et le pendule (1842)
Hop-Frog (1849)
La Barrique d’amontillado (1846)
Le Masque de la mort rouge (1842)
Le Roi Peste (1835)
Le Diable dans le beffroi (1839)
Lionnerie (1835)
Quatre bêtes en une (1833)
Petite Discussion avec une momie (1845)
Puissance de la parole (1845)
Colloque entre Monos et Una (1845)
Conversation d’Eiros avec Charmion (1839)
Ombre (1835)
Silence (1837)
L’Île de la fée (1841)
Le Portrait ovale (1842)
- histoires grotesques et sérieuses, com sete contos e três ensaios, em 1865:
Le Mystère de Marie Roget (1842)
Le Joueur d’échecs de Maelzel (1836)
Eleonora (1841)
Un Événement à Jérusalem (1832)
L’Ange du bizarre (1844)
Le Système du docteur Goudron et du professeur Plume (1845)
Le Domaine d’Arnheim (1847)
Le Cottage Landor (1849)
Philosophie de l’ameublement (1840)
La Genèse d’un poème (1850)
então, na primeira metade do século XX, antes da multiplicação indiscriminada de coletâneas de histórias extraordinárias, houve edições brasileiras com outro título concorrido - novelas extraordinárias:
ainda em tradução e com introdução de afonso de taunay existe uma outra coletânea ilustrada de contos de poe. chama-se histórias esquisitas, e saiu pela melhoramentos em 1927, também na biblioteca da adolescência.
2. garnier, sem nome de tradutor, sem data - desconheço o conteúdo.
3. o livro de bolso, sem nome de tradutor, e a indicação "tradução revista por faria e sousa", 1941. assim a descreve cláudio weber abramo, a espada no livro: "Além de contos, esta edição contém: uma descrição do enredo de 'O Corvo' (com o subtítulo 'A gênese de um poema') obviamente traduzida da versão francesa de Baudelaire e com lacunas; uma tradução de 'The Philosophy of Composition', também obtida via Baudelaire; a tradução de 'O Corvo' por Machado de Assis, em que faltam as três últimas estrofes".
4. cruzeiro do sul, em que faria e souza agora aparece como responsável pela tradução, 1943. desconheço o conteúdo.
o que quero mostrar é que, antes de proliferarem as histórias extraordinárias a partir de 1958, surgiram no brasil coletâneas de poe baseadas nas traduções baudelaireanas. mas, tal como nenhum edição de histórias extraordinárias corresponde às histoires extraordinaires, da mesma forma nenhum dos conteúdos acima apresentados corresponde a elas.
assim, creio que se desenha uma conclusão bastante sólida: histoires extraordinaires, a específica seleta baudelaireana de contos de edgar allan poe, jamais foi publicada no brasil.
fontes: 1857, wikisource e eapoe.org; 1865, wikisource e eapoe.org
imagens: livrarias
a extraordinária máquina do tempo, poe IX
a inventiva frase que encerra a apresentação de poe nas histórias extraordinárias da abril cultural, sob licença da civilização brasileira, diz: "Em 1848, Contos do Grotesco e do Arabesco foi publicado na França como Histórias Extraordinárias, por Baudelaire".
são várias inverdades. por ora, já sabemos que baudelaire publicou histoires extraordinaires em 1856, não em 1848.
a única razão que consigo imaginar para esse recuo de oito anos na fantasiosa informação é que o escriba dessa edição da abril deve ter lido meio por cima em algum lugar "baudelaire ... 1848 ... histoires extraordinaires", e se deu por satisfeito.
eu preencheria as lacunas dessa leitura dinâmica assim: "baudelaire traduziu um conto de poe pela primeira vez em 1848. depois de traduzir vários outros contos, ele os reuniu e publicou num volume chamado histoires extraordinaires".
faria sentido e estaria mais de acordo com a realidade.
imagem: www.macvirtual.usp.br
14 de jun. de 2009
extra & extra, poe VIII
aí, como neste ano de 2009 comemora-se o segundo centenário de nascimento de poe, resolvi festejá-lo tentando rastrear os caminhos de seu black cat em nossa terrinha. essa curiosidade resultou numa listinha das pessoas que traduziram o gato preto no brasil; uma relação das diversas coletâneas de histórias extraordinárias, que é onde ele mais aparece; e depois algumas andanças dele em outras antologias.
esse levantamento inicial mostra 34 edições e/ou editoras diferentes para o gato preto no brasil, quinze delas com o título histórias extraordinárias, em 20 traduções (se se incluir o plágio da martin claret). a tradução que aparece com maior frequência é, de longe, a de brenno silveira, em sete editoras, seguida a razoável distância pelas de oscar mendes com milton amado, de clarice lispector e de josé paulo paes. estas traduções de o gato preto mais reproduzidas se concentram em diferentes coletâneas com o mesmo título de histórias extraordinárias: onze ocorrências.
mas, a certa altura, parece que se criou um equívoco em torno das histórias extraordinárias. e é isso que eu gostaria de começar a abordar.
histórias extraordinárias, histoires extraordinaires
retomando, a primeira coletânea brasileira a portar o título histórias extraordinárias foi a da cultrix em 1958, com seleção, organização e tradução de josé paulo paes.
logo a seguir, em 1959, a civilização brasileira lançou uma coletânea com organização, prefácio, tradução e notas de brenno silveira, com onze contos, chamada antologia de contos de edgar allan poe.
