13 de dez. de 2010

lendo walden, V

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Quando saiu a primeira edição de Walden, em 1854, a obra tazia o subtítulo or, Life in the Woods.



Para esse subtítulo, segundo Harding, Thoreau pode ter se inspirado num ensaio de seu amigo Charles Lane, "Life in The Woods", publicado em 1844 em The Dial, a revista do grupo transcendentalista, ou no texto de John S. Williams, "Our Cabin; or, Life in the Woods", publicado em 1843 na American Pioneer.

Seja como for, mais tarde Thoreau mudou de ideia e preferiu retirá-lo. Uma das hipóteses é que ele achou que os leitores estavam tomando muito ao pé da letra a menção a uma vida na mata, sem dar tanta atenção aos aspectos mais importantes da obra, isto é, suas reflexões filosóficas. Então escreveu a seus editores Ticknor and Fields, pedindo que eliminassem o subtítulo nas edições seguintes, no que foi acatado.

E é por isso que a edição da L&PM se chama apenas Walden.
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lendo walden, IV

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Um aspecto fundamental, no pano de fundo de Walden, é a doutrina vegetariana do grupo transcendentalista com que se relacionava Thoreau. Embora não fosse um transcendentalista estrito, nem um vegetariano “linha dura”, Thoreau evitava alimentos de origem animal e preferia uma dieta simples.

Há inúmeras passagens em Walden sobre o tema, em especial no capítulo "Leis superiores". Uma das frases que bem sintetizam sua posição, a meu ver, é a seguinte:
Acredito que todo homem que algum dia se empenhou seriamente em preservar ao máximo suas faculdades poéticas ou mais elevadas teve uma especial propensão em se abster de alimentos de origem animal. (p. 207)
A questão era programática, para a elevação do espírito. Mas não só; não se tratava de alguma espécie de mortificação da carne. Era antes uma forma de se colocar em harmonia com o universo, obedecendo ao que a própria natureza ensinava (aqui também se fazem visíveis as influências do romantismo inglês e ressonâncias goetheanas):

Por que o homem se enraíza com tanta firmeza na terra, a não ser para poder se elevar em igual proporção aos céus? – pois as plantas mais nobres são valorizadas pelo fruto que trazem ao ar e à luz, longe do solo, e não são tratadas como os alimentos mais rústicos que, mesmo que tenham um ciclo completo de dois anos, só são cultivados até a raiz adquirir sua plena forma, e muitas vezes são podados na parte de cima para a raiz se desenvolver melhor, de modo que muita gente nem conhece sua florada. (p. 28)
A título de curiosidade: esse alimento rústico com ciclo de dois anos, cultivado apenas até que a raiz se desenvolva, é a cenoura. De fato, quantas pessoas conhecem a flor da cenoura?



Thoreau mantinha um regime de disciplina física quase espartano: caminhava diariamente dezenas de quilômetros, subindo montes, escalando escarpas, percorrendo florestas com pernas notoriamente atléticas; evitava gorduras, carne, leite, manteiga, pratos elaborados, estimulantes como chá e café, era abstêmio e não fumava. Essa disciplina na busca da realização individual encontra curiosas semelhanças em Nietzsche, outro infatigável e atlético caminhante, vegetariano frugal e avesso ao álcool.

Nietzsche foi grande, dizem alguns até fervoroso e entusiástico, leitor de Emerson, e há quem aponte as raízes do übermensch nietzscheano no plus man emersoniano. Para além da abordagem doutrinária, conceitual ou filosófica dos dois pensadores, talvez pudesse ser interessante comparar alguns aspectos dos programas físico-dietéticos adotados por Thoreau e Nietzsche.

Uma triste ironia desse ideário de espiritualização por meio da disciplina física, no caso de Thoreau - além da morte precoce antes de completar 45 anos de idade -, foi que, desde os 32 anos, não lhe restava um único dente na boca.

imagem: flor de cenoura
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11 de dez. de 2010

lendo walden III

Da cidade desesperada você vai para o campo desesperado, e tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados.
Primeiro o dever, depois o prazer; antes a obrigação, então a diversão; que satisfação haveria nesses “jogos e entretenimentos da sociedade”? There is no play in them, for this comes after work. Rotina e distração compõem os dois lados da mesma vida do homem moderno: passar a semana na cidade, ir para o campo no final de semana... Nesse contato com a natureza, vislumbres da liberdade que ele já não possui: “tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados”.

É um bonito exemplo da prosa de Thoreau. Não uma metáfora; antes uma sinédoque: ao contrário da maioria dos homens que levam “uma vida de calado desespero”, os seres na natureza não se desesperam, não se resignam. Não renunciam à liberdade.

E por que a marta e o rato almiscarado? Porque esses animaizinhos, quando presos na armadilha do caçador, roem a própria pata para se libertar. Ver essa coragem deles, tal é o consolo que resta ao homem desesperado.



Parece-me cabível reiterar aqui: as imagens em Walden são concretas, as referências são muito materiais, às vezes brutais. Bravery: não se trata do esplendor ou "magnificência dos visons", nem de um vago "ânimo dos minks", como nos dão algumas traduções em espanhol e português. Trata-se da encarniçada, valente, corajosa luta pela liberdade.
 
Thoreau retomará extensamente a imagem da “armadilha”, e não apenas como imagem. Para isso se servirá da polissemia do termo: trap, armadilha; traps, bens, pertences. Os bens de um homem: armadilha que o aprisiona. E em sua vida resignada, ao contrário da raposa, da marta, do rato almiscarado, o homem já não tem a coragem (ou, diz também Thoreau, a elasticidade) para se desprender deles, para se soltar da armadilha e recuperar sua liberdade.

Thoreau, Walden, trad.Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2010, pp. 21-22.
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10 de dez. de 2010

lendo walden II

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Outra característica marcante e deliberada de Walden é o uso do pronome eu.

Devido à questão da declinação verbal, o inglês sempre (ou quase sempre) usa o pronome pessoal acompanhando o verbo. Isso é fácil de entender, pois num presente, p.ex., há apenas duas flexões (com exceção do verbo to be): a que segue a forma do infinitivo e a que recebe o s no final, para a terceira pessoa do singular. Então, sem o pronome, não dá para saber quem está falando: eu, tu, nós, vós ou ele(a)s, pois é tudo igual. Nos outros tempos nem se fala, pois aí todas as formas são iguais, mesmo na terceira do singular.

Como em português declinamos os verbos de acordo com a pessoa, não precisamos pôr "eu" ou "nós" na frente de, p. ex., "quero" ou "queremos". Pela terminação do verbo já sabemos qual é a pessoa (isso em termos gerais). Isso significa que, na tradução, é possível e até desejável eliminar alguns dos pronomes pessoais tão indispensáveis no inglês, mas para nós muitas vezes redundantes. Ninguém aguentaria um texto com cinco "eus" seguidos numa mesma frase...

