7 de dez. de 2010

traduzir aprende-se traduzindo

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encontro hoje uma encantadora palestra de paulo rónai, nos idos de 1985, no departamento de letras da universidade federal do paraná. gosto muito e partilho dessa visão da tradução como ofício artesanal.
Traduzir aprende-se traduzindo. Os artesões de antigamente formavam-se como aprendizes ao lado de um mestre, com quem passavam longos anos. É muito difícil encontrar um mestre tradutor que aceite aprendizes. Os cursos de tradução ensinam os conhecimentos básicos indispensáveis ao métier, mas o modo de fazer é objeto de aprendizado individual. Cada tradutor deve ser seu próprio mestre. Ele mesmo deve inventar seus exercícios, confrontar um original com alguma tradução impressa, comparar a sua própria tradução com uma dessas versões, justapor duas ou mais versões do mesmo texto, organizar sua relação de falsos-amigos, de expressões idiomáticas, de equivalentes sintáticos. É preciso resignar-se à gratuidade desses exercícios antes de se atrever a fazer traduções remuneradas. O lema horaciano - Multa tulit fecitque puer, sudavit et alsit ("muito fazer e suportar em jovem, suar e tremelicar") - aplica-se ao tradutor como a ninguém.
a palestra foi publicada pela revista letras, n. 34 (1985), às pp. 186-195, com o título cascas de banana no caminho do tradutor. disponível aqui ou aqui.

imagem: carving box
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(n.t.), chamada

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a (n.t.), revista lítero-tradutória virtual, avisa:
Chamada para colaboração:

(n.t.) Revista Literária em Tradução n° 2 (março/2011)
Normas para publicação em: www.notadotradutor.com/publicar
Recepção de textos: de 15/09/2010 a 15/12/2010

A (n.t.) é uma revista virtual de periodicidade semestral destinada à publicação de textos literários traduzidos curtos.

Publicamos seleções de textos inéditos ou retraduzidos em poesia e prosa poética, contos, epistolário, teatro, além de excertos de textos filosóficos. A atenção da revista se volta especialmente àquelas línguas e autores que ainda têm pouca visibilidade no sistema literário de traduções no país. A temática dos textos a serem submetidos é livre.

http://www.notadotradutor.com/
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6 de dez. de 2010

coleção folha, ainda descartes

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dediquei dois posts à edição de descartes na coleção folha: aqui e aqui.

para ninguém achar que é implicância minha: "a edição capenga de descartes", no jornal opção 
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coleção folha, o capital de gabriel deville III

estabelecido que le capital de karl marx é uma obra de divulgação de gabriel deville, montada em 1883 a partir da tradução francesa de j. roy do das kapital, entendo que a apresentação correta desse resumo em português seria: gabriel deville, o capital de karl marx, como fez, por exemplo, a editora cultura nos anos 1940:

ou:

todavia, vimos que não é o que tem ocorrido: mencionei as edições da melso, da ediouro, da edipro e da coleção folha.

abro a edição da coleção folha: não bastasse ter marx virado o autor do aperçu sobre o socialismo científico e do resumo de deville, vejo lá um "prefácio do tradutor".

qual tradutor?, pergunto-me eu. e vejo ali que se trata do prefácio de gabriel deville, de 1883, onde justamente ele explica que montou seu apanhado seguindo a tradução francesa existente, feita por joseph roy.

como o préface do original se transformou em prefácio da tradução é mais um daqueles mistérios que só acontecem no brasil, e que não consigo desvendar. outra curiosidade é como a data do prefácio original - 10 de agosto de 1883 - se transformou no "prefácio da tradução" em 10 de outubro de 1883. e engraçado também como a remissão original de deville, em seu pós-escrito, às páginas 24-25 e 59-60 de le capital de karl marx, é mantida literalmente na edição da folha (p. 18), sem qualquer correspondência de fato no volume brasileiro.

o prefácio e o pós-escrito de deville não constam na edição melso. a tradução deles nessa edição da folha é sofrível: tenta-se um decalque que acaba se tornando ininteligível. por exemplo, ce que j'ai écrit dans d'autres conditions d'âge et par suite de connaissance é dado como "o que escrevi em outras condições de idade e após aprendizado" [p. 17; seria algo como "o que escrevi em outras condições de idade e, portanto, de conhecimento"].

já a tradução do aperçu e do resumo na edição folha/edipro, em nome de murilo coelho, é praticamente idêntica à tradução revista por gesner de wilton morgado, na edição que saiu pela melso 50 anos atrás. ambas guardam a mesma razoável distância e as mesmas discrepâncias em relação ao original em francês:
I

COLLECTIVISME OU COMMUNISME


Il y a six ans, la classe ouvrière qui n'était pas encore remise de l'épouvantable saignée de 1871, avait abandonné la tradition révolutionnaire et n'attendait plus son affranchissement que des associations coopératives généralisées. Les mots parti ouvrier et collectivisme, aujourd'hui passés dans notre langue politique, étaient, peut-on dire, inconnus ; les idées qu'ils représentent ne comptaient plus en France que de rares partisans, sans lien, sans possibilité d'action commune.

C'est le journal l'Égalité fondé, à la fin de 1877, sur l'initiative de Jules Guesde et dirigé par lui, qui a seul donné l'impulsion au mouvement socialiste révolutionnaire actuel. Tel est le fait que ne réussiront pas à effacer les personnalités envieuses empressées à le masquer, ou tout au moins à l'amoindrir, ayant bien soin, dans leurs prétendues histoires, de cacher les dates qui ne laissent aucun doute à cet égard.

A ce moment, il y avait utilité à distinguer le communisme scientifique sorti de la savante critique de Marx, du vieux communisme utopique et sentimental français. La même dénomination pour deux théories différentes aurait favorisé une confusion d'idées qu'il était essentiel d'éviter ; aussi avons-nous alors exclusivement employé le mot collectivisme.
Maintenant, nous écrivons collectivisme ou communisme indifféremment. Au point de vue de leur dérivation, ces deux termes sont également exacts; au point de vue usuel, ils ont les mêmes inconvénients. S'il y a eu un communisme dont nous devions nous distinguer, il y a des formes de collectivisme, les diverses contrefaçons belges par exemple, que nous répudions. L'important est de connaître non pas l'étiquette que chacun prend, mais ce que chacun met sous son étiquette.
edição melso, tradução revista por gesner de wilton azevedo (1961)

 

edição coleção folha, tradução de murilo coelho (2010)

contribuindo de passagem para a hipótese de que a tradução revista por gesner era lusitana, note-se na edição da melso a grafia de "carlos", "empregámos", "teem", "diferençar", e adiante "póde", "quasi", "jámais", "gráu", "sólo", ou as construções "em frança" e "facilidades que se irão aumentando". mas a questão, aqui neste contexto, é quase secundária. o que quero apontar é que essa tradução publicada pela folha é reedição, apenas com a ortografia atualizada, de uma tradução bastante antiga, que nas edições brasileiras anteriores não trazia créditos indicando sua autoria.

outra não pequena desinformação é a que consta na página de divulgação da coleção folha: essa obra de deville seria o "único resumo autorizado por Karl Marx, com o intuito de popularizar suas ideias na camada operária".