apenas em 1970 a antologia de brenno muda de nome: ganha mais dois contos e passa a se chamar histórias extraordinárias. a partir daí, aquela seleta inicial de brenno vai variando, em edições com 12, 13, 16 e até 17 contos.
as histórias extraordinárias da tecnoprint/ ediouro também fizeram um percurso movimentado, sempre em seleção, tradução e adaptação de clarice lispector: de início surgiu um volume chamado 7 de allan poe; depois foi ampliado para 11 de allan poe; acrescida de mais contos, a seleta surge c. 1975 como o gato preto e outras histórias de allan poe; rebatizada, aparece como histórias extraordinárias de allan poe, e por fim adota o nome enxuto de histórias extraordinárias.
desnecessário dizer que a fonte de inspiração para o concorrido título é a coletânea montada por charles baudelaire, de nome histoires extraordinaires. essa coletânea reúne treze contos de edgar allan poe, selecionados e traduzidos por baudelaire, e que veio à luz em 1856.

os 13 contos de poe que estão reunidos nas histoires extraordinaires de baudelaire são os seguintes:*
Double Assassinat dans la rue Morgue (1841)
La Lettre volée (1844)
Le Scarabée d’or (1843)
Le Canard au ballon (1844)
Aventure sans pareille d’un certain Hans Pfaall (1835)
Manuscrit trouvé dans une bouteille (1833)
Une Descente dans le Maelstrom (1841)
La Vérité sur le cas de M. Valdemar (1845)
Révélation magnétique (1844)
Souvenirs de M. Auguste Bedloe (1844)
Morella (1835)
Ligeia (1838)
Metzengerstein (1832)
no brasil existem pelo menos treze coletâneas diferentes com o mesmo título de histórias extraordinárias. nenhuma delas corresponde às histoires extraordinaires de baudelaire. em verdade, nenhuma delas (exceto a ed. escala/larousse) tampouco pretende corresponder às histoires baudelaireanas.**
então, a primeira coisa é deixar de lado qualquer impulso ou reflexo condicionado de associar histórias extraordinárias a histoires extraordinaires.
vejo histórias extraordinárias no brasil, referindo-se a edgar allan poe, como um título que se aplica a qualquer coletânea que se queira, com qualquer quantidade de contos que se pretenda. é um bom nome, com suas ressonâncias baudelaireanas e uma certa consagração difusa, e só: de resto, sendo uma carcaça vazia, funciona como um vale-tudo. e justamente porque histórias extraordinárias não corresponde a histoires extraordinaires de baudelaire, e também não corresponde a nenhuma obra específica de poe, não existe nenhuma vinculação necessária entre o título e o conteúdo do livro. por isso é possível proliferarem tantas antologias diferentes com o mesmo nome.
* wikisource e eapoe.org (as datas correspondem à primeira publicação original).
** ver o conteúdo das antologias brasileiras com o nome de histórias extraordinárias em poe V. quanto à edição da larousse, os dados parecem improcedentes, visto que apenas dois - a carta roubada e o escaravelho de ouro - dos sete contos do volume constam entre as treze histoires extraordinaires baudelaireanas.
imagem: capa de histoires extraordinaires, nouv. éd. 1875.
13 de jun. de 2009
as andanças do gato, poe VI
outras andanças d'o gato preto

- os já referidos contos de imaginação e mistério, trad. port. januário leite, pela annuario do brasil, 1926;
- um homônimo contos de imaginação e mistério, trad. aurélio lacerda, pela pinguim, 1947;
- os crimes da rua morgue e outras histórias, trad. aldo della nina, pela saraiva, 1961; reed. como assassinatos na rua morgue e outras histórias em 2006;
- os assassinatos da rua morgue e outras histórias, trad. william lagos, lpm, 2002;
o gato extraordinário, poe V
o gato preto e as histórias extraordinárias
então vamos lá, por partes.
em 1944, a editora globo lançou em três volumes a obra traduzida de poe mais abrangente de que se tem notícia no mundo. trazia a ficção completa, 34 poemas - e mais as traduções de o corvo feitas por machado de assis, fernando pessoa e gondin da fonseca -, vários ensaios e excertos da marginalia.
na prosa, foi um trabalho de oscar mendes com a colaboração de milton amado; na poesia, a tradução ficou apenas com milton amado. a introdução, organização e notas ficaram a cargo de oscar mendes.
nos anos 60 a globo licenciou a obra para a josé aguilar. de 1965 para cá, a josé aguilar e a posterior nova aguilar vêm publicando a obra em edição amplamente revista pelos tradutores e uma nova estruturação interna.o gato preto está lá, classificado entre os contos de terror, mistério e morte.
desde esse lançamento da globo em 1944, o gato preto tem circulado em várias coletâneas diferentes, com vários nomes, por várias editoras. sucede que algumas dessas coletâneas, com diferentes quantidades de diferentes contos, trazem o mesmo título: histórias extraordinárias. mas que isso não nos confunda: são seleções diferentes, com diferentes tradutores e número variável de contos, os quais também variam.
assim, por exemplo, existem:
1. as histórias extraordinárias da cultrix (1958) e companhia das letras (2008), seleção e tradução de josé paulo paes, com 18 contos, a saber:
coração revelador; o retrato ovalado; o sistema do dr. alcatrão e do professor pena; o gato preto; o diabo no campanário; berenice; sombra - uma parábola; william wilson; o caixão quadrangular; a máscara da morte rubra; a queda da casa de usher; a carta roubada; ligéia; pequena palestra com uma múmia; o barril de amontillado; o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem da multidão.2. as histórias extraordinárias da civilização brasileira (1970), seleção e tradução de brenno silveira, com 13 contos, a saber:
a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall.3. as histórias extraordinárias da ordibra/inl (1972), tradução de joão teixeira de paula, com 16 contos, sendo: o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem na multidão; berenice; hop frog; william wilson; silêncio; sombra; a carta roubada; o gato preto; o poder da palavra; pequena discussão com uma múmia; o demônio da perversidade; o sistema do doutor breu e do professor pena; rei peste; duplo assassínio na rua morgue. traz também o corvo, a gênese de um poema, método de composição, e a tradução d'o corvo por machado de assis.