No inglês, ocorre também uma alta incidência da ordem passiva: em vez de, sei lá, "Entregaram o pacote a ele", usa-se mais o passivo "O pacote foi entregue a ele". Isso, por sua vez, também é um pepino na tradução, pois o decalque dessa estrutura do inglês para o português resulta numa construção meio pesada, e muitas vezes a gente, na hora de traduzir, prefere reconstruir a frase em ordem direta, na voz ativa.

Pois muito que bem. Nosso individualista radical Thoreau, como sempre muito firme e decidido, resolveu que em Walden, até por uma questão de coerência com as próprias ideias, ia narrar suas experiências e apresentar suas reflexões diretamente na primeira pessoa. Isso significa -- o leitor já pode adivinhar o quê: uma enxurrada de Is e respectiva parentela.

É o que Thoreau anuncia já de saída, no segundo parágrafo do livro (p. 17):

A maioria dos livros omite o eu ou a primeira pessoa; aqui ele será mantido; em relação ao egocentrismo, esta é a principal diferença. Geralmente não lembramos que, afinal, é sempre a primeira pessoa que está falando. Eu não falaria tanto sobre mim mesmo se existisse alguma outra pessoa que eu conhecesse tão bem.

Resultado: os pronomes da primeira pessoa aparecem quase três mil (3.000!!!) vezes em Walden. Um estudioso (Neufeldt) contou: I, 1.816 vezes; my, 723 vezes; me, 306 vezes; myself, 65 vezes. Detalhe simpático: Thoreau usou tanto o I que às vezes faltavam tipos para o gráfico montar a chapa de impressão.
Na tradução, carreguei um pouco mais no uso do "eu" e correlatos do que faria normalmente. Mas devo dizer que não usei os 1.816 eus do original.

[Compare-se: Na tradução, eu carreguei um pouco mais no uso do "eu" e correlatos do que eu faria normalmente. Mas eu devo dizer que eu não usei os 1.816 eus do original.]

Seria um pouco longo justificar a opção, mas, resumindo, foi porque a questão de fundo do I no inglês é a que expus acima: eles precisam do pronome para indicar quem está falando; nós nem tanto. Assim, entendi que a fiel reprodução do número de "eus" não seria necessariamente o principal elemento definidor da construção em português. Neste sentido, creio e espero, a grande diferença que Thoreau quis marcar em relação à prosa mais usual no inglês foi preservada: o discurso direto na primeira pessoa. 

Mas, por outro lado, a ordem direta na voz ativa é o tipo de construção que chega a ser uma característica estrutural em nossa língua. Mesmo assim, e para ser sincera, não vi razão ou maneira de subvertê-la, para tentar reproduzir às avessas um efeito de diferenciação. Neste aspecto, talvez, o texto de Thoreau em português não vai nos parecer tão frontalmente, tão desafiadoramente personalista como pretendeu e conseguiu ser em inglês.

[veja também lendo walden I, sobre seu "cesto de tessitura delicada" e a week on the concord and marrimack rivers, além de fontes de consulta, links e referência bibliográfica.]

imagem: i-me-mine
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9 de dez. de 2010

lendo walden I

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Dizem que Thoreau fez três coisas quando morava em Walden: escreveu Uma semana nos rios Concord e Merrimack, foi preso por não ter pagado o imposto do município e escreveu muitas notas que vieram a fazer parte de sua obra mais famosa, Walden.


Já comentei que a leitura de Walden às vezes pode ser opaca, embora todas as pistas estejam lá. É o caso de uma passagem belíssima, onde se mesclam ironias, coloquialismos, metáforas, repetições, jogos de palavras e outras figuras de estilo, misturam-se planos temporais, fazem-se digressões de caráter geral e apenas insinua-se o sentido:
Não faz muito tempo, um índio andarilho foi vender cestos na casa de um famoso advogado de minha vizinhança. “Querem comprar cestos?”, perguntou ele. “Não, não queremos”, foi a resposta. “O quê!”, exclamou o índio ao sair pelo portão, “querem nos matar de fome?” Tendo visto seus industriosos vizinhos brancos tão bem de vida – que bastava o advogado tecer argumentos e, por algum passe de mágica, logo se seguiam a riqueza e a posição –, ele falou consigo mesmo: vou montar um negócio; vou tecer cestos; é uma coisa que sei fazer. Pensando que, feitos os cestos, estava feita sua parte, agora caberia ao homem branco comprá-los. Ele não tinha descoberto que precisava fazer com que valesse a pena, para o outro, comprá-los, ou pelo menos fazê-lo pensar que valia, ou fazer alguma outra coisa que, para ele, valesse a pena comprar. Eu também tinha tecido uma espécie de cesto de tessitura delicada, mas não tinha feito com que valesse a pena, para ninguém, comprá-los. Mas nem por isso, em meu caso, deixei de pensar que valia a pena tecê-los e, em vez de estudar como fazer com que valesse a pena para os outros comprar meus cestos, preferi estudar como evitar a necessidade de vendê-los. A vida que os homens louvam e consideram bem-sucedida é apenas um tipo de vida. Por que havemos de exagerar só um tipo de vida em detrimento dos demais?
Vendo que meus concidadãos não pareciam dispostos a me oferecer nenhuma sala no tribunal de justiça ou nenhum curato ou sinecura em qualquer outro lugar, mas que eu teria de me arranjar sozinho, passei a me dedicar em caráter mais exclusivo do que nunca às matas, onde eu era mais conhecido. Decidi montar logo meu negócio, em vez de esperar até conseguir o capital habitual, usando os magros recursos que eu já tinha. Meu objetivo ao ir para o lago Walden não era viver barato nem viver caro, e sim dar andamento a alguns negócios privados com o mínimo possível de obstáculos; mais do que triste, parecia-me tolo ter de adiá-los somente por falta de um pouco de siso, um pouco de tino empresarial e comercial.

A que "negócios privados" Thoreau queria dar andamento ao se mudar para Walden? E que "cesto de tessitura delicada" seria aquele para o qual não conseguiu compradores?

Por muitos anos Thoreau alimentou a vontade de ir morar sozinho na mata, e vários elementos se compuseram para que decidisse ir para Walden. A oportunidade propícia surgiu quando Emerson comprou uma propriedade no local. O poeta Ellery Channing, conhecendo os anseios do amigo Thoreau, sugeriu que se instalasse lá. Thoreau combinou com Emerson, e assim foi.

Mas uma das ideias que por anos vinham ocupando seu espírito era fazer uma homenagem à memória ao irmão, falecido em idade prematura em 1842, e escrever um livro narrando a excursão que ambos tinham feito em 1839, percorrendo os rios Concord e Merrimack. Morando em Concord, não tinha o vagar e a liberdade mental de que precisava para escrever a obra. Estes eram os "negócios privados" (ou assuntos particulares) a que queria dar andamento "com o mínimo de obstáculos".

