19 de jun de 2009

dicionário filosófico, cotejo II

como disse, a martin claret, na curiosa montagem de seu dicionário filosófico de voltaire, copiou literalmente os 73 verbetes da tradução de líbero rangel de tarso, pela atena. conseguiu criar artificialmente uns dez verbetes inexistentes no original, e os demais catou de outra tradução.

nessa montagem, as outras vítimas são bruno da ponte e joão lopes alves, cuja tradução saiu pela editorial presença de portugal (1966)* e sob licença na coleção "os pensadores", da abril cultural (o que provavelmente explica as tentativas de maquiar a apropriação).

*aliás, há uma história engraçada sobre essa edição em portugal, que contarei em outra ocasião.

vejamos, por exemplo, o verbete "liberdade de pensamento".

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

[...] Boldmind: Que horrível alternativa! Éreis cem vezes mais felizes sob o jugo dos mouros que vos deixaram estagnar livremente no meio das vossas superstições e que, embora vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a ferros.
Medroso: Que quereis? Não nos é permitido escrever, nem falar, nem mesmo pensar. Se falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos escritos. Enfim, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. Persuadiram o governo que se possuíssemos o senso comum todo o Estado ficaria em combustão e a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: Achais que somos assim desgraçados, nós, ingleses, que cobrimos os mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da Europa? Vede os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos pensamentos humanos? Foi menos poderoso o império romano por Cícero haver escrito com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

2. pietro nassetti:

[...] Boldmind: Que horrível alternativa! Cem vezes mais felizes éreis sob o jugo dos mouros que vos deixaram estagnar livremente no meio das vossas superstições e que, conquanto vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a ferros.
Medroso: Que quereis? Escrever, nem falar, e nem mesmo pensar, nada disso nos é permitido. Se falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos escritos. Em suma, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. O governo foi persuadido a pensar que, se possuíssemos o senso comum, todo o Estado ficaria em combustão, e a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: Achais que nós, os ingleses, somos assim desgraçados, porque cobrimos os mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da Europa? Vede os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos pensamentos humanos? Por acaso Cícero diminuiu o poder do império romano por haver escrito com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem. Aqui não se trata de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

Boldmind: Não cabe a vós acreditá-lo, pois estais seguro que a vossa religião é divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Se assim é, nada poderá destruí-la.
Medroso: Não, mas pode ser reduzida a pouca coisa. E foi por terem pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Diz-se mesmo que se os homens continuassem a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse ponto, em que se tornará o Santo Ofício?
Boldmind: Se os primeiros cristãos não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quereis dizer? Não vos entendo.
Boldmind: Acredito. Quero dizer que se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas. Portanto, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está fundado? Quando vos propõem algum negócio interessante, não o examinais demoradamente, antes de o concluirdes? Haverá no mundo maior interesse que o da nossa felicidade ou eterna desgraça? Existem sobre a Terra cem religiões e todas vos condenam à danação por acreditares nos vossos dogmas, que essas religiões consideram absurdos e ímpios; examinai, portanto, esses dogmas.

2. pietro nassetti:

Boldmind: A vós não cabe acreditá-lo, pois estais seguro que a vossa religião é divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Sendo assim, nada poderá destruí-la.
Medroso: Não mesmo, todavia pode ser bastante reduzida. Foi exatamente por terem pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Contam mesmo que se os homens continuam a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse ponto, para que servirá o Santo Ofício?
Boldmind: Caso os cristãos primitivos não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quereis dizer? Não consigo vos entender.
Boldmind: Acredito. Dir-vos-ei em outras palavras: se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas. Por conseguinte, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está alicerçado? Sempre que alguém vos propõem [sic] algum negócio interessante, não o examinais demoradamente, antes de o concluirdes? Será que no mundo poderá haver maior interesse que o da nossa felicidade ou eterna desgraça? Sobre a Terra existem cem religiões, e todas vos condenam à danação por acreditares nos vossos dogmas, que essas religiões consideram absurdos e ímpios. Então examinai esses dogmas.

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

Medroso: Como posso examiná-lo? Não sou dominicano.
Boldmind: Sois homem e isso basta.
Medroso: Ai de mim! Sois bem mais homem que eu.
Boldmind: A vós apenas cabe aprender a pensar; haveis nascido com espírito; sois uma ave na gaiola da Inquisição; o Santo Ofício aparou-vos as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la; qualquer homem pode instruir-se: é vergonhoso que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Ousai pensar por vós mesmo.
Medroso: Há quem diga que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria prodigiosa.
Boldmind: Pelo contrário. Quando assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua opinião e a paz não é perturbada; se, porém, algum insolente, protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de gosto a considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já aconteceu em Londres. São estes tiranos dos espíritos que causaram parte das desgraças do mundo. Na Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião.

2. pietro nassetti:

Medroso: Mas como posso examiná-lo? Não sou dominicano.
Boldmind: Sois homem e isso é o bastante.
Medroso: Ai de mim! Sois bem mais homem que eu.
Boldmind: Somente a vós compete aprender a pensar. Porque nascestes com espírito. Vede que sois uma ave na gaiola da Inquisição. O Santo Ofício aparou-vos as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la. Qualquer homem pode instruir-se. Vergonhoso é que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Deveis ter ousadia de pensar por vós mesmo.
Medroso: Dizem que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria danosa [sic].
Boldmind: Pelo contrário. No momento em que assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua opinião, e a paz não é perturbada; porém, se algum insolente, protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de bom senso [sic] a considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já aconteceu uma vez em Londres. Grande parte das desgraças do mundo foram causadas por esses tiranos []. Na Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião. [...]


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagem: http://tomarpartido.weblog.com.pt

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