4. as histórias extraordinárias da civilização brasileira (1973) em licença para o círculo do livro, tradução de brenno silveira e outros, com 17 contos, a saber:
a queda da casa de usher; berenice; os crimes da rua morgue; o escaravelho de ouro; o gato negro; o barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; o poço e o pêndulo; nunca aposte sua cabeça com o diabo; uma descida no maelström; o duque de l'omelette; o jogador de xadrez de maelzel; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall.
5. as histórias extraordinárias de allan poe (seleta de c. 1975, com esse título desde c. 1985) e as histórias extraordinárias da ediouro, tradução e adaptação de clarice lispector, com 18 contos, quais sejam: o gato preto; a máscara da morte rubra; o caso do valdemar; manuscrito encontrado numa garrafa; enterro prematuro; os crimes da rua morgue; a queda da casa de usher; os dentes de berenice; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o duque de l'omelette; william wilson; o retrato oval; o coração denunciador; o diabo no campanário; o barril de amontillado; metzengerstein; ligeia; deus (revelação magnética).
6. as histórias extraordinárias da edibolso (3a. ed., 1975), tradução de brenno silveira e outros, com 11 contos, a saber: a máscara da peste vermelha; o enterro prematuro; a caixa quadrangular; o homem na multidão; william wilson; o poço e o pêndulo; a queda da casa de usher; o barril de amontillado; o gato preto; o coração revelador; berenice.*
* retificação feita por joana canêdo, ver nos comentários.
7. as histórias extraordinárias da civilização brasileira (1978) em licença para abril cultural, círculo do livro, nova cultural, tradução de brenno silveira e outros, com 16 contos, sendo:
a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall; o escaravelho de ouro; uma descida no maelstrom; o jogador de xadrez de maelzel.
8. as histórias extraordinárias da globo (1987), seleção de carmen vera cirne lima, tradução de oscar mendes e milton amado [estou ainda conferindo os títulos desta seleta].
9. as histórias extraordinárias da martin claret (1999), em suposta tradução de pietro nassetti, com 7 contos, sendo: o gato preto; manuscrito encontrado em uma garrafa; os crimes da rua morgue; a carta roubada; o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; a queda da casa de usher.
10. as histórias extraordinárias da larousse (2005), em tradução de cláudia ortiz, com 7 contos, quais sejam: a carta roubada; a queda da casa de usher; o gato preto; o barril de amontillado; a máscara da morte vermelha; hop-frog; o escaravelho de ouro.
11. a edição brasileira de histórias extraordinárias pela ed. américa do sul (1988), na tradução portuguesa de luísa feijó e teixeira de aguilar, com 6 contos, quais sejam: os crimes da rua morgue; o escaravelho de ouro; o gato negro; o barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa; eleonora.
essas onze coletâneas diferentes de histórias extraordinárias incluem o gato preto.
há outras duas com o mesmo título de histórias extraordinárias, mas sem o gato preto:
- otto pierre (1979), de tradutor anônimo, com 8 contos, a saber: os crimes da rua morgue, o mistério de marie roget, o escaravelho de ouro, o sistema do dr. alcatrão e do prof. pena, a verdade sobre o caso do sr. valdemar, descida ao maelstrom, a carta roubada e metzengerstein.
- clube do livro (1988), tradução de josé maria machado, com 10 contos, a saber: o escaravelho de ouro; o homem na multidão; hop frog; william wilson; silêncio (uma fábula); sombra (uma parábola); berenice; pequena discussão com uma múmia; a carta roubada; o sistema do dr. breu e do professor pena.
atualização em 15/01/10:
há uma terceira coletânea com o título de histórias extraordinárias, sem o gato preto:
- cedibra (1972), tradução de pedro ramires, com 8 contos, a saber: o encontro marcado; ligeia; o poço e o pêndulo; manuscrito encontrado numa garrafa; descida ao interior do amelström; o mistério de marie rogêt; a carta furtada; sombra - uma parábola, acrescido ao final de uma nota sobre o autor.
imagens: google images e livrarias
o gato brasileiro, poe IV
outro dia apresentei aqui um cotejo brenno silveira x pietro nassetti d'o gato preto de edgar allan poe. para dar um pouco de contraste, acrescentei os trechos das traduções de oscar mendes/ milton amado e de guilherme braga.como uma coisa leva a outra, isso acabou me despertando a curiosidade: quais seriam outras traduções de o gato preto no brasil?
the black cat no brasil
edgar allan poe escreveu the black cat no final de 1842 ou começo de 1843. o conto foi publicado no saturday evening post, na edição de 19 de agosto de 1843. em 1845, the black cat foi incluído na coletânea tales, publicada por wiley & putnam, nova york.*
* para referências sobre vida e obra de poe, ver o excelente site the edgar allan poe society of baltimore.
o conto aparece em sua primeira tradução brasileira em 1944,* e tem conhecido várias outras traduções e adaptações ao longo desses 65 anos.