Tendo efetivamente escrito A Week on the Concord and Merrimack Rivers durante sua permanência em Walden, o livro foi publicado em 1849. Nos anos em que refletiu sobre a experiência em Walden e reelaborou essas reflexões ao longo de cinco a sete versões diferentes de Walden (que viria a ser publicado em 1854), Thoreau pôde conhecer a fortuna do tributo que fizera ao irmão: um fracasso de vendas - duzentos exemplares vendidos em quatro anos... Diga-se de passagem que apenas em décadas recentes tem-se reconhecido a finíssima lavra de A Week: até então, era tida como obra canhestra e desengonçada.


Assim se entende qual era o cesto de delicada tessitura que ninguém se interessara em comprar... Notem-se os movimentos temporais: o parágrafo inicial é uma reflexão posterior ao relato apresentado no parágrafo seguinte; dentro do inicial, há também uma sutil circunvolução: o episódio do índio funciona como uma espécie de justificativa a posteriori de sua decisão em adotar uma forma de vida que lhe permitisse tecer seus textos/cestos em paz, sem a premência de vendê-los. Vivendo em Walden, pôde construir uma narrativa com trama de singular e complexo lirismo, que demandaria mais de cem anos para vir a ser devidamente reavaliada.

De passagem, entende-se também o sentido, de outra forma obscuro, do adjetivo triste: "mais do que triste, seria tolo" adiar seus planos de construir o memorial ao irmão, se fosse apenas por questões de fundo pragmático.

Outra característica de Walden, também ilustrada nos trechos acima: as referências, em sua imensa maioria, são concretas. O episódio do índio é autêntico, e Thoreau chegou a registrar em seu diário o nome do advogado (Samuel Hoar, figura muito conhecida na cidade). 

(Uma boa fonte de consulta é a bela edição anotada de Walden com introdução e notas de Walter Harding, Houghton Mifflin, 1995. Também interessante é The Thoreau Reader, site com suas obras anotadas. Ilustração: verso de página da primeira edição de A Week, em exemplar pessoal de Thoreau. Citação dos trechos: Walden, tradução minha, LPM, 2010, pp. 31-32. Para o original, ver aqui.)
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baltasar gracián, a arte da prudência

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o jesuíta baltasar gracián, grande nome do siglo d'oro, eminência do barroco espanhol, conheceu bizarra fortuna nas décadas finais do século XX, quando se transformou num dos líderes da autoajuda e da gestão de negócios. os trezentos aforismos que compõem seu oráculo manual y arte de prudencia (1647) acabaram conhecendo imenso sucesso no brasil, em várias traduções e inúmeras edições.

o texto original se encontra disponível na rede em vários sites, p.ex. aqui: http://fgae.net/portal/images/stories/pdf/GBOmp.pdf

em 1982, a ediouro lança um volume com o título oráculo manual e arte de prudência, em tradução de morus. aparentemente, "morus" seria um pseudônimo de "um guru para executivos em busca de 'qualidade total' ou de técnicas de 'R.H.'", segundo alcir pécora, e sua tradução não seria propriamente satisfatória.

não encontrei a imagem correspondente

em 1992, a editora best-seller (então pertencente ao grupo CLC, de richard civita, que abriga também a editora nova cultural) publica a obra com o título de a arte da sabedoria mundana: um oráculo de bolso, em tradução de ieda moriya.*



em 1996, a editora martins fontes lança a obra com o título a arte da prudência, em tradução de ivone c. benedetti, tida pelo mesmo crítico como a única tradução adequada do texto de gracián.



em 1998, a editora martin claret publica sua primeira edição d'a arte da prudência com tradução em nome do profícuo pietro nassetti, a grande glória do ofício tradutório nacional, sempre disposto a surpreender seus leitores. essa sua pretensa tradução teve inúmeras reedições pela martin claret: 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009.


apresentarei num próximo post a análise dessa tradução em nome de pietro nassetti.

por ora, fica aqui meu agradecimento a @ericacsi.

* em 2003, a editora best-seller é adquirida pelo grupo editorial record. a partir de 2004, já no grupo record, a tradução de ieda moriya volta a ser editada, com título mais enxuto: a arte da sabedoria.

em data mais recente, foi publicada também a tradução de davina m. de araújo pela editora sextante, com o título a arte da prudência (2003; 2006).

imagens: wikimedia [original de 1647] e google images [capas das edições brasileiras]
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8 de dez. de 2010

os dez mais

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é muito divertido o recurso "estatísticas" que o blogger implantou alguns meses atrás.


eis, por exemplo, os dez posts mais visitados no último mês, devidamente linkados:
aliás, quanto ao artigo "sarney tradutor", sobre os talentos latinistas do desapiedado entomólogo que cria seus insetos à base de aguardente (e expôs sua experiência no inesquecível marimbondos de fogo), recebi e-mails realmente divertidos e/ou congratulatórios. palmas a nosso amigo sérgio pachá, autor da peça aqui simplesmente transcrita.

imagem: top ten
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aqui e lá

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enquanto aqui a gente se debate com as ABLs da vida premiando inexplicáveis "se tirar nota zero, eu furo o céu" (veja aqui, em coup de grâce), luta contra cópias deslavadas e saques ao domínio público de nossas traduções, lá promovem a tradução literária e de humanidades: great translation by the way. muito interessante, ilustrativo e edificante.



é um "panfleto para preservar uma cultura florescente da tradução" redigido em holandês por martin de haan, presidente da ceatl (veja aqui), e rokus hofstede, com tradução de jane hedley-prôle e s.j. leinbach (2008).
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7 de dez. de 2010

traduzir aprende-se traduzindo

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encontro hoje uma encantadora palestra de paulo rónai, nos idos de 1985, no departamento de letras da universidade federal do paraná. gosto muito e partilho dessa visão da tradução como ofício artesanal.
Traduzir aprende-se traduzindo. Os artesões de antigamente formavam-se como aprendizes ao lado de um mestre, com quem passavam longos anos. É muito difícil encontrar um mestre tradutor que aceite aprendizes. Os cursos de tradução ensinam os conhecimentos básicos indispensáveis ao métier, mas o modo de fazer é objeto de aprendizado individual. Cada tradutor deve ser seu próprio mestre. Ele mesmo deve inventar seus exercícios, confrontar um original com alguma tradução impressa, comparar a sua própria tradução com uma dessas versões, justapor duas ou mais versões do mesmo texto, organizar sua relação de falsos-amigos, de expressões idiomáticas, de equivalentes sintáticos. É preciso resignar-se à gratuidade desses exercícios antes de se atrever a fazer traduções remuneradas. O lema horaciano - Multa tulit fecitque puer, sudavit et alsit ("muito fazer e suportar em jovem, suar e tremelicar") - aplica-se ao tradutor como a ninguém.
a palestra foi publicada pela revista letras, n. 34 (1985), às pp. 186-195, com o título cascas de banana no caminho do tradutor. disponível aqui ou aqui.

imagem: carving box
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(n.t.), chamada

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a (n.t.), revista lítero-tradutória virtual, avisa:
Chamada para colaboração:

(n.t.) Revista Literária em Tradução n° 2 (março/2011)
Normas para publicação em: www.notadotradutor.com/publicar
Recepção de textos: de 15/09/2010 a 15/12/2010

A (n.t.) é uma revista virtual de periodicidade semestral destinada à publicação de textos literários traduzidos curtos.

