17 de jul. de 2010

boas coisas



prosa&verso d'o globo traz uma ótima matéria sobre traduções:
direto da fonte, com rubens figueiredo, mamede jarouche, leiko gotoda e paulo schiller

o caderno traz também prêmio da abl recebe críticas, a "bofetada" da abl no ofício de tradução.

boa ainda a  menção à página dos tradutores,
que eu havia comentado aqui.


abl: o público e o privado II

Homenagens na Academia

MinC vai apoiar a ABL nas comemorações dos centenários de cinco brasileiros ilustres

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, recebeu o acadêmico e ex-ministro do Tribunal de Contas da União, Marcos Vinícios Vilaça, em seu gabinete, em Brasília, nesta quarta-feira, 10 de março. O encontro contou com a presença do novo secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, Henilton Menezes.

Foi uma audiência de pactuação de recursos para as comemorações dos centenários do sambista, cantor e compositor Noel Rosa e de quatro acadêmicos: Raquel de Queiroz, Carlos Chagas, Aurélio Buarque de Holanda e Joaquim Nabuco.

O presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) estimou a necessidade de recursos da ordem de R$ 1 milhão para custear as despesas da instituição com a realização de uma série de atividades comemorativas. Estão previstos ciclos de conferências, publicações de livros, placas de homenagens e espetáculos alusivos às datas, pesquisas sobre a vida e a obra dos homenageados, além da promoção da Semana Joaquim Nabuco, nas cidades de Washington e Londres.

O minsitro Juca Ferreira sugeriu ao secretário Henilton Menezes a elaboração de um convênio único com a ABL, para viabilizar o apoio do Ministério da Cultura às comemorações dos centenários.

http://www.cultura.gov.br/site/2010/03/10/homenagens-na-academia/

se a abl, como todos sabem, obtém constantes e vultosos recursos junto aos poderes públicos para financiar suas atividades, não sei de onde ela pode tirar a ideia de que não mantém qualquer relação viva e orgânica com o país e de que não deve satisfações à sociedade.

acompanhe aqui o prêmio abl de tradução 2010.

16 de jul. de 2010

para lembrar



PublishNews - 16/07/2010 - Redação

Será na próxima terça-feira (20) a festa de aniversário da Academia Brasileira de Letras. Na solenidade, que começa às 17h com José Murilo de Carvalho como orador, a ABL fará a entrega do Prêmio Machado de Assis ao crítico literário, professor, escritor, ensaísta e filósofo paraense Benedito Nunes. Concedido desde 1941, ele dá ao vencedor R$ 100 mil.

Neste dia em que comemora 113 anos, também serão premiados os vencedores dos “Prêmios ABL” que ganharão, além do diploma, R$ 50 mil. São eles: Outra vida (Alfaguara), de Rodrigo Lacerda, na categoria ficção (conto, romance, teatro); na infanto-juvenil, o livro Marginal à esquerda (RHJ), de Angela-Lago; Pequenas traduções de grandes poetas (edição do autor), do pernambucano Milton Lins (que gerou polêmica em blogs e afins)* na categoria tradução; em poesia, A máquina das mãos (7Letras), de Ronaldo Costa Fernandes; em história/ciências sociais, Escravismo em São Paulo e Minas Gerais (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Edusp), de Francisco Vidal Luna, Iraci Del Nero e Herbert S. Klein; em ensaio e crítica literária, O controle do imaginário & a afirmação do romance (Companhia das Letras), de Luiz Costa Lima, e cinema, para os filmes A erva do rato e Hotel Atlântico, dirigidos, respectivamente, por Júlio Bressane e Suzana Amaral.

A comemoração será no Petit Trianon (Av. Presidente Wilson 203 – Castelo - Rio de Janeiro/RJ. Tel.: 21 3974-2500)."

* incluir a folha de s.paulo, com duas extensas matérias a respeito, e o jornal o globo, com uma nota, num genérico "e afins" é de doer... tirando esse enorme understatement, é bom lembrar no que consiste a "polêmica": acompanhe aqui.

q.e.d.




Bien es verdad que tal vez,
Olalla, me hás dado indicio
que tienes de bronce el alma
y el blanco pecho de risco.

É verdade que talvez,
Eulália, me deste indício
que de bronze tens a alma
teu peito branco é de risco.


risco em espanhol quer dizer "rochedo": seria um peito, um coração de pedra. detalhe adicional: tal vez quer dizer "às vezes", "vez por outra".

Verdade é que tenho, Olaia/ Em ti descoberto indícios/ De teres a alma de bronze,/ E o peito de gelo frio - viscondes de castilho e azevedo

É bem verdade que, às vezes/ Olália, me deste indícios/ de teres alma de bronze/ e peito de alvo granito - eugênio amado.


essa outra quadra é muito bonitinha:

Si el amor es cortesia,
de la que tienes colijo
que el fin de mis esperanzas
ha de ser cual imagino.

[se o amor é cortesia,/ da que tens deduzo/ que o fim de minhas esperanças/ há de ser como imagino.]

Se o amor é cortesia,
daquela que tens colhido
que no fim das esperanças
há de ser como imagino.

Se amores têm cortesia/ Da que tu mostras colijo/ Que o fim das minhas esp'ranças/ Há de ser qual imagino. - viscondes de azevedo e castilho.

Se o amor for cortesia,/ deduzo, da que me exibes,/ que o fim destas esperanças/ há de ser como imagino. - eugênio amado

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, Livro I, cap. XI. a tradução de milton lins se encontra em pequenas traduções de grandes poetas II, pp. 65-66.


meu objetivo até agora tem sido refutar concretamente, com exemplos minuciosos e bem documentados, as alegações do imortal ivan junqueira e o parecer da comissão de seleção (composta por evanildo bechara, carlos nejar e o mesmo junqueira). a abl, na figura destes imortais, apresentou publicamente razões que acredito serem incorretas e/ou inverídicas. repito mais uma vez que, em vista da importância histórica e cultural da academia brasileira de letras, seus atos têm uma ressonância na sociedade que não pode ser minimizada nem ignorada. neste sentido, a atribuição do prêmio ABL de tradução 2010 a uma obra carente de requisitos para aspirar ao título de tradução representa, a meu ver, um gesto certamente desrespeitoso a todos os intelectuais, leitores e tradutores do país.

com este post, encerro a série documental de citações, cuja finalidade é demonstrar a fragilidade dos critérios apresentados pela abl para a escolha do laureado. creio que essa finalidade já foi atendida à suficiência. 

