25 de jun de 2009

cortesia da casa, poe XIX

como os cotejos costumam ser muito tediosos pela parca sinonímia usada pelos maquiadores de plantão e pelo escasso desafio que propõem à inteligência do leitor, ofereço para a família nassetti-corvisieri-burattiana alguns exercícios para treinar suas habilidades.


I. quando se pretende sugerir uma pátina de respeitabilidade, com um ar levemente arrebicado:
Eis-me a ponto de redigir uma narrativa de si fantástica ao extremo e, não obstante, de extremo desadorno, em prol da qual não antecipo e tampouco encareço qualquer crédito. Desarrazoado, deveras, seria da minha parte esperar tal penhor de confiança, numa instância em que o próprio testemunho dos meus sentidos é por eles mesmos rejeitado. E no entanto desarrazoado não sou – e com grande segurança afirmo não se tratar de um sonho. Porém amanhã hei de perecer, e hoje apraz-me descarregar o que minh'alma oprime. Meu imediato propósito é perante o mundo expor sem rebuços, sem delongas e sem comentários uma série de singelos eventos do meu espaço doméstico. Nas suas consequências, tais eventos trouxeram-me terror - tormento - destruição. Ainda assim não me abalançarei a uma explanação deles. A mim, pouco apresentaram além de Horror – a muitos afigurar-se-ão menos terríveis do que barrocos. Adiante encontrar-se-á porventura um intelecto com capacidade de reconduzir minha fantasmagoria ao lugar-comum – um intelecto de maior equanimidade, maior raciocínio lógico e muito menor suscetibilidade do que o meu, o qual saberá discernir, nas circunstâncias que assombrado aqui pormenorizo, nada além de uma ordinária sucessão de causas e efeitos muito naturais.


II. quando se pretende um certo tom neutro e relativamente escorreito, que não desperte grandes objeções quanto ao literalismo:
Quanto à narrativa profundamente estranha, e todavia despretensiosa que estou em vias de escrever, não espero nem peço que me creiam. Louco realmente seria eu se o esperasse, num caso em que meus próprios sentidos rejeitam o que testemunham. No entanto, louco não estou – e certamente não sonho. Mas amanhã morrerei, e hoje gostaria de desafogar minha alma. Meu propósito imediato é colocar ao mundo, direta e sucintamente, sem comentários, uma série de meros eventos familiares. Em suas consequências, estes eventos me aterrorizaram – me torturaram – me destruíram. Mas não tentarei elucidá-los. Para mim, apresentaram pouco mais do que Horror – para muitos, eles parecerão não tanto terríveis quanto barrocos. No futuro talvez se possa encontrar alguma inteligência capaz de reduzir meu fantasma a uma banalidade – alguma inteligência mais serena, mais lógica, e muito menos excitável do que a minha, a qual perceberá, nas circunstâncias que detalho com espanto, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.


III. quando se pretende um certo ar mais solto, num tom de aparência mais direta:Para a narrativa muito estranha e, ao mesmo tempo, muito simples que vou escrever, não peço nem espero crédito. Seria loucura minha esperar, ainda mais que nem mesmo eu acredito nos meus próprios sentidos. Mas não sou louco – e certamente não estou sonhando. Só que amanhã vou morrer, e hoje quero aliviar a alma. Meu objetivo imediato é apresentar ao mundo, de maneira direta, sucinta, sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Em suas consequências, esses acontecimentos me aterrorizaram – torturaram – destruíram. Mas não vou tentar explicá-los. Para mim, são praticamente o puro Horror – para muitos, mais do que terríveis vão parecer barrocos. Quem sabe algum dia possa surgir um intelecto que reduza meu fantasma ao corriqueiro – um intelecto mais calmo, mais lógico, muito menos excitável do que o meu, que veja, nas circunstâncias que detalho com pavor, apenas uma sucessão normal de causas e efeitos muito naturais.

imagens: dragon, orgão e simplicissimo.

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