20/06/2009

as "deliciosas sandes de merda" de voltaire

a história engraçada que mencionei a propósito da tradução portuguesa do dicionário filosófico é a seguinte: por alguma dessas razões editoriais obscuras, bruno da ponte, encarregado de fazer a tradução, resolveu repassar uma parte do serviço para luiz pacheco, fosse para ajudá-lo financeiramente, fosse por qualquer outro motivo.

luiz pacheco, falecido no ano passado, era uma figura um tanto folclórica nos meios intelectuais e editoriais portugueses. pois bem, então ele pegou um dos volumes da tradução que cabia a bruno da ponte. recebeu o pagamento adiantado e, chegada a data de entrega do material, não tinha feito o serviço. depois de muita cobrança de bruno, luiz pacheco pegou o livro e foi datilografando conforme ia lendo. mas estava sem dicionário ao lado e as palavras que não sabia foi datilografando com uns palavrões em vermelho. pôs o texto no correio para o bruno, mas esqueceu de tirar as marcações. bruno entregou o material ao editor e, como o livro estava atrasadíssimo, foi direto da editora para a gráfica, sem passar pela revisão.
naturalmente a gráfica iria imprimir igualzinho, pondo em itálico tudo o que estava em vermelho. nesse meio tempo, o pacheco lembrou e foi correndo para lisboa avisar a editora e conseguiu suspender a impressão para fazer a revisão. mesmo assim passou uma nota de tradutor, e aqui transcrevo as palavras de luiz pacheco.

"Estava então a escrever como negro e a traduzir o Dicionário Filosófico (de Voltaire) para a Presença, mas quem assinava a tradução era o Bruno da Ponte. Eu tinha de o fazer porque era a única fonte de dinheiro, e numa parte ele refere-se a um daqueles malucos profetas da Bíblia que faziam uma espécie de pão com excremento de vaca. Eu estava chateado e o que é que fiz? Escrevi: 'Nota do tradutor: é o que chamaríamos hoje deliciosas sandes de merda.' (risos) Esqueci-me, e aquilo lá saiu em nota do tradutor, que era o Bruno da Ponte. Ele ficou um bocado magoado."

eis a anedota no youtube, contada por vitor tavares.




naturalmente muita gente deplora que o bruno da ponte nunca tenha dado os devidos créditos a luiz pacheco. por outro lado, essa edição não é tida em alta conta entre os interessados e leitores de voltaire. veio cá parar entre nós, com vários verbetes reproduzidos pela martin claret sob nome de pietro nassetti.

é engraçado ver algumas adaptações lusitanas, provavelmente pachequianas:

voltaire:
Médroso. — Quel est ce Tullius Cicero? Jamais je n’ai entendu prononcer ce nom-là la sainte Hermandad
Boldmind. — C’était un bachelier de l’université de Rome, qui écrivait ce qu’il pensait, ainsi que Julius Cesar, Marcus Aurelius, Titus Lucretius Carus, Plinius, Seneca, et autres docteurs
Médroso. — Je ne les connais point; mais on m’a dit que la religion catholique, basque et romaine, est perdue, si on se met à penser.

bruno da ponte:
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

pietro nassetti:
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem. Aqui não se trata de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

claro que voltaire não falou em santo antônio de pádua, o principal santo português, e que o tradutor português quis ampliar o leque da crítica de voltaire eliminando a referência basca. o cômico é que a claret mantenha tais alterações. daqui a pouco algum acadêmico brasileiro vai dizer com ar muito douto: ah, aquela passagem em que voltaire menciona santo antônio...

[a propósito, essa história me lembrou a fama do monoglota nelson rodrigues como tradutor de harold robbins, enquanto era alfredo barcellos pinheiro de lemos, também falecido no ano passado, que fazia as traduções. mas se o acordo satisfazia a "todos"... e nós leitores dizemos: puxa vida, foi nelson rodrigues que traduziu!]

1 comentários:

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