até o dia 20 de julho, data da entrega pública do prêmio ABL de tradução 2010, continuarei a expor meu repúdio, concentrando-me sobre o tema da responsabilidade pública que entendo caber à academia brasileira de letras.

sobre os arremedos de tradução perpetrados por milton lins e sua premiação pela academia brasileira de letras, ver aqui

15 de jul. de 2010

o céu que se cuide!



o leitor thiago perguntava, em coup de grâce, de onde eu extraí a citação do inacreditável "se tirar nota zero, eu furo o céu" para were it aught to me i bore the canopy, o verso inicial do soneto 125 de shakespeare.

pois é, thiago: saiu do volume acima, o qual, acredite ou não, existe! é uma edição particular, custeada pelo próprio tradutor, de 2005, pela gráfica fac form, de recife. não está disponível no circuito comercial, pois, até onde consegui entender, são tiragens pequenas para distribuição entre amigos e conhecidos. mas há alguns exemplares à venda em sebos da rede estantevirtual.

fico até com dó de milton lins pela arapuca que os imortais marcos vilaça, ivan junqueira, carlos nejar e evanildo bechara lhe montaram. ao lhe darem um prêmio de imensa visibilidade pública, lançaram luz pública sobre obras que se destinavam à circulação restrita e privada. que constrangimento! e que constrangimento para nós brasileiros, em primeiro lugar, por termos de arcar com a presença e a memória desses despautérios da abl!

paródia bananêra


shakespeare, soneto 116, frase inicial.

Let me not to the marriage of true minds/ admit impediments.

[em prosa chã: não aceitarei impedimentos à união de espíritos (ou almas) sinceros.]

De almas sinceras a união sincera/ Nada há que impeça. - bárbara heliodora

Não há empecilhos quando mentes/ Verdadeiras se afeiçoam. - thereza christina motta



Ao casório não vou de homens sabichões,/ nem os tento impedir. - milton lins

[sonetos de william shakespeare, soneto cxvi. recife, fac form, 2005, p. 116]

agora falando sério

ótima noticia é o ressurgimento da revista scientia traductionis (ufsc).


e que deleite o texto de josé lira: o jogo da tradução nos limites do haicai - culto, divertido, instrutivo, um encanto!


imagens: drops on spider web; gato na janela

14 de jul. de 2010

coup de grâce


o bardo assassinado




se tirar nota zero, eu furo o céu?



sonetos de william shakespeare, tradução de milton lins,
agraciado com o prêmio ABL de tradução 2010.


quosque vos?


seguem-se os nomes dos imortais da ABL, ordenados pelo número da cadeira que ocupam.

1 Ana Maria Machado *
2 Tarcísio Padilha
3 Carlos Heitor Cony *
4 Carlos Nejar *
5 José Murilo de Carvalho
6 Cícero Sandroni *
7 Nelson Pereira dos Santos
8 Cleonice Berardinelli *
9 Alberto da Costa e Silva
10 Lêdo Ivo *
11 Helio Jaguaribe
12 Alfredo Bosi *
13 Sergio Paulo Rouanet *
14 Celso Lafer *
15 Fernando Bastos de Ávila *
16 Lygia Fagundes Telles
17 Affonso Arinos de Mello Franco
18 Arnaldo Niskier
19 Antonio Carlos Secchin
20 Murilo Melo Filho
21 Paulo Coelho *
22 Ivo Pitanguy
23 Luiz Paulo Horta *
24 Sábato Magaldi
25 Alberto Venâncio Filho
26 Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça
27 Eduardo Mattos Portella
28 Domício Proença Filho
29 Geraldo Holanda Cavalcanti *
30 Nélida Piñon *
31 Moacyr Scliar *
32 Ariano Suassuna
33 Evanildo Cavalcante Bechara
34 João Ubaldo Ribeiro *
35 Cândido Mendes
36 João de Scantimburgo
37 Ivan Junqueira *
38 José Sarney
39 Marco Maciel
40 Evaristo de Moraes Filho *

* o asterisco assinala os imortais com frequentação mais ou menos assídua ao ateliê tradutório.

as asas ligeiras da poesia




voici l'heure où tombe le voile
qui, le jour, cache mes ennuis

eis a hora em que se extingue a vela
que o dia esconde os meus pernoites

[eis a hora em que cai o véu/ que de dia esconde meus desgostos]

oh! oui, c'est une amère joie
que de se jeter un moment,
comme une volontaire proie,
dans les serres de son tourment

sim, é amarga uma alegria,
de se jogar por um momento
como uma presa que se cria
por sobre as serras do tormento

[oh! sim, é amarga alegria/ lançar-se um momento,/ como presa voluntária,/ nas garras de seu tormento]

mme de girardin, la nuit, trad. milton lins, pequenas traduções II, pp. 219 e 221


13 de jul. de 2010

abl: o público e o privado

repito que, em minha opinião, qualquer um pode traduzir o que quiser do jeito que bem entender. nada tenho contra o sr. milton lins, e até admiro sua atitude intimorata, sua singeleza inabalável.

o que não pode e o que não admiro é uma entidade literária do porte de uma academia brasileira de letras - que, mesmo sendo fundação de direito privado, deve algum tipo de satisfação de seus atos à sociedade - coroar publicamente iniciativas que, estas sim, melhor fariam se continuassem nas sombras da privacidade.*

ao trazê-las à luz da opinião, a abl na verdade dá um chute público na dignidade do ofício e mostra público desrespeito para com tradutores, leitores e a sociedade em geral.

