12 de jul. de 2010

programa mais cultura


como escrevi em legal!, a fbn publicou os relatórios da seleção de livros a ser adquiridos para o programa mais cultura.

dei uma boa espiada nos três relatórios, em todas as abas, chequei os títulos, verifiquei as editoras com histórico de ishpertezas, e há duas obras selecionadas que achei questionáveis. são elas: madame bovary, de flaubert, e ética a nicômaco, de aristóteles, ambas publicadas pela editora martin claret.

minhas objeções são as seguintes:

- no caso de madame bovary, a tradução é devidamente creditada a araújo nabuco. minha dúvida, porém, é se a edição é legítima ou se há o risco de ser uma contrafação, isto é, uma reprodução não autorizada pelos herdeiros de araújo nabuco, guardiães de seus direitos. em vista da presença de variadas contrafações no catálogo da editora martin claret, espero que a fbn tenha tido o cuidado de confirmar a legitimidade da publicação dessa obra.

- já o caso da ética a nicômaco não deixa margem a muitas dúvidas: ao que tudo indica, parece tratar-se de cópia adulterada da tradução de leonel vallandro e gerd bornheim feita a partir da edição inglesa, na célebre tradução de ross. o cotejo foi publicado no post ética a nicômaco, e a semelhança já tinha sido anunciada em pietro nassetti em pdf.

10 de jul. de 2010

leitura edificante


em guesa errante, o suplemento cultural maranhense cujo nome homenageia sousândrade, temos mais um exemplo da infiltração das irregularidades da editora martin claret. abaixo, a pretensa tradução de pietro nassetti de dois poemas de baudelaire, em verdade tradução de jamil almansur haddad.



como bem nos alerta o poeta, crítico e tradutor ivo barroso desde 2002 em flores roubadas de jardim alheio, essa pretensa tradução de flores do mal de baudelaire, em nome de pietro nassetti, não passa de cópia disfarçada da tradução feita por jamil almansur haddad (1914-1988) nos anos 1950. vejamos como ele examina precisamente o hino à beleza, estampado na página do guesa errante:
Tomemos por exemplo o poema “Hino à Beleza”, dos mais característicos do estilo baudelairiano, com seus termos específicos e construções originais. As três primeiras quadras são iguais, ipsis litteris, coincidência que seria impossível de obter-se mesmo no caso de uma prova de tradução à qual se habilitassem centenas de candidatos. “Infernal et divin” é traduzido por ambos como “celestial e daninho”; “le couchant et l´aurore” por “matutina e noturna” e o verso “Qui font le héros lâche et l´enfant courageux” é impressionantemente resolvido da mesma forma: “Se à criança dão valor, tornam o herói covarde”. E naquele que encerra o terceiro quarteto: “Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien” – o copiador chegou a incidir no mesmo erro de interpretação do seu modelo, traduzindo “réponds” por “respondes”, quando a construção francesa “réponds de rien” equivale a “submeter-se a nada”. “Bénissons ce flambeau!” é “Bendito lampadário” em ambos e “tombeau” (túmulo) é transformado também por ambos em “sudário”.
para a alma do vinho de jamil almansur, ver:

A ALMA DO VINHO

Cantava a alma do vinho à tarde nas botelhas:
"Homem, eu ergo a ti, que és deserdado e triste,
De minha prisão vítrea e de ceras vermelhas,
Um canto fraternal que só de luz consiste!

Sei de quanto precisa a colina acendida
De amargura, de suor e do sol mais ardente
Para que esta alma seja e que eu palpite em vida;
Mas eu nunca serei ingrato ou inclemente,

Sempre sinto prazer imenso quando desço
Uma garganta humana usada de refregas,
Sempre um cálido peito é um sepulcro sem preço
Em que eu vivo melhor que nas frias adegas.

Ouves dominicais refrões bem como a Graça
Da esperança que vibra em meu seio fremente?
Apóia as mãos à mesa, as mangas arregaça,
Glorifica-me após e serás mais contente.

Acenderei o olhar de tua bem-querida;
Ao teu filho darei os músculos e as cores,
Serei para este fraco atleta desta vida
Óleo a robustecer bíceps de lutadores.

Eu tombarei em ti, vegetal ambrósia,
Precioso grão que atira o eterno Semeador,
Para que nosso amor desemprenhe a Poesia,
Brotando para Deus como uma rara flor!"

e o original é:

L'Ame du Vin


Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles:
«Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité!

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l'âme;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j'éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d'un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l'espoir qui gazouille en mon sein palpitant?
Les coudes sur la table et retroussant tes manches,
Tu me glorifieras et tu seras content;

J'allumerai les yeux de ta femme ravie;
À ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L'huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l'éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur!»

a edição espúria de "pietro nassetti" continua à venda em inúmeras livrarias, entre elas a livraria cultura, que insiste que aguarda ordem judicial para retirar as fraudes de seu catálogo de vendas. enquanto isso, acumulam-se os danos causados à leitura, à memória cultural e aos acervos do país. como fica?

para lembrar




quem são as pessoas que tiveram suas traduções, notas, introduções surripiadas:

a. ambrósio de pina, s. j.
adolfo casais monteiro
alberto ferreira
álvaro ribeiro
antónio ferreira marques
antonio piccarolo
antônio pinto de carvalho
araújo nabuco
artur morão
bandeira duarte
bento prado jr.
blásio demétrio
boris schnaiderman
brenno silveira
bruno da ponte
cabral do nascimento
carlos chaves
carlos graieb
carlos porto carreiro
casimiro fernandes
costa neves
e. jacy monteiro
eça de queiroz
erwin theodor rosenthal
eudoro de souza
eugênio amado
éverton ralph
fernando de aguiar
fernando carlos de almeida cunha medeiros
floriano de souza fernandes
francisco inácio peixoto
frederico ozanam pessoa de barros
galeão coutinho
gerd bornheim
godofredo rangel
guilherme de almeida
gulnara lobato
hebe caletti marenco
helga hoock quadrado
henrique marques ("pandemónio")
hernâni donato
ieda moriya
isabel sequeira
ivan emilianovitch schawirin
j. oliveira santos, s.j.
jacó guinsburg
jaime bruna
jamil almansur haddad
joão lopes alves
joão ângelo oliva neto
joão baptista de mello e souza
joão paulo monteiro
joaquim dá mesquita paul
joaquim machado
jorge camacho
josé duarte
josé tavares bastos
josé augusto drummond
josé laurênio de mello
josé marcos mariani de macedo
leila villas boas gouvêa
leonel vallandro
leonidas hegenberg
leonor de aguiar
líbero rangel de andrade
líbero rangel de tarso
ligia junqueira smith
liliana rombert soeiro
lívio xavier
lúcia miguel-pereira
lúcio cardoso
luís de andrade
luísa derouet
luiz costa lima
manuel dias duarte
manuel odorico mendes
marcílio marques moreira
marcos santarrita
margarida garrido esteves
maria beatriz nizza da silva
maria francisca ferreira de lima
maria helena rocha pereira
maria irene szmrecsányi
mário quintana
milton amado
moacyr werneck de castro
modesto carone
monteiro lobato
"n. meira"
natália nunes
neide smolka
octany silveira da mota
octavio mendes cajado
olinda gomes fernandes
orlando vitorino
oscar mendes
paulo m. oliveira
paulo quintela
paulo rónai
pedro josé leal
péricles eugênio da silva ramos
ricardo iglésias
rodrigo richter
sarmento de beires
sérgio milliet
silvio deutsch
silvio meira
sodré viana
suely bastos
tamás szmrecsányi
tomé santos júnior
vera pedroso
wilson lousada
wilson velloso
wladimir gomide
ymaly salem chammas

atualizado em 08/07/2010; em 10/09/10; em 28/6/11

9 de jul. de 2010

joão verde

apenas para constar no arquivo de cotejos disponíveis aqui no nãogostodeplágio, acrescento mais alguns exemplos sobre a origem das espécies, de darwin, na pretensa tradução de "john green", pela editora martin claret.

