8 de jul de 2010

ética a nicômaco

num post de setembro de 2008, eu havia comentado o problema da ética a nicômaco, de aristóteles, na pretensa tradução de pietro nassetti (sim, o próprio), pela editora martin claret desde 2001. segue aqui um trecho comparativo (III, 10), colhido ao acaso, para ilustrar as adulterações praticadas na tradução de leonel vallandro e gerd bornheim (abril, os pensadores, 1979).

1. leonel vallandro e gerd bornheim



2. pietro nassetti

Depois da coragem, falemos da temperança, visto que estas parecem ser as virtudes da parte irracional da alma. Dissemos que a temperança é um meio-termo em relação aos prazeres (porque ela diz menos respeito ao sofrimento, e não se relaciona com ele do mesmo modo); e a intemperança também se manifesta nesta esfera. Vejamos, então, com que espécie de prazeres se relacionam ambas. Podemos fazer a distinção entre prazeres do corpo e prazeres da alma (como o amor à honraria e o amor ao conhecimento, por exemplo); de fato, quem ama uma dessas coisas sente prazer nessas coisas que ama, sem que o corpo de nenhuma maneira seja afetado, só a mente; mas com relação a tais prazeres, os homens não são chamados temperantes nem intemperantes; e tampouco em relação aos outros prazeres que também não são do corpo, pois os que se comprazem em ouvir e contar histórias ou passam os dias ocupa dos com trivialidades são chamados mexeriqueiros e não intemperantes; e igualmente aqueles que sofrem com a perda de dinheiro ou de amigos. A temperança deve, então, relacionar-se com os prazeres do corpo, mas não, porém, com todos, visto que os que se comprazem com objetos da visão, como as cores, as formas e a pintura, não são chamados temperantes nem intemperantes, embora pareça possível comprazer-se com essas coisas tanto do modo devido, quanto excessivamente e em grau insuficiente.

O mesmo vale para os objetos da audição. Ninguém chama de intemperantes os que se comprazem demasiadamente com a música ou as representações teatrais, nem de temperantes os que o fazem na medida justa. Também não aplicamos esses qualificativos aos que se comprazem com odores, a não ser incidentalmente; não chamamos de intemperantes os que se comprazem com o cheiro de maçãs, de rosas ou de incenso, mas sim os que sentem prazer em cheirar molhos e guloseimas; de fato, os intemperantes deleitam-se com essas coisas porque lhes trazem ao pensamento os objetos de seu apetite.

veja-se a tradução de ross que serviu de base ao texto de vallandro e bornheim:

Book 3, Chapter 10

After courage let us speak of temperance; for these seem to be the virtues of the irrational parts. We have said that temperance is a mean with regard to pleasures (for it is less, and not in the same way, concerned with pains); self-indulgence also is manifested in the same sphere. Now, therefore, let us determine with what sort of pleasures they are concerned. We may assume the distinction between bodily pleasures and those of the soul, such as love of honour and love of learning; for the lover of each of these delights in that of which he is a lover, the body being in no way affected, but rather the mind; but men who are concerned with such pleasures are called neither temperate nor self-indulgent. Nor, again, are those who are concerned with the other pleasures that are not bodily; for those who are fond of hearing and telling stories and who spend their days on anything that turns up are called gossips, but not self-indulgent, nor are those who are pained at the loss of money or of friends.

Temperance must be concerned with bodily pleasures, but not all even of these; for those who delight in objects of vision, such as colours and shapes and painting, are called neither temperate nor self-indulgent; yet it would seem possible to delight even in these either as one should or to excess or to a deficient degree.

And so too is it with objects of hearing; no one calls those who delight extravagantly in music or acting self-indulgent, nor those who do so as they ought temperate.

Nor do we apply these names to those who delight in odour, unless it be incidentally; we do not call those self-indulgent who delight in the odour of apples or roses or incense, but rather those who delight in the odour of unguents or of dainty dishes; for self-indulgent people delight in these because these remind them of the objects of their appetite.

aliás, engraçadíssima também a cópia de "mas sim os que sentem prazer em cheirar molhos e acepipes" (ou guloseimas) para but rather those who delight in the odour of unguents or of dainty dishes, reproduzindo fielmente um erro tanto mais tolo porque aristóteles retoma adiante o tema dos prazeres do tato à fricção (do unguento durante as massagens) nos ginásios.

a título de breve contraponto, veja-se:
 
The life of money-making is one undertaken under compulsion, and wealth is evidently not the good we are seeking; for it is merely useful and for the sake of something else.
- Quanto à vida consagrada ao ganho, é uma vida forçada, e a riqueza não é evidentemente o bem que procuramos: é algo de útil, nada mais, e ambicionado no interesse de outra coisa. (vallandro/ bornheim)
- Quanto à vida dedicada a ganhar dinheiro, é uma vida forçada, e a riqueza não é, obviamente, o bem que estamos procuramos [sic]: trata-se de uma coisa útil, nada mais, e desejada no interesse de outra coisa. (nassetti)
- Quanto à vida pela acumulação de dinheiro, trata-se de um tipo forçado (não natural e compulsivo) de vida e fica claro que a riqueza não é o bem objeto de nossa busca, porque só é um bem na medida em que é útil, ou seja, um meio para algo mais. (bini)

obs.: essa edição da martin claret está cadastrada na agência isbn/fbn com o título de a ética, com tradução em nome de "pietro massetti" [sic].