* diga-se de passagem que tais iniciativas foram lançadas apenas em restritas edições privadas do próprio autor. não estão à venda no circuito comercial, e nem sequer constam no catálogo das editoras que as imprimiram. apenas por acaso encontrei alguns volumes à venda em sebos da rede estantevirtual, com suas primeiras páginas visivelmente removidas (imagino que ali constavam as dedicatórias de milton lins aos amigos a quem distribuiu os exemplares).

a abl e seus prêmios




les colliers rehaussent la splendeur des rouges dalmatiques

colares realçam o esplendor croata com artigos

[a piada é que dalmatique é aquela túnica de mangas largas e soltas, ou dalmática mesmo, em português. a viagem até a croácia deve ser a título de licença poética.]


prêmio abl de ligeireza 2010

o tradutor, poeta, acadêmico e imortal ivan junqueira declarou à imprensa que o Prêmio ABL de Tradução 2010 seria um reconhecimento de uma vida inteira dedicada à tradução.

ao ser informado de que milton lins se aventurou ao ofício há dez ou doze anos, ivan junqueira reagiu: "Pela quantidade de coisa que ele traduziu, eu imaginava que fosse mais tempo"...

já comentei essa reação do imortal tradutor ivan junqueira, pelo lado trocista da coisa. mas, se avaliarmos melhor, vemos que a surpresa do imortal é fundamentada. pois quem há de crer que é pouca coisa traduzir  rimbaud em metro e rima, todo o espólio poético de andré chénier, a totalidade dos 154 sonetos de william shakespeare, quatro volumes de pequenas traduções de grandes poetas, os álcoois de apollinaire, os versos do dom quixote, assim num estalar de dedos?

vejamos, pois:



será que milton lins realmente achou que o galho "retumba" em vez de pender ou recair sobre o banco? ou foi porque assim não precisava perder tempo procurando outra solução para a rima?
e o musgo? virou espuma porque era mais ligeiro e maneiro?

outra forma de ligeireza é a que se encontra no prefácio de pequenas traduções II, p. 13: "No translation would be possible [etc.], escreveu em inglês Walter Benjamin, filósofo e crítico literário alemão". ah, é mesmo? benjamin então escreveu o famoso prefácio à sua tradução de poemas de baudelaire, Die Aufgabe des Übersetzers ["a tarefa do tradutor"], em inglês?!

de qualquer forma, espero que a abl, que aliás conta com tantos tradutores entre seus membros, ao menos enrubesça pela injúria ao ofício e pelo insulto a seus praticantes.

imagem: vergonha

12 de jul. de 2010

programa mais cultura


como escrevi em legal!, a fbn publicou os relatórios da seleção de livros a ser adquiridos para o programa mais cultura.

dei uma boa espiada nos três relatórios, em todas as abas, chequei os títulos, verifiquei as editoras com histórico de ishpertezas, e há duas obras selecionadas que achei questionáveis. são elas: madame bovary, de flaubert, e ética a nicômaco, de aristóteles, ambas publicadas pela editora martin claret.

minhas objeções são as seguintes:

- no caso de madame bovary, a tradução é devidamente creditada a araújo nabuco. minha dúvida, porém, é se a edição é legítima ou se há o risco de ser uma contrafação, isto é, uma reprodução não autorizada pelos herdeiros de araújo nabuco, guardiães de seus direitos. em vista da presença de variadas contrafações no catálogo da editora martin claret, espero que a fbn tenha tido o cuidado de confirmar a legitimidade da publicação dessa obra.

- já o caso da ética a nicômaco não deixa margem a muitas dúvidas: ao que tudo indica, parece tratar-se de cópia adulterada da tradução de leonel vallandro e gerd bornheim feita a partir da edição inglesa, na célebre tradução de ross. o cotejo foi publicado no post ética a nicômaco, e a semelhança já tinha sido anunciada em pietro nassetti em pdf.

10 de jul. de 2010

leitura edificante


em guesa errante, o suplemento cultural maranhense cujo nome homenageia sousândrade, temos mais um exemplo da infiltração das irregularidades da editora martin claret. abaixo, a pretensa tradução de pietro nassetti de dois poemas de baudelaire, em verdade tradução de jamil almansur haddad.



como bem nos alerta o poeta, crítico e tradutor ivo barroso desde 2002 em flores roubadas de jardim alheio, essa pretensa tradução de flores do mal de baudelaire, em nome de pietro nassetti, não passa de cópia disfarçada da tradução feita por jamil almansur haddad (1914-1988) nos anos 1950. vejamos como ele examina precisamente o hino à beleza, estampado na página do guesa errante:
Tomemos por exemplo o poema “Hino à Beleza”, dos mais característicos do estilo baudelairiano, com seus termos específicos e construções originais. As três primeiras quadras são iguais, ipsis litteris, coincidência que seria impossível de obter-se mesmo no caso de uma prova de tradução à qual se habilitassem centenas de candidatos. “Infernal et divin” é traduzido por ambos como “celestial e daninho”; “le couchant et l´aurore” por “matutina e noturna” e o verso “Qui font le héros lâche et l´enfant courageux” é impressionantemente resolvido da mesma forma: “Se à criança dão valor, tornam o herói covarde”. E naquele que encerra o terceiro quarteto: “Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien” – o copiador chegou a incidir no mesmo erro de interpretação do seu modelo, traduzindo “réponds” por “respondes”, quando a construção francesa “réponds de rien” equivale a “submeter-se a nada”. “Bénissons ce flambeau!” é “Bendito lampadário” em ambos e “tombeau” (túmulo) é transformado também por ambos em “sudário”.
para a alma do vinho de jamil almansur, ver:

A ALMA DO VINHO

Cantava a alma do vinho à tarde nas botelhas:
"Homem, eu ergo a ti, que és deserdado e triste,
De minha prisão vítrea e de ceras vermelhas,
Um canto fraternal que só de luz consiste!

Sei de quanto precisa a colina acendida
De amargura, de suor e do sol mais ardente
Para que esta alma seja e que eu palpite em vida;
Mas eu nunca serei ingrato ou inclemente,

Sempre sinto prazer imenso quando desço
Uma garganta humana usada de refregas,
Sempre um cálido peito é um sepulcro sem preço
Em que eu vivo melhor que nas frias adegas.

Ouves dominicais refrões bem como a Graça
Da esperança que vibra em meu seio fremente?
Apóia as mãos à mesa, as mangas arregaça,
Glorifica-me após e serás mais contente.

Acenderei o olhar de tua bem-querida;
Ao teu filho darei os músculos e as cores,
Serei para este fraco atleta desta vida
Óleo a robustecer bíceps de lutadores.

Eu tombarei em ti, vegetal ambrósia,
Precioso grão que atira o eterno Semeador,
Para que nosso amor desemprenhe a Poesia,
Brotando para Deus como uma rara flor!"

e o original é:

L'Ame du Vin


Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles:
«Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité!