trata-se de uma montagem de duas traduções diferentes: nos capítulos iniciais, "john green" recorreu ao português joaquim dá mesquita paul;  a seguir e até o final do livro preferiu eugênio amado.

Abaixo transcrevo pequenos trechos iniciais no original em inglês, na antiga tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul e na pretensa tradução em nome de “John Green”.

A comparação com o texto em inglês permite ver como a tradução se distancia do original. E, comparando-se as duas traduções em português, vê-se como são quase idênticas, o que indica claramente que a pretensa tradução em nome de “John Green” é apenas uma cópia semidisfarçada da tradução de Dá Mesquita Paul.

1. Original:

The former seems to be much the more important; for nearly similar variations sometimes arise under, as far as we can judge, dissimilar conditions; and, on the other hand, dissimilar variations arise under conditions which appear to be nearly uniform. The effects on the offspring are either definite or in definite. They may be considered as definite when all or nearly all the offspring of individuals exposed to certain conditions during several generations are modified in the same manner. It is extremely difficult to come to any conclusion in regard to the extent of the changes which have been thus definitely induced. There can, however, be little doubt about many slight changes, such as size from the amount of food, colour from the nature of the food, thickness of the skin and hair from climate, etc. Each of the endless variations which we see in the plumage of our fowls must have had some efficient cause; and if the same cause were to act uniformly during a long series of generations on many individuals, all probably would be modified in the same manner. Such facts as the complex and extraordinary out growths which variably follow from the insertion of a minute drop of poison by a gall-producing insect, shows us what singular modifications might result in the case of plants from a chemical change in the nature of the sap.

2. Joaquim Dá Mesquita Paul
O primeiro destes fatores parece ser muito mais importante, porque, tanto quanto o podemos julgar, variações quase semelhantes se produzem algumas vezes em condições diferentes, e, por outro lado, variações diferentes se produzem em condições que parecem quase uniformes. Os efeitos sobre a descendência são definidos ou indefinidos. Podem considerar-se como definidos quando todos, ou quase todos os descendentes de indivíduos submetidos a certas condições de existência durante muitas gerações, se modificam da mesma maneira. É extremamente difícil especificar a extensão das alterações que têm sido definitivamente produzidas deste modo. Todavia, não se pode ter dúvida relativamente às numerosas modificações muito ligeiras, tais como: modificações no talhe provenientes da quantidade de nutrição; modificações na cor provenientes da natureza da alimentação, modificações na espessura da pele e suas produções provenientes da natureza do clima, etc.

Cada uma das variações indefinidas que encontramos na plumagem das aves das nossas capoeiras deve ser o resultado de uma causa eficaz; portanto, se a mesma causa atuasse uniformemente, durante uma longa série de gerações, sobre um grande número de indivíduos, todos se modificavam provavelmente da mesma maneira. Fatos tais como as excrescências extraordinárias e complicadas, conseqüência invariável do depósito de uma gota microscópica de veneno fornecida pelo cínipe, provam-nos que modificações singulares podem, entre as plantas, resultar de uma alteração química na natureza da seiva.

3. “John Green”:

O primeiro fator (natureza do organismo) parece ser muito mais importante. Tanto quanto podemos julgar, transformações quase idênticas se produzem algumas vezes em condições diferentes, e, por outro lado, variações desiguais se produzem em condições que parecem quase uniformes. Os efeitos sobre a descendência são definidos ou indefinidos. Consideram-se como definidos quando todos ou quase todos os descendentes de indivíduos submetidos a determinadas condições de existência durante muitas gerações modificam-se da mesma maneira. [Aqui falta uma frase inteira.] No entanto, não se pode duvidar das numerosas modificações superficiais, tais como modificações no porte provenientes da quantidade de nutrição, modificações na cor provenientes da natureza da alimentação, modificações na espessura da pele e suas produções provenientes da natureza do clima, etc. Cada uma das variações indefinidas que encontramos na plumagem das aves de nossos prados e matas deve ser o resultado de um efeito convincente. Portanto, se a mesma causa atuasse uniformemente durante uma longa série de gerações, sobre um grande número de indivíduos, provavelmente todos se modificariam da mesma maneira. Fatos como as excrescências complicadas, conseqüência invariável do depósito de uma gota microscópica de veneno fornecida pelo cínipe, provam-nos que modificações isoladas podem, entre as plantas, resultar de uma alteração química na natureza da selva. [sic]

Note-se em particular a última frase, em que “conseqüência invariável do depósito de uma gota microscópica de veneno fornecida pelo cínipe” em ambos os casos traduz “which variably follow from the insertion of a minute drop of poison by a gall-producing insect”, o que chega a ser risível.

1. Original:

All such changes of structure, whether extremely slight or strongly marked, which appear among many individuals living together, may be considered as the indefinite effects of the conditions of life on each individual organism, in nearly the same manner as the chill effects different men in an indefinite manner, according to their state of body or constitution, causing coughs or colds, rheumatism, or inflammation of various organs.

2. Joaquim Dá Mesquita Paul:

Poderiam comparar-se estes efeitos indefinidos aos efeitos de um resfriamento, que afeta diferentes pessoas de modos indefinidos, segundo o seu estado de saúde ou a sua constituição, traduzindo-se nuns por bronquite, noutros por coriza, neste pelo reumatismo, naquele pela inflamação de diversos órgãos. (p. 21)

3. "John Green":

Podemos comparar esses resultados indefinidos aos efeitos de um resfriado, que afeta diferentes pessoas de modo indeterminado, segundo seu estado de saúde ou sua constituição física, traduzindo-se em uns por bronquite, em outros por coriza, neste pelo reumatismo, naquele pela inflamação de um órgão qualquer e assim por diante. (p. 35)

Não menos risível é como "causando tosses ou resfriados" [causing coughs or colds] se transforma em ambos os casos em "traduzindo-se em[n]uns por bronquite, em[n]outros por coriza".

A tradução de Dá Mesquita Paul foi publicada em 1913 pela Lello & Irmãos, e tem sido reeditada constantemente, até hoje. Ela se encontra disponível em vários sites para download, entre outros: http://www.scribd.com/doc/25513543/A-Origem-Das-Especies-Charles-Darwin.