* atualização em 31/01/10: esta é uma questão complicada, que em breve abordarei com maiores detalhes. existe uma edição de 1903, pela h. garnier, estampando na página de rosto "traducção brasileira". mas tendo a crer que, em verdade, trata-se de uma reprodução não autorizada da tradução de mécia mouzinho alburquerque.
arrolo abaixo os nomes dos tradutores e adaptadores, as editoras e o ano da primeira edição que consegui localizar.
a partir do original em inglês:
- oscar mendes e milton amado, pela globo, 1944, josé aguilar, nova aguilar e nova fronteira;
- aurélio lacerda, pela pinguim, 1947;
- frederico dos reis coutinho, pela vecchi, 1954;
- anônimo, pela tecnoprint, 1954;
- josé paulo paes, pela cultrix, 1958, e companhia das letras;
- brenno silveira, pela civilização brasileira, 1959, círculo do livro, abril cultural, edibolso e nova cultural;
- aldo della nina, pela saraiva, 1961;
- joão teixeira de paula, ordibra/inl sob licença do clube do livro, 1972;
- clarice lispector, pela tecnoprint e ediouro, c. 1975;
- renato guimarães, pela civilização brasileira, 1978;
- josé rubens siqueira, pela ática, 1993;
- geraldo galvão ferraz, pela ática, 1998;
- celso mauro paciornik, pela iluminuras, 2001;
- william lagos, pela lpm, 2002;
- bernardo carvalho, pela cosac & naify, 2004;
- rodrigo espinosa cabral, pela rideel, 2005;
- celina portocarrero, pela ediouro, 2007;
- ricardo gouveia, pela scipione, 2007;
- guilherme braga, pela hedra, 2008.
atualizado em 31/01/10: há também a tradução de william lagos, pela lpm, 2002. ver mais um gato. há o cadastro de uma tradução em nome de "henry dualib", pela germape, 2005, mas não vi o exemplar. há ainda a edição da cedic, de tradução anônima, 2008.
por interposição:- annunziata capasso de filippis, pela newton compton, 1995 (do italiano, sem indicação);
- pietro nassetti, pela martin claret, 1999 (do português, sem indicação);
- cláudia ortiz, pela escala/larousse, 2005 (do francês, com indicação);
- antonio carlos vilela, pela melhoramentos, 2006 (do espanhol, com indicação).
as traduções, em sua grande maioria, trazem o título o gato preto. as exceções são o mistério do gato preto (tradução anônima, tecnoprint, 1954), o gato negro (josé rubens siqueira) e gato negro (rodrigo espinosa cabral). menciono ainda a tradução portuguesa de luísa feijó, que recebeu uma edição brasileira pela ed. américa do sul (lord cochrane, 1988): o gato negro.
curiosidades:
- o gato preto ganha sua primeira edição brasileira em 1926, pela annuario do brasil, numa coletânea chamada contos de edgard poe, na tradução portuguesa de januário leite, que, até onde sei, é a primeira tradução em língua portuguesa feita diretamente do inglês. [a edição de 1903, pela h. garnier, em suposta "tradução brasileira", não passa de mera contrafação da edição abaixo especificada.]
- a primeira tradução de the black cat para a língua portuguesa aparentemente é a de mécia mouzinho de albuquerque, por interposição do francês, publicada pela companhia nacional, lisboa, em 1889.
agradeço a joana canêdo, saulo von randow jr. e carlos daghlian por várias indicações preciosas.
imagem: http://www.overmundo.com.br/
12 de jun. de 2009
fala o combatente de primeira hora
Entrevista: Jorio Dauster, tradutor
Zero Hora — Denúncias de editoras que publicaram como suas traduções antigas com pequenas alterações cosméticas parecem ter se intensificado nos últimos anos. Para o senhor, episódios como esse mostram que a tradução ainda é pouco valorizada por uma fatia do mercado editorial?
Jorio Dauster — Considero uma vergonha o assalto sistemático que várias editoras fizeram e ainda fazem ao trabalho honesto de dezenas de tradutores, inclusive agindo como verdadeiros ladrões de sepulturas ao se apropriarem do trabalho de intelectuais já mortos. Esses prostíbulos editoriais não só transvestem versões antigas, em muitos casos copiam de cabo a rabo os textos de outrem, atribuindo-os a pessoas cujos nomes inventam com total descaramento. Tenho participado ativamente do movimento de protesto. Recomendo que os amantes da literatura consultem o site http://naogostodeplagio.blogspot.com para conhecer melhor a extensão desses assaltos e assim poder expulsar de suas estantes as traduções bastardas.
11 de jun. de 2009
um grotesco arabesco, poe III
como foi possível chegar a essa fabulosa atribuição das histórias extraordinárias ao "original: tales of the grotesque and arabesque", é um mistério que desafia a inteligência.
na apresentação que abre o volume, afora algumas imprecisões ao longo do texto, a última frase não deixa margem a dúvidas: "Em 1848, Contos do Grotesco e do Arabesco foi publicado na França como Histórias Extraordinárias, por Baudelaire".
não deixa margem a dúvidas, digo eu, sobre a leviandade de quem escreveu isso. na frase tão taxativa, somente uma coisa - e apenas implícita - é verdadeira: baudelaire morava na frança.
muito em breve contaremos essa extraordinária história.