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l'âme;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j'éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d'un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l'espoir qui gazouille en mon sein palpitant?
Les coudes sur la table et retroussant tes manches,
Tu me glorifieras et tu seras content;

J'allumerai les yeux de ta femme ravie;
À ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L'huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l'éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur!»

a edição espúria de "pietro nassetti" continua à venda em inúmeras livrarias, entre elas a livraria cultura, que insiste que aguarda ordem judicial para retirar as fraudes de seu catálogo de vendas. enquanto isso, acumulam-se os danos causados à leitura, à memória cultural e aos acervos do país. como fica?

para lembrar




quem são as pessoas que tiveram suas traduções, notas, introduções surripiadas:

a. ambrósio de pina, s. j.
adolfo casais monteiro
alberto ferreira
álvaro ribeiro
antónio ferreira marques
antonio piccarolo
antônio pinto de carvalho
araújo nabuco
artur morão
bandeira duarte
bento prado jr.
blásio demétrio
boris schnaiderman
brenno silveira
bruno da ponte
cabral do nascimento
carlos chaves
carlos graieb
carlos porto carreiro
casimiro fernandes
costa neves
e. jacy monteiro
eça de queiroz
erwin theodor rosenthal
eudoro de souza
eugênio amado
éverton ralph
fernando de aguiar
fernando carlos de almeida cunha medeiros
floriano de souza fernandes
francisco inácio peixoto
frederico ozanam pessoa de barros
galeão coutinho
gerd bornheim
godofredo rangel
guilherme de almeida
gulnara lobato
hebe caletti marenco
helga hoock quadrado
henrique marques ("pandemónio")
hernâni donato
ieda moriya
isabel sequeira
ivan emilianovitch schawirin
j. oliveira santos, s.j.
jacó guinsburg
jaime bruna
jamil almansur haddad
joão lopes alves
joão ângelo oliva neto
joão baptista de mello e souza
joão paulo monteiro
joaquim dá mesquita paul
joaquim machado
jorge camacho
josé duarte
josé tavares bastos
josé augusto drummond
josé laurênio de mello
josé marcos mariani de macedo
leila villas boas gouvêa
leonel vallandro
leonidas hegenberg
leonor de aguiar
líbero rangel de andrade
líbero rangel de tarso
ligia junqueira smith
liliana rombert soeiro
lívio xavier
lúcia miguel-pereira
lúcio cardoso
luís de andrade
luísa derouet
luiz costa lima
manuel dias duarte
manuel odorico mendes
marcílio marques moreira
marcos santarrita
margarida garrido esteves
maria beatriz nizza da silva
maria francisca ferreira de lima
maria helena rocha pereira
maria irene szmrecsányi
mário quintana
milton amado
moacyr werneck de castro
modesto carone
monteiro lobato
"n. meira"
natália nunes
neide smolka
octany silveira da mota
octavio mendes cajado
olinda gomes fernandes
orlando vitorino
oscar mendes
paulo m. oliveira
paulo quintela
paulo rónai
pedro josé leal
péricles eugênio da silva ramos
ricardo iglésias
rodrigo richter
sarmento de beires
sérgio milliet
silvio deutsch
silvio meira
sodré viana
suely bastos
tamás szmrecsányi
tomé santos júnior
vera pedroso
wilson lousada
wilson velloso
wladimir gomide
ymaly salem chammas

atualizado em 08/07/2010; em 10/09/10; em 28/6/11

9 de jul. de 2010

joão verde

apenas para constar no arquivo de cotejos disponíveis aqui no nãogostodeplágio, acrescento mais alguns exemplos sobre a origem das espécies, de darwin, na pretensa tradução de "john green", pela editora martin claret.

trata-se de uma montagem de duas traduções diferentes: nos capítulos iniciais, "john green" recorreu ao português joaquim dá mesquita paul;  a seguir e até o final do livro preferiu eugênio amado.

Abaixo transcrevo pequenos trechos iniciais no original em inglês, na antiga tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul e na pretensa tradução em nome de “John Green”.

A comparação com o texto em inglês permite ver como a tradução se distancia do original. E, comparando-se as duas traduções em português, vê-se como são quase idênticas, o que indica claramente que a pretensa tradução em nome de “John Green” é apenas uma cópia semidisfarçada da tradução de Dá Mesquita Paul.

1. Original:

The former seems to be much the more important; for nearly similar variations sometimes arise under, as far as we can judge, dissimilar conditions; and, on the other hand, dissimilar variations arise under conditions which appear to be nearly uniform. The effects on the offspring are either definite or in definite. They may be considered as definite when all or nearly all the offspring of individuals exposed to certain conditions during several generations are modified in the same manner. It is extremely difficult to come to any conclusion in regard to the extent of the changes which have been thus definitely induced. There can, however, be little doubt about many slight changes, such as size from the amount of food, colour from the nature of the food, thickness of the skin and hair from climate, etc. Each of the endless variations which we see in the plumage of our fowls must have had some efficient cause; and if the same cause were to act uniformly during a long series of generations on many individuals, all probably would be modified in the same manner. Such facts as the complex and extraordinary out growths which variably follow from the insertion of a minute drop of poison by a gall-producing insect, shows us what singular modifications might result in the case of plants from a chemical change in the nature of the sap.

2. Joaquim Dá Mesquita Paul
O primeiro destes fatores parece ser muito mais importante, porque, tanto quanto o podemos julgar, variações quase semelhantes se produzem algumas vezes em condições diferentes, e, por outro lado, variações diferentes se produzem em condições que parecem quase uniformes. Os efeitos sobre a descendência são definidos ou indefinidos. Podem considerar-se como definidos quando todos, ou quase todos os descendentes de indivíduos submetidos a certas condições de existência durante muitas gerações, se modificam da mesma maneira. É extremamente difícil especificar a extensão das alterações que têm sido definitivamente produzidas deste modo. Todavia, não se pode ter dúvida relativamente às numerosas modificações muito ligeiras, tais como: modificações no talhe provenientes da quantidade de nutrição; modificações na cor provenientes da natureza da alimentação, modificações na espessura da pele e suas produções provenientes da natureza do clima, etc.

Cada uma das variações indefinidas que encontramos na plumagem das aves das nossas capoeiras deve ser o resultado de uma causa eficaz; portanto, se a mesma causa atuasse uniformemente, durante uma longa série de gerações, sobre um grande número de indivíduos, todos se modificavam provavelmente da mesma maneira. Fatos tais como as excrescências extraordinárias e complicadas, conseqüência invariável do depósito de uma gota microscópica de veneno fornecida pelo cínipe, provam-nos que modificações singulares podem, entre as plantas, resultar de uma alteração química na natureza da seiva.