Em relação à tradução de Eugênio Amado, publicada pela EDUSP/Itatiaia (1985), eis alguns exemplos.

1. Original:

But just in proportion as this process of extermination has acted on an enormous scale, so must the number of intermediate varieties, which have formerly existed, be truly enormous. Why then is not every geological formation and every stratum full of such intermediate links? Geology assuredly does not reveal any such finely graduated organic chain; and this, perhaps, is the most obvious and serious objection which can be urged against my theory.

2. Eugênio Amado:

Todavia, na mesma proporção em que este processo de extermínio atuou em escala gigantesca, também deveria ter sido enorme o número de variedades intermediárias outrora existentes no mundo. Por que razão toda a formação geológica e toda a camada sedimentar não se encontram repletas destes elos? Com efeito, a Geologia não nos revela nenhuma cadeia orgânica interligada por elos contínuos, sendo esta, talvez, a objeção mais evidente e ponderável que se possa contrapor à minha teoria.

3. “John Green”:

Mas, na mesma proporção em que esse processo de extermínio atuou em grande escala, também deve ter sido muito grande o número de variedades intermediárias que existiram no mundo. Por que razão toda formação geológica e toda camada sedimentar não se encontram repletas desses elos? A Geologia não revela nenhuma cadeia orgânica interligada por elos contínuos, e nisso, talvez, é que consiste a objeção mais evidente e séria que se possa contrapor à minha teoria.

1. Original:

In the future I see open fields for far more important researches. Psychology will be securely based on the foundation already well laid by Mr. Herbert Spencer, that of the necessary acquirement of each mental power and capacity by gradation. Much light will be thrown on the origin of man and his history.

2. Eugênio Amado:

No futuro distante, visualizo novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes. A psicologia irá basear-se num fundamento novo, definido por Mr. Herbert Spencer, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental. Nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história.

3. “John Green”:

Entrevejo, em um futuro distante, novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes. A Psicologia se baseará num fundamento novo, bem definido pelo Sr. Herbert Spencer, ou seja, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental. Nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história.

Adendos:

- “John Green”. É flagrante a quase inexistência de referências a tal pessoa no mundo editorial brasileiro ou em consulta à Internet. Elas se resumem à pretensa autoria de tradução de duas obras, a já citada A origem das espécies e Memórias de Sherlock Holmes de Conan Doyle, pela mesma editora Martin Claret.

Diga-se de passagem que a tradução da obra de Conan Doyle em nome de “John Green” já foi apontada como apropriação ilícita de uma antiga tradução dos anos 1950, publicada pela Editora Melhoramentos, feita por Joaquim Machado. Veja aqui.


- "Chapa Fria": Ademais, como detalhe adicional, essa referida edição d'A origem das espécies pela Editora Martin Claret apresenta irregularidades até mesmo em seu cadastro na Agência Brasileira do ISBN, onde a autoria da tradução é atribuída a outro nome fictício, a saber, “Jean Melville”.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



8 de jul. de 2010

ética a nicômaco

num post de setembro de 2008, eu havia comentado o problema da ética a nicômaco, de aristóteles, na pretensa tradução de pietro nassetti (sim, o próprio), pela editora martin claret desde 2001. segue aqui um trecho comparativo (III, 10), colhido ao acaso, para ilustrar as adulterações praticadas na tradução de leonel vallandro e gerd bornheim (abril, os pensadores, 1979).

1. leonel vallandro e gerd bornheim



2. pietro nassetti

Depois da coragem, falemos da temperança, visto que estas parecem ser as virtudes da parte irracional da alma. Dissemos que a temperança é um meio-termo em relação aos prazeres (porque ela diz menos respeito ao sofrimento, e não se relaciona com ele do mesmo modo); e a intemperança também se manifesta nesta esfera. Vejamos, então, com que espécie de prazeres se relacionam ambas. Podemos fazer a distinção entre prazeres do corpo e prazeres da alma (como o amor à honraria e o amor ao conhecimento, por exemplo); de fato, quem ama uma dessas coisas sente prazer nessas coisas que ama, sem que o corpo de nenhuma maneira seja afetado, só a mente; mas com relação a tais prazeres, os homens não são chamados temperantes nem intemperantes; e tampouco em relação aos outros prazeres que também não são do corpo, pois os que se comprazem em ouvir e contar histórias ou passam os dias ocupa dos com trivialidades são chamados mexeriqueiros e não intemperantes; e igualmente aqueles que sofrem com a perda de dinheiro ou de amigos. A temperança deve, então, relacionar-se com os prazeres do corpo, mas não, porém, com todos, visto que os que se comprazem com objetos da visão, como as cores, as formas e a pintura, não são chamados temperantes nem intemperantes, embora pareça possível comprazer-se com essas coisas tanto do modo devido, quanto excessivamente e em grau insuficiente.

O mesmo vale para os objetos da audição. Ninguém chama de intemperantes os que se comprazem demasiadamente com a música ou as representações teatrais, nem de temperantes os que o fazem na medida justa. Também não aplicamos esses qualificativos aos que se comprazem com odores, a não ser incidentalmente; não chamamos de intemperantes os que se comprazem com o cheiro de maçãs, de rosas ou de incenso, mas sim os que sentem prazer em cheirar molhos e guloseimas; de fato, os intemperantes deleitam-se com essas coisas porque lhes trazem ao pensamento os objetos de seu apetite.

veja-se a tradução de ross que serviu de base ao texto de vallandro e bornheim:

Book 3, Chapter 10

After courage let us speak of temperance; for these seem to be the virtues of the irrational parts. We have said that temperance is a mean with regard to pleasures (for it is less, and not in the same way, concerned with pains); self-indulgence also is manifested in the same sphere. Now, therefore, let us determine with what sort of pleasures they are concerned. We may assume the distinction between bodily pleasures and those of the soul, such as love of honour and love of learning; for the lover of each of these delights in that of which he is a lover, the body being in no way affected, but rather the mind; but men who are concerned with such pleasures are called neither temperate nor self-indulgent. Nor, again, are those who are concerned with the other pleasures that are not bodily; for those who are fond of hearing and telling stories and who spend their days on anything that turns up are called gossips, but not self-indulgent, nor are those who are pained at the loss of money or of friends.

Temperance must be concerned with bodily pleasures, but not all even of these; for those who delight in objects of vision, such as colours and shapes and painting, are called neither temperate nor self-indulgent; yet it would seem possible to delight even in these either as one should or to excess or to a deficient degree.

And so too is it with objects of hearing; no one calls those who delight extravagantly in music or acting self-indulgent, nor those who do so as they ought temperate.