em verdade, marx teria autorizado vários resumos:
Versões resumidas para operários também apareceram em fins do decênio de 1870 em sérvio e inglês (esta publicada nos Estados Unidos). A edição italiana, feita por Carlo Cafiero, foi autorizada por Marx e publicada em 1879. No ano seguinte, Marx autorizou o anarquista Domela Nieuwenhuis a publicar um resumo popular em holandês. A obra saiu em 1881 (Ferdinand Domela Nieuwenhuis. Karl Marx. Kapital en Arbeid, s´Gravenhage, 1881). Na mesma época ele colaborou com Johannes Most numa edição resumida em alemão. No ano da morte de Marx foi editado o resumo francês (Gabriel Deville. Le Capital de Karl Marx, resumé et accompangé d´un aperçu sur le socialisme scientifique, Paris, 1883).
in Lincoln Secco, Leitura e Difusão de O Capital de Karl Marx, p. 12
ainda no mesmo release da coleção folha, consta que a obra de deville foi "publicada em 1883 e revista em 2010". o que significa "revista em 2010"? a antiga tradução revista por gesner, sim, pode ter sido re-revista em 2010 para essa edição da folha, e só.

restam algumas dúvidas: quem é murilo coelho? quando foi feita essa sua tradução? onde e quando foi inicialmente publicada? por que a ediouro, em suas várias edições, não havia lhe dado os créditos de tradução? por que a melso, em sua edição, preferiu apenas apontar que se tratava de uma "tradução revista por gesner de wilton azevedo"? e por que a folha em sua coleção "livros que mudaram o mundo" escolheu uma tradução, seja de quem for, tão fraquinha e com algumas informações aparentemente tão erradinhas?

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


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coleção folha, o capital de gabriel deville II

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recapitulando: em 1883, o socialista francês gabriel deville publica um resumo das ideias centrais de marx, num volume chamado le capital de karl marx, résumé et accompagné d'un aperçu sur le socialisme scientifique, para fins de divulgação entre o operariado e a militância socialista na frança.

essa introdução ao pensamento marxiano é traduzida para o português por albano de moraes e é publicada pela typographia de francisco luiz gonçalves em 1912, como: carl [sic] marx, o capital: resumido e acompanhado de um estudo sobre o socialismo scientifico, estudo de gabriel deville. outra tradução portuguesa dessa época, porém menos conhecida, é a de maria emilia de araújo pereira, publicada pela guimarães editora também em 1912, que utiliza a grafia "karl".

no post anterior, citei algumas fontes para acompanhar a divulgação da obra de deville no brasil a partir dos anos 1930. é um percurso interessante, que talvez alguma hora eu explore melhor. mas, com referência a nossos objetivos, tenho em mãos o exemplar publicado pela editora melso em 1961, e é dessa edição que eu gostaria de tratar, para chegarmos ao volume publicado na coleção folha "livros que mudaram o mundo".


na edição da melso sumiu qualquer referência a gabriel deville. dá-se a obra como da autoria pura e simples de marx, com o título o capital. na página de rosto consta "edição condensada" e "tradução revista por gesner de wilton morgado". o livro começa diretamente com socialismo científico: o leitor desavisado pensará que é um texto de marx que integra o começo do suposto capital condensado.


por outro lado, quanto à tradução: sabemos que, por convenção editorial, costumava-se utilizar a expressão "tradução revista por" para indicar que se tratava de uma tradução portuguesa adaptada para o português do brasil. cabe mencionar também que a orelha da capa da melso traz em destaque: CARL MARX, embora todas as demais referências venham grafadas Karl Marx.


assim, embora eu não tenha em mãos a tradução de albano de moraes, sou tentada a crer que foi ela a utilizada na edição da melso, e depois várias vezes reeditada pela ediouro, em suas coleções "clássicos de bolso" e "universidade de bolso".


pois muito que bem. agora chegamos à edição da folha, em tradução atribuída a alguém de nome "murilo coelho", licenciada da edipro, a qual consta na página de créditos como detentora do copyright da referida tradução. não consegui encontrar referências a qualquer tradução de murilo coelho, nem mesmo do próprio suposto capital condensado de marx, a não ser as divulgadas pela folha de s. paulo anunciando a publicação e do nãogostodeplágio dando a lista dos títulos da coleção folha.

o que se encontra às centenas é, por exemplo: "MARX, Karl. O capital. [Titulo original: Das kapital]. Gabriel Deville (Trad.). 1 ed. Bauru: Edipro, 1998. 286 p. ISBN 8572830987", ou "A EDIPRO tem satisfação em oferecer ao leitor a tradução condensada d`O Capital por Gabriel Deville", ou "A Edipro apresenta a Edição Condensada de O Capital, com tradução de Gabriel Deville" - com esse tipo de dado, qualquer um poderia achar que gabriel deville traduziu o capital para o português. mas, mais amiúde, o que se tem é apenas algo na linha "O Capital - Edição Condensada - 3ª Edição 2008. Marx, Karl / EDIPRO".


ademais, na fundação biblioteca nacional, agência brasileira do isbn, tem-se:

PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN

ISBN: 978-85-7283-597-8
TÍTULO: O CAPITAL
COLEÇÃO: CLÁSSICOS EDIPRO
AUTOR: KARL MARX
TRADUTOR: GABRIEL DEVILLE
EDIÇÃO: 3
ANO DE EDIÇÃO: 2008
LOCAL DE EDIÇÃO: SÃO PAULO
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
PÁGINAS: 224
EDITORA: EDIPRO

puxa vida, que história. espero que o leitor tenha entendido que, digam o que disserem as editoras, esse capital de karl marx pouco tem a ver com o capital de karl marx. é um apanhado, uma "apostila", digamos assim, montada por deville a partir da tradução francesa de joseph roy (cuja revisão, aliás, teria comentado marx que lhe deu "um trabalho dos diabos").

num próximo post, pretendo comparar a tradução revista por gesner morgado (melso; ediouro), a tradução em nome de murilo coelho (coleção folha; edipro) e o original de gabriel deville.
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5 de dez. de 2010

coleção folha, o capital de gabriel deville I

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a coleção folha "livros que mudaram o mundo" lançou um volume com o título o capital, que seria da autoria de karl marx, em tradução de murilo coelho da tradução condensada francesa de gabriel deville. vamos a ele.


em 1883, o socialista francês gabriel deville publicou um resumo de das kapital de karl marx, livro I (único publicado em vida), acrescido de um curto ensaio de sua autoria sobre o socialismo científico. trata-se de:

Gabriel Deville, Le capital de Karl Marx, resumé et accompagné d'un aperçu sur le socialisme scientifique, Paris, Ernest Flammarion Éditeur, 1883.


essa introdução às ideias de marx se encontra disponível para download em diversos sites, por exemplo aqui, na biblioteca da universidade de toronto.

sob todos os pontos de vista, o autor dessa pequena obra de divulgação do pensamento marxista é gabriel deville. é tão descabido atribuir le capital de karl marx a marx como seria atribuir diretamente a hegel ou a tomás de aquino qualquer introdução, em qualquer língua que seja, aos conceitos da fenomenologia do espírito ou da suma teológica.

curiosamente, porém, le capital de karl marx veio a ser publicado desde 1912 em portugal e nos anos 30 no brasil dando a entender que fosse o próprio das kapital de marx, que teria sido traduzido e condensado por gabriel deville. aliás, não me admiraria muito se até mesmo o devilleano aperçu sur le socialisme scientifique, que precede seu resumo do livro I d'o capital, tivesse passado no brasil e em portugal por peça da lavra de marx.*