10 de jun. de 2009
ever more, poe II
uma hora, só por curiosidade, vou dar uma olhada nas quinze ou mais traduções/ adaptações de o gato preto no brasil.
imagem: o gato preto
8 de jun. de 2009
o gato preto, poe I
dentre suas dezenas de contos, escolhi o gato preto para um breve cotejo entre a tradução de brenno silveira (civilização brasileira, 1959) e a cópia de pietro nassetti, com ligeiras adulterações (martin claret, 1999).além do cotejo propriamente dito, gostaria de exemplificar o que é o lavor da tradução - as marcas distintivas, as soluções próprias, o partido adotado por cada tradutor. para isso, apresento ainda os respectivos excertos no original, na clássica tradução de oscar mendes e milton amado (globo, 1944) e na recente tradução de guilherme braga (hedra, 2008). isso também permite ilustrar com maior clareza o tipo de apropriação praticada pela editora martin claret.
I.
I am above the weakness of seeking to establish a sequence of cause and effect, between the disaster and the atrocity. But I am detailing a chain of facts — and wish not to leave even a possible link imperfect. On the day succeeding the fire, I visited the ruins. The walls, with one exception, had fallen in. This exception was found in a compartment wall, not very thick, which stood about the middle of the house, and against which had rested the head of my bed. The plastering had here, in great measure, resisted the action of the fire — a fact which I attributed to its having been recently spread. About this wall a dense crowd were collected, and many persons seemed to be examining a particular portion of it with very minute and eager attention. The words "strange!" "singular!" and other similar expressions, excited my curiosity. I approached and saw, as if graven in bas relief upon the white surface, the figure of a gigantic cat. The impression was given with an accuracy truly marvellous. There had been a rope about the animal's neck.
1. oscar mendes com milton amado
Não tenho a fraqueza de buscar estabelecer uma relação de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade, mas estou relatando um encadeamento de fatos e não desejo que nem mesmo um possível elo seja negligenciado. Visitei os escombros no dia seguinte ao incêndio. Todas as paredes tinham caído, exceto uma, e esta era de um aposento interno, não muito grossa, que se situava mais ou menos no meio da casa e contra a qual permanecera a cabeceira de minha cama. O estuque havia, em grande parte, resistido ali à ação do fogo, fato que atribuí a ter sido ele recentemente colocado. Em torno dessa parede reuniu-se compacta multidão e muitas pessoas pareciam estar examinando certa parte especial dela, com uma atenção muito ávida e minuciosa. As palavras "estranho, singular!" e expressões semelhantes excitaram minha curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem fora reproduzida com uma nitidez verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em redor do pescoço do animal.
2. guilherme braga
Creio estar acima da fraqueza que tenta estabelecer uma relação de causa e efeito entre a minha atrocidade e o desastre. Nada mais faço além de detalhar uma corrente de acontecimentos – e não desejo que lhe falte nenhum elo. No dia seguinte ao incêndio, fui visitar as ruínas. As paredes todas, à exceção de uma, haviam desabado. Era uma parede interna, não muito espessa, próxima ao meio da casa, e contra a qual a cabeceira de minha cama ficava encostada. Lá, o estuque havia, em grande parte, resistido à ação do fogo – o que atribuí ao fato de que fora aplicado havia pouco tempo. Ao redor dessa parede havia uma aglomeração de pessoas, e muitas pareciam examinar-lhe uma certa parte com grande interesse e atenção. As palavras “estranho!”, “esquisito!” e outras exclamações similares despertaram-me a curiosidade. Ao aproximar-me, vi, como que gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a silhueta de um enorme gato. A representação era de uma acuidade realmente impressionante. Ao redor do pescoço do animal, via-se uma forca.
3. brenno silveira
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela. As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal.
4. pietro nassetti
Não pretendo estabelecer relação nenhuma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, fui ver as ruínas. Com exceção de uma, todas as paredes tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, localizado no meio da casa, junto ao qual estava a cabeceira de minha cama. O reboco havia aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que supus relacionar-se ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas observavam, com especial atenção e minuciosidade, uma parte dela. As palavras "estranho!", "singular!", e outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente assombrosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal.
II.
Although I thus readily accounted to my reason, if not altogether to my conscience, for the startling fact just detailed, it did not the less fail to make a deep impression upon my fancy. For months I could not rid myself of the phantasm of the cat; and, during this period, there came back into my spirit a half-sentiment that seemed, but was not, remorse. I went so far as to regret the loss of the animal, and to look about me, among the vile haunts which I now habitually frequented, for another pet of the same species, and of somewhat similar appearance, with which to supply its place.
1. oscar mendes com milton amado
Embora assim prontamente procurasse satisfazer a minha razão, senão de todo a minha consciência, a respeito do surpreendente fato que acabo de narrar, nem por isso deixou ele de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses, eu não me pude libertar do fantasma do gato e, nesse período, voltava-me ao espírito um vago sentimento que parecia remorso, mas não era. Cheguei a ponto de lamentar a perda do animal e de procurar, entre as tascas ordinárias que eu agora habitualmente freqüentava, outro bicho da mesma espécie e de aparência um tanto semelhante com que substituí-lo.
2. guilherme braga
Conquanto eu pudesse, assim, esclarecer a meu juízo, se não de todo à minha consciência, o estranho fato detalhado, este não deixou de causar uma impressão profunda em minha imaginação. Por meses o fantasma do gato me assombrou; e, durante esse período, insinuou-se em meu espírito um sentimento difuso que parecia, mas não era, remorso. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e pus-me a procurar, nos estabelecimentos infames que eu então frequentava, um outro da mesma espécie e de aparência semelhante, para que assumisse o seu lugar.