Nor do we apply these names to those who delight in odour, unless it be incidentally; we do not call those self-indulgent who delight in the odour of apples or roses or incense, but rather those who delight in the odour of unguents or of dainty dishes; for self-indulgent people delight in these because these remind them of the objects of their appetite.

aliás, engraçadíssima também a cópia de "mas sim os que sentem prazer em cheirar molhos e acepipes" (ou guloseimas) para but rather those who delight in the odour of unguents or of dainty dishes, reproduzindo fielmente um erro tanto mais tolo porque aristóteles retoma adiante o tema dos prazeres do tato à fricção (do unguento durante as massagens) nos ginásios.

a título de breve contraponto, veja-se:
 
The life of money-making is one undertaken under compulsion, and wealth is evidently not the good we are seeking; for it is merely useful and for the sake of something else.
- Quanto à vida consagrada ao ganho, é uma vida forçada, e a riqueza não é evidentemente o bem que procuramos: é algo de útil, nada mais, e ambicionado no interesse de outra coisa. (vallandro/ bornheim)
- Quanto à vida dedicada a ganhar dinheiro, é uma vida forçada, e a riqueza não é, obviamente, o bem que estamos procuramos [sic]: trata-se de uma coisa útil, nada mais, e desejada no interesse de outra coisa. (nassetti)
- Quanto à vida pela acumulação de dinheiro, trata-se de um tipo forçado (não natural e compulsivo) de vida e fica claro que a riqueza não é o bem objeto de nossa busca, porque só é um bem na medida em que é útil, ou seja, um meio para algo mais. (bini)

obs.: essa edição da martin claret está cadastrada na agência isbn/fbn com o título de a ética, com tradução em nome de "pietro massetti" [sic].



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



7 de jul. de 2010

non cotuca!

o imortal ivan junqueira declara que o Prêmio ABL de Tradução 2010 teria sido concedido a milton lins em reconhecimento à obra de uma vida inteira. bom, na verdade são apenas dez ou doze anos brincando de contar sílabas e desencavar rimas, mas vá lá, que seja. o que importa é que, pelo jeito, faz algum tempo que milton lins vem se preparando para o troféu juó bananère de rimas e imagens sugestivas. 


[José-Maria de Heredia, "La Dogaresse", tradução de Milton Lins, "A Dogaresa (esposa do Doge)" [sic], in Pequenas traduções de grandes poetas II, 2007, p. 183]

veja também:
atualizado em 13/07/10: eu havia grafado errado como "juó bananèro". graças ao alerta de um leitor, fica corrigido: juó bananère.

troféu juó bananère


outro dia, carlos alberto bárbaro deixou um comentário inspirador, lembrando a figura de juó bananère, autor de la divina increnca. em homenagem a ele, fica criado o troféu em seu nome, para rimas e imagens sugestivas.

I.
aqui alguns versos de sua tradução de cyrano de bergerac.

"Per San Gennàro, é quexo di sobra...
Apparece un repoglio ô una abobra.
...
Tuo quexo fatale, uguale d'una giaca,
Sará a tua eterna urucubacca."

[juó bananère, o quexo]

II.
milton, com sua picardia,
quis correr em seu encalço:
faltou, porém, galhardia
pr'evitar o passo em falso.

"A aveia apita
A sarça grita
...
As gares toam
Os olhos soam"

[verlaine, "charleroi", in milton lins, "carlos-rei" (sic), ptgp, pp. 403-4 - "L'avoine siffle/ Un buisson gifle/ ... Des gares tonnent,/ Les yeux s'étonnent]

III.
o pupilo não desacorçoa
e se atira ao jovem rimbaud:
transmuta uma bête à toa
em bicho digno de salambô.

"como de esquife verde em ferro branco, a fronte
da dona, de cocós assaz empomadados,
emerge da banheira, um lento mastodonte..."

[rimbaud, vénus anadyomène, ibid., p. 327 - "Comme d'un cercueil vert en fer blanc, une tête/ De femme à cheveux bruns fortement pommadés/ D'une vieille baignoire émerge, lente et bête...". aliás, não perca tempo o leitor imaginando como um caixão de ferro branco pode ser ao mesmo tempo verde. é que fer blanc não é ferro branco, e sim lata, ferro estanhado, folha-de-flandres...]

acompanhe a increnca ABL 2010.

imagem: brasão de juó bananère, non cotuca!

atualizado em 13/07/10: eu havia grafado errado como "bananèro" e agradeço a correção de um leitor no comentário. fica, portanto, corrigido: juó bananère.

6 de jul. de 2010

legal!

fiquei contente com a fbn. quem acompanha o nãogostodeplágio sabe quantos acessos de raiva tive com a displicência da agência do isbn ao cadastrar, por exemplo, machado de assis traduzido para o português por pietro nassetti, pela editora martin claret, e dezenas de pérolas que tais. veja zumbi trapalhares.

tenho acompanhado as notícias sobre o projeto mais cultura, do minc com a fbn, e fiquei aborrecida quando a comissão de seleção escolheu a origem das espécies publicada pela martin claret, que é uma colcha de retalhos misturando trechos da tradução de joaquim dá mesquita paul (1913, lello & irmãos - bem ruinzinha, diga-se de passagem) e grande parte da tradução de eugênio amado (1985, edusp/itatiaia).


publiquei meus protestos e a carta da fbn dando conta de suas providências. veja chiliques.

então escrevi à fbn agradecendo as providências e alertando de um problema, que era o seguinte: ela tinha publicado em seu site os relatórios com as centenas de livros selecionados numa planilha excel, divididos em abas por áreas de conhecimento. eu vi a origem das espécies espúria porque era a única aba (a de ciências biológicas) que, além do título da obra e do nome do autor, informava editora, ano e edição.

em meu e-mail à fbn, portanto, avisei:
"em tempo: um problema dos relatórios da comissão de seleção das obras para o projeto mais cultura é que apenas a primeira aba traz o nome da editora responsável pela publicação. vi vários títulos em ciências humanas e literatura que foram publicados em edições espúrias no país. mas como o relatório nas demais abas da planilha não indica o nome das editoras, não dá para saber se por algum azar foram escolhidas justamente algumas das edições ilegais."

isso foi em começo de junho. a resposta foi o silêncio, o que me deixou meio assim, pois afinal é um bem público etc.etc., e justo ontem tinha até decidido voltar à carga quando recebi uma notícia que realmente me comoveu:

Prezada Denise,

informo que a relação de obras selecionadas para o Programa Mais Cultura está divulgada no portal da FBN, com as respectivas editoras.

Cordialmente,
Jean Souza
Assessor de Imprensa
Fundação Biblioteca Nacional

fui ao site http://www.bn.br/ e, pimba, lá estavam os três relatórios das três ações do programa - implantação de bibliotecas; modernização de bibliotecas; bibliotecas itinerantes - completos, com título, autor e editora.

quero agradecer de público ao pessoal da fbn e do programa mais cultura, pois deve ter dado um certo trabalhinho refazer os relatórios complementando os dados: afinal, são centenas e centenas de obras, acho que somam mais de mil títulos! fiquei emocionada, e são essas coisas que me fazem sentir cidadã.

neste caso em particular, como o programa mais cultura vai adquirir várias centenas de exemplares de cada título selecionado para a implantação e modernização de bibliotecas no país, além das bibliotecas itinerantes, serão várias centenas de uma edição plagiada a menos para conspurcar os acervos.

quanto aos relatórios propriamente ditos, agora indicando as editoras, vou ver com calma se há mais alguma barbaridade ;-)

5 de jul. de 2010

como diz o provérbio...

faz um bom tempo que foi levantada a história dos plágios de tradução na editora nova cultural, em suas coleções Pensadores e Obras-Primas (esta em parceria com a Suzano Celulose). a coisa era tanto mais aborrecida porque o Instituto Ecofuturo, a ong da Suzano, fazia o maior alarde e distribuía a mãos fartas a tal coleção como prêmio em suas campanhas e como acervo para as bibliotecas comunitárias sob sua responsabilidade.



então fiquei contente em ver que pelo menos isso o Ecofuturo fez:

Correção na concessão dos créditos dos tradutores da Coleção Obras Primas editada em 2002 pela Nova Cultural


Desde 2003 o Instituto Ecofuturo tem realizado a doação de livros da Coleção Obras Primas, editada em 2002 pela NOVA CULTURAL, a qual possui a logomarca “Selo Ler é Preciso”, de nossa titularidade.