* quem se interessar pela divulgação inicial das ideias de marx nos países de língua portuguesa, há alguns levantamentos disponíveis na rede, que dão uma breve noção da coisa:
lincoln secco, leitura e difusão de o capital de marx
idem, notas para a história editorial de o capital
carlos bastien, os primeiros leitores portugueses de marx economista
denilson azevedo, a história da publicação das obras de marx e engels

referências mais completas para o brasil se encontram em dois livros de leandro konder:
a derrota da dialética: a recepção das idéias de marx e engels no brasil até o começo dos anos trinta (campus, 1988) e as idéias socialistas no brasil (moderna, 1995)

a coisa se torna ainda mais bizarra, pois o então jovem militante socialista gabriel deville em momento algum sugeriu que sua súmula se baseasse no original de marx. muito pelo contrário, ele esclareceu com todas as letras, no prefácio de seu opúsculo, que utilizara a tradução francesa: Quant au résumé, [...] il a été fait d'après l'édition française, dernière édition revue par l'auteur.


a tradução de das kapital tinha sido feita por joseph roy a partir da 1a. edição alemã, e foi publicada em fascículos entre 1872 e 1875, pelo editor maurice lachâtre. marx, ao ler a tradução e acompanhar os fascículos, procedeu a várias modificações que foram incorporadas à obra em francês. a primeira edição desses fascículos em formato livro saiu em 1875, entièrement revisée par l'auteur. em c. 1878, lachâtre lança uma segunda edição pelo selo da librairie du progrès. muito provavelmente é a esta edição de c. 1878 que se refere deville, quando cita a dernière édition revue par l'auteur.

a propósito das modificações feitas por marx, ver seu posfácio à edição francesa de 1875:
O Sr. J. Roy empenhou-se em apresentar uma tradução tão exacta, até literal, quanto possível; cumpriu escrupulosamente a sua missão. Mas estes mesmos escrúpulos obrigaram-me a modificar a redacção, a fim de a tornar mais acessível ao leitor. Estas alterações, feitas sem continuidade, pois que o livro se publicava em fascículos, foram objecto de atenção desigual, o que havia de produzir incoerências de estilo.

Uma vez empreendido esse trabalho de revisão, fui levado a aplicá-lo também no conteúdo do texto original (a segunda edição alemã), simplificando alguns tópicos, completando outros, incluindo material histórico ou estatístico adicional, acrescentando observações críticas, etc. Sejam quais forem as imperfeições literárias desta edição francesa, ela possui um valor científico independente do original e deve ser consultada mesmo pelos leitores que dominam a língua alemã.
(tradução de teixeira martins e vital moreira, karl marx, o capital, capítulo I.)

retomando o tema central: gabriel deville, então membro do parti ouvrier francês, queria apresentar um painel sintético e simplificado dos principais conceitos de marx para a divulgação do marxismo entre o operariado. assim, fez um apanhado das ideias centrais presentes n'o capital, conforme a tradução de roy, revista por marx, antepondo a essa introdução aos conceitos marxistas um artigo seu sobre o socialismo científico, em que expõe também pontos programáticos da linha socialista a que então se filiava. marx (que, diga-se de passagem, era sogro de paul lafargue, um dos fundadores do partido operário francês a que pertencia deville) tinha conhecimento da iniciativa e, segundo algumas fontes, dava seu apoio a ela. mas jamais chegou a vê-la impressa, morrendo meses antes de seu lançamento.

tal é a obra que se chama o capital de karl marx. não é de marx, e não é uma tradução, nem mesmo condensada, de das kapital.

em outro post, comentarei um pouco a fortuna lusobrasileira dessa introdução de gabriel deville às ideias de marx.

imagens: google images.

a propósito

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boa entrevista de maria luiza borges a jo gomes dos reis, 
em carta capital: "o segredo de traduzir".

via jane austen em português,
traduzindo jane austen e outros autores

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4 de dez. de 2010

parturient montes, nascetur mus

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gosto da expressão de horácio, sintetizando a fábula de esopo: "a montanha pariu um rato". é a impressão que tenho e certamente muitos hão de ter diante de elaboradíssimas elucubrações sobre o ato tradutório, a operação do traduzir ou, mais pedestremente, o ofício de tradução.

acredito que algumas reflexões até podem ser interessantes e pertinentes, mas tenho algumas objeções de saída:
- algumas dessas questões são discussões conceituais que exigem um mínimo de formação filosófica e dificilmente guardam alguma relação direta com o ofício (por exemplo, a metafísica do idealismo romântico alemão generalizada e popularizada por antoine berman)
- outras questões não passam de trivialidades disfarçadas em discurso grandiloquente: no frigir dos ovos, o conteúdo é banal (por exemplo, um relativismo bastante radical extrapolado a partir do acacianismo de que toda tradução apresenta marcas histórico-culturais, como se vê em rosemary arroyo)
- outras ainda confundem problemas diferentes, misturando aspectos que pertencem a uma certa ordem de reflexão, como a chamada "invisibilidade" da tradução, com aspectos comerciais sobre o nível de remuneração que mereceria o tradutor (como em laurence venuti, por exemplo)

minha preocupação maior, porém, é que obras mais ou menos áridas, mais ou menos abstratas e, algumas delas, razoavelmente abstrusas têm sido discutidas e até tomadas como valor de verdade em alguns meios acadêmicos e mesmo extra-acadêmicos, sem que muitos de seus leitores cheguem a entender do que se trata.

assim, se falei longamente no colóquio de piracicaba e depois coloquei por escrito os temas tratados, com vários palavrões pomposos e altissonantes, o que eu quis dizer, no fundo, é que, em grande parte da tradução editorial no brasil, nós praticantes do ofício estamos no nível mais simples e básico da atividade. e aqui meu ponto seria: a gente até pode conseguir atravessar o rio e chegar do outro lado, mas com toda certeza não será nadando através dele.

ver:

3 de dez. de 2010

novo subtítulo

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os leitores mais atentos podem ter percebido que mudei o subtítulo do blog: em vez de "um blog de utilidade pública contra plágios de tradução", agora é "um blog contra plágios de tradução, e também com variedades sobre tradução".

isso porque, como alguns queridos leitores também podem ter notado, a quantidade de plágios, contrafações e irregularidades editoriais no quesito "tradução" - UFA, VIVA, FELIZMENTE! - parece ter estacionado. não sei se por acaso ou por alguma pequena contribuição deste blog ou pelo franco repúdio de inúmeros leitores a tais práticas, não tenho visto grandes novidades nessa triste seara. as editoras ishpertas pararam de proliferar, muitas dezenas de títulos foram retiradas de circulação e venda, várias medidas judiciais e extrajudiciais tiveram andamento e assim por diante.

o que se tem é a PERMANÊNCIA de algumas centenas de títulos espúrios no mercado, e ainda é possível demonstrar documentalmente a ocorrência de plágios e contrafações de várias obras publicadas anos atrás, e que continuam em circulação. isso o nãogostodeplágio continua a fazer. mas já não é aquela onda avassaladora de descobertas de um plágio atrás do outro, fato que só pode nos alegrar.


com isso, o nãogostodeplágio passou a ter mais tempo para tratar de outros temas relacionados à atividade de tradução, comentar com maior frequência lançamentos, artigos teóricos ou práticos sobre tradução, republicar posts anteriores e assim por diante.

no momento em que as questões de plágios e que tais parecerem se esgotar ou ralear muito, o destino natural do nãogostodeplágio será se extinguir. talvez mantenha o mesmo endereço e só mude de nome, para algo mais adequado aos novos conteúdos, ou talvez continue a existir com o mesmo nome e fique em stand-by. ainda não sei: gosto muito deste espaço, e acho que apresenta algumas questões de interesse. acredito também no valor documental e arquivístico do blog, e creio que merece ser preservado.

em todo caso, fica o aviso: o nãogosto está mudando de perfil, de conteúdo e de tratamento, devido à mudança das circunstâncias - e essa mudança é positiva.

imagem: emily tatlin

2 de dez. de 2010

colóquio de tradução na unimep: marca pessoal e invisibilidade

concluindo o relato de minha apresentação no colóquio em piracicaba:

Mas, quando falamos em coisas tão grandiosas como pretensa neutralidade, originalidade, responsabilidade, na verdade falamos de coisas muito simples.