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



10 comentários:

  1. Vida de colador é assim, depende da sorte de colar certo: aqui se deu bem em 'intemperança'/'intemperante' pra 'self-indulgence'/'-indulgent' e errou nos 'molhos' (muito tempero). Por aí já se pode supor que o tal Nassetti prescindiu da versão em inglês (pra que perder tempo?).

    Casualmente 'gossips' também ficou 'mexeriqueiros' em vez de 'fofoqueiros' ou 'bisbilhoteiros' -- escolha repercutida nas 'maçãs', 'rosas' e 'incenso' (interessante a etimologia de 'mexerica': "regr. de mexericar; Nascentes deriva mexerico; os estudiosos atribuem o nome do fruto ao fato de o odor forte denunciar quem o comeu; ver misc(i)-" [Houaiss]).

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  2. Quantos volumes tem a Coleção Os Plagiadores?

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  3. olá, graf.
    na coleção da nova cultural, encontrei quatro volumes com problemas: platão/xenofonte, maquiavel, descartes e pascal.

    http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/12/antireferencias-bibliograficas.html
    e
    http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/05/cotejos-disponiveis.html

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  4. denise, acabo de descobrir que tenho algumas raridades da nova cultural em meu pequeno acervo:
    - sócrates [platão/xenofonte] (tenho também a ed. legítima, que inclui ainda 'as nuvens' por gilda maria reale strazynski);
    - platão [diálogos: eutífron, apologia a sócrates, críton, fédon], que parece ter escrito ele próprio em português (não há indicação de nenhum tradutor);
    - 'suave é a noite';
    - 'o vermelho e o negro' (que coisa, comprei pra comparar com o original).
    eu já tinha (e ainda tenho) vários títulos da antiga coleção os pensadores, mas há uns poucos anos resolvi adquirir um pacote dela como promoção da folha de sp, do qual acabei doando um que outro volume.
    dentre os que mantive, além dos supra-citados sócrates e platão, está aristóteles traduzido por baby abrão, pinharanda gomes e therezinha monteiro deutsch (poética, organon vi – elencos sofísticos, política, constituição de atenas); da antiga, tenho o aristóteles (i), por l. vallandro e g. bornheim (tópicos + dos argumentos sofísticos).
    quanto ao kant (crítica da razão pura), apesar de preferir a edição antiga (kant [i]), mantive a 3ªed porque v.rohden e u.b.moosburguer introduziram ‘algumas correções e reelaborações’.
    os demais são: história da filosofia [will durant], montesquieu i-ii, rousseau i-ii, leibniz, hume, descartes :( , sto. agostinho, maquiavel :(( , hegel, schopenhauer, adorno, marx, wittgenstein.
    enfim, como ficaram piores os volumes desse relançamento parcial da coleção (em todos os sentidos).

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  5. caro graf: esse platão da nova cultural é bem bizarro. de fato os diálogos devem ter sido ditados pelo espírito santo, mas a apologia, se vc for à p. 57 (se as duas edições forem iguais), está lá "tradução de enrico corvisieri". já tinha saído no volume de sócrates, e repetiram no de platão. é cópia adulterada da tradução de jaime bruna (atena, 4a. ed., 1956). tem cotejo aqui no blog.

    esse enrico corvisieri é uma história - é o pietro nassetti da nova cultural: traduz de tudo, de todas as línguas, em velocidade vertiginosa.

    acho um pouco curiosas essas outras atribuições a baby abrão e a therezinha deutsch, mas não formei nenhum juízo.

    bom, will durant é de dar um tiro na cabeça, mas não cotejei as traduções. se quiser rolar de rir, é ler o volume "grandes filósofos, biografias e obras", que acompanhava a coleção. até a montagem é curiosa: vários perfis reproduzem os textos razoavelmente sérios da antiga coleção da abril, mas os "novos" perfis, de uma pagininha, são de um semianalfabetismo a toda prova. o de marx é espantoso. começa assim: "você recebe um dinheirinho extra. investe no fundo recomendado pelo gerente do banco e, a partir daí, esse dinheirinho começa a aumentar". quaquaquá, e bota marx nisso. "muitas vezes seus seis filhos ficaram sem ter o que comer [...] ele demorou para enviar os originais ao editor por falta de dinheiro para os selos". e por aí vai.

    isso para concordar e reforçar o que vc diz: como ficaram piores os volumes desse relançamento!