3. “John Green”:

O primeiro fator (natureza do organismo) parece ser muito mais importante. Tanto quanto podemos julgar, transformações quase idênticas se produzem algumas vezes em condições diferentes, e, por outro lado, variações desiguais se produzem em condições que parecem quase uniformes. Os efeitos sobre a descendência são definidos ou indefinidos. Consideram-se como definidos quando todos ou quase todos os descendentes de indivíduos submetidos a determinadas condições de existência durante muitas gerações modificam-se da mesma maneira. [Aqui falta uma frase inteira.] No entanto, não se pode duvidar das numerosas modificações superficiais, tais como modificações no porte provenientes da quantidade de nutrição, modificações na cor provenientes da natureza da alimentação, modificações na espessura da pele e suas produções provenientes da natureza do clima, etc. Cada uma das variações indefinidas que encontramos na plumagem das aves de nossos prados e matas deve ser o resultado de um efeito convincente. Portanto, se a mesma causa atuasse uniformemente durante uma longa série de gerações, sobre um grande número de indivíduos, provavelmente todos se modificariam da mesma maneira. Fatos como as excrescências complicadas, conseqüência invariável do depósito de uma gota microscópica de veneno fornecida pelo cínipe, provam-nos que modificações isoladas podem, entre as plantas, resultar de uma alteração química na natureza da selva. [sic]

Note-se em particular a última frase, em que “conseqüência invariável do depósito de uma gota microscópica de veneno fornecida pelo cínipe” em ambos os casos traduz “which variably follow from the insertion of a minute drop of poison by a gall-producing insect”, o que chega a ser risível.

1. Original:

All such changes of structure, whether extremely slight or strongly marked, which appear among many individuals living together, may be considered as the indefinite effects of the conditions of life on each individual organism, in nearly the same manner as the chill effects different men in an indefinite manner, according to their state of body or constitution, causing coughs or colds, rheumatism, or inflammation of various organs.

2. Joaquim Dá Mesquita Paul:

Poderiam comparar-se estes efeitos indefinidos aos efeitos de um resfriamento, que afeta diferentes pessoas de modos indefinidos, segundo o seu estado de saúde ou a sua constituição, traduzindo-se nuns por bronquite, noutros por coriza, neste pelo reumatismo, naquele pela inflamação de diversos órgãos. (p. 21)

3. "John Green":

Podemos comparar esses resultados indefinidos aos efeitos de um resfriado, que afeta diferentes pessoas de modo indeterminado, segundo seu estado de saúde ou sua constituição física, traduzindo-se em uns por bronquite, em outros por coriza, neste pelo reumatismo, naquele pela inflamação de um órgão qualquer e assim por diante. (p. 35)

Não menos risível é como "causando tosses ou resfriados" [causing coughs or colds] se transforma em ambos os casos em "traduzindo-se em[n]uns por bronquite, em[n]outros por coriza".

A tradução de Dá Mesquita Paul foi publicada em 1913 pela Lello & Irmãos, e tem sido reeditada constantemente, até hoje. Ela se encontra disponível em vários sites para download, entre outros: http://www.scribd.com/doc/25513543/A-Origem-Das-Especies-Charles-Darwin.

Em relação à tradução de Eugênio Amado, publicada pela EDUSP/Itatiaia (1985), eis alguns exemplos.

1. Original:

But just in proportion as this process of extermination has acted on an enormous scale, so must the number of intermediate varieties, which have formerly existed, be truly enormous. Why then is not every geological formation and every stratum full of such intermediate links? Geology assuredly does not reveal any such finely graduated organic chain; and this, perhaps, is the most obvious and serious objection which can be urged against my theory.

2. Eugênio Amado:

Todavia, na mesma proporção em que este processo de extermínio atuou em escala gigantesca, também deveria ter sido enorme o número de variedades intermediárias outrora existentes no mundo. Por que razão toda a formação geológica e toda a camada sedimentar não se encontram repletas destes elos? Com efeito, a Geologia não nos revela nenhuma cadeia orgânica interligada por elos contínuos, sendo esta, talvez, a objeção mais evidente e ponderável que se possa contrapor à minha teoria.

3. “John Green”:

Mas, na mesma proporção em que esse processo de extermínio atuou em grande escala, também deve ter sido muito grande o número de variedades intermediárias que existiram no mundo. Por que razão toda formação geológica e toda camada sedimentar não se encontram repletas desses elos? A Geologia não revela nenhuma cadeia orgânica interligada por elos contínuos, e nisso, talvez, é que consiste a objeção mais evidente e séria que se possa contrapor à minha teoria.

1. Original:

In the future I see open fields for far more important researches. Psychology will be securely based on the foundation already well laid by Mr. Herbert Spencer, that of the necessary acquirement of each mental power and capacity by gradation. Much light will be thrown on the origin of man and his history.

2. Eugênio Amado:

No futuro distante, visualizo novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes. A psicologia irá basear-se num fundamento novo, definido por Mr. Herbert Spencer, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental. Nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história.

3. “John Green”:

Entrevejo, em um futuro distante, novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes. A Psicologia se baseará num fundamento novo, bem definido pelo Sr. Herbert Spencer, ou seja, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental. Nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história.

Adendos:

- “John Green”. É flagrante a quase inexistência de referências a tal pessoa no mundo editorial brasileiro ou em consulta à Internet. Elas se resumem à pretensa autoria de tradução de duas obras, a já citada A origem das espécies e Memórias de Sherlock Holmes de Conan Doyle, pela mesma editora Martin Claret.

Diga-se de passagem que a tradução da obra de Conan Doyle em nome de “John Green” já foi apontada como apropriação ilícita de uma antiga tradução dos anos 1950, publicada pela Editora Melhoramentos, feita por Joaquim Machado. Veja aqui.


- "Chapa Fria": Ademais, como detalhe adicional, essa referida edição d'A origem das espécies pela Editora Martin Claret apresenta irregularidades até mesmo em seu cadastro na Agência Brasileira do ISBN, onde a autoria da tradução é atribuída a outro nome fictício, a saber, “Jean Melville”.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



8 de jul. de 2010

ética a nicômaco

num post de setembro de 2008, eu havia comentado o problema da ética a nicômaco, de aristóteles, na pretensa tradução de pietro nassetti (sim, o próprio), pela editora martin claret desde 2001. segue aqui um trecho comparativo (III, 10), colhido ao acaso, para ilustrar as adulterações praticadas na tradução de leonel vallandro e gerd bornheim (abril, os pensadores, 1979).

