19/06/2009

dicionário filosófico, cotejo I

quanto à bizarra montagem da martin claret em sua edição do dicionário filosófico de voltaire, duplicando verbetes iguais com traduções diferentes, picotando e criando artificialmente novos verbetes, copiando despudoradamente traduções anteriores, vejamos agora alguns exemplos.

trata-se do artigo sobre o caráter, com um fraseio bem peculiar em português, da lavra de líbero rangel de tarso:

[...] a idade amolenta o caráter. transforma-o em uma árvore que não dá senão um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. enodoa-se, cobre-se de musgo, caruncha. jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. se fosse possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel prazer, seria senhor da natureza. podemos lá criar alguma cousa? não recebemos tudo. experimentai animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à música a quem careça de gosto e de ouvido. não tereis melhor resultado do que se empreenderdes dar vista a cego de nascença. não aperfeiçoamos, esborcelamos, o que nos estereogravou a natureza. não há, porém, alterar-lhe a obra.
diríeis a um criador: - o senhor tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não vingam. seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais emagrecerão. - mas deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. os restantes engordam. gabar-se-á ele dessa economia? este camponês é tu mesmo. uma de tuas paixões devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti próprio. não parecemos quase todos nós com aquele velho general de noventa anos que, encontrando jovens oficiais mexendo com umas moças, perguntou-lhes colérico: "senhores, é esse o exemplo que lhes dou?" (atena, pp. 64-65)

pietro nassetti:

[...] a idade amolenta o caráter. transforma-o em uma árvore que não dá senão um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. enodoa-se, cobre-se de musgo, caruncha. jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. se fosse possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel-prazer, seria senhor da natureza. podemos lá criar alguma coisa? não recebemos tudo. experimentai animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à música a quem careça de gosto e de ouvido. não tereis melhor resultado do que se empreenderes [sic] dar vista a cego de nascença. não aperfeiçoamos, esborcelamos, o que nos estereogravou a natureza. não há, porém, alterar-lhe a obra.
diríeis a um criador: - o senhor tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não vingam. seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais emagrecerão. - mas deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. os restantes engordam. gabar-se-á ele dessa economia? este camponês é tu mesmo. uma de tuas paixões devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti próprio. não parecemos quase todos nós com aquele velho general de noventa anos que, encontrando jovens oficiais mexendo com umas moças, perguntou-lhes, colérico: "senhores, é esse o exemplo que lhes dou?" (martin claret, p. 69)

ou um trecho do verbete "china (da)":

- líbero rangel de tarso:

vamos à china à procura de terra, como se nos faltasse. tecidos, como se de tecidos carecêssemos. certa erva para infundir nágua, como se nossos climas não produzissem similares. em paga timbramos em querer conhecer os chineses. zelo plausibilíssimo. mas nem por isso precisamos contestar sua antiguidade e lançar-lhes a tacha de idólatras. que diríeis de um capuchinho que, depois de generosamente acolhido pelos montmorency em um de seus castelos, quisesse persuadi-los de que são nobres feitos da noite para o dia, como os secretários do rei, e os acusasse de idólatras, por encontrar no castelo duas ou três estátuas de condestáveis a quem os montmorency votassem profundo respeito? (atena, p. 106)

- pietro nassetti:

vamos à china à procura de terra, como se nos faltasse. tecidos, como se de tecidos carecêssemos. certa erva para infundir na água, como se nossos climas não produzissem similares. em paga timbramos em querer conhecer os chineses. zelo plausibilíssimo. mas nem por isso precisamos contestar sua antiguidade e lançar-lhes a tacha de idólatras. que diríeis de um capuchinho que, depois de generosamente acolhido pelos montmorency em um de seus castelos, quisesse persuadi-los de que são nobres feitos da noite para o dia, como os secretários do rei, e os acusasse de idólatras, por encontrar no castelo duas ou três estátuas de condestáveis a quem os montmorency votassem profundo respeito? (martin claret, p. 98)


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagem: plagiarius

Nenhum comentário:

Postar um comentário

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.