3. brenno silveira
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.
4. pietro nassetti
se bem que isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente acontecimento que acabo de narrar não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse intervalo de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei realmente a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro gato da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.
III.
Finally, I hit upon what I considered a far better expedient than either of these. I determined to wall it up in the cellar — as the monks of the middle ages are recorded to have walled up their victims.
For a purpose such as this the cellar was admirably adapted. Its walls were loosely constructed, and had lately been plastered throughout with a rough plaster, which the dampness of the atmosphere had prevented from hardening. Moreover, in one of the walls was a projection, caused by a false chimney, or fire-place, that had been filled, or walled up, and made to resemble the rest of the cellar. I made no doubt that I could readily displace the bricks at this point, insert the corpse, and wall the whole up as before, so that no eye could detect any thing suspicious.
1. oscar mendes com milton amado
Finalmente, detive-me no que considerei um expediente bem melhor que qualquer um destes. Decidi emparedá-lo na adega, como se diz que os monges da Idade Média emparedavam suas vítimas.
Para um objetivo semelhante estava a adega bem adaptada. Suas paredes eram de construção descuidada e tinham sido ultimamente recobertas, por completo, de um reboco grosseiro, cujo endurecimento a umidade da atmosfera impedira. Além disso, em uma das paredes havia uma saliência causada por uma falsa chaminé ou lareira que fora tapada para não se diferençar do resto da adega. Não tive dúvidas de que poderia prontamente retirar os tijolos naquele ponto, introduzir o cadáver e emparedar tudo como antes, de modo que olhar algum pudesse descobrir qualquer coisa suspeita.
2. guilherme braga
Por fim, decidi valer-me de um expediente que julguei muito mais apropriado que qualquer um desses. Resolvi emparedar o corpo no porão – como os monges da Idade Média emparedavam suas vítimas, segundo atestam documentos.
O porão prestava-se bem a esse fim. As paredes não eram muito sólidas e recentemente haviam sido recobertas com um reboco grosseiro, que a umidade das paredes não deixara secar. Ademais, em uma das paredes via-se uma projeção, motivada por uma falsa chaminé, ou lareira, que fora fechada de modo a confundir-se com o restante da estrutura. Não tive dúvidas de que poderia deslocar os tijolos da projeção, depositar o corpo lá dentro e cimentar tudo outra vez, de modo que ninguém detectasse nenhum elemento suspeito.
3. brenno silveira
Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.
4. pietro nassetti
Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito esmero e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. De resto, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tampada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia sem nenhuma dificuldade retirar os tijolos naquele lugar, colocar o corpo e deixá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse avistar nada que despertasse suspeita.
imagem: http://copycat.lidonet.com
7 de jun. de 2009
6 de jun. de 2009
mutatis mutandis
anos atrás, a editora rideel moveu um processo contra a w. brasil publicidade. motivo: a w. brasil, em uma campanha publicitária de aproximação cultural entre o brasil e o chile, utilizou uma parte de um mapa político da américa do sul que fazia parte de um atlas publicado pela rideel, sem mencionar de quem era a autoria do mapa. fico imaginando: se a rideel, como detentora dos direitos de tradução das obras de seu catálogo, descobrisse que alguma delas foi integralmente copiada e publicada por outra editora, mas com a autoria da tradução atribuída a outrem, o que será que ela faria?
imagem: o globo de behaim, 1492
5 de jun. de 2009
cachimbos lusitanos
também achei muito engraçada a nota de tradução que aparece no mesmo conto:

cachimbo bryer, "geralmente conhecido em portugal pela designação francesa de 'bruyère': raiz de roseira brava". [NT]
ah, ok - e no brasil, se mal lhe pergunte?
referência: conan doyle, o silver star, in a face amarela e outras histórias, trad. heloísa da graça buratti. são paulo, editora rideel, 2002, p. 16.
imagem: magritte
ahn?
"heloísa da graça buratti", nome a que a editora rideel atribui a autoria da tradução de silver blaze de conan doyle, em sua coleção sherlock holmes, batizou essa aventura sherlockiana de o silver star.vá lá que outros tradutores (hamílcar de garcia, joaquim machado) tenham escolhido chamar o cavalo - e o conto - de estrela de prata.
agora, o silver blaze do original virar silver star em português é algo que ultrapassa meu entendimento.
imagem: capa
4 de jun. de 2009
a luta pelo direito, pillares
no brasil, uma obra passa a fazer parte do patrimônio cultural da sociedade apenas setenta anos após a morte de seu autor. acho uma barbaridade de tempo, mas é assim que é. com isso, o famoso prefácio de clóvis beviláqua (1859-1944) a a luta pelo direito ainda não está em domínio público, e só é possível reproduzi-lo para fins comerciais com a autorização de seus sucessores.
é o que imagino que a pillares tenha feito - isto é, obtido a licença da família de beviláqua para publicar seu prefácio. o difícil de entender é a razão pela qual a tradução pela pillares, sendo idêntica à de josé tavares bastos, aparece em nome do jurista ivo de paula, mestre em leis e autor de várias obras jurídicas.1. josé tavares bastos
CAPÍTULO I
Introdução
O direito é uma idéia prática, isto é, designa um fim, e, como toda a idéia de tendência, é essencialmente dupla, porque contém em si uma antítese, o fim e o meio.
Não é suficiente investigar o fim, deve-se também saber o caminho que a ele conduz.