Pois, na esteira da negação da “marca pessoal” na tradução aparece, como consequência quase natural e automática, a ideia de que o desejável é que o tradutor seja invisível. Isso é um pouco complicado, porque aqui se misturam dois planos que, a meu ver, são muito distintos: o tradutor como sujeito empírico e a obra de tradução em sua materialidade, mas não trataremos disso agora. O que há é que, quando se fala em “invisibilidade” do tradutor ou da tradução, seja em sentido positivo ou negativo, costumamos entender que o termo se refere a um tipo de texto traduzido que não mostra, deixa oculto, esconde, mantém invisível – ou como se queira dizer – o trabalho executado durante a tradução. E que tal resultado é obtido com maior frequência pelo tradutor que tenta deliberadamente não deixar sua marca pessoal na tradução.


Então, a pergunta que se coloca é: mas, afinal, o que seria a marca pessoal que deixo numa tradução? Aquilo em que ela se afasta do original? Mas como, no que ela se afasta do original? Peguemos um exemplo muito simples e conhecido: diante de I swam across the river, o que faríamos? Traduziríamos “eu nadei através do rio”? Pois afinal é assim que está no original:

I = eu
Swam = nadei
Across = através d’
The = o
River = rio

Portanto: eu + nadei + através d’ + o + rio.

Não interfiro, atenho-me estritamente ao original, as palavras passam através de mim como instrumento de transmissão: não deixo minha marca pessoal.

Não faz mal que em português ninguém nade “através” de um rio, pois aqui, hipoteticamente, o que importa é que não posso ou não devo colocar minha marca pessoal – no caso, meu domínio ou minha relação com a língua materna. Em minha língua materna, ouço, falo, leio, escrevo: “atravessei o rio nadando”, “cruzei o rio a nado”, “atravessei o rio a nado” ou similares.

Por outro lado, perante a mesma frase em inglês, eu não reagiria em português dizendo “nadei pelo rio” ou “fui nadando pelo rio”, pois eu acharia que o “pelo” não esclarece se nadei de uma margem à outra ou pelo rio abaixo, se fui no sentido da largura ou do comprimento. No entanto, ainda para a mesma frase, não desdenharia nem torceria o nariz se um colega se saísse com um “nadei até a outra margem do rio”.

Assim, o que se coloca é a naturalidade da língua, a fluência, o uso. E não apenas a fluência no português, mas em primeiro lugar a fluência na língua de partida. É fluente dizer “I swam across the river” em inglês? Sim, tremendamente. É usual. É fluente dizer “Eu nadei através do rio” em português? Não, nem um pouco. É estranho.

Então, onde a tradução se faz mais visível? Em “Eu nadei através do rio” ou em “Atravessei o rio a nado”? Claro que no primeiro caso. Fica visível a estrutura do original, fica evidente o decalque.

Mas não foi justamente aqui que o tradutor tentou não deixar sua marca, tentou ficar invisível? Sim, com quase toda certeza sim. E não foi justamente aqui que seu trabalho de tradução ficou mais visível? Sim, com toda certeza. Inversamente, na solução“atravessei o rio a nado” ou mesmo na mais puxada “nadei até a outra margem do rio”, ambas resultantes de uma intervenção mais marcada do tradutor, seu trabalho se faz menos visível ou mesmo praticamente invisível: como dizem, “nem parece uma tradução”.

Portanto, num paradoxo que me parece interessante, teríamos que o trabalho consciente do tradutor, ao elaborar atentamente seu modo de atuação e imprimir decididamente sua marca no texto, tem muito maior probabilidade de alcançar em sua tradução uma fluência similar à fluência do texto de origem. Dito em outros termos: quanto mais claro e consciente for o trabalho de imprimir no texto de tradução sua marca pessoal, mais invisível será o processo da operação tradutória no resultado final.

Naturalmente, o pressuposto aqui, e que não tivemos muita ocasião de explorar durante minha apresentação, é que, pelo menos num nível simples e básico, estou considerando a chamada “invisibilidade” da operação tradutória como um valor positivo, capaz de ser alcançado com maior segurança pelo exercício sistemático de imprimir um perfil pessoal na tradução, tendo como um dos principais critérios para guiar as escolhas a preservação do tipo de fluência presente no texto de partida.


veja também:


imagem: drowning
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colóquio de tradução na unimep: autoria e responsabilidade

prosseguindo o relato de minha participação no colóquio em piracicaba:


Consideramos então que estava suficientemente demonstrada a impossibilidade de existir uma tradução única, mesmo de um trecho curto e simples – a menos, claro, que decidíssemos que nove alternativas eram ruins e apenas uma era boa, e aí a questão seria apresentar e justificar os critérios para esse juízo. Como não vimos nenhum critério capaz de sustentar essa hipotética decisão, fomos em frente, aceitando a existência de várias alternativas plenamente viáveis e aceitáveis para a tradução daquele trecho.

Essa marca pessoal que cada um dos participantes imprimiu em sua tradução é que, argumentei eu, constitui a base para o reconhecimento jurídico – desde o século XIX – do tradutor como autor de uma obra dotada de identidade própria. Assim, tradução é obra: é derivada de uma obra originária, claro, mas nem por isso deixa de ser, em sua esfera própria e limitada, uma obra pessoal, original, intransferível. Por outro lado, isso não tem nada a ver com "co-autoria", que são outros quinhentos. Uma tradução não é uma coautoria, a despeito do que alguns possam pensar - é simplesmente uma "obra derivada". Anule-se essa identidade, anular-se-á a figura moderna do tradutor. Que seja, isso sempre pode ocorrer, e os conceitos de autor e autoria também são historicamente datados e determinados.

Pois o que importa é que os fundamentos para que o tradutor seja juridicamente definido como pessoa portadora de direitos de autor têm uma anterioridade não só histórica, mas lógica, que independe dessa sua definição jurídica: mantêm-se os mesmos, quer o tradutor seja tido como autor ou não. Eles consistem justamente no fato inescapável de que cada obra de tradução tem uma identidade própria. E essa identidade própria decorre, evidentemente, das marcas pessoais que o tradutor imprime em seu texto, derivado do texto de origem.

E aqui chegamos a um ponto que me parece central: se por um lado as marcas pessoais de uma obra de tradução lhe conferem identidade própria, por outro lado é evidente que o tradutor é responsável pelo menos por uma parte das características presentes em seu texto de tradução. Neste sentido, entendo que negar ou querer abolir as marcas pessoais que imprimimos em nossa tradução é abdicar ou se esquivar à responsabilidade que temos por aquele texto que escrevemos.