Em 2008, tomamos conhecimento de que em alguns livros que integram a Coleção Obras Primas, ocorreu a menção incorreta dos nomes dos tradutores, conforme listagem abaixo que nos foi enviada pela Editora Nova Cultural:

Título: Ana Karenina
Autor: Tolstói
Crédito indevido da tradução: Mirtes Ugeda
Crédito correto da tradução: João Gaspar Simões

Título: Crime e Castigo
Autor: Dostoiévski
Crédito correto da tradução: Natália Nunes

Título: O Retrato de Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Crédito indevido da tradução: Enrico Corvisieri
Crédito correto da tradução: Oscar Mendes

Título: Contos
Autor: Voltaire
Crédito indevido da tradução: Roberto Domênico Proença
Crédito correto da tradução: Mário Quintana

Título: Lord Jim
Autor: Joseph Conrad
Crédito indevido da tradução: Carmen Lia Lomônaco
Crédito correto da tradução: Mário Quintana

Título: Morro dos Ventos Uivantes
Autor: Emily Brontë
Crédito indevido da tradução: Silvana LaPlace
Crédito correto da tradução: Oscar Mendes

Título: Tom Jones
Autor: Henry Fielding
Crédito indevido da tradução: Jorge Pádua Conceição
Crédito correto da tradução: Octávio Mendes Cajado

Título: O Vermelho e o Negro
Autor: Stendhal
Crédito indevido da tradução: Maria Cristina F. da Silva
Crédito correto da tradução: Luiz Costa Lima

Título: Divina Comédia
Autor: Dante Alighieri
Crédito indevido da tradução: Fabio M. Alberti
Crédito correto da tradução: Hernâni Donato

Título: Falecido Matia Pascal/Seis Personagens
Autor: Pirandello
Crédito indevido da tradução: Fernando Correa Fonseca
Crédito correto da tradução: Mário da Silva, Elvira Ricci e Brutus Pedreira

Título: Fausto / Werther
Autor: Goethe
Crédito indevido da tradução: Alberto Maximiliano
Crédito correto da tradução: Sílvio Meira e Galeão Coutinho

Título: Ivanhoé
Autor: Walter Scott
Crédito indevido da tradução: Roberto Nunes Whitaker
Crédito correto da tradução: Brenno Silveira

Título: O Leopardo
Autor: Lampedusa
Crédito indevido da tradução: Leonardo Codignoto
Crédito correto da tradução: Rui Cabeçadas

Título: Madame Bovary
Autor: Flaubert
Crédito indevido da tradução: Enrico Corvisieri
Crédito correto da tradução: Araújo Nabuco

Título: Naná
Autor: Zola
Crédito indevido da tradução: Roberto Valeriano
Crédito correto da tradução: Eugenio Vieira

Título: Suave é a Noite
Autor: Scott Fitzgerald
Crédito indevido da tradução: Enrico Corvisieri
Crédito correto da tradução: Ligia Junqueira

Título: Os Três Mosqueteiros
Autor: Alexandre Dumas
Crédito indevido da tradução: Mirtes Ugeda
Crédito correto da tradução: Octávio Mendes Cajado

Título: Uma Vida
Autor: Guy de Maupassant
Crédito indevido da tradução: Roberto Domênico Proença
Crédito correto da tradução: Ascendino Leite

Título: A Mulher de Trinta Anos
Autor: Balzac
Crédito indevido da tradução: Gisele Donat Soares
Crédito correto da tradução: José Maria Machado

ver aqui a página do instituto ecofuturo.

a questão é um pouco mais complicada do que isso, e voltarei a ela adiante. por ora, veja aqui no blog suzano/ecofuturo. por outro lado, como o ótimo é inimigo do bom, acho que dá para comemorar um pouquinho.

dedico este post e esta pequena conquista a saulo von randow jr., pai de toda essa briga encampada e desenvolvida aqui no nãogostodeplágio, e a danilo nogueira, seu respectivo padrinho.

imagem: água mole em pedra dura

silêncio na casa!



um passarinho azul veio me contar que alguns literatos de alto coturno alegam que não cabe discutir o Prêmio ABL de Tradução 2010, porque é decorrente de uma escolha pessoal e não de uma avaliação de mérito. 

não entendo muito bem: em primeiro lugar, como pode uma premiação de uma instituição nacional como a ABL não dar prioridade a questões de mérito?

e depois, vá lá, supondo-se que esse tipo de critério seja aceitável em instituições de tal projeção nacional: "eu, fulano de tal, quero que beltrano receba o prêmio X por qualquer razão Y" - e pronto, fim de papo. para que, então, montar toda essa farsa na imprensa e perante o público de simular uma indicação (já previamente definida), uma comissão de seleção, a elaboração de um parecer etc., para anunciar o agraciado?

a impressão que eu tenho é que, seja o tal prêmio discutível ou indiscutível, esse silêncio (ou murmúrio abafado) da ABL sugere um certo desconforto no ar - é como se ela preferisse ocultar que se pauta por "escolhas pessoais". ora, ora, é exatamente isso o que boa parte do país diz há décadas: a ABL tem, sim senhora, obrigação pelo menos cívica de prestar contas à sociedade. e com esse seu silêncio ela apenas demonstra que sabe disso e se envergonha de não o fazer.


4 de jul. de 2010

cof cof


em homenagem ao prêmio ABL de tradução 2010




3 de jul. de 2010

o que mais?

complicada a avaliação de noemi jaffe sobre a publicação de eugênio oneguin, de púchkin, na tradução de dário castro alves.

segundo a articulista, a tradução "pode até ser muito boa", mas "é de estranhar" que "a introdução do tradutor ao livro seja tão "pouco informativa".

noemi jaffe tinha lido edmund wilson, que dizia: "Nenhum poeta supera Pushkin - nem mesmo Dante -, pela velocidade, precisão e beleza de sua narrativa. Quanto chão Oneguin cobre em tão pouco espaço! Quanta concisão e ainda quanta facilidade em cada estrofe!"

mas ela ficou aborrecida porque: "Lemos o poema, admiramos a história, as alusões à cultura russa da época e a enorme influência da França sobre a vida de sua elite, percebemos fluência rítmica e poética, mas não entendemos as palavras de Wilson".

como dário castro alves não fez "comentários extensivos sobre detalhes, problemas e soluções do trabalho de tradução, sobre especificidades do próprio poema e da língua russa", o veredito da crítica foi que o livro em português é apenas regular...

será que edmund wilson precisou ler uma extensa introdução do tradutor do poema para o inglês para então ser capaz de apreciar a obra e formular seu juízo?


imagem: ateliê cynthia mello

fundamental


a rede pela reforma da lei de direitos autorais promove debate sobre a lda dia 5 de julho, segunda-feira próxima, na Casa da Cidade em são paulo.

pechisbeque 2010

eis o gabarito para conferir sua lista candidata ao troféu pechisbeque 2010:





essa súmula da melhor poesia do ocidente desde o século XVI (apud Evanildo Bechara, Ivan Junqueira e Carlos Nejar), está na obra Prêmio ABL de Tradução 2010. confira aqui o parecer da comissão de seleção.