Publicamos seleções de textos inéditos ou retraduzidos em poesia e prosa poética, contos, epistolário, teatro, além de excertos de textos filosóficos. A atenção da revista se volta especialmente àquelas línguas e autores que ainda têm pouca visibilidade no sistema literário de traduções no país. A temática dos textos a serem submetidos é livre.

http://www.notadotradutor.com/
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6 de dez. de 2010

coleção folha, ainda descartes

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dediquei dois posts à edição de descartes na coleção folha: aqui e aqui.

para ninguém achar que é implicância minha: "a edição capenga de descartes", no jornal opção 
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coleção folha, o capital de gabriel deville III

estabelecido que le capital de karl marx é uma obra de divulgação de gabriel deville, montada em 1883 a partir da tradução francesa de j. roy do das kapital, entendo que a apresentação correta desse resumo em português seria: gabriel deville, o capital de karl marx, como fez, por exemplo, a editora cultura nos anos 1940:

ou:

todavia, vimos que não é o que tem ocorrido: mencionei as edições da melso, da ediouro, da edipro e da coleção folha.

abro a edição da coleção folha: não bastasse ter marx virado o autor do aperçu sobre o socialismo científico e do resumo de deville, vejo lá um "prefácio do tradutor".

qual tradutor?, pergunto-me eu. e vejo ali que se trata do prefácio de gabriel deville, de 1883, onde justamente ele explica que montou seu apanhado seguindo a tradução francesa existente, feita por joseph roy.

como o préface do original se transformou em prefácio da tradução é mais um daqueles mistérios que só acontecem no brasil, e que não consigo desvendar. outra curiosidade é como a data do prefácio original - 10 de agosto de 1883 - se transformou no "prefácio da tradução" em 10 de outubro de 1883. e engraçado também como a remissão original de deville, em seu pós-escrito, às páginas 24-25 e 59-60 de le capital de karl marx, é mantida literalmente na edição da folha (p. 18), sem qualquer correspondência de fato no volume brasileiro.

o prefácio e o pós-escrito de deville não constam na edição melso. a tradução deles nessa edição da folha é sofrível: tenta-se um decalque que acaba se tornando ininteligível. por exemplo, ce que j'ai écrit dans d'autres conditions d'âge et par suite de connaissance é dado como "o que escrevi em outras condições de idade e após aprendizado" [p. 17; seria algo como "o que escrevi em outras condições de idade e, portanto, de conhecimento"].

já a tradução do aperçu e do resumo na edição folha/edipro, em nome de murilo coelho, é praticamente idêntica à tradução revista por gesner de wilton morgado, na edição que saiu pela melso 50 anos atrás. ambas guardam a mesma razoável distância e as mesmas discrepâncias em relação ao original em francês:
I

COLLECTIVISME OU COMMUNISME


Il y a six ans, la classe ouvrière qui n'était pas encore remise de l'épouvantable saignée de 1871, avait abandonné la tradition révolutionnaire et n'attendait plus son affranchissement que des associations coopératives généralisées. Les mots parti ouvrier et collectivisme, aujourd'hui passés dans notre langue politique, étaient, peut-on dire, inconnus ; les idées qu'ils représentent ne comptaient plus en France que de rares partisans, sans lien, sans possibilité d'action commune.

C'est le journal l'Égalité fondé, à la fin de 1877, sur l'initiative de Jules Guesde et dirigé par lui, qui a seul donné l'impulsion au mouvement socialiste révolutionnaire actuel. Tel est le fait que ne réussiront pas à effacer les personnalités envieuses empressées à le masquer, ou tout au moins à l'amoindrir, ayant bien soin, dans leurs prétendues histoires, de cacher les dates qui ne laissent aucun doute à cet égard.

A ce moment, il y avait utilité à distinguer le communisme scientifique sorti de la savante critique de Marx, du vieux communisme utopique et sentimental français. La même dénomination pour deux théories différentes aurait favorisé une confusion d'idées qu'il était essentiel d'éviter ; aussi avons-nous alors exclusivement employé le mot collectivisme.
Maintenant, nous écrivons collectivisme ou communisme indifféremment. Au point de vue de leur dérivation, ces deux termes sont également exacts; au point de vue usuel, ils ont les mêmes inconvénients. S'il y a eu un communisme dont nous devions nous distinguer, il y a des formes de collectivisme, les diverses contrefaçons belges par exemple, que nous répudions. L'important est de connaître non pas l'étiquette que chacun prend, mais ce que chacun met sous son étiquette.
edição melso, tradução revista por gesner de wilton azevedo (1961)

 

edição coleção folha, tradução de murilo coelho (2010)

contribuindo de passagem para a hipótese de que a tradução revista por gesner era lusitana, note-se na edição da melso a grafia de "carlos", "empregámos", "teem", "diferençar", e adiante "póde", "quasi", "jámais", "gráu", "sólo", ou as construções "em frança" e "facilidades que se irão aumentando". mas a questão, aqui neste contexto, é quase secundária. o que quero apontar é que essa tradução publicada pela folha é reedição, apenas com a ortografia atualizada, de uma tradução bastante antiga, que nas edições brasileiras anteriores não trazia créditos indicando sua autoria.

outra não pequena desinformação é a que consta na página de divulgação da coleção folha: essa obra de deville seria o "único resumo autorizado por Karl Marx, com o intuito de popularizar suas ideias na camada operária".

em verdade, marx teria autorizado vários resumos:
Versões resumidas para operários também apareceram em fins do decênio de 1870 em sérvio e inglês (esta publicada nos Estados Unidos). A edição italiana, feita por Carlo Cafiero, foi autorizada por Marx e publicada em 1879. No ano seguinte, Marx autorizou o anarquista Domela Nieuwenhuis a publicar um resumo popular em holandês. A obra saiu em 1881 (Ferdinand Domela Nieuwenhuis. Karl Marx. Kapital en Arbeid, s´Gravenhage, 1881). Na mesma época ele colaborou com Johannes Most numa edição resumida em alemão. No ano da morte de Marx foi editado o resumo francês (Gabriel Deville. Le Capital de Karl Marx, resumé et accompangé d´un aperçu sur le socialisme scientifique, Paris, 1883).
in Lincoln Secco, Leitura e Difusão de O Capital de Karl Marx, p. 12
ainda no mesmo release da coleção folha, consta que a obra de deville foi "publicada em 1883 e revista em 2010". o que significa "revista em 2010"? a antiga tradução revista por gesner, sim, pode ter sido re-revista em 2010 para essa edição da folha, e só.

restam algumas dúvidas: quem é murilo coelho? quando foi feita essa sua tradução? onde e quando foi inicialmente publicada? por que a ediouro, em suas várias edições, não havia lhe dado os créditos de tradução? por que a melso, em sua edição, preferiu apenas apontar que se tratava de uma "tradução revista por gesner de wilton azevedo"? e por que a folha em sua coleção "livros que mudaram o mundo" escolheu uma tradução, seja de quem for, tão fraquinha e com algumas informações aparentemente tão erradinhas?