Assim é que, em meu entender, o postulado de que uma boa tradução não guarda ou não deveria guardar a marca pessoal do indivíduo tradutor, além de ingênuo e dogmático, vem acompanhado também de uma espécie de apologia da irresponsabilidade. No momento em que o indivíduo tradutor pensa que, ao traduzir, pode se abster de deixar sua marca pessoal no texto de tradução, ele se exime de responder pelo que faz: coloca-se na posição de um mero instrumento transmissor supostamente neutro [e é claro que mesmo esta imagem é enganosa, pois não existe meio, qualquer que seja, que não exerça interferência na transmissão]. Mas, seja qual for a imagem, essa abdicação da responsabilidade por nosso texto de tradução muitas vezes se expressa na batidíssima frase, incrivelmente obscura e abstrusa, que já ouvi invocada várias vezes para justificar uma escolha X ou Y num trabalho de tradução: “está assim no original” ou "é assim que está no original”.

Mas aí eu pergunto: e o que significa “está assim no original”? Pois é exatamente disso que se trata: um texto traduzido NÃO ESTÁ ASSIM no original. O texto traduzido está como o tradutor o redigiu a partir do texto de origem, passando pelos mais variados e diversos níveis de apreensão, interpretação e escolha. E é esta a responsabilidade do tradutor: na medida de suas limitações pessoais e determinações histórico-culturais, tentar perceber como está traduzindo, qual partido está adotando. Até onde consigo entender, a maneira mais coerente de nos responsabilizarmos por nossos textos de tradução é reconhecer que eles são construídos a partir de critérios e escolhas que adotamos perante os textos de origem. E aí é melhor saber do que não saber quais são eles, não é mesmo?

(continua aqui)

imagem: burmadigest.com
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colóquio de tradução na unimep: marcas

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O colóquio de tradução em Piracicaba, na Unimep, foi muito legal. O tema central foi algo mais ou menos como a presença de um tradutor em seu texto, voluntária ou não, consciente ou não.

Como minhas exposições costumam ser de tipo “agonístico”, isto é, adotando como ponto de partida um argumento contrário, tomei como pano de fundo uma posição tradutória que ainda hoje no Brasil afirma que uma boa tradução não traz ou não deveria trazer a “marca pessoal” do tradutor.

Considero esse tipo de concepção, além de ingênuo, simplesmente insustentável, uma impossibilidade lógica, ontológica, empírica, o que for. Pois é evidente que toda tradução* carrega a marca de quem a escreveu: seja em termos históricos e culturais, seja em termos estilísticos e estruturais, seja no simples plano mais imediato da escolha vocabular. E isso me parece tão evidente que dispensa maiores argumentações.

* Na ocasião, tratamos do campo específico de tradução literária e de humanidades, mas alguns aspectos provavelmente se aplicariam também a traduções técnicas e científicas.

Em todo caso, num exemplo simples, basta pensar nas inúmeras traduções de Shakespeare em língua portuguesa. Se se supusesse possível uma tradução sem a “marca pessoal do tradutor” e, ademais, que essa hipotética ausência de marca fosse um valor positivo, teríamos que apenas uma delas seria “boa”. Aí, secundariamente, teríamos até uma outra questão, a meu ver bastante engraçada e talvez crucial: quem determinaria, entre essas diversas traduções, qual é a “impessoal” e, por extensão, “boa”? (É claro que aqui estamos falando de traduções com um mínimo de proficiência linguística.)

O público presente no colóquio era composto por estudantes da graduação e do pós em língua inglesa e tradução. Para preparar a demonstração prática de meu argumento contra a ideia da “neutralidade” ou impessoalidade de qualquer texto de tradução literária e de humanidades, pedi a dez dos presentes que traduzissem ali na hora o parágrafo inicial de Walden – a escolha do trecho foi meio arbitrária: minha tradução dessa obra acabava de ser publicada pela L&PM e, embora eu ainda não tivesse visto o livro impresso, estava com ela na cabeça. São poucas linhas bastante simples:
When I wrote the following pages, or rather the bulk of them, I lived alone, in the woods, a mile from any neighbor, in a house which I had built myself, on the shore of Walden Pond, in Concord, Massachusetts, and earned my living by the labor of my hands only. I lived there two years and two months. At present, I am a sojourner in civilized life again.
Como era de se prever, entre as dez traduções não havia duas iguais e, sob um microscópio, nem remotamente parecidas. Tirando um mínimo deslize em um ou dois casos, todas davam conta do recado. Some-se a isso que há três traduções brasileiras de Walden, também bastante diferentes entre si. Qual, então, seria a “boa”? Qual não traria a “marca pessoal” do tradutor? Um problema.


O que quero dizer é que as linhas tradutórias que invocam uma suposta objetividade ou impessoalidade da obra de tradução são, por trás de sua ingenuidade de superfície, tremendamente normativistas e balizadas por critérios nada transparentes. Pois, para escolher uma entre treze alternativas com graus equivalentes de proficiência, há de se empregar algum critério. E se, para escolher uma delas (“esta aqui é a boa”), invoco como critério uma pretensa impessoalidade (“e é a boa porque não tem a marca pessoal de quem a fez”), estou, em primeiro lugar, ocultando o fato de que HÁ, sim senhor, uma marca pessoal - tanto é que ela não se confunde com as outras doze, que também são inconfundíveis entre si. Mas, em segundo lugar e principalmente, não estou deixando claro qual é o critério que me faz escolher esta e não outra. Se o critério não é claro, ele não pode ser entendido, avaliado, julgado, aceito ou refutado: em suma, é dogmático. Esse ocultamento dos critérios para a escolha de uma alternativa – ao pretexto meramente postulado, mas indemonstrado, de que uma boa tradução não poderia ou não deveria trazer marcas pessoais do indivíduo tradutor – constitui, a meu ver, um dos principais problemas que uma tradução minimamente proficiente enfrenta na atualidade editorial brasileira. Mas este já é outro problema.

continua aqui.

mutatis mutandis, descobriu-se que a impressão digital ajuda a detetar texturas delicadas e pequenos objetos por meio do tato. neste sentido metafórico da "digital" que o tradutor imprime em seu texto, quem sabe a prévia atenção voluntária e deliberada às marcas pessoais que inevitavelmente deixaremos em nossas traduções não poderia contribuir para uma detecção mais apurada de elementos presentes na obra originária? veja aqui.

imagem: tato apurado
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desmemórias desmioladas

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entre minhas pesquisas vêm aparecendo algumas ocorrências esdrúxulas: são obras de tradutores bastante conhecidos, mas que algumas editoras publicam em nome de outros tradutores também bastante conhecidos.


as notícias sobre essas surpreendentes trocas de nomes estão dispersas no blog. reúno-as aqui, com os links para seus respectivos posts. são elas:

- tradução feita por mário quintana e atribuída a galeão coutinho: zadig, de voltaire, pela itatiaia - link e link
- tradução feita por berenice xavier e atribuída a brenno silveira: william wilson, de edgar allan poe, pela bestbolso (grupo record) - link
- tradução feita por oscar mendes e milton amado e atribuída a brenno silveira: nunca aposte sua cabeça com o diabo, de edgar allan poe, pela civilização brasileira e pela bestbolso (ambas do grupo record) - link
- tradução feita por ruth guimarães e atribuída a isa silveira leal: o subsolo, a árvore de natal na casa de cristo, mujique marei, de dostoievski, pela martin claret - link e link

não são casos de plágio de tradução - seria inconcebível e nem faria sentido -, e sim atribuições grotescamente errôneas. entendo que as editoras estão pecando por irresponsabilidade, criando confusão e dando motivos para que algum leitor, em algum momento, seja levado a considerar mário quintana, brenno silveira e isa silveira leal como meros copistas de traduções alheias. fica aqui o alerta.

imagem: espirais
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1 de dez. de 2010

thoreau, walden



muito legal a edição de walden da l&pm.
fiquei muito feliz em fazer essa tradução.
segue abaixo a entrevista que a l&pm publicou em seu site.