2 de jul. de 2010

ih, sujou...




apollinaire, "le printemps" ("a primavera"), tradução de milton lins, in pequenas traduções de grandes poetas, p. 25, obra agraciada com o prêmio ABL de tradução 2010.



"o país dos lotófagos", isto é, a ilha dos comedores de lótus (odisseia) virou um lameiro danado onde o povo come lodo?! seu milton, seu milton...

1 de jul. de 2010

gazeta de lins



a entrega dos prêmios ABL 2010, inclusive aquele de tradução, será feita no dia 20 de julho, no petit trianon caboclo.

então, até lá, vou ficar batendo aqui no meu tambor, para não pairar dúvidas sobre o que está sendo agraciado no ofício de tradução.




30 de jun. de 2010

não perca!

escolha os 29 melhores poetas dos últimos quinhentos anos no ocidente.

se 1/3 de sua lista coincidir com as "preciosas antologias da melhor poesia que se escreveu na literatura ocidental desde o século XVI", você será contemplado com o troféu pechisbeque 2010!

obs.: o gabarito para você conferir com sua lista será publicado no sábado. aproveite até lá.

o parecer da abl

parecer dos imortais evanildo bechara, carlos nejar e ivan junqueira, membros da comissão de seleção que decidiu premiar pequenas traduções de grandes poetas, de milton lins:
«constituem preciosas antologias da melhor poesia que se escreveu na literatura ocidental desde o século XVI».



vêm alinhavados em ordem alfabética 29 poetas que compõem um painel heteróclito, sem critério visível que possa lhe dar alguma sustentação. exemplos preciosos da "melhor poesia da literatura ocidental desde o século XVI": adolphe retté? stuart merril? aloysius bertrand? mesmo jean moréas, émile verhaeren ou xavier de maistre dificilmente podem ser considerados tão excelsos poetas... e paul éluard!!!

convida o ministro

Por uma Nova Lei autoral - Mensagem do Ministro Juca Ferreira


É a nossa cultura o que nos distingue, e o que nos faz sentir brasileiros. É ela, principalmente, o que nos faz reconhecidos no mundo. É a nossa marca. Ela é o que somos.

Isto, todos sabemos. Mas, muitos não sabem que a cultura movimenta uma economia que emprega mais que a indústria automobilística, por exemplo, já respondendo por mais de 6,5% de nosso PIB. Esta economia em franca expansão tem demandado regras claras e transparentes, demandado um marco legal que garanta o direito do autor - de artistas e criadores, e que viabilize um maior acesso do cidadão aos bens culturais; que elimine os entraves à livre negociação, e que, ao mesmo tempo, dê segurança jurídica também ao investidor. Precisamos de uma legislação que nos inclua no mundo digital, e que garanta neste universo os direitos do autor. Que nos atualize na história, enfim.

A modernização da Lei do direito autoral que propomos deve destravar toda a cadeia produtiva da economia da cultura. Deve lhe imprimir uma nova dinâmica. A sua modernização deve ampliar espaços de criatividade e multiplicar os canais de acesso aos bens culturais. Esta nova Lei remove entulhos e inclui no mercado novos produtores e novos consumidores. Legitima e regula relações de produção, tornando-as mais transparentes e seguras.

Estamos na reta final deste processo que se iniciou há mais de sete anos. Para que chegássemos a atual versão desta proposta de revisão da Lei consultamos a legislação de mais de 20 países, debatemos com inúmeros especialistas e realizamos mais de 80 reuniões com os mais diversos segmentos envolvidos com o assunto. Promovemos quase uma dezena de seminários, mobilizando, nestes debates, transmitidos pela internet, mais de 10 mil pessoas.

Para que o texto da Lei em questão possa bem representar e ser expressão da vontade dos cidadãos, dos autores e dos investidores, vamos continuar precisando de sua participação. Foi para saber a sua opinião e receber sua contribuição que disponibilizamos no dia 14 de junho de 2010, para consulta pública, a proposta de revisão da legislação brasileira sobre direitos autorais que estaremos apresentando em forma de anteprojeto nos próximos 45 dias. Contamos com sua participação e contribuição na redação final do que será votado no congresso. O anteprojeto desta Lei esta disponível para críticas, sugestões e comentários no site do Ministério da Cultura, no seguinte endereço: www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral. Contribua para o aprimoramento de nossa legislação. Contamos com você. Pelo que, antecipadamente agradecemos,

Juca Ferreira
Ministro da Cultura

29 de jun. de 2010

ABL: o que andam comentando

Folha de S. Paulo: Tradutores veem erros em obras do vencedor de Prêmio da ABL
Folha de S. Paulo: Acadêmicos não se lembram dos outros indicados (link para assinantes uol/fsp)
Autores e Livros: Premiação imoral na ABL
Petê Rissatti: E a qualidade?
Às moscas: A marrequinha dança na ABL
O Povo: Prêmio da ABL é questionado
Sopa de Poesia: Prêmio da ABL para tradutor sob suspeita
ClickPB: Tradutores veem erros
Publishnews: Acadêmicos não se lembram dos outros indicados
Publishnews: Prêmio em debate
Publishnews: Tradutores veem erros
O Globo, Prêmio em debate
Livros e Afins: ABL dá prêmio a tradução com sérios problemas
Alessandrolândia: O famoso QI
Tradutores/Intérpretes BR: Absurdo consumado