1. leonel vallandro e gerd bornheim



2. pietro nassetti

Depois da coragem, falemos da temperança, visto que estas parecem ser as virtudes da parte irracional da alma. Dissemos que a temperança é um meio-termo em relação aos prazeres (porque ela diz menos respeito ao sofrimento, e não se relaciona com ele do mesmo modo); e a intemperança também se manifesta nesta esfera. Vejamos, então, com que espécie de prazeres se relacionam ambas. Podemos fazer a distinção entre prazeres do corpo e prazeres da alma (como o amor à honraria e o amor ao conhecimento, por exemplo); de fato, quem ama uma dessas coisas sente prazer nessas coisas que ama, sem que o corpo de nenhuma maneira seja afetado, só a mente; mas com relação a tais prazeres, os homens não são chamados temperantes nem intemperantes; e tampouco em relação aos outros prazeres que também não são do corpo, pois os que se comprazem em ouvir e contar histórias ou passam os dias ocupa dos com trivialidades são chamados mexeriqueiros e não intemperantes; e igualmente aqueles que sofrem com a perda de dinheiro ou de amigos. A temperança deve, então, relacionar-se com os prazeres do corpo, mas não, porém, com todos, visto que os que se comprazem com objetos da visão, como as cores, as formas e a pintura, não são chamados temperantes nem intemperantes, embora pareça possível comprazer-se com essas coisas tanto do modo devido, quanto excessivamente e em grau insuficiente.

O mesmo vale para os objetos da audição. Ninguém chama de intemperantes os que se comprazem demasiadamente com a música ou as representações teatrais, nem de temperantes os que o fazem na medida justa. Também não aplicamos esses qualificativos aos que se comprazem com odores, a não ser incidentalmente; não chamamos de intemperantes os que se comprazem com o cheiro de maçãs, de rosas ou de incenso, mas sim os que sentem prazer em cheirar molhos e guloseimas; de fato, os intemperantes deleitam-se com essas coisas porque lhes trazem ao pensamento os objetos de seu apetite.

veja-se a tradução de ross que serviu de base ao texto de vallandro e bornheim:

Book 3, Chapter 10

After courage let us speak of temperance; for these seem to be the virtues of the irrational parts. We have said that temperance is a mean with regard to pleasures (for it is less, and not in the same way, concerned with pains); self-indulgence also is manifested in the same sphere. Now, therefore, let us determine with what sort of pleasures they are concerned. We may assume the distinction between bodily pleasures and those of the soul, such as love of honour and love of learning; for the lover of each of these delights in that of which he is a lover, the body being in no way affected, but rather the mind; but men who are concerned with such pleasures are called neither temperate nor self-indulgent. Nor, again, are those who are concerned with the other pleasures that are not bodily; for those who are fond of hearing and telling stories and who spend their days on anything that turns up are called gossips, but not self-indulgent, nor are those who are pained at the loss of money or of friends.

Temperance must be concerned with bodily pleasures, but not all even of these; for those who delight in objects of vision, such as colours and shapes and painting, are called neither temperate nor self-indulgent; yet it would seem possible to delight even in these either as one should or to excess or to a deficient degree.

And so too is it with objects of hearing; no one calls those who delight extravagantly in music or acting self-indulgent, nor those who do so as they ought temperate.

Nor do we apply these names to those who delight in odour, unless it be incidentally; we do not call those self-indulgent who delight in the odour of apples or roses or incense, but rather those who delight in the odour of unguents or of dainty dishes; for self-indulgent people delight in these because these remind them of the objects of their appetite.

aliás, engraçadíssima também a cópia de "mas sim os que sentem prazer em cheirar molhos e acepipes" (ou guloseimas) para but rather those who delight in the odour of unguents or of dainty dishes, reproduzindo fielmente um erro tanto mais tolo porque aristóteles retoma adiante o tema dos prazeres do tato à fricção (do unguento durante as massagens) nos ginásios.

a título de breve contraponto, veja-se:
 
The life of money-making is one undertaken under compulsion, and wealth is evidently not the good we are seeking; for it is merely useful and for the sake of something else.
- Quanto à vida consagrada ao ganho, é uma vida forçada, e a riqueza não é evidentemente o bem que procuramos: é algo de útil, nada mais, e ambicionado no interesse de outra coisa. (vallandro/ bornheim)
- Quanto à vida dedicada a ganhar dinheiro, é uma vida forçada, e a riqueza não é, obviamente, o bem que estamos procuramos [sic]: trata-se de uma coisa útil, nada mais, e desejada no interesse de outra coisa. (nassetti)
- Quanto à vida pela acumulação de dinheiro, trata-se de um tipo forçado (não natural e compulsivo) de vida e fica claro que a riqueza não é o bem objeto de nossa busca, porque só é um bem na medida em que é útil, ou seja, um meio para algo mais. (bini)

obs.: essa edição da martin claret está cadastrada na agência isbn/fbn com o título de a ética, com tradução em nome de "pietro massetti" [sic].



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



7 de jul. de 2010

non cotuca!

o imortal ivan junqueira declara que o Prêmio ABL de Tradução 2010 teria sido concedido a milton lins em reconhecimento à obra de uma vida inteira. bom, na verdade são apenas dez ou doze anos brincando de contar sílabas e desencavar rimas, mas vá lá, que seja. o que importa é que, pelo jeito, faz algum tempo que milton lins vem se preparando para o troféu juó bananère de rimas e imagens sugestivas. 


[José-Maria de Heredia, "La Dogaresse", tradução de Milton Lins, "A Dogaresa (esposa do Doge)" [sic], in Pequenas traduções de grandes poetas II, 2007, p. 183]

veja também:
atualizado em 13/07/10: eu havia grafado errado como "juó bananèro". graças ao alerta de um leitor, fica corrigido: juó bananère.

troféu juó bananère


outro dia, carlos alberto bárbaro deixou um comentário inspirador, lembrando a figura de juó bananère, autor de la divina increnca. em homenagem a ele, fica criado o troféu em seu nome, para rimas e imagens sugestivas.

I.
aqui alguns versos de sua tradução de cyrano de bergerac.

"Per San Gennàro, é quexo di sobra...
Apparece un repoglio ô una abobra.
...
Tuo quexo fatale, uguale d'una giaca,
Sará a tua eterna urucubacca."

[juó bananère, o quexo]

II.
milton, com sua picardia,
quis correr em seu encalço:
faltou, porém, galhardia
pr'evitar o passo em falso.

"A aveia apita
A sarça grita
...
As gares toam
Os olhos soam"

[verlaine, "charleroi", in milton lins, "carlos-rei" (sic), ptgp, pp. 403-4 - "L'avoine siffle/ Un buisson gifle/ ... Des gares tonnent,/ Les yeux s'étonnent]

III.
o pupilo não desacorçoa
e se atira ao jovem rimbaud:
transmuta uma bête à toa
em bicho digno de salambô.

"como de esquife verde em ferro branco, a fronte
da dona, de cocós assaz empomadados,
emerge da banheira, um lento mastodonte..."