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


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coleção folha, o capital de gabriel deville II

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recapitulando: em 1883, o socialista francês gabriel deville publica um resumo das ideias centrais de marx, num volume chamado le capital de karl marx, résumé et accompagné d'un aperçu sur le socialisme scientifique, para fins de divulgação entre o operariado e a militância socialista na frança.

essa introdução ao pensamento marxiano é traduzida para o português por albano de moraes e é publicada pela typographia de francisco luiz gonçalves em 1912, como: carl [sic] marx, o capital: resumido e acompanhado de um estudo sobre o socialismo scientifico, estudo de gabriel deville. outra tradução portuguesa dessa época, porém menos conhecida, é a de maria emilia de araújo pereira, publicada pela guimarães editora também em 1912, que utiliza a grafia "karl".

no post anterior, citei algumas fontes para acompanhar a divulgação da obra de deville no brasil a partir dos anos 1930. é um percurso interessante, que talvez alguma hora eu explore melhor. mas, com referência a nossos objetivos, tenho em mãos o exemplar publicado pela editora melso em 1961, e é dessa edição que eu gostaria de tratar, para chegarmos ao volume publicado na coleção folha "livros que mudaram o mundo".


na edição da melso sumiu qualquer referência a gabriel deville. dá-se a obra como da autoria pura e simples de marx, com o título o capital. na página de rosto consta "edição condensada" e "tradução revista por gesner de wilton morgado". o livro começa diretamente com socialismo científico: o leitor desavisado pensará que é um texto de marx que integra o começo do suposto capital condensado.


por outro lado, quanto à tradução: sabemos que, por convenção editorial, costumava-se utilizar a expressão "tradução revista por" para indicar que se tratava de uma tradução portuguesa adaptada para o português do brasil. cabe mencionar também que a orelha da capa da melso traz em destaque: CARL MARX, embora todas as demais referências venham grafadas Karl Marx.


assim, embora eu não tenha em mãos a tradução de albano de moraes, sou tentada a crer que foi ela a utilizada na edição da melso, e depois várias vezes reeditada pela ediouro, em suas coleções "clássicos de bolso" e "universidade de bolso".


pois muito que bem. agora chegamos à edição da folha, em tradução atribuída a alguém de nome "murilo coelho", licenciada da edipro, a qual consta na página de créditos como detentora do copyright da referida tradução. não consegui encontrar referências a qualquer tradução de murilo coelho, nem mesmo do próprio suposto capital condensado de marx, a não ser as divulgadas pela folha de s. paulo anunciando a publicação e do nãogostodeplágio dando a lista dos títulos da coleção folha.

o que se encontra às centenas é, por exemplo: "MARX, Karl. O capital. [Titulo original: Das kapital]. Gabriel Deville (Trad.). 1 ed. Bauru: Edipro, 1998. 286 p. ISBN 8572830987", ou "A EDIPRO tem satisfação em oferecer ao leitor a tradução condensada d`O Capital por Gabriel Deville", ou "A Edipro apresenta a Edição Condensada de O Capital, com tradução de Gabriel Deville" - com esse tipo de dado, qualquer um poderia achar que gabriel deville traduziu o capital para o português. mas, mais amiúde, o que se tem é apenas algo na linha "O Capital - Edição Condensada - 3ª Edição 2008. Marx, Karl / EDIPRO".


ademais, na fundação biblioteca nacional, agência brasileira do isbn, tem-se:

PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN

ISBN: 978-85-7283-597-8
TÍTULO: O CAPITAL
COLEÇÃO: CLÁSSICOS EDIPRO
AUTOR: KARL MARX
TRADUTOR: GABRIEL DEVILLE
EDIÇÃO: 3
ANO DE EDIÇÃO: 2008
LOCAL DE EDIÇÃO: SÃO PAULO
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
PÁGINAS: 224
EDITORA: EDIPRO

puxa vida, que história. espero que o leitor tenha entendido que, digam o que disserem as editoras, esse capital de karl marx pouco tem a ver com o capital de karl marx. é um apanhado, uma "apostila", digamos assim, montada por deville a partir da tradução francesa de joseph roy (cuja revisão, aliás, teria comentado marx que lhe deu "um trabalho dos diabos").

num próximo post, pretendo comparar a tradução revista por gesner morgado (melso; ediouro), a tradução em nome de murilo coelho (coleção folha; edipro) e o original de gabriel deville.
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5 de dez. de 2010

coleção folha, o capital de gabriel deville I

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a coleção folha "livros que mudaram o mundo" lançou um volume com o título o capital, que seria da autoria de karl marx, em tradução de murilo coelho da tradução condensada francesa de gabriel deville. vamos a ele.


em 1883, o socialista francês gabriel deville publicou um resumo de das kapital de karl marx, livro I (único publicado em vida), acrescido de um curto ensaio de sua autoria sobre o socialismo científico. trata-se de:

Gabriel Deville, Le capital de Karl Marx, resumé et accompagné d'un aperçu sur le socialisme scientifique, Paris, Ernest Flammarion Éditeur, 1883.


essa introdução às ideias de marx se encontra disponível para download em diversos sites, por exemplo aqui, na biblioteca da universidade de toronto.

sob todos os pontos de vista, o autor dessa pequena obra de divulgação do pensamento marxista é gabriel deville. é tão descabido atribuir le capital de karl marx a marx como seria atribuir diretamente a hegel ou a tomás de aquino qualquer introdução, em qualquer língua que seja, aos conceitos da fenomenologia do espírito ou da suma teológica.

curiosamente, porém, le capital de karl marx veio a ser publicado desde 1912 em portugal e nos anos 30 no brasil dando a entender que fosse o próprio das kapital de marx, que teria sido traduzido e condensado por gabriel deville. aliás, não me admiraria muito se até mesmo o devilleano aperçu sur le socialisme scientifique, que precede seu resumo do livro I d'o capital, tivesse passado no brasil e em portugal por peça da lavra de marx.*

* quem se interessar pela divulgação inicial das ideias de marx nos países de língua portuguesa, há alguns levantamentos disponíveis na rede, que dão uma breve noção da coisa:
lincoln secco, leitura e difusão de o capital de marx
idem, notas para a história editorial de o capital
carlos bastien, os primeiros leitores portugueses de marx economista
denilson azevedo, a história da publicação das obras de marx e engels

referências mais completas para o brasil se encontram em dois livros de leandro konder:
a derrota da dialética: a recepção das idéias de marx e engels no brasil até o começo dos anos trinta (campus, 1988) e as idéias socialistas no brasil (moderna, 1995)

a coisa se torna ainda mais bizarra, pois o então jovem militante socialista gabriel deville em momento algum sugeriu que sua súmula se baseasse no original de marx. muito pelo contrário, ele esclareceu com todas as letras, no prefácio de seu opúsculo, que utilizara a tradução francesa: Quant au résumé, [...] il a été fait d'après l'édition française, dernière édition revue par l'auteur.