atualizado em 6/7/10:
Rascunho, Fiofó exposto


Pedro du Bois: É o que chamo de política em que "uma mão suja a outra".
Luiz Costa Lima: Seria interessante exigir dos responsáveis pelo prêmio que explicassem sua decisão diante da acusação das gralhas cometidas.
Tuca Abbate: Um verdadeiro E-S-C-Â-N-D-A-L-O!
Synn-Kliss: Seriam "coisas da vida" se não flagrassem o descambo social decorrente de favorecimentos e usurpações absurdas.
Roberto Grey: É uma sopa de letrinhas!
Sergio Flaksman: Alguém aí ainda respeita a Academia Brasileira de Letras depois de tudo?
Randerson Azevedo: Você ainda respeita a ABL? Eu já perdi a paciência...
Paulo da Luz Moreira: Que esse pessoal agora em diante trate a tradução com o respeito que ela merece.
Anônimo: Uma vez meu pai me disse que há situações que ficam abaixo da crítica. Acho que esta é uma delas.
Jander: Penso que não é só porque a Academia seja economicamente privada que ela não deva prestar contas, ao menos contas intelectuais, à sociedade.
Dedalus: O mundo das editoras brasileiras parece ser povoado por pessoas da nossa "elite" intelectual, que, em geral, é provinciana.
Guto: Parece que este senhor lançou-se na "tradução" antes mesmo de compreender o que estava a traduzir! Realmente espantoso.
Artur Ataíde: Não é descaso demais para com um prêmio tão importante?
Jander: É uma falta de respeito com todos, sobretudo com aqueles que não possuem o domínio da língua francesa. Acho que estes últimos não merecem ser apresentados a poemas tão bonitos e importantes dessa forma tão grotesca.
Thiago Corrêa: Não compreendo nada da língua, portanto, não consigo compreender o absurdo da tradução.
Iza: Nem Freud explica os atos falhos deste tipo!
Marcia Martins: Acho essa discussão muito saudável, na medida em que chama a atenção para as questões envolvidas na tradução em geral e nos próprios critérios das premiações.
Josemar: A ABL não cuida nem do nosso idioma!
Bruno Figueiredo: Marmelada!
Sérgio de Castro Pinto: a "tradução" do premiado é simplesmente ridícula.
Jorio Dauster: São sandices completas.
Joana Canêdo: "Aberrantes".
José Ignacio: Não por coincidência, entre os imorais que concederam o prêmio a essa excrescência literária estão alguns dos que acharam por bem forçar uma mudança inútil e prejudicial da ortografia da língua portuguesa com o único intuito de vender seus livros de "atualização".
Teoblog: Que tal sugerir à ABL que na próxima dê o prêmio ao "google translator"?
Julio Jeha: Estou pensando seriamente em comprar o livro, pois tenho me divertido muito com os trechos pinçados por você.
Mauro: a premiação pela ABL dessas Pequenas traduções de grandes poetas, pelas informações que venho tendo, é mais um escândalo de incompetência e/ou canalhice...
Fernando Severo: Ele foi até bem moderninho, fiofó e Rimbaud, tudo a ver.
Graf Rèllum: Que gente abnegada, esses nossos imorríveis -- Fizeram uma vaquinha e tanto pra homenagear o amigo.
Jander: o resultado de tudo isso foi 'puro' lodo...
Marcos Lima: Absurdo! A ABL deve achar que tradução é qualquer coisa mesmo, lamentável!!!
Coringa: Isso é absurdo.
Grandes Filmes: não há como negar que lodo é, por vias tortas, a palavra correta para as tais "pequenas traduções"...

atualizado em 13/07/10


acompanhe o caso do Prêmio ABL de Tradução 2010


editorial d'o globo


quanto ao editorial do jornal o globo em 27/6, "os perigos na revisão dos direitos autorais", que mais parece uma peça de acusação do que propriamente um editorial, mandei pelo site do jornal minha minúscula opinião de leitora, que transcrevo abaixo:

"Sobre o editorial a respeito da revisão dos direitos autorais, devo dizer que não reconheci nas palavras do texto nada do que, em meu entender, está em curso.

Há questões importantes e urgentes na revisão proposta pelo MinC, que não foram mencionadas no editorial: por exemplo, a possibilidade de se fazer cópia privada, para uso pessoal, sem fins lucrativos e para finalidades de ensino. Esta é uma questão muitíssimo importante, e pelo que entendi a proposta do MinC prevê remuneração para tais casos. Os senhores não fazem ideia da fragilização dos materiais bibliográficos com a proibição de cópias reprográficas estatuída pela lei 9610/98. Se houver maneira de remunerar os autores e os titulares de seus direitos, e ao mesmo tempo atender à demanda do ensino, isso me parece muito positivo - e é o que está sendo proposto pelo governo.

Outro aspecto importante é permitir a reprodução de materiais em acervos públicos e preservação de materiais em sério risco de destruição por meio de cópias, devidamente remuneradas.

O exemplo dado no editorial: "E quando procura defender os autores [, o faz de tal forma que os fragiliza. É o que acontecerá caso venha a ser aprovado o artigo pelo qual os direitos do autor poderão ser renegociados no futuro] 'em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis'". Esta é uma cláusula que já existe em nossos códigos de lei - não há nenhuma novidade nela. Pois vejam os senhores: como em muitos casos os contratos editoriais preveem cessão total e definitiva dos direitos autorais para a editora, 'O sucesso inesperado de um livro' de fato se enquadra em nosso código referente a excepcionalidades. Não me parece que seja uma fragilização do autor prever que, nestes casos, ele possa renegociar algum percentual sobre aquele sucesso inesperado.

Tampouco entendo que se crie qualquer 'insegurança jurídica', muito pelo contrário: na área em que trabalho, tradução editorial, essa revisão reforça claramente os aspectos da cessão dos direitos às editoras onde antes havia uma zona de sombra, por se tratar de obra sob encomenda, e favorece claramente as editoras. Pessoalmente não gostei muito, mas acato e entendo que antes, sim, é que havia insegurança jurídica para as empresas e, por extensão, para os tradutores, em regime ora de cessão de direitos, ora de prestação de serviços e assim por diante.

Por isso digo que não reconheço no editorial de vocês o que leio nesta proposta do governo.

Tampouco vejo 'dirigismo' ou 'intervencionismo'. Para ser sincera, achei o editorial, ele sim, um tanto 'ideológico', parecendo mostrar uma certa má vontade ou um certo parti pris sem avaliar mais detidamente o teor da proposta do MinC. Uma pena, pois o jornal O Globo é um importante formador de opinião, e seria lamentável que não apresentasse um editorial um pouco mais objetivo..."

caldeirada na abl

Surgis ..., ô Mienne, et pavoise ta fenêtre avec les lis, la pêche et les framboises de ton être.



Surgido ..., ó Minha (Nossa Senhora?), e tapeça tua janela com os lírios, a pesca e as framboesas do teu ser.

Saint-Pol Roux, Alouettes ("Canto de cotovias"), in Milton Lins (org. e trad.) Pequenas traduções de grandes poetas IV, Recife, Bagaço, 2009, p. 340. [Ergue-te..., ó Amada, e enfeita tua janela com os lírios, o pêssego e as framboesas de teu ser]

27 de jun. de 2010

tratos à bola

Quem tem acompanhado a perplexidade minha e de muita gente com a indicação e agraciamento do livro Pequenas traduções de grandes poetas IV, cometidas por Milton Lins, com o Prêmio ABL de Tradução 2010, deve ter notado que Ivan Junqueira, o acadêmico responsável pela indicação da obra, não conseguiu apresentar um único critério para fundamentar a escolha.

Ivan Junqueira, que aparentemente não conhece o autor da tradução premiada, não leu a obra que indicou e não faz ideia da trajetória "literária" de Milton Lins, na prática declina de qualquer responsabilidade pela própria indicação, e nos leva a procurar a explicação alhures.

Ora, alhures o que se tem é que Marcos Vilaça, atual presidente de ABL, é conterrâneo e amigo pessoal de Milton Lins. Ambos se congraçam também na Academia Pernambucana de Letras, na qual Milton Lins teve ingresso com o voto de Vilaça.