[rimbaud, vénus anadyomène, ibid., p. 327 - "Comme d'un cercueil vert en fer blanc, une tête/ De femme à cheveux bruns fortement pommadés/ D'une vieille baignoire émerge, lente et bête...". aliás, não perca tempo o leitor imaginando como um caixão de ferro branco pode ser ao mesmo tempo verde. é que fer blanc não é ferro branco, e sim lata, ferro estanhado, folha-de-flandres...]

acompanhe a increnca ABL 2010.

imagem: brasão de juó bananère, non cotuca!

atualizado em 13/07/10: eu havia grafado errado como "bananèro" e agradeço a correção de um leitor no comentário. fica, portanto, corrigido: juó bananère.

6 de jul. de 2010

legal!

fiquei contente com a fbn. quem acompanha o nãogostodeplágio sabe quantos acessos de raiva tive com a displicência da agência do isbn ao cadastrar, por exemplo, machado de assis traduzido para o português por pietro nassetti, pela editora martin claret, e dezenas de pérolas que tais. veja zumbi trapalhares.

tenho acompanhado as notícias sobre o projeto mais cultura, do minc com a fbn, e fiquei aborrecida quando a comissão de seleção escolheu a origem das espécies publicada pela martin claret, que é uma colcha de retalhos misturando trechos da tradução de joaquim dá mesquita paul (1913, lello & irmãos - bem ruinzinha, diga-se de passagem) e grande parte da tradução de eugênio amado (1985, edusp/itatiaia).


publiquei meus protestos e a carta da fbn dando conta de suas providências. veja chiliques.

então escrevi à fbn agradecendo as providências e alertando de um problema, que era o seguinte: ela tinha publicado em seu site os relatórios com as centenas de livros selecionados numa planilha excel, divididos em abas por áreas de conhecimento. eu vi a origem das espécies espúria porque era a única aba (a de ciências biológicas) que, além do título da obra e do nome do autor, informava editora, ano e edição.

em meu e-mail à fbn, portanto, avisei:
"em tempo: um problema dos relatórios da comissão de seleção das obras para o projeto mais cultura é que apenas a primeira aba traz o nome da editora responsável pela publicação. vi vários títulos em ciências humanas e literatura que foram publicados em edições espúrias no país. mas como o relatório nas demais abas da planilha não indica o nome das editoras, não dá para saber se por algum azar foram escolhidas justamente algumas das edições ilegais."

isso foi em começo de junho. a resposta foi o silêncio, o que me deixou meio assim, pois afinal é um bem público etc.etc., e justo ontem tinha até decidido voltar à carga quando recebi uma notícia que realmente me comoveu:

Prezada Denise,

informo que a relação de obras selecionadas para o Programa Mais Cultura está divulgada no portal da FBN, com as respectivas editoras.

Cordialmente,
Jean Souza
Assessor de Imprensa
Fundação Biblioteca Nacional

fui ao site http://www.bn.br/ e, pimba, lá estavam os três relatórios das três ações do programa - implantação de bibliotecas; modernização de bibliotecas; bibliotecas itinerantes - completos, com título, autor e editora.

quero agradecer de público ao pessoal da fbn e do programa mais cultura, pois deve ter dado um certo trabalhinho refazer os relatórios complementando os dados: afinal, são centenas e centenas de obras, acho que somam mais de mil títulos! fiquei emocionada, e são essas coisas que me fazem sentir cidadã.

neste caso em particular, como o programa mais cultura vai adquirir várias centenas de exemplares de cada título selecionado para a implantação e modernização de bibliotecas no país, além das bibliotecas itinerantes, serão várias centenas de uma edição plagiada a menos para conspurcar os acervos.

quanto aos relatórios propriamente ditos, agora indicando as editoras, vou ver com calma se há mais alguma barbaridade ;-)

5 de jul. de 2010

como diz o provérbio...

faz um bom tempo que foi levantada a história dos plágios de tradução na editora nova cultural, em suas coleções Pensadores e Obras-Primas (esta em parceria com a Suzano Celulose). a coisa era tanto mais aborrecida porque o Instituto Ecofuturo, a ong da Suzano, fazia o maior alarde e distribuía a mãos fartas a tal coleção como prêmio em suas campanhas e como acervo para as bibliotecas comunitárias sob sua responsabilidade.



então fiquei contente em ver que pelo menos isso o Ecofuturo fez:

Correção na concessão dos créditos dos tradutores da Coleção Obras Primas editada em 2002 pela Nova Cultural


Desde 2003 o Instituto Ecofuturo tem realizado a doação de livros da Coleção Obras Primas, editada em 2002 pela NOVA CULTURAL, a qual possui a logomarca “Selo Ler é Preciso”, de nossa titularidade.

Em 2008, tomamos conhecimento de que em alguns livros que integram a Coleção Obras Primas, ocorreu a menção incorreta dos nomes dos tradutores, conforme listagem abaixo que nos foi enviada pela Editora Nova Cultural:

Título: Ana Karenina
Autor: Tolstói
Crédito indevido da tradução: Mirtes Ugeda
Crédito correto da tradução: João Gaspar Simões

Título: Crime e Castigo
Autor: Dostoiévski
Crédito correto da tradução: Natália Nunes

Título: O Retrato de Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Crédito indevido da tradução: Enrico Corvisieri
Crédito correto da tradução: Oscar Mendes

Título: Contos
Autor: Voltaire
Crédito indevido da tradução: Roberto Domênico Proença
Crédito correto da tradução: Mário Quintana

Título: Lord Jim
Autor: Joseph Conrad
Crédito indevido da tradução: Carmen Lia Lomônaco
Crédito correto da tradução: Mário Quintana

Título: Morro dos Ventos Uivantes
Autor: Emily Brontë
Crédito indevido da tradução: Silvana LaPlace
Crédito correto da tradução: Oscar Mendes

Título: Tom Jones
Autor: Henry Fielding
Crédito indevido da tradução: Jorge Pádua Conceição
Crédito correto da tradução: Octávio Mendes Cajado