a tradução de das kapital tinha sido feita por joseph roy a partir da 1a. edição alemã, e foi publicada em fascículos entre 1872 e 1875, pelo editor maurice lachâtre. marx, ao ler a tradução e acompanhar os fascículos, procedeu a várias modificações que foram incorporadas à obra em francês. a primeira edição desses fascículos em formato livro saiu em 1875, entièrement revisée par l'auteur. em c. 1878, lachâtre lança uma segunda edição pelo selo da librairie du progrès. muito provavelmente é a esta edição de c. 1878 que se refere deville, quando cita a dernière édition revue par l'auteur.

a propósito das modificações feitas por marx, ver seu posfácio à edição francesa de 1875:
O Sr. J. Roy empenhou-se em apresentar uma tradução tão exacta, até literal, quanto possível; cumpriu escrupulosamente a sua missão. Mas estes mesmos escrúpulos obrigaram-me a modificar a redacção, a fim de a tornar mais acessível ao leitor. Estas alterações, feitas sem continuidade, pois que o livro se publicava em fascículos, foram objecto de atenção desigual, o que havia de produzir incoerências de estilo.

Uma vez empreendido esse trabalho de revisão, fui levado a aplicá-lo também no conteúdo do texto original (a segunda edição alemã), simplificando alguns tópicos, completando outros, incluindo material histórico ou estatístico adicional, acrescentando observações críticas, etc. Sejam quais forem as imperfeições literárias desta edição francesa, ela possui um valor científico independente do original e deve ser consultada mesmo pelos leitores que dominam a língua alemã.
(tradução de teixeira martins e vital moreira, karl marx, o capital, capítulo I.)

retomando o tema central: gabriel deville, então membro do parti ouvrier francês, queria apresentar um painel sintético e simplificado dos principais conceitos de marx para a divulgação do marxismo entre o operariado. assim, fez um apanhado das ideias centrais presentes n'o capital, conforme a tradução de roy, revista por marx, antepondo a essa introdução aos conceitos marxistas um artigo seu sobre o socialismo científico, em que expõe também pontos programáticos da linha socialista a que então se filiava. marx (que, diga-se de passagem, era sogro de paul lafargue, um dos fundadores do partido operário francês a que pertencia deville) tinha conhecimento da iniciativa e, segundo algumas fontes, dava seu apoio a ela. mas jamais chegou a vê-la impressa, morrendo meses antes de seu lançamento.

tal é a obra que se chama o capital de karl marx. não é de marx, e não é uma tradução, nem mesmo condensada, de das kapital.

em outro post, comentarei um pouco a fortuna lusobrasileira dessa introdução de gabriel deville às ideias de marx.

imagens: google images.

a propósito

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boa entrevista de maria luiza borges a jo gomes dos reis, 
em carta capital: "o segredo de traduzir".

via jane austen em português,
traduzindo jane austen e outros autores

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4 de dez. de 2010

parturient montes, nascetur mus

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gosto da expressão de horácio, sintetizando a fábula de esopo: "a montanha pariu um rato". é a impressão que tenho e certamente muitos hão de ter diante de elaboradíssimas elucubrações sobre o ato tradutório, a operação do traduzir ou, mais pedestremente, o ofício de tradução.

acredito que algumas reflexões até podem ser interessantes e pertinentes, mas tenho algumas objeções de saída:
- algumas dessas questões são discussões conceituais que exigem um mínimo de formação filosófica e dificilmente guardam alguma relação direta com o ofício (por exemplo, a metafísica do idealismo romântico alemão generalizada e popularizada por antoine berman)
- outras questões não passam de trivialidades disfarçadas em discurso grandiloquente: no frigir dos ovos, o conteúdo é banal (por exemplo, um relativismo bastante radical extrapolado a partir do acacianismo de que toda tradução apresenta marcas histórico-culturais, como se vê em rosemary arroyo)
- outras ainda confundem problemas diferentes, misturando aspectos que pertencem a uma certa ordem de reflexão, como a chamada "invisibilidade" da tradução, com aspectos comerciais sobre o nível de remuneração que mereceria o tradutor (como em laurence venuti, por exemplo)

minha preocupação maior, porém, é que obras mais ou menos áridas, mais ou menos abstratas e, algumas delas, razoavelmente abstrusas têm sido discutidas e até tomadas como valor de verdade em alguns meios acadêmicos e mesmo extra-acadêmicos, sem que muitos de seus leitores cheguem a entender do que se trata.

assim, se falei longamente no colóquio de piracicaba e depois coloquei por escrito os temas tratados, com vários palavrões pomposos e altissonantes, o que eu quis dizer, no fundo, é que, em grande parte da tradução editorial no brasil, nós praticantes do ofício estamos no nível mais simples e básico da atividade. e aqui meu ponto seria: a gente até pode conseguir atravessar o rio e chegar do outro lado, mas com toda certeza não será nadando através dele.

ver:

3 de dez. de 2010

novo subtítulo

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os leitores mais atentos podem ter percebido que mudei o subtítulo do blog: em vez de "um blog de utilidade pública contra plágios de tradução", agora é "um blog contra plágios de tradução, e também com variedades sobre tradução".

isso porque, como alguns queridos leitores também podem ter notado, a quantidade de plágios, contrafações e irregularidades editoriais no quesito "tradução" - UFA, VIVA, FELIZMENTE! - parece ter estacionado. não sei se por acaso ou por alguma pequena contribuição deste blog ou pelo franco repúdio de inúmeros leitores a tais práticas, não tenho visto grandes novidades nessa triste seara. as editoras ishpertas pararam de proliferar, muitas dezenas de títulos foram retiradas de circulação e venda, várias medidas judiciais e extrajudiciais tiveram andamento e assim por diante.

o que se tem é a PERMANÊNCIA de algumas centenas de títulos espúrios no mercado, e ainda é possível demonstrar documentalmente a ocorrência de plágios e contrafações de várias obras publicadas anos atrás, e que continuam em circulação. isso o nãogostodeplágio continua a fazer. mas já não é aquela onda avassaladora de descobertas de um plágio atrás do outro, fato que só pode nos alegrar.


com isso, o nãogostodeplágio passou a ter mais tempo para tratar de outros temas relacionados à atividade de tradução, comentar com maior frequência lançamentos, artigos teóricos ou práticos sobre tradução, republicar posts anteriores e assim por diante.

no momento em que as questões de plágios e que tais parecerem se esgotar ou ralear muito, o destino natural do nãogostodeplágio será se extinguir. talvez mantenha o mesmo endereço e só mude de nome, para algo mais adequado aos novos conteúdos, ou talvez continue a existir com o mesmo nome e fique em stand-by. ainda não sei: gosto muito deste espaço, e acho que apresenta algumas questões de interesse. acredito também no valor documental e arquivístico do blog, e creio que merece ser preservado.

em todo caso, fica o aviso: o nãogosto está mudando de perfil, de conteúdo e de tratamento, devido à mudança das circunstâncias - e essa mudança é positiva.

imagem: emily tatlin

2 de dez. de 2010

colóquio de tradução na unimep: marca pessoal e invisibilidade

concluindo o relato de minha apresentação no colóquio em piracicaba:

Mas, quando falamos em coisas tão grandiosas como pretensa neutralidade, originalidade, responsabilidade, na verdade falamos de coisas muito simples.