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  6. bingo, o nome tá lá na p.57.
    eu tinha até dado uma cotejada de leve com o meu exemplar by jaime bruna, mas passei batido nesse crédito.
    o enrico nassetti e o pietro corvisieri decerto são os 2 maiores tarados da tradução, vertem como quem psicografa (de olhos semicerrados, metralhando garranchos que depois uma superdigitadora muito bem treinada decodifica), são estenógrafos graforréicos rendendo mais numa semana do que os 72 da septuaginta em 72 dias.

    baby abrão e a therezinha deutsch – que nomes, hein? 1º baby (!) + abrão (segundo a bíblia, viveu trocentos anos), ou seja, um bebê macróbio; depois, a alemoa therezinha; por fim, além das atuações solo, elas fazem um dueto.

    sobre o pioramento na qualidade dos pensadores: a capa dessa coleção relançada é dura mas chumbrega, azul (ou verde e marrom) com gravação dourada, portanto feia e meio bagaceira; o formato é pequeno; o papel, a impressão, a tipografia, tudo ruim; os dados catalográficos inexistem; os indicadores de linha/fragmento foram extirpados da margem, bem como as orelhas e o conteúdo da 4ª capa.

    o gerente do banco era o próprio marx, banco estatal; o coitado trabalhava tanto, e sempre que tinha um tempinho mandava ver nos seus escritos (inclusive entre um cliente e outro), que nem tinha tempo de dar comida a todas as suas 6 crianças (pelo menos umas 3 ficavam sem comida); e como ele vivia lambendo os dedos pra contar tanto dinheirinho que os clientes lhe confiavam pra aplicar, faltava-lhe saliva pros selos destinados ao envio de seus originais ao editor.

    olha isto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Pensadores

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  7. olá, graf, ótima a tabelinha comparativa no link da wiki para os pensadores! quando fiz a minha, tive uma trabalheira danada...

    "baby abrão" é o apelido, nome artístico, não sei como se diz, de bernadette siqueira abrão, que tem alguma coisa (como organização etc.) publicada pela nova cultural. nesse volume dos "grandes filósofos" que citei acima, ela consta como responsável pela "pesquisa e redação".

    therezinha monteiro deutsch faleceu uns dois anos atrás, já idosa. era a filha de jerônimo monteiro, o primeiro funcionário nos anos 50 de victor civita, na área de quadrinhos, e que é tido como o papa da ficção científica no brasil. ao que sei, therezinha monteiro foi trabalhar na abril ainda nos anos 50; ajudou a divulgar o trabalho do pai em FC nos anos 60; trabalhou muito tempo como tradutora para a abril e depois para a nova cultural, na linha de eróticos, romances cor-de-rosa e best-sellers. até onde sei, a constituição de atenas (aristóteles), política (de aristóteles, com a referida baby abrão), heilbroner (na coleção d'os economistas, junto com seu filho sylvio deutsch) e algumas obras na coleção obras-primas (razão e sensibilidade; viagens de gulliver; volta ao mundo em oitenta dias) são suas traduções de livros, digamos, mais "consagrados".

    aliás, seu filho sylvio, também tradutor de eróticos e linha de literatura "ligeira" na nova cultural e best-seller, teve uma tradução sua (a vida secreta de laszlo, conde drácula, de roderick anscombe) solenemente copiada de cabo a rabo pela editora jardim dos livros em 2005. entrei em contato com ele, mas não tive resposta.

    esse período de 1999 a 2004/5 na nova cultural parece uma história um tanto confusa. a única coisa que se pode dizer em favor da nc é que, tão logo a nova coordenação editorial "soube" dessas irregularidades, removeu todos esses títulos de catálogo e venda online.

    em todo caso, entre pensadores e obras-primas, dá alguns milhões de exemplares espúrios espalhados por aí.

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  8. Caros:
    Baby Siqueira Abrão, ou Bernadette Siqueira Abrão, sou eu, jornalista, formada em filosofia pela USP e tradutora de alguns textos de filosofia, além de autora de livros da área. Meu trabalho é sério e reconhecido. Antes de fazer comentários, sugiro que vocês procurem saber quem é a pessoa e entrem em contato com ela. Essas acusações irresponsáveis ficam na internet e acabam prejudicando pessoas honestas, que desenvolvem um trabalho também honesto. Quanto a meu apelido, Baby, me foi dado por meu avô paterno no dia em que nasci, e por isso dele tenho muito orgulho. Não dou a ninguém o direito de zombar dele.

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  9. Ah, sim: sugiro também que vocês procurem saber o que acontecia dentro da Nova Cultural antes de criticar os nomes que apareciam nos créditos.

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  10. prezada baby siqueira abrão: é claro que vc tem toda a razão, ninguém tem direito de zombar de seu apelido, aliás muito simpático e carinhoso. em minha resposta ao leitor graf dei seu primeiro nome, bernadete, conforme consta em vários volumes da nova cultural, para esclarecer a ele que "baby" era apelido. mas lamento que tenha se sentido ofendida, e peço-lhe desculpas.

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