01/12/2010


Um mergulho em Walden: a tradutora Denise Bottmann conta como foi traduzir Thoreau

Por L&PM

Denise Bottmann mergulhou em Walden, o lago em cujas margens viveu Thoreau. Descobriu um texto mais profundo do que aquele lido na adolescência – sua “bíblia juvenil”. E nadando entre a complexidade, o senso de humor, a variação de recursos e os trocadilhos do escritor, só respirou aliviada quando a tarefa de traduzir Walden estava cumprida. O que ela sentiu antes, durante e depois dessa aventura (de certa maneira, tão solitária como a de Thoreau) você lê aqui. Em uma entrevista que também revela a natureza de ser tradutor.

L&PM - Qual foi o primeiro sentimento que lhe ocorreu quando você foi convidada para traduzir Walden e como foi o processo de tradução da obra?

Denise Bottmann: Quando a L&PM me convidou para fazer o Walden, fiquei encantada. Afinal, é um dos monumentos do pensamento oitocentista americano, obra que mesmo no século XX ainda guardava fortes ressonâncias e intenso apelo entre a contracultura dos anos 60 e 70, afora sua revitalização entre as correntes ecológicas contemporâneas. Acrescia-se a isso que Walden tinha sido uma espécie de ícone pessoal para mim, em meus 17-18 anos de idade. Então tomei o convite não só como uma honra, mas também quase como uma revisita à minha adolescência.

Mas aí, quando comecei a tradução, foi uma surpresa. O Walden com o qual eu andava para cima e para baixo, minha bibliazinha juvenil, era uma tradução, e eu não conhecia o original. Foi quando me dei conta da complexidade do texto, sua tessitura, seus recursos de estilo, seu fenomenal senso de humor, as variações de registro (coloquial, solene, sentencioso, humorado – e também oral, pois ele utilizou anotações de palestras que deu em Concord depois de sair de Walden), a quantidade de trocadilhos e jogos de palavras, as infinitas referências bíblicas, literárias, filosóficas, históricas, regionais, biográficas, a precisão descritiva e terminológica ao tratar da flora e da fauna, além da própria história da redação de Walden (foram sete anos que Thoreau passou escrevendo e reescrevendo, alterando, burilando, trabalhando o texto - até atingir sua forma final, foram nada menos que cinco versões!).

L&PM - Você leu apenas o original em inglês ou leu também a tradução anterior em português, que já havia saído no Brasil?

Denise Bottmann: Para a tradução, usei várias edições americanas comentadas, que contribuíram para elucidar muitos aspectos e elementos dessa complexa construção que é Walden. Nem sempre leio traduções anteriores, mas neste caso achei que seria importante ver o tipo de tratamento dado à obra. No Brasil, tinham sido publicadas duas traduções diferentes, uma de E. C. Caldas, nos anos 1960, pela Ediouro, e a outra de Astrid Cabral, nos anos 1980, pela Global. A de Astrid (que eu não conhecia), li atentamente. Seu tratamento não tem uma ênfase propriamente "referencial" ou "estilística", que foi o partido que adotei, e sua leitura constituiu uma surpresa muito agradável: é um trabalho sério, íntegro, esforçado, de visível dedicação ao texto. A de Caldas (que era minha bíblia adolescente) não se prestou muito a uma releitura mais, digamos, "técnica" e não me dediquei muito a ela.

L&PM - Você considerou essa tradução mais complexa que outros livros que você já tinha traduzido? O que foi mais difícil no processo de tradução?

Denise Bottmann: Ah, todo ele. É um livro incrivelmente elaborado, bastante opaco, e mesmo os comentadores a que recorri não têm plena clareza de várias passagens, e muitas referências continuam abertas a interpretações variadas. Algumas continuam simplesmente inexploradas, pelo menos entre os estudos que consultei. Sinceramente, trata-se de uma das traduções mais complexas que enfrentei em 25 anos de ofício. Um desafio sem tamanho. Um encanto e uma emoção constantes. Eu pretendia fazer uma tradução anotada, mas acabamos considerando que não seria o caso. Então torço para que o texto seja pelo menos legível e agradável, porém à primeira vista será inevitavelmente um tanto opaco ao leitor - mas tenho certeza também de que poderá se revelar como um manancial de descobertas a se fazerem lentamente, desapressadamente, pelo leitor mais atento, mais amoroso. Pelo menos as pistas estão lá, e tentei preservá-las ao máximo.

L&PM - Quanto tempo durou a tradução de Walden?

Denise Bottmann: O triplo do que eu tinha calculado, pois inicialmente eu pensava que se tratava de uma obra de complexidade média, normal. Felizmente a editora entendeu e concedeu todo o prazo que eu julgasse necessário. Foram seis meses, trabalhando de 10 a 12 horas por dia.

L&PM - O livro contém alguns poemas de Thoreau. Nessas situações você optou por deixar o original embaixo da tradução. Qual é a diferença de traduzir poesia e prosa?

Denise Bottmann: A questão é complexa: há toda a diferença do mundo, são coisas totalmente distintas. Mas, como o próprio original trazia alguns poemas em latim e as traduções de Thoreau ou de outros autores para o inglês, pareceu-me que seria interessante o leitor acompanhar as diversas variações. E com isso pareceu razoável manter o texto das outras poesias, mesmo quando eram em inglês. Mas não fiz uma tradução "poética" dos poemas - e que, de todo modo, são em sua maioria razoavelmente simples -, pois na verdade não tenho esse traquejo.

L&PM - Qual a primeira pessoa que leu a tradução?

Denise Bottmann: No caso de Walden, que foi uma experiência surpreendente, conversei muito com Federico Carotti, meu marido. Ele acompanhou de perto minhas pesquisas e soluções ao longo dos meses, e depois lemos duas vezes toda a obra em voz alta, acompanhando pelo original. Ele ajudou a arredondar a coisa, a aprimorar o texto em inúmeras passagens e, o mais importante, a checar e conferir as costuras que geralmente não aparecem ou, pelo menos, não deveriam aparecer na superfície do texto, mas que são os elementos que fazem a amarração, isto é, que mantêm unido o arcabouço que dá sustentação interna à obra. Foi um apoio inestimável.

L&PM - De que forma o trabalho de tradução influencia na sua vida? A história que estás traduzindo é capaz de mudar alguma coisa na sua visão de mundo?