Pois, na esteira da negação da “marca pessoal” na tradução aparece, como consequência quase natural e automática, a ideia de que o desejável é que o tradutor seja invisível. Isso é um pouco complicado, porque aqui se misturam dois planos que, a meu ver, são muito distintos: o tradutor como sujeito empírico e a obra de tradução em sua materialidade, mas não trataremos disso agora. O que há é que, quando se fala em “invisibilidade” do tradutor ou da tradução, seja em sentido positivo ou negativo, costumamos entender que o termo se refere a um tipo de texto traduzido que não mostra, deixa oculto, esconde, mantém invisível – ou como se queira dizer – o trabalho executado durante a tradução. E que tal resultado é obtido com maior frequência pelo tradutor que tenta deliberadamente não deixar sua marca pessoal na tradução.


Então, a pergunta que se coloca é: mas, afinal, o que seria a marca pessoal que deixo numa tradução? Aquilo em que ela se afasta do original? Mas como, no que ela se afasta do original? Peguemos um exemplo muito simples e conhecido: diante de I swam across the river, o que faríamos? Traduziríamos “eu nadei através do rio”? Pois afinal é assim que está no original:

I = eu
Swam = nadei
Across = através d’
The = o
River = rio

Portanto: eu + nadei + através d’ + o + rio.

Não interfiro, atenho-me estritamente ao original, as palavras passam através de mim como instrumento de transmissão: não deixo minha marca pessoal.

Não faz mal que em português ninguém nade “através” de um rio, pois aqui, hipoteticamente, o que importa é que não posso ou não devo colocar minha marca pessoal – no caso, meu domínio ou minha relação com a língua materna. Em minha língua materna, ouço, falo, leio, escrevo: “atravessei o rio nadando”, “cruzei o rio a nado”, “atravessei o rio a nado” ou similares.

Por outro lado, perante a mesma frase em inglês, eu não reagiria em português dizendo “nadei pelo rio” ou “fui nadando pelo rio”, pois eu acharia que o “pelo” não esclarece se nadei de uma margem à outra ou pelo rio abaixo, se fui no sentido da largura ou do comprimento. No entanto, ainda para a mesma frase, não desdenharia nem torceria o nariz se um colega se saísse com um “nadei até a outra margem do rio”.

Assim, o que se coloca é a naturalidade da língua, a fluência, o uso. E não apenas a fluência no português, mas em primeiro lugar a fluência na língua de partida. É fluente dizer “I swam across the river” em inglês? Sim, tremendamente. É usual. É fluente dizer “Eu nadei através do rio” em português? Não, nem um pouco. É estranho.

Então, onde a tradução se faz mais visível? Em “Eu nadei através do rio” ou em “Atravessei o rio a nado”? Claro que no primeiro caso. Fica visível a estrutura do original, fica evidente o decalque.

Mas não foi justamente aqui que o tradutor tentou não deixar sua marca, tentou ficar invisível? Sim, com quase toda certeza sim. E não foi justamente aqui que seu trabalho de tradução ficou mais visível? Sim, com toda certeza. Inversamente, na solução“atravessei o rio a nado” ou mesmo na mais puxada “nadei até a outra margem do rio”, ambas resultantes de uma intervenção mais marcada do tradutor, seu trabalho se faz menos visível ou mesmo praticamente invisível: como dizem, “nem parece uma tradução”.

Portanto, num paradoxo que me parece interessante, teríamos que o trabalho consciente do tradutor, ao elaborar atentamente seu modo de atuação e imprimir decididamente sua marca no texto, tem muito maior probabilidade de alcançar em sua tradução uma fluência similar à fluência do texto de origem. Dito em outros termos: quanto mais claro e consciente for o trabalho de imprimir no texto de tradução sua marca pessoal, mais invisível será o processo da operação tradutória no resultado final.

Naturalmente, o pressuposto aqui, e que não tivemos muita ocasião de explorar durante minha apresentação, é que, pelo menos num nível simples e básico, estou considerando a chamada “invisibilidade” da operação tradutória como um valor positivo, capaz de ser alcançado com maior segurança pelo exercício sistemático de imprimir um perfil pessoal na tradução, tendo como um dos principais critérios para guiar as escolhas a preservação do tipo de fluência presente no texto de partida.


veja também:


imagem: drowning
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colóquio de tradução na unimep: autoria e responsabilidade

prosseguindo o relato de minha participação no colóquio em piracicaba:


Consideramos então que estava suficientemente demonstrada a impossibilidade de existir uma tradução única, mesmo de um trecho curto e simples – a menos, claro, que decidíssemos que nove alternativas eram ruins e apenas uma era boa, e aí a questão seria apresentar e justificar os critérios para esse juízo. Como não vimos nenhum critério capaz de sustentar essa hipotética decisão, fomos em frente, aceitando a existência de várias alternativas plenamente viáveis e aceitáveis para a tradução daquele trecho.

Essa marca pessoal que cada um dos participantes imprimiu em sua tradução é que, argumentei eu, constitui a base para o reconhecimento jurídico – desde o século XIX – do tradutor como autor de uma obra dotada de identidade própria. Assim, tradução é obra: é derivada de uma obra originária, claro, mas nem por isso deixa de ser, em sua esfera própria e limitada, uma obra pessoal, original, intransferível. Por outro lado, isso não tem nada a ver com "co-autoria", que são outros quinhentos. Uma tradução não é uma coautoria, a despeito do que alguns possam pensar - é simplesmente uma "obra derivada". Anule-se essa identidade, anular-se-á a figura moderna do tradutor. Que seja, isso sempre pode ocorrer, e os conceitos de autor e autoria também são historicamente datados e determinados.

Pois o que importa é que os fundamentos para que o tradutor seja juridicamente definido como pessoa portadora de direitos de autor têm uma anterioridade não só histórica, mas lógica, que independe dessa sua definição jurídica: mantêm-se os mesmos, quer o tradutor seja tido como autor ou não. Eles consistem justamente no fato inescapável de que cada obra de tradução tem uma identidade própria. E essa identidade própria decorre, evidentemente, das marcas pessoais que o tradutor imprime em seu texto, derivado do texto de origem.

