14 de jun de 2009

extra & extra, poe VIII

essa sequência de posts sobre edgar allan poe no brasil se iniciou com um cotejo de o gato preto (brenno silveira x pietro nassetti).

aí, como neste ano de 2009 comemora-se o segundo centenário de nascimento de poe, resolvi festejá-lo tentando rastrear os caminhos de seu black cat em nossa terrinha. essa curiosidade resultou numa listinha das pessoas que traduziram o gato preto no brasil; uma relação das diversas coletâneas de histórias extraordinárias, que é onde ele mais aparece; e depois algumas andanças dele em outras antologias.

esse levantamento inicial mostra 34 edições e/ou editoras diferentes para o gato preto no brasil, quinze delas com o título histórias extraordinárias, em 20 traduções (se se incluir o plágio da martin claret). a tradução que aparece com maior frequência é, de longe, a de brenno silveira, em sete editoras, seguida a razoável distância pelas de oscar mendes com milton amado, de clarice lispector e de josé paulo paes. estas traduções de o gato preto mais reproduzidas se concentram em diferentes coletâneas com o mesmo título de histórias extraordinárias: onze ocorrências.

mas, a certa altura, parece que se criou um equívoco em torno das histórias extraordinárias. e é isso que eu gostaria de começar a abordar.

histórias extraordinárias, histoires extraordinaires

retomando, a primeira coletânea brasileira a portar o título histórias extraordinárias foi a da cultrix em 1958, com seleção, organização e tradução de josé paulo paes.

logo a seguir, em 1959, a civilização brasileira lançou uma coletânea com organização, prefácio, tradução e notas de brenno silveira, com onze contos, chamada antologia de contos de edgar allan poe.
apenas em 1970 a antologia de brenno muda de nome: ganha mais dois contos e passa a se chamar histórias extraordinárias. a partir daí, aquela seleta inicial de brenno vai variando, em edições com 12, 13, 16 e até 17 contos.

as histórias extraordinárias da tecnoprint/ ediouro também fizeram um percurso movimentado, sempre em seleção, tradução e adaptação de clarice lispector: de início surgiu um volume chamado 7 de allan poe; depois foi ampliado para 11 de allan poe; acrescida de mais contos, a seleta surge c. 1975 como o gato preto e outras histórias de allan poe; rebatizada, aparece como histórias extraordinárias de allan poe, e por fim adota o nome enxuto de histórias extraordinárias.

desnecessário dizer que a fonte de inspiração para o concorrido título é a coletânea montada por charles baudelaire, de nome histoires extraordinaires. essa coletânea reúne treze contos de edgar allan poe, selecionados e traduzidos por baudelaire, e que veio à luz em 1856.



os 13 contos de poe que estão reunidos nas histoires extraordinaires de baudelaire são os seguintes:*

Double Assassinat dans la rue Morgue (1841)
La Lettre volée (1844)
Le Scarabée d’or (1843)
Le Canard au ballon (1844)
Aventure sans pareille d’un certain Hans Pfaall (1835)
Manuscrit trouvé dans une bouteille (1833)
Une Descente dans le Maelstrom (1841)
La Vérité sur le cas de M. Valdemar (1845)
Révélation magnétique (1844)
Souvenirs de M. Auguste Bedloe (1844)
Morella (1835)
Ligeia (1838)
Metzengerstein (1832)

no brasil existem pelo menos treze coletâneas diferentes com o mesmo título de histórias extraordinárias. nenhuma delas corresponde às histoires extraordinaires de baudelaire. em verdade, nenhuma delas (exceto a ed. escala/larousse) tampouco pretende corresponder às histoires baudelaireanas.**

então, a primeira coisa é deixar de lado qualquer impulso ou reflexo condicionado de associar histórias extraordinárias a histoires extraordinaires.

vejo histórias extraordinárias no brasil, referindo-se a edgar allan poe, como um título que se aplica a qualquer coletânea que se queira, com qualquer quantidade de contos que se pretenda. é um bom nome, com suas ressonâncias baudelaireanas e uma certa consagração difusa, e só: de resto, sendo uma carcaça vazia, funciona como um vale-tudo. e justamente porque histórias extraordinárias não corresponde a histoires extraordinaires de baudelaire, e também não corresponde a nenhuma obra específica de poe, não existe nenhuma vinculação necessária entre o título e o conteúdo do livro. por isso é possível proliferarem tantas antologias diferentes com o mesmo nome.

* wikisource e eapoe.org (as datas correspondem à primeira publicação original).

*
* ver o conteúdo das antologias brasileiras com o nome de histórias extraordinárias em poe V. quanto à edição da larousse, os dados parecem improcedentes, visto que apenas dois - a carta roubada e o escaravelho de ouro - dos sete contos do volume constam entre as treze histoires extraordinaires baudelaireanas.

imagem: capa de histoires extraordinaires, nouv. éd. 1875.

Um comentário:

  1. Anônimo15.6.09

    Pietro Nasseti traduz até POE. O que seria mais ASSUSTADOR?

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