Denise Bottmann: Naturalmente, toda tradução é enriquecedora, ajuda a tornar nossa visão das coisas menos simplista, mostra outras formas de estar no mundo e sempre se aprende muito. No caso de Walden, para além do conteúdo mais "metafísico", aprendi bastante sobre as antigas práticas de taubilhamento e emboçamento, hábitos de aves e peixes, técnicas de corte e empilhamento de gelo, usos de época etc. Mas, tirando a brincadeira, quando a atividade principal de nossa vida é traduzir obras teóricas ou reflexivas, naturalmente deve se processar alguma alquimia psíquica da qual a gente não se apercebe. E sem dúvida a gente sempre reflete sobre os argumentos do autor, tenta entender, concorda, discorda, dialoga etc.

L&PM - Há os que dizem que o livro suscita uma leve melancolia. Thoreau, entretanto, disse que não pretendia “escrever uma ode à melancolia, e sim trombetear vigorosamente como um galo ao amanhecer”. Que sentimentos Thoreau despertou em você com Walden?

Denise Bottmann: Aliás, essa frase que é usada como epígrafe do livro é muito bonita e por si só mereceria vários desdobramentos. As referências mais diretas, quando ele fala em "uma ode à melancolia" [an ode to dejection], remetem explicitamente a Dejection: an Ode, de Coleridge, e também a Keats, com sua Ode on Melancholy. Desse ponto de vista, é interessante considerar como os grandes expoentes do romantismo inglês aqui se entretecem discretamente. É muito lindo esse trecho: está presente nele o louvor de Thoreau à manhã, não só em termos naturais, mas como metáfora do vigor da vida, da energia espiritual. A frase continua: "... um galo ao amanhecer, no alto de seu poleiro, quando menos para despertar seus vizinhos" - e já se nota a lavra estilística extremamente visual de Thoreau, mesclando registros do elevado ao coloquial, de entremeio com tons cômico-irônicos e um laivo crítico levemente desapiedado. Há também e sobretudo a clara expressão de que Thoreau entendia como missão "sacudir" seus semelhantes, arrancá-los à rotina estreita e filistina que ele tanto abominava, para abri-los à plenitude da existência, tal como se manifesta no amanhecer. Não à toa, ao dar por concluída sua tarefa de "galo" de despertar o próximo, anunciada na epígrafe, Thoreau encerra o livro retomando a imagem do alvorecer e o chamado para a vida: "Só amanhece o dia para o qual estamos despertos. O dia não cessa de amanhecer. O sol é apenas uma estrela da manhã."

Pessoalmente, pouco tenho em comum com essa concepção transcendentalista que Thoreau compartilhava com seu círculo mais próximo, e minha relação com as obras do pensamento não passa necessariamente, nem essencialmente, pelo aspecto mais, digamos, emotivo ou doutrinário. Mas considero interessantíssimo o percurso intelectual de Thoreau, que conseguiu escapar, a meu ver, de uma perspectiva tendencialmente farisaísta que às vezes transpira ou até transborda dos textos de outros transcendentalistas de linhagem unitarista. Penso especialmente em Emerson, que foi uma espécie de mentor seu. O grande contraponto a Emerson, em Walden, é Amos Bronson Alcott, o naturalista, filósofo e pedagogo (pai de Louisa May Alcott, a futura autora de As mulherzinhas) sobre quem Thoreau discorre quase com veneração no final do capítulo "Antigos Habitantes e Visitas Invernais" - aliás, quando ele se refere a Alcott como "Velha Mortalidade, ou melhor, Imortalidade", temos uma das mais manifestas remissões a Pilgrim's Progress, que tanto se multiplicam menos explicitamente na obra. Aliás, cabe lembrar que uma das fontes para o estilo de pregação adotado em extensas passagens de Walden é a obra de Bunyan. Interessante notar nessa luta contra a tendência excessivamente doutrinária e normativista do transcendentalismo de seus companheiros: tem-se que, embora o terreno onde se instalou Thoreau em Walden pertencesse a Emerson, as referências a ele em Walden geralmente são bastante cáusticas e pelo menos em uma ocasião quase beiram o ofensivo.

L&PM - “Vivemos mesquinhamente, como formigas, embora conte a fábula que fomos transformados em homens muito tempo atrás; como pigmeus, lutamos com grous; é erro sobre erro, remendo sobre remendo; e nossa melhor virtude tem como causa uma miséria supérflua e desnecessária. Nossa vida se perde nos detalhes.” Neste trecho, Thoreau fala sobre a simplicidade e a forma como vivemos. O livro fez com que você mudasse de alguma maneira a sua forma de ver e entender e perceber o entorno?

Denise Bottmann: Não, de maneira nenhuma. Como disse antes, minha relação com obras de reflexão e doutrina é mais de tipo abstrato, não entendo a leitura como forma de "edificação moral", e ademais estou longe de compartilhar dessa linhagem em que se insere Thoreau, no fundo bastante dogmática e um tanto arrogante. Mas considero muito interessante esse desenvolvimento especificamente "ianque", digamos assim, e julgo que Thoreau teve uma contribuição para o pensamento moral americano que nem sempre é plenamente percebida. O puritanismo da Nova Inglaterra nessa versão "thoreauísta" me parece possuir uma força moral que ainda hoje guarda um certo frescor de autenticidade, digamos assim, capaz de exercer um certo apelo em jovens espíritos dispostos a aceitar diretores de consciência. Esse trecho que você cita é muito bonito: a referência à fábula remete a Aeacus, rei da Enópia, filho de Júpiter. Quando seu reino foi devastado pela peste, ele pediu ao pai que o repovoasse transformando em homens as formigas que viviam num tronco de carvalho. E a luta entre os pigmeus e os grous foi extraída da Ilíada, aliás o único livro que Thoreau levou para Walden... Acho todo esse entrelaçamento de imagens muito bonito, e nesta passagem é feroz sua crítica frontal à hipocrisia da religião estabelecida, que ele acaba de arremedar na frase imediatamente anterior.

Agradeço muito à L&PM pela oportunidade. Em resultado do trabalho e das pesquisas em torno dessa tradução, acabei achando que aqui no Brasil não temos muito ideia da complexidade e amplitude do pensamento de Thoreau. Penso até em escrever alguma hora uma série de artiguinhos temáticos, tipo "lendo Walden".

aqui o link para a entrevista no site. acho que exagerei um pouco no tempo da tradução: foram quatro meses, de agosto a novembro de 2009, intensos!
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história da tradução no brasil

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para combater a desmemória cultural, recomendo:


estudo de sônia maria de amorim, em busca de um tempo perdido, com minucioso levantamento das obras de tradução literária publicadas pela editora globo entre 1930 e 1950.
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30 de nov. de 2010

a dúvida existencial do livro

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existirmos, a que(m) será que se destina?


liquidação de estoque (a propósito do caso de chantal dalmass).

verso: caetano, cajuína; imagem: fahrenheit 451
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29 de nov. de 2010

coleção folha, descartes II

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em coleção folha, descartes I, comentei minha surpresa quanto à [falta de] qualidade da tradução do discurso sobre o método, de norberto de paula lima, licenciada pela editora hemus para a coleção folha "livros que mudaram o mundo".

além do discurso sobre o método, o volume de descartes nesta coleção traz princípios de filosofia, em tradução de torrieri guimarães, também licenciada pela hemus para a coleção folha.


