15 de jun de 2009

sobra e falta, poe X

em extra & extra, sugeri que "a primeira coisa é deixar de lado qualquer impulso ou reflexo condicionado de associar histórias extraordinárias a histoires extraordinaires".

isso não significa que não tivemos retraduções de poe a partir do francês, e pela interposição de baudelaire, justamente. e aqui cabe acrescentar mais um dado.

além de histoires extraordinaires, baudelaire selecionou, traduziu e publicou mais dois volumes de escritos de edgar allan poe.

- nouvelles histoires extraordinaires com 23 contos, em 1857:
Le Démon de la perversité (1845)
Le Chat noir (1843)
William Wilson (1839)
L’Homme des foules (1840)
Le Cœur révélateur (1843)
Bérénice (1835)
La Chute de la maison Usher (1839)
Le Puit et le pendule (1842)
Hop-Frog (1849)
La Barrique d’amontillado (1846)
Le Masque de la mort rouge (1842)
Le Roi Peste (1835)
Le Diable dans le beffroi (1839)
Lionnerie (1835)
Quatre bêtes en une (1833)
Petite Discussion avec une momie (1845)
Puissance de la parole (1845)
Colloque entre Monos et Una (1845)
Conversation d’Eiros avec Charmion (1839)
Ombre (1835)
Silence (1837)
L’Île de la fée (1841)
Le Portrait ovale (1842)

- histoires grotesques et sérieuses, com sete contos e três ensaios, em 1865:
Le Mystère de Marie Roget (1842)
Le Joueur d’échecs de Maelzel (1836)
Eleonora (1841)
Un Événement à Jérusalem (1832)
L’Ange du bizarre (1844)
Le Système du docteur Goudron et du professeur Plume (1845)
Le Domaine d’Arnheim (1847)
Le Cottage Landor (1849)
Philosophie de l’ameublement (1840)
La Genèse d’un poème (1850)

então, na primeira metade do século XX, antes da multiplicação indiscriminada de coletâneas de histórias extraordinárias, houve edições brasileiras com outro título concorrido - novelas extraordinárias:

1. melhoramentos, com tradução de afonso de taunay (192--). essas novellas extraordinárias selecionadas e traduzidas por taunay trazem contos das três antologias de baudelaire. são eles: o escaravelho dourado; a incomparável aventura de um tal hans pfaal; o sistema do dr. alcatrão e do professor pena; hop frog; a barrica de amontillado; a máscara da morte rubra, além do apêndice de poe ao conto hans pfaal. o volume, ilustrado e publicado na coleção "bibliotheca da adolescência", traz um estudo introdutório de taunay.
ricardo araújo, em edgar allan poe: um homem em sua sombra, também menciona essa tradução de taunay, em edição de 1941.

ainda em tradução e com introdução de afonso de taunay existe uma outra coletânea ilustrada de contos de poe. chama-se histórias esquisitas, e saiu pela melhoramentos em 1927, também na biblioteca da adolescência.
reúne 9 contos, sendo 7 das histoires de 1856 e 2 das nouvelles histoires de 1857: o duplo crime da rua morgue; carta roubada; manuscrito encontrado numa garrafa; descida ao maelstrom; a balela do balão; metzengerstein; reminiscências de augusto bedloe; o diabo no campanário; rei peste.*
* a propósito, mary del priore sugere uma hipótese instigante, relacionando o interesse de taunay por poe e sua teratologia do brasil colonial (mary del priore, "introdução", in taunay, afonso d'escragnolle, monstros e monstrengos do brasil, companhia das letras, 1998).

2. garnier, sem nome de tradutor, sem data - desconheço o conteúdo.

3. o livro de bolso, sem nome de tradutor, e a indicação "tradução revista por faria e sousa", 1941. assim a descreve cláudio weber abramo, a espada no livro: "Além de contos, esta edição contém: uma descrição do enredo de 'O Corvo' (com o subtítulo 'A gênese de um poema') obviamente traduzida da versão francesa de Baudelaire e com lacunas; uma tradução de 'The Philosophy of Composition', também obtida via Baudelaire; a tradução de 'O Corvo' por Machado de Assis, em que faltam as três últimas estrofes".

4. cruzeiro do sul, em que faria e souza agora aparece como responsável pela tradução, 1943. desconheço o conteúdo.
atualização em 27/9: essa edição traz o corvo (traduzido da versão em prosa de baudelaire); método de composição; escaravelho de ouro; o homem das multidões; o poço e o pêndulo; hop-frog; o demônio da perversidade; william wilson; silêncio; sombra; berenice.