Eis duas questões para as quais o direito deve sempre procurar uma solução, podendo-se dizer que o direito não é, no seu conjunto e em cada uma das suas divisões, mais que uma resposta constante a essa dupla questão.
Não há um só título, por exemplo o da propriedade ou o das obrigações, em que a definição não seja imprescindivelmente dupla e nos diga o fim que propõe e os meios para atingi-lo. Mas o meio, por mais variado que seja, reduz-se sempre à luta contra a injustiça.
A idéia do direito encerra uma antítese que se origina nesta idéia, da qual jamais se pode, absolutamente, separar: a luta e a paz; a paz é o termo do direito, a luta é o meio de obtê-lo.
2. ivo de paula
CAPÍTULO I
Introdução
O Direito é uma idéia prática, isto é, designa um fim, e, como toda a idéia de tendência, é essencialmente dupla, porque contém em si uma antítese, o fim e o meio.
Não é suficiente investigar o fim, deve-se também saber o caminho que a ele conduz.
Eis duas questões para as quais o Direito deve sempre procurar uma solução, podendo-se dizer que o direito não é, no seu conjunto e em cada uma das suas divisões, mais que uma resposta constante a essa dupla questão.
Não há um só título, por exemplo o da propriedade ou o das obrigações, em que a definição [] seja imprescindivelmente dupla e nos diga o fim que propõe e os meios para atingi-lo. Mas o meio, por mais variado que seja, reduz-se sempre a uma luta contra a injustiça.
A ideia do Direito encerra uma antítese que se origina desta ideia, da qual jamais se pode, absolutamente, separar: a luta e a paz; a paz é o termo do direito, a luta é o meio de obtê-lo.
1. josé tavares bastos
Poder-se-á objetar que a luta e a discórdia são precisamente o que o direito se propõe evitar, porquanto semelhante estado de coisas implica uma perturbação, uma negação da ordem legal, e não uma condição necessária da sua existência.
A objeção seria procedente se se tratasse da luta da injustiça contra o direito; ao contrário, trata-se aqui da luta do direito contra a injustiça.
Se, neste caso, o direito não lutasse, isto é, se não resistisse vigorosamente contra ela, renegar-se-ia a si mesmo.
Esta luta perdurará tanto como o mundo, porque o direito terá de precaver-se sempre contra os ataques da injustiça.
A luta não é, pois, um elemento estranho ao direito, mas sim uma parte integrante de sua natureza e uma condição de sua idéia.
Todo direito no mundo foi adquirido pela luta; esses princípios de direito que estão hoje em vigor foi indispensável impô-los pela luta àqueles que não os aceitavam; assim, todo o direito, tanto o de um povo, como o de um indivíduo, pressupõe que estão o indivíduo e o povo dispostos a defendê-lo.
2. ivo de paula
Poder-se-á objetar que a luta e a discórdia são precisamente o que o Direito se propõe a evitar, porquanto semelhante estado de coisas implica uma perturbação, uma negação da ordem legal, e não uma condição necessária de sua existência.
A objeção seria procedente se se tratasse da luta da injustiça contra o Direito; ao contrário, trata-se aqui da luta do Direito contra a injustiça. Se, neste caso, o Direito não lutasse, isto é, se não resistisse vigorosamente contra ela, renegar-se-ia a si mesmo.
Esta luta perdurará tanto quanto o mundo, porque o Direito terá de precaver-se sempre contra os ataques da injustiça.
A luta não é, pois, um elemento estranho ao Direito, mas sim uma parte integrante de sua natureza e uma condição de sua idéia.
Todo direito no mundo foi adquirido pela luta; esses princípios de Direito que estão hoje em vigor têm sido indispensáveis na [sic] luta contra aqueles que não os aceitavam; assim, todo o direito, tanto o de um povo, como o de um indivíduo, pressupõe que estão o indivíduo e o povo dispostos a defendê-lo.
1. josé tavares bastos
O direito não é uma idéia lógica, porém idéia de força; é a razão porque a justiça, que sustenta em uma das mãos a balança em que pesa o direito, empunha na outra a espada que serve para fazê-lo valer.
A espada sem a balança é a força bruta, a balança sem a espada é o direito impotente; completam-se mutuamente: e, na realidade, o direito só reina quando a força dispendida pela justiça para empunhar a espada corresponde à habilidade que emprega em manejar a balança.
2. ivo de paula
O Direito não é uma ideia lógica, porém uma ideia de força; é a razão porque a justiça, que sustenta em uma das mãos a balança em que pesa o Direito, sustenta na outra a espada que serve para fazê-lo valer.
A espada sem a balança é a força bruta, e a balança sem a espada é o direito impotente; completam-se mutuamente; e, na realidade, o direito só reina quando a força despendida pela justiça para empunhar a espada corresponde à habilidade que emprega em manejar a balança.1. josé tavares bastos
Observa-se facilmente que a nossa teoria se ocupa muito mais com a balança do que com a espada da justiça.
A estreiteza do ponto de vista puramente científico com que se encara o direito e que é onde se ostenta menos o seu lado real, como idéia de força, do que pelo seu lado racional, como um conjunto de princípios abstratos, tem dado, julgamos, a todo esse modo de encarar a questão, uma feição que não está muito em harmonia com a amarga realidade. A defesa da nossa tese o provará.
O direito contém, como é sabido, um duplo sentido; — o sentido objetivo que nos oferece o conjunto de princípios de direito em vigor; a ordem legal da vida, e o sentido subjetivo, que é, por assim dizer, — o precipitado da regra abstrata no direito concreto da pessoa.