Marcos Vilaça é aquele imortal que, quando ocupava a presidência da casa em 2007, num episódio que fará o país enrubescer ou rolar de rir por muitas décadas, agraciou com o galardão máximo do pais, o Prêmio Machado de Assis, um obscuro ensaísta de nome Roberto Cavalcanti de Albuquerque, igualmente conterrâneo seu - e, de quebra, coautor com o próprio Vilaça de um livro sobre o coronelismo
no nordeste.

Marcos Vilaça, em outra amostra de robusto escárnio, foi também quem incentivou a candidatura de Martinho da Vila à vaga do falecido bibliófilo José Mindlin, chegando a lhe angariar dois votos.*

* correção: no escrutínio final, houve uma abstenção e nenhum voto para martinho da vila.

Mas, voltando a esse cúmulo da jequice nacional que tem sido o Prêmio ABL de Tradução 2010:

Se Ivan Junqueira indicou Milton Lins sem saber como nem por quê; se Marcos Vilaça é o incorrigível praticante da política de quintal que aparenta ser; se Milton Lins (autor do grotesco "fiofó" da Vénus Anadyomène de Rimbaud)* é amigo íntimo de Vilaça, começo a temer que o fio condutor que leva ao escândalo dessa premiação da ABL sai de algum lugar do Recife e para ali volta, dando apenas uma paradinha regada a chá e a "glória" no Petit Trianon caboclo. Pelo menos assim se explicariam o "branco" e a reticência de Ivan Junqueira, reduzido a simples menino de recados.

Quem dera as palavras da imortal Nélida Piñon - "não há apreço por candidatos histriônicos, que quebram o ritmo natural da casa" - pudessem virar norma para as premiações da ABL, e não teríamos de assistir a farsas que tais.

* "Tem úlcera - que horror! - ao pé do fiofó": assim Milton Lins verte Belle hideusement d'un ulcère à l'anus, a chave de ouro de Vénus Anadyomène de Rimbaud. Ver Pequenas traduções de grandes poetas IV, p. 328.

lá e cá



I.
Le Monde, em 2009:

25 mai prochain, on va enfin pouvoir lire en français un des plus grands romans de la littérature allemande: "Berlin alexanderplatz".
une redécouverte.
grâce à la nouvelle traduction d’olivier Le lay, absolument magnifique, on découvre ce chef d’œuvre.

II.
Académie Française - Prix Jules Janin (traduction)

2010 - M. Olivier LE LAY, traduction de Berlin Alexanderplatz d’Alfred Döblin (Gallimard)

III.
discurso de machado de assis, inaugurando a casa (1897):

A Academia Francesa, pela qual esta se modelou ... Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais... Está aberta a sessão.

IV.
Prêmio ABL de Tradução
2010 - Milton Lins, Pequenas Traduções de Grandes Poetas, vários (Bagaço)
 
V.
matérias a respeito, aqui

26 de jun. de 2010

coisas boas


bem conhecemos infindáveis exemplos de menosprezo pela atividade de tradução - que leva a ABL, por exemplo, a premiar coisas ininteligíveis, ou que favorece a ishperteza de diversas editoras que saqueiam traduções antigas.

felizmente, nem só o acinte, o esquecimento e a arrogância são a paga do ofício. assim é que a civilização brasileira dedica uma página aos autores da tradução de papéis inesperados, de julio cortázar.


andreia amaral, a editora da civilização brasileira responsável pela iniciativa, declara que pretende manter essa prática em outros livros, com uma página em reconhecimento aos tradutores que dedicam grande empenho à obra.

diga-se de passagem que a editora hedra sempre apresenta um breve perfil do tradutor, acompanhando os dados sobre o autor e a obra. alguns sites de editoras também apresentam o perfil biográfico dos tradutores, como por exemplo a cosac naify, a martins e a companhia das letras. jornais e revistas têm se acostumado a mencionar sistematicamente os responsáveis pelas traduções das obras citadas ou resenhadas; e algumas livrarias online também colocam seus nomes nas fichas técnicas dos livros.

tomara que o manto denso e espectral do anonimato seja logo substituído quando menos por uma faixinha simples e singela de identificação sistemática de cada tradutor, em todas as editoras, sites, publicações, bibliografias. aliás, vale a pena assistir à teleconferência em que vargas llosa comenta quão trágica é a situação de um país que, ao desrespeitar a atividade de tradução, desconhece ou repudia sua própria identidade cultural.

atualizado às 12,05: foi só falar que os jornais têm se acostumado a avisar aos leitores quem pôs a obra em português, e vejo que luiz zanin, do caderno sabático, no estadão de hoje, faz uma ótima resenha sobre papéis inesperados, mas nem de longe parece se lembrar da existência dos tradutores...
atualizado às 14,40: rinaldo gama, editor do caderno sabático, explica que o articulista zanin havia montado a ficha técnica do livro, com os nomes dos tradutores, a qual por falha interna acabou não saindo. e garante: "vamos pôr lupa nisso". agradeço como leitora e praticante do ofício.

25 de jun. de 2010

entrevista na rádio cbn







assim, de ponto em branco?


resumindo, após avaliar* as várias e desencontradas declarações do imortal ivan junqueira, pode-se concluir que o prêmio abl de tradução 2010 foi atribuído a milton lins:

- não por critérios geográficos
- não por critérios temporais
- não por critérios tradutórios
- não por critérios de qualidade

* veja os cinco ou seis posts anteriores

além disso, o imortal ivan junqueira, responsável pela indicação de seu nome perante a comissão de seleção, afirma não conhecer o tradutor, aparenta ignorar sua trajetória literária e parece não ter lido a obra que indicou.



então como é que, para começar, a obra pequenas traduções de grandes poetas IV veio a ser indicada para o prêmio de tradução?

24 de jun. de 2010

gralhas e florilégios

finalizando minha avaliação da matéria Acadêmicos não se lembram dos outros indicados, as demais justificativas apresentadas pela academia brasileira de letras para premiar pequenas traduções de grandes poetas IV são as seguintes:

I.
segundo o imortal ivan junqueira, seria o reconhecimento do "trabalho de uma vida inteira. São décadas de trabalho" que não deveriam ser prejudicadas por algum "erro de impressão, gralha".

no entanto, milton lins, como ele próprio se define, é um "tradutor tardio", dos últimos dez ou doze anos. informado do fato, declara ivan junqueira: "Pela quantidade de coisa que ele traduziu, eu imaginava que fosse mais tempo"...

II.
segundo notícia oficial da ABL, "O parecer dos Acadêmicos Carlos Nejar, Ivan Junqueira e Evanildo Bechara, encarregados da escolha do vencedor do prêmio na categoria tradução, decidiu pelo pernambucano Milton Lins, com destaque para seu livro Pequenas traduções de grandes poetas. Segundo a comissão, as traduções 'constituem preciosas antologias da melhor poesia que se escreveu na literatura ocidental desde o século XVI'."

 se o primeiro critério não se sustenta, no segundo teríamos que o que se premiou não foi a obra de tradução, e sim de antologização, o que é coisa muito diferente.



imagens: gralha, florilégio