16 de jun. de 2009

brasilices, poe XV

desses dez dias de poe sobraram umas rabeiras de rascunho, que coloco aqui.

os erros de baudelaire

essa questão de atribuição pode parecer um detalhe, mas é uma coisa manhosa, a ponto, por exemplo, de induzir um intelectual brasileiro de certo renome a afirmar que, "ao traduzir tales of grotesque and arabesque para histoires extraordinaires, charles baudelaire errou duas vezes. a primeira, ao trair a vontade expressa do autor, de que o título de um livro deve mostrar tudo o que contém; e a segunda, por não perceber a enorme riqueza semântica do original".

o altaneiro veredito apenas mostra que quem o enunciou pouca ou nenhuma familiaridade tem, seja com tales of the grotesque and arabesque, seja com histoires extraordinaires. e é a nossas editoras, com suas atribuições displicentes e equivocadas, que devemos atribuir a produção de tais pérolas do saber acadêmico. aliás, diga-se de passagem que baudelaire é o primeiro a reconhecer em seu prefácio a expressividade de "le titre Tales of the Grotesque and the Arabesque — titre remarquable et intentionnel".

toque de caixa

imagino uma cena assim, na hora do fechamento do livro:
- ih meu, tá faltando o nome do original! e como se chama essa coisa?
- procura aí na outra edição.
- pô, não tem. mas aqui na página da frente o pessoal tá falando de umas histórias extraordinárias em francês.
- francês????? mas o livro é do inglês!
- não, é que parece que um tal baú–de–láire, sei lá como se diz isso, pegou o pôu e traduziu em francês. que nome mais esquisito.
- que nome é, então? o inglês, o inglês, não o francês.
- peraí, peraí, tô lendo.
- vai logo, tem que botar o nome de algum original aí.
- ah, achei! téles ovi de grotéski endi arabéski, acho que é isso.
- tá, tá bom, se não é, fica sendo. mas bota por escrito aqui na prova.

outra sala:
- pronto, chefe. tá qui, tudo em cima.
- acharam o nome do tal livro?
- ah, foi moleza. eu até já conhecia.
- então tá bom. deixa aí na mesa que depois dou uma olhada. tá pronto pra rodar?
- ôôô, pode mandar bala.

e o resto virou história.

e a moda pega

dona ediouro, se faz mais de trinta anos que a sra. diz que foi a clarice lispector que escolheu os contos do poe que vocês publicam, como é que a antologia dela acabou virando tradução do original tales of the grotesque and arabesque?

agora, falando sério

este ano comemoram-se os duzentos anos de nascimento de edgar allan poe (1809-1849). a universidade federal de minas gerais está organizando um grande congresso internacional, para sempre poe, entre os dias 20 e 23 de setembro. vale a pena conferir. tomara que a gente consiga sair dessa brincadeira de roda e comece a se entender com as coisas.

nessa pesquisa foram muito úteis os artigos de carlos daghlian, a recepção de poe na literatura brasileira e obras de e sobre poe em português ou publicadas no brasil. agradeço de novo a saulo von randow jr. e a joana canêdo, que colaboraram com coisas magníficas.

imagens: o gato assustado; o gato apavorado; o gato pálido de susto

Um comentário:

  1. Paz e bem!

    OFF TOPIC:

    Acabo de ler a msg da ABNT informando da consulta para o CANCELAMENTO DA NORMA NBR-10526 Editoração de traduções.

    Mais informações no site da ABNT.

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.