5. clube do livro (sem tradutor), 1945. curiosamente, esta coletânea também traz o corvo: o demônio da perversidade; sombra; silêncio; william wilson; o escaravelho de ouro; o corvo; o homem das multidões; o poço e o pêndulo; hop-frog; berenice.

eu não ficaria surpresa se as edições d'o livro de bolso, da cruzeiro do sul e do clube do livro fossem todas elas reedições da garnier. a casa editorial a que estava ligado machado de assis encerrou suas atividades no brasil em 1934. não admiraria que publicasse o corvo na tradução machadiana; não admiraria que suas novelas extraordinárias ressurgissem anos depois numa "tradução revista"; não admiraria que o citado revisor fosse transformado em tradutor numa outra edição posterior; não admiraria que o clube do livro reeditasse as novelas extraordinárias da garnier simplesmente eliminando a referência ao revisor/tradutor. são dados relativamente fáceis de levantar. talvez algum dia eu volte a eles ou algum curioso se disponha a preencher essas lacunas.

o que quero mostrar é que, antes de proliferarem as histórias extraordinárias a partir de 1958, surgiram no brasil coletâneas de poe baseadas nas traduções baudelaireanas. mas, tal como nenhum edição de histórias extraordinárias corresponde às histoires extraordinaires, da mesma forma nenhum dos conteúdos acima apresentados corresponde a elas.

assim, creio que se desenha uma conclusão bastante sólida: histoires extraordinaires, a específica seleta baudelaireana de contos de edgar allan poe, jamais foi publicada no brasil.

fontes: 1857, wikisource e eapoe.org; 1865, wikisource e eapoe.org

imagens: livrarias

6 comentários:

  1. Olá, há uma edição ainda mais antiga de Novallas Extraordinárias; da Livraria Garnier, consta como tradução brasileira, mas na verdade é uma cópia da tradução portuguesa. Na biblioteca de portugal consta como lançada em 1903, porém na edição não consta nenhuma data.
    Tenho ela em mãos mas há poucos elementos que possam dar a entender a data de publicação, exceto que não é anterior a 1901.
    Até mais.

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    1. olá, moisés, sim, de fato. este post fazia parte de uma pesquisa em andamento - a consolidação dos dados e elementos mais confiáveis você encontra em http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/15900/15900.PDFXXvmi=uZDcWqms2u3SAlGdg7SC6GaJj4qPzIP4HshETE7W9aPKwwZNERpLxAvSFWIfFxkn2C2VhaTrlJdShcGV47IDIevocfESOZgQCiMUtHnPrBIJNpGSxowgE4GQjkJ8k1ZXkMTOuhEWSnGHNmBlM8DqdjhxF2H14GZotSd0aSW4gDM41nqNw5eLowj5A16EI63dZhdaaafqO2vPqXEZ3SKsq4x16FFOLJ2K1fVbqbDfe96G8KFbEqF5vd7CSMqEvspx

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    2. ou pode consultar a coluna à direita, em "artigos e traduções", e clicar em "alguns aspectos da presença de edgar allan poe no brasil, in tradução em revista, puc-rio"

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    3. apenas posteriormente, em 2014, pude comprovar que a edição da h. garnier saiu em 1903 mesmo. vide: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2014/10/o-desplante-da-h-garnier.html
      vide ainda posts posteriores a este de 2009 em http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/search/label/pesquisa%20%22poe%20no%20brasil%22

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  2. Anônimo23.9.16

    A tradução da Garnier está datada de 1903. Na pág. 17 está " O Corvo " não o poema mas " A Genese (sic ) De Um Poema ". Como nota de rodapé: " O ilustre sr. MACHADO DE ASSIS tem uma bellisisima ( sic ) tradução deste poema ( V. Poesias Completas, H. Garnier editor) - EMILIO DE MENEZES traduziu em sonetos vibrantes e masculos ( sic ). É muito curioso que a gênese do poema O Corvo venha num livro chamado Novellas extraordinárias. Da leitura deste livro vemos que a tradução é brasileira e bem feita. Há certa continuidade na tradução destas 19 peças que ocupam as 342 páginas do livro. Quem teria feito esta tradução?

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  3. olá, anônimo - este é um post da pesquisa ainda em seus inícios. depois de concluí-la, os resultados foram publicados aqui: http://www.revistas.usp.br/tradterm/article/view/69119

    "Que a tradução é indireta, feita a partir do francês, fica evidente não
    só pela presença da baudelairiana “A gênese de um poema”, mas também
    pela leitura acompanhando o original e a versão francesa. O surpreendente é
    que, a despeito da indicação “Traducção Brasileira” na página de rosto do
    livro, trata-se de simples cópia das traduções portuguesas de Poe feitas por
    Mécia Mouzinho de Albuquerque (1889 e 1890) e Christina Amélia Assis de
    Carvalho (1890 e 1891), publicadas na coleção “Bibliotheca Universal Antiga e
    Moderna”, vols. 37, 61, 69 e 80 respectivamente, pela lisboeta Companhia
    Nacional Editora."

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