E aqui chegamos a um ponto que me parece central: se por um lado as marcas pessoais de uma obra de tradução lhe conferem identidade própria, por outro lado é evidente que o tradutor é responsável pelo menos por uma parte das características presentes em seu texto de tradução. Neste sentido, entendo que negar ou querer abolir as marcas pessoais que imprimimos em nossa tradução é abdicar ou se esquivar à responsabilidade que temos por aquele texto que escrevemos.

Assim é que, em meu entender, o postulado de que uma boa tradução não guarda ou não deveria guardar a marca pessoal do indivíduo tradutor, além de ingênuo e dogmático, vem acompanhado também de uma espécie de apologia da irresponsabilidade. No momento em que o indivíduo tradutor pensa que, ao traduzir, pode se abster de deixar sua marca pessoal no texto de tradução, ele se exime de responder pelo que faz: coloca-se na posição de um mero instrumento transmissor supostamente neutro [e é claro que mesmo esta imagem é enganosa, pois não existe meio, qualquer que seja, que não exerça interferência na transmissão]. Mas, seja qual for a imagem, essa abdicação da responsabilidade por nosso texto de tradução muitas vezes se expressa na batidíssima frase, incrivelmente obscura e abstrusa, que já ouvi invocada várias vezes para justificar uma escolha X ou Y num trabalho de tradução: “está assim no original” ou "é assim que está no original”.

Mas aí eu pergunto: e o que significa “está assim no original”? Pois é exatamente disso que se trata: um texto traduzido NÃO ESTÁ ASSIM no original. O texto traduzido está como o tradutor o redigiu a partir do texto de origem, passando pelos mais variados e diversos níveis de apreensão, interpretação e escolha. E é esta a responsabilidade do tradutor: na medida de suas limitações pessoais e determinações histórico-culturais, tentar perceber como está traduzindo, qual partido está adotando. Até onde consigo entender, a maneira mais coerente de nos responsabilizarmos por nossos textos de tradução é reconhecer que eles são construídos a partir de critérios e escolhas que adotamos perante os textos de origem. E aí é melhor saber do que não saber quais são eles, não é mesmo?

(continua aqui)

imagem: burmadigest.com
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colóquio de tradução na unimep: marcas

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O colóquio de tradução em Piracicaba, na Unimep, foi muito legal. O tema central foi algo mais ou menos como a presença de um tradutor em seu texto, voluntária ou não, consciente ou não.

Como minhas exposições costumam ser de tipo “agonístico”, isto é, adotando como ponto de partida um argumento contrário, tomei como pano de fundo uma posição tradutória que ainda hoje no Brasil afirma que uma boa tradução não traz ou não deveria trazer a “marca pessoal” do tradutor.

Considero esse tipo de concepção, além de ingênuo, simplesmente insustentável, uma impossibilidade lógica, ontológica, empírica, o que for. Pois é evidente que toda tradução* carrega a marca de quem a escreveu: seja em termos históricos e culturais, seja em termos estilísticos e estruturais, seja no simples plano mais imediato da escolha vocabular. E isso me parece tão evidente que dispensa maiores argumentações.

* Na ocasião, tratamos do campo específico de tradução literária e de humanidades, mas alguns aspectos provavelmente se aplicariam também a traduções técnicas e científicas.

Em todo caso, num exemplo simples, basta pensar nas inúmeras traduções de Shakespeare em língua portuguesa. Se se supusesse possível uma tradução sem a “marca pessoal do tradutor” e, ademais, que essa hipotética ausência de marca fosse um valor positivo, teríamos que apenas uma delas seria “boa”. Aí, secundariamente, teríamos até uma outra questão, a meu ver bastante engraçada e talvez crucial: quem determinaria, entre essas diversas traduções, qual é a “impessoal” e, por extensão, “boa”? (É claro que aqui estamos falando de traduções com um mínimo de proficiência linguística.)

O público presente no colóquio era composto por estudantes da graduação e do pós em língua inglesa e tradução. Para preparar a demonstração prática de meu argumento contra a ideia da “neutralidade” ou impessoalidade de qualquer texto de tradução literária e de humanidades, pedi a dez dos presentes que traduzissem ali na hora o parágrafo inicial de Walden – a escolha do trecho foi meio arbitrária: minha tradução dessa obra acabava de ser publicada pela L&PM e, embora eu ainda não tivesse visto o livro impresso, estava com ela na cabeça. São poucas linhas bastante simples:
When I wrote the following pages, or rather the bulk of them, I lived alone, in the woods, a mile from any neighbor, in a house which I had built myself, on the shore of Walden Pond, in Concord, Massachusetts, and earned my living by the labor of my hands only. I lived there two years and two months. At present, I am a sojourner in civilized life again.
Como era de se prever, entre as dez traduções não havia duas iguais e, sob um microscópio, nem remotamente parecidas. Tirando um mínimo deslize em um ou dois casos, todas davam conta do recado. Some-se a isso que há três traduções brasileiras de Walden, também bastante diferentes entre si. Qual, então, seria a “boa”? Qual não traria a “marca pessoal” do tradutor? Um problema.


O que quero dizer é que as linhas tradutórias que invocam uma suposta objetividade ou impessoalidade da obra de tradução são, por trás de sua ingenuidade de superfície, tremendamente normativistas e balizadas por critérios nada transparentes. Pois, para escolher uma entre treze alternativas com graus equivalentes de proficiência, há de se empregar algum critério. E se, para escolher uma delas (“esta aqui é a boa”), invoco como critério uma pretensa impessoalidade (“e é a boa porque não tem a marca pessoal de quem a fez”), estou, em primeiro lugar, ocultando o fato de que HÁ, sim senhor, uma marca pessoal - tanto é que ela não se confunde com as outras doze, que também são inconfundíveis entre si. Mas, em segundo lugar e principalmente, não estou deixando claro qual é o critério que me faz escolher esta e não outra. Se o critério não é claro, ele não pode ser entendido, avaliado, julgado, aceito ou refutado: em suma, é dogmático. Esse ocultamento dos critérios para a escolha de uma alternativa – ao pretexto meramente postulado, mas indemonstrado, de que uma boa tradução não poderia ou não deveria trazer marcas pessoais do indivíduo tradutor – constitui, a meu ver, um dos principais problemas que uma tradução minimamente proficiente enfrenta na atualidade editorial brasileira. Mas este já é outro problema.

continua aqui.

mutatis mutandis, descobriu-se que a impressão digital ajuda a detetar texturas delicadas e pequenos objetos por meio do tato. neste sentido metafórico da "digital" que o tradutor imprime em seu texto, quem sabe a prévia atenção voluntária e deliberada às marcas pessoais que inevitavelmente deixaremos em nossas traduções não poderia contribuir para uma detecção mais apurada de elementos presentes na obra originária? veja aqui.

imagem: tato apurado
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