Título: O Vermelho e o Negro
Autor: Stendhal
Crédito indevido da tradução: Maria Cristina F. da Silva
Crédito correto da tradução: Luiz Costa Lima

Título: Divina Comédia
Autor: Dante Alighieri
Crédito indevido da tradução: Fabio M. Alberti
Crédito correto da tradução: Hernâni Donato

Título: Falecido Matia Pascal/Seis Personagens
Autor: Pirandello
Crédito indevido da tradução: Fernando Correa Fonseca
Crédito correto da tradução: Mário da Silva, Elvira Ricci e Brutus Pedreira

Título: Fausto / Werther
Autor: Goethe
Crédito indevido da tradução: Alberto Maximiliano
Crédito correto da tradução: Sílvio Meira e Galeão Coutinho

Título: Ivanhoé
Autor: Walter Scott
Crédito indevido da tradução: Roberto Nunes Whitaker
Crédito correto da tradução: Brenno Silveira

Título: O Leopardo
Autor: Lampedusa
Crédito indevido da tradução: Leonardo Codignoto
Crédito correto da tradução: Rui Cabeçadas

Título: Madame Bovary
Autor: Flaubert
Crédito indevido da tradução: Enrico Corvisieri
Crédito correto da tradução: Araújo Nabuco

Título: Naná
Autor: Zola
Crédito indevido da tradução: Roberto Valeriano
Crédito correto da tradução: Eugenio Vieira

Título: Suave é a Noite
Autor: Scott Fitzgerald
Crédito indevido da tradução: Enrico Corvisieri
Crédito correto da tradução: Ligia Junqueira

Título: Os Três Mosqueteiros
Autor: Alexandre Dumas
Crédito indevido da tradução: Mirtes Ugeda
Crédito correto da tradução: Octávio Mendes Cajado

Título: Uma Vida
Autor: Guy de Maupassant
Crédito indevido da tradução: Roberto Domênico Proença
Crédito correto da tradução: Ascendino Leite

Título: A Mulher de Trinta Anos
Autor: Balzac
Crédito indevido da tradução: Gisele Donat Soares
Crédito correto da tradução: José Maria Machado

ver aqui a página do instituto ecofuturo.

a questão é um pouco mais complicada do que isso, e voltarei a ela adiante. por ora, veja aqui no blog suzano/ecofuturo. por outro lado, como o ótimo é inimigo do bom, acho que dá para comemorar um pouquinho.

dedico este post e esta pequena conquista a saulo von randow jr., pai de toda essa briga encampada e desenvolvida aqui no nãogostodeplágio, e a danilo nogueira, seu respectivo padrinho.

imagem: água mole em pedra dura

silêncio na casa!



um passarinho azul veio me contar que alguns literatos de alto coturno alegam que não cabe discutir o Prêmio ABL de Tradução 2010, porque é decorrente de uma escolha pessoal e não de uma avaliação de mérito. 

não entendo muito bem: em primeiro lugar, como pode uma premiação de uma instituição nacional como a ABL não dar prioridade a questões de mérito?

e depois, vá lá, supondo-se que esse tipo de critério seja aceitável em instituições de tal projeção nacional: "eu, fulano de tal, quero que beltrano receba o prêmio X por qualquer razão Y" - e pronto, fim de papo. para que, então, montar toda essa farsa na imprensa e perante o público de simular uma indicação (já previamente definida), uma comissão de seleção, a elaboração de um parecer etc., para anunciar o agraciado?

a impressão que eu tenho é que, seja o tal prêmio discutível ou indiscutível, esse silêncio (ou murmúrio abafado) da ABL sugere um certo desconforto no ar - é como se ela preferisse ocultar que se pauta por "escolhas pessoais". ora, ora, é exatamente isso o que boa parte do país diz há décadas: a ABL tem, sim senhora, obrigação pelo menos cívica de prestar contas à sociedade. e com esse seu silêncio ela apenas demonstra que sabe disso e se envergonha de não o fazer.


4 de jul. de 2010

cof cof


em homenagem ao prêmio ABL de tradução 2010




3 de jul. de 2010

o que mais?

complicada a avaliação de noemi jaffe sobre a publicação de eugênio oneguin, de púchkin, na tradução de dário castro alves.

segundo a articulista, a tradução "pode até ser muito boa", mas "é de estranhar" que "a introdução do tradutor ao livro seja tão "pouco informativa".

noemi jaffe tinha lido edmund wilson, que dizia: "Nenhum poeta supera Pushkin - nem mesmo Dante -, pela velocidade, precisão e beleza de sua narrativa. Quanto chão Oneguin cobre em tão pouco espaço! Quanta concisão e ainda quanta facilidade em cada estrofe!"

mas ela ficou aborrecida porque: "Lemos o poema, admiramos a história, as alusões à cultura russa da época e a enorme influência da França sobre a vida de sua elite, percebemos fluência rítmica e poética, mas não entendemos as palavras de Wilson".

como dário castro alves não fez "comentários extensivos sobre detalhes, problemas e soluções do trabalho de tradução, sobre especificidades do próprio poema e da língua russa", o veredito da crítica foi que o livro em português é apenas regular...

será que edmund wilson precisou ler uma extensa introdução do tradutor do poema para o inglês para então ser capaz de apreciar a obra e formular seu juízo?


imagem: ateliê cynthia mello

fundamental


a rede pela reforma da lei de direitos autorais promove debate sobre a lda dia 5 de julho, segunda-feira próxima, na Casa da Cidade em são paulo.

pechisbeque 2010

eis o gabarito para conferir sua lista candidata ao troféu pechisbeque 2010:





essa súmula da melhor poesia do ocidente desde o século XVI (apud Evanildo Bechara, Ivan Junqueira e Carlos Nejar), está na obra Prêmio ABL de Tradução 2010. confira aqui o parecer da comissão de seleção.

2 de jul. de 2010

ih, sujou...




apollinaire, "le printemps" ("a primavera"), tradução de milton lins, in pequenas traduções de grandes poetas, p. 25, obra agraciada com o prêmio ABL de tradução 2010.



"o país dos lotófagos", isto é, a ilha dos comedores de lótus (odisseia) virou um lameiro danado onde o povo come lodo?! seu milton, seu milton...

1 de jul. de 2010

gazeta de lins



a entrega dos prêmios ABL 2010, inclusive aquele de tradução, será feita no dia 20 de julho, no petit trianon caboclo.

então, até lá, vou ficar batendo aqui no meu tambor, para não pairar dúvidas sobre o que está sendo agraciado no ofício de tradução.