a tradução de princípios de filosofia não é tão trôpega, mal revista e truncada como a do discurso sobre o método de norberto de paula lima. é verdade que não se destaca pela clareza nem é propriamente bonita ou contextualizada - traz um "estapafúrdias" para um simples "extravagantes", p.ex. [II, art. 7] -, mas à primeira vista não seria letal.

no entanto, não me pareceu muito justificável encontrar, no primeiro artigo do texto (I, 1), plusieurs jugements ... nous préviennent de telle sorte como "diversos juízos ... de tal modo nos fazem confiantes", numa solução não muito evidente, e não sei até que ponto correta. aliás, este deslize eu também conhecia na tradução de alberto ferreira, pela portuguesa guimarães editores, dos anos 60: "vários juízos ... de tal maneira nos tornam confiantes".

outra passagem de tradução que me pareceu injustificável foi I, 3. aqui transcrevo o trecho original para mostrar melhor a questão (destacada em negrito):

en ce qui regarde la conduite de notre vie nous sommes obligés de suivre bien souvent des opinions qui ne sont que vraisemblables, à cause que les occasions d’agir en nos affaires se passeraient presque toujours avant que nous pussions nous délivrer de tous nos doutes; et lorsqu’il s’en rencontre plusieurs de telles sur un même sujet, ... la raison veut que nous en choisissions une, et qu’après l’avoir choisie nous la suivions constamment, de même que si nous l’avions jugée très certaine. 
... em tudo quanto diz respeito à orientação de nossa existência, encontramo-nos, muitas vezes, obrigados a seguir opiniões somente verossímeis, visto que as oportunidades de agir nos negócios passariam em geral antes que pudéssemos nos livrar de todas as dúvidas. E quando se acham diversas dessas oportunidades de agir a propósito de um mesmo tema, ... a razão requer que façamos a escolha de uma delas e que, depois de feita a escolha, a sigamos com firmeza como se a tivéssemos considerado muito certa. 
 sem dúvida isso indica uma certa insuficiência de torrieri guimarães no entendimento da língua e do próprio argumento de descartes.* por outro lado, o próprio alberto ferreira caíra no mesmo engano cerca de cinquenta anos atrás:
... em tudo aquilo que respeita à orientação da nossa vida, nos achamos, muitas vezes, forçados a seguiropiniões apenas verosímeis, dado que as ocasiões de agir nos negócios se escoariam quase sempre antes de nos libertarmos de todas as dúvidas. E quando se encontram várias dessas ocasiões de agiracerca de um mesmo assunto ... a razão exige que escolhamos uma delas e que, após tê-la escolhido, a sigamos firmemente como se a tivéssemos julgado certíssima.
[secundariamente, note-se uma inflexão interessante, em que se passa de constamment para "firmemente" e "com firmeza".]

descartes continua (I, 4): Mais, d’autant que nous n’avons point maintenant d’autre dessein que de vaquer à la recherche de la vérité, nous douterons en premier lieu... ele tinha dito logo antes: na condução de nossos afazeres, a gente não tem tempo de ficar avaliando todas as opiniões, a gente escolhe uma delas e manda bala. mas aqui (quer dizer, filosofando) nosso único objetivo é buscar a verdade, sem precisar sair correndo para atender à pressão do momento e se baseando numa opinião meio duvidosa; então não faz mal levar o maior tempo para ficar pensando, avaliando, duvidando etc. - ou seja: "mas, dado que [visto que] agora não temos nenhum outro desígnio a não ser nos dedicar à busca da verdade etc." - simples, claro, evidente, não?


torrieri guimarães nos dá: "contudo, a fim de que outro propósito agora não nos ocupe, senão aquele de nos entregarmos à pesquisa da verdade, etc." - tsc, tsc... aliás, alberto ferreira também já tinha nos dado: "mas, para queoutro desígnio agora nos não ocupe a não ser o de nos aplicarmos à investigação da verdade, etc."


pois, retomando a cadeia argumentativa, descartes tinha dito que não ia se pôr a duvidar sem mais de tudo e de todos, e sim apenas quando começasse a contemplar a verdade pra valer: "je n’entends point que nous nous servions d’une façon de douter si générale, sinon lorsque nous commençons à nous appliquer à la contemplation de la vérité" (ainda em I, 3). entendre - e mesmo "entender" em português - também significa "intentar", "tencionar", "ter a intenção de".

alberto ferreira: "de modo nenhum entendo eu que nos sirvamos de forma tão geral de duvidar, etc."; torrieri: "de nenhum modo compreendo que nos sirvamos desse modo tão generalizado de duvidar, etc." 

ou: recevoir en notre croyance (I, 6); "receber, em nossa convicção" (a. ferreira); "receber, em nossa convicção" (torrieri)


ou: nous ne saurions nous empêcher de croire que cette conclusion: Je pense, donc je suis, ne soit vraie (I, 7); "não poderíamos impedir-nos de acreditar que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja verdadeira" (a. ferreira); "não poderíamos obstar-nos de crer que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja exata" (torrieri).

um exemplo final (III, 12): Ceux qui n’ont pas philosophé par ordre ont eu d’autres opinions sur ce sujet, parce qu’ils n’ont jamais distingué assez soigneusement leur âme... foi inexplicavelmente [in]vertido como "Os que filosofaram por ordem, colocaram outras opiniões a respeito deste assunto, razão pela qual jamais distinguiram, com suficiente cuidado, a sua alma", ademais invertendo também a relação causal expressa em parce que. diga-se de passagem que alberto ferreira também incide nesse surpreendente equívoco: "Aqueles que filosofaram por ordem, formularam outras opiniões sobre este assunto pelo que nunca distinguiram, com bastante cuidado, a sua alma".



resumindo: o vocabulário usado nas duas traduções apresenta várias diferenças; alberto ferreira tenta manter um registro próximo ao do original; torrieri parece se afastar com maior frequência, mesmo em termos simples (nous empêcher = obstar-nos, p.ex.), preferindo se mover num registro mais, digamos, empolado. o que chama a atenção são os erros ou desvios do original que aparecem nas duas traduções. não digo que torrieri guimarães tenha copiado literalmente alberto ferreira, mas não me parece muito provável que o mesmo tipo de estruturação sintática, os mesmos erros e inflexões similares se repitam em duas traduções diferentes. 

ao mostrar alguns dentre vários exemplos de equívocos presentes na tradução de torrieri, meu intuito é sustentar que, mesmo que fosse legítimo e normal recorrer a traduções anteriores (no caso, a de alberto ferreira), supostamente procurando amparo em sua autoridade, nem por isso tais erros deixariam de ser erros capazes de comprometer gravemente a leitura e o bom entendimento do texto de descartes.


fica, de novo, uma chamada para o grupo folha: os leitores merecem mais.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

piero della francesca e carlo ginzburg

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amanhã, dia 30, a partir das 19,30 h, o historiador carlo ginzburg estará na livraria cultura do shopping villa-lobos, para o lançamento de investigando piero, pela cosac naify, na tradução desta que vos fala.

para quem deseja acompanhar a discussão de ginzburg sobre piero, a referência indispensável é a belíssima obra de roberto longhi, piero della francesca, também pela cosac naify (2007) e com tradução desta que vos fala.


para os aspectos teóricos e metodológicos do modelo historiográfico proposto por ginzburg, e brilhantemente aplicado em investigando piero, indispensável o artigo "sinais: raízes de um paradigma indiciário", em mitos, emblemas, sinais, na tradução de federico carotti, pela companhia das letras (1989).
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