Nessas duas direções o direito depara com uma resistência que deve vencer, e, em ambos os casos, deve triunfar ou manter a luta.
2. ivo de paula
Observa-se facilmente que a nossa teoria se ocupa muito mais com a balança do que com a espada da justiça.
A estreiteza do ponto de vista puramente científico com que se encara o direito, e que é onde se ostenta menos o seu lado real, como ideia de força, do que pelo seu lado racional, como um conjunto de princípios abstratos, tem dado, julgamos, a todo esse modo de encarar a questão, uma feição que não está [] em harmonia com a amarga realidade. A defesa da nossa tese o provará.
O direito contém, como é sabido, um duplo sentido: o sentido objetivo que nos oferece o conjunto de princípios de direito em vigor; a ordem legal da vida; e o sentido subjetivo, que é, por assim dizer, o precipitado da regra abstrata no direito concreto da pessoa.
Nessas duas direções o direito depara com uma resistência que deve vencer, e, em ambos os casos, deve triunfar ou manter a luta.
1. josé tavares bastos
E é deste desenvolvimento interno que se derivam todos os princípios de direito, que os arestos análogos e igualmente motivados interpõem pouco a pouco nas relações jurídicas, como as abstrações, os corolários, as regras que a ciência aufere do direito existente, por meio do raciocínio, e põe logo em evidência.
Porém, o poder destes dois agentes, as relações e a ciência, é limitado; pode dirigir o movimento nos limites fixados pelo direito existente, impeli-lo, mas não lhes é dado romper os diques que impedem as águas de tomar um novo curso.
Somente a lei, isto é, a ação voluntária e determinada do poder público, é que tem esta força, e não por acaso, mas em virtude de uma necessidade, que está na natureza íntima do direito, porquanto todas as reformas introduzidas no processo e no direito positivo se originam das leis.
Certo que pode acontecer que uma modificação feita pela lei no direito existente, seja puramente abstrata, que sua influência esteja limitada a esse mesmo direito, sem se notar no domínio das relações concretas se foram estabelecidas sobre a base do direito até então em vigor; neste caso, o fato é como uma reparação puramente mecânica, que consiste em substituir um parafuso ou uma roda qualquer usada por outra melhor. Muitas vezes acontece que uma modificação não se pode operar sem ferir ou lesar profundamente direitos existentes e interesses privados: porque os interesses de milhares de indivíduos e de classes inteiras estão de tal modo identificados com o direito no curso dos tempos, que não é possível modificar aquele sem sentirem vivamente tais interesses.
Se colocarmos então o princípio do direito ao lado do privilégio, declara-se por esse fato só a guerra a todos os interesses, tenta-se extirpar um pólipo que agarra com todos os seus tentáculos.
Está no instinto da conservação pessoal que os interesses ameaçados a mais violenta resistência oponham a toda a tentativa de tal natureza, dando vida a uma luta que, como qualquer outra, não será resolvida pelos raciocínios, mas pelas forças nela empenhadas, produzindo freqüentemente o mesmo resultado que o paralelograma das forças: o desvio das linhas retas componentes em uma diagonal.
2. ivo de paula
E é deste desenvolvimento interno que [] derivam todos os princípios de direito, que os arestos análogos e igualmente motivados interpõem pouco a pouco nas relações jurídicas, como as abstrações, os corolários, as regras que a ciência aufere do direito existente, por meio do raciocínio, e põe logo em evidência.
Porém, o poder destes dois agentes, as relações e a ciência, é limitado; pode dirigir o movimento nos limites fixados pelo direito existente, impeli-lo, mas não lhe[] é dado romper os diques que impedem as águas de tomarem um novo curso.
Somente a lei, isto é, a ação voluntária e determinada do poder público, é que tem essa força, e não por acaso, mas em virtude de uma necessidade, que está na natureza íntima do direito, porquanto todas as reformas introduzidas no processo e no direito positivo se originam das leis.
Certo que pode acontecer que uma modificação feita pela lei no direito existente seja puramente abstrata, que sua influência esteja limitada a esse mesmo direito, sem se notar no domínio das relações concretas se foram estabelecidas sobre a base do direito até então em vigor; neste caso, o fato é como uma reparação puramente mecânica, que consiste em substituir um parafuso ou uma roda qualquer usada por outra melhor. Muitas vezes acontece que uma modificação não [] pode operar sem ferir ou lesar profundamente direitos existentes e interesses privados; porque os interesses de milhares de indivíduos e de classes inteiras estão de tal modo identificados com o direito no curso dos tempos, que não é possível modificar aquele sem sentirem vivamente tais interesses.
Se colocarmos, então, o princípio do direito ao lado do privilégio, declara-se por esse fato só a guerra a todos os interesses, tenta-se extirpar um pólipo que agarra com todos os seus tentáculos.
Está no instinto da conservação pessoal que os interesses ameaçados a mais violenta resistência oponham a toda [] tentativa de tal natureza, dando vida a uma luta que, como qualquer outra, não será resolvida pelos raciocínios, mas pelas forças nela empenhadas, produzindo frequentemente o mesmo resultado que o paralelogramo das forças: o desvio das linhas retas componentes em uma diagonal.
obs.: a edição da pillares inicia com "direito" em maiúscula, e depois vai variando, até na mesma frase.
atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
imagens: capa da ed. pillares; www